05 janeiro 2009

A república, essa trapalhona


Ainda há dias, falando com dois amigos portugueses aqui em férias, levantou-se a questão da República em Portugal, dos mitos que a envolvem ou das feridas que jamais sararam, do sulco profundo de ressentimento que deixou e da ausência de obra material e cívica. A República foi um desastre:

- Invalidou a transição do liberalismo para a democracia, fenómeno que estava em germinação através da contestação aos clubes-partidos do rotativismo;

- Impossibilitou a criação de uma esquerda programática e respeitadora do gradualismo inerente à social-democracia reformista do princípio do século XX, caucionando o surgimento de uma esquerda radical que predominaria até aos anos 70 do século XX;

- Atirou a direita para o extremismo e para a auto-exclusão, fazendo crer que o mal era a democracia; logo, tornou-a refém de soluções autoritárias.

Os 100 anos de vida nacional que transcorreram desde essa fatídica data demonstram que a República, nada tendo resolvido quando chegou o seu momento, deixou como herança um estendal de problemas que ainda hoje pagamos.


Liebeslied (Kreisler)

2 comentários:

Nuno Castelo-Branco disse...

... mas acham que deve ser dada sempre mais uma oportunidade. O poder tem destas coisas. Cria laços de dependência. O problema é que já não existe império para sustentar tantas ambições.

cristina ribeiro disse...

Lembrei-me de João Franco: o luxo de desperdiçarmos um Estadista desses...