29 janeiro 2009

A "questão dos sapatos"


O tema mantém plena actualidade. Em 1885, a pretexto do fincapé birmanês na estrita observância da etiqueta existente na corte de Ava /Mandalay - que obrigava os visitantes a retirar os sapatos à entrada da sala do trono, bem como o de não se apresentarem perante o Rei de chapéu e exibindo armas - os britânicos encontraram um casus belli para declaração de guerra, invasão e anexação do que sobrara do outrora poderoso reino da Birmânia.

As razões invocadas, atiçadas e servindo o declarado interesse da câmara do comércio britânico em Rangun (a outrora capital da Birmânia, ocupada no decurso da segunda guerra anglo-birmanesa, em 1852), epitomizam o desprezo dos ocidentais por tradições consideradas "bárbaras", mas mostram a que ponto a actividade diplomática é bifronte. A campanha anti-birmanesa começou na imprensa londrina, espalhou-se pelos jornais em língua inglesa do Raj, ecoou na Câmara dos Comuns e serviu de lançamento de Randolph Churchill (pai de Winston) para uma brilhante como rápida carreira política.

As acusações feitas aos birmaneses incidiram inicialmente sobre a "criminosa natureza do despotismo birmanês", dos defeitos e crueldade de carácter do Rei Tibhaw - um "criminoso" que era, afinal, um homem de cultura absorvida ao longo de sete anos num templo budista - das práticas selvagens de eliminação de adversários, do carácter pérfido das suas consortes, do ambiente de orgia do harém real. Era, o que se pode chamar, atiçar a canalha londrina e criar atmosfera que permitisse uma guerra popular.


Depois, subitamente, saído do nada, surgiu nos escapartes uma obra de Archibald Colquhoun intitulada "Burma and the burmans: the best unopened market in the world", depressa um êxito editorial pedindo consecutivas reimpressões. Meses volvidos, novas revelações fantásticas sobre a aquisição de armas feitas pelois birmaneses aos franceses - que concorriam com os britânicos do Sudeste-Asiático na abertura de uma fronteira económica com a China - e que essas poderosas armas poderiam cobrar a vida a milhares de mancebos britânicos, caso surgisse uma guerra.


A verdade é que a Birmânia se estava a modernizar e industrializar, que o Estado se estava a adaptar ao regime europeu de tributação, que a fiscalização sobre a actividade ilegal de madeireiros e garimpeiros britânicos encontrava crescentes obstáculos e que as exportações de arroz britânico para Mandalay iam declinando na proporção do crescimento da produção agrícola birmanesa, em acelerada fase de industrialização. Os madeireinos e os garimpeiros pagaram a jornalistas, pagaram a príncipes birmaneses exilados em Calcutá para entrevistas insultuosas ao Rei Tibhaw, fizeram lóbi nos Comuns e cobriram o Vice-Rei da Índia de prendas e abaixo-assinados; em suma, nada de novo, pois já o lóbi do narcotráfico havia feito o mesmo quarenta anos antes para encontrar desculpas para desencadear a "abertura do mercado chinês", naquela que ficou conhecida como a Primeira Guerra do Ópio.


Quando o caldo emocional estava preparado, o Vice-Rei da Índia enviou um Ultimato absolutamente inaceitável aos governo birmanês, exigindo coisas tão absurdas - sabendo de antemão que seriam tidas como impraticáveis - como a de um pedido pessoal de desculpas do Rei birmanês aos enviados britânicos, desculpas que teriam de ser feitas a bordo de um navio inglês, a exigência que os britânicos não se submeteriam a qualquer "prática humilhante" (retirar os sapatos) e que o Rei birmanês deveria punir os funcionários que se habviam limitado a aplicar as leis do país no combate aos especuladores madeireiros e garimpeiros.


O Rei não aceitou, obviamente. Ao expirar o prazo do Ultimato, dez mil soldados britânicos entraram em território da Birmânia do Norte, varreram sem dificuldade as débeis defesas do país, ocuparam a capital e deram "dez minutos, nem mais um" ao Rei para que entrasse numa carroça de bois. O Rei seguiu para o exílio na Índia britânica, os tesouros do palácio foram pilhados pela soldadagem britânica - um dos grandes tesouros do Sudeste-Asiático - e os madeireiros e garimpeiros apossaram-se de terras e minas do território. Em suma, há sempre que encontrar uma "questão de sapatos" para lançar guerras justas ao serviço dos plutocratas.


Começo a compreender o terror que aos birmaneses inspira a intromissão dos ocidentais nos seus assuntos internos.


Para saber mais







2 comentários:

Nuno Castelo-Branco disse...

Conhecemos todos muito bem esse tipo de "truques". Há cem anos, tentaram fazer a mesma coisa com Portugal e dessa vez, andavam atrás do cacau de São Tomé. Velha cobiça essa que se reeditaria nos anos 60 e exactamente por via da mesma gente, desta vez em nome da empresa CADBURY's. Máfias...

Joao Quaresma disse...

Normalmente,quando se fala de povos problemáticos, que ao longo da história sempre causaram grandes desgraças e fizeram a vida negra aos vizinhos, pensa-se sempre em alemães e em russos. E com razão, mas os ingleses não lhes ficam atrás.

O mal que este povo tem espalhado pelos quatro cantos do mundo tem sido enorme. Conflitos como o Israelo-Árabe e da Caxemira são obra do Leão Britânico.

Mesmo Churchill, um herói admirado e aparentemente consensual, bem que podia ser recordado como um vilão: para ocupar Hitler e adiar a invasão das ilhas britânicas, envolveu na 2ª Guerra vários países neutros (Noruega, Jugoslávia, Grécia), esforçou-se por envolver outros (Irlanda, Portugal, Espanha, Turquia, França de Vichy, Irão, Iraque), traíu e abandonou à morte aliados (comunistas que abandonou aos nazis, anti-comunistas que abandonou aos comunistas, nomeadamente os cossacos), reautorizou a escravatura nas colónias africanas (nomeadamente na Nigéria), usou a Royal Navy para impor bloqueio comercial aos neutros que matou à fome milhares de espanhóis que nada tinham a ver com a guerra e que já tinham vindo de uma... you name it.

A cereja no topo do bolo foi um plano inglês de 1940 para provocar a entrada dos EUA na guerra: submarinos ingleses afundariam navios de guerra americanos, fazendo-se passar por U-boats.

Com aliados destes, quem precisa de inimigos?