19 janeiro 2009

Ora bolas, Barack !

Das coisas que mais me revoltam, o apossamento de direitos autorais encontra-se certamente em lugar de destaque. Porquê ? Porque a inteligência não se empresta, com não se emprestam os dons, as competências específicas de cada um - produto de anos de afinco e canseiras - e essas qualidades que fazem de um escritor um escritor, de um pintor um pintor, de um compositor um compositor.

A oratória política, hoje tão de novo em voga em selectas ou antologias de citações, se constitui parente pobre da literatura, não deixa de ser um género menor a que os teóricos da literatura apõem a designação de "prosa doutrinal". Deixando de parte a micro oratória política portuguesa dos últimos decénios - com as celebérrimas como miseráveis peças do "é só fumaça" e o "discurso da tanga" - há que realçar que o género teve, entre nós, cultores exigentes, modelos de equilíbrio formal, rigor gramatical, riqueza vocabular e mesmo alguns rasgos de genialidade, como são os casos dos nossos tribunos de Oitocentos (os irmãos Passos), o fundibulário António José de Almeida e, muito elevado sobre estes, Oliveira Salazar cujos discursos, como dizia António José Saraiva, poderiam servir para ensinar o idioma português a qualquer estudante de línguas.


Sabemos que Mussolini assinou por baixo um texto filosófico de Giovanni Gentile - "La Dottrina del Fascismo", nada mais que um tardio nascimento intelectual do movimento, nove anos após a Marcha sobre Roma - e que muitos políticos (Franco, Estaline) se apossaram de textos alheios para exibirem méritos de pluma. Se Mussolini não precisava de tal roubo, pois era homem culto e um jornalista de grande fôlego, como de tais misérias Franco poderia prescindir, pois, mesmo com a cartilha de infantaria a dominar-lhe a formação, foi guionista de uma fita (Raza), Estaline comportou-se com um verdadeiro pirata: duzentas páginas da Enciclopédia Soviética exibiam a sua assinatura. Um prodígio para homem que mal sabia escrever, que leu meia dúzia de livros durante a vida e que se chegava a gabar nunca haver lido um texto de Marx.


Hoje foi um dia de pesar. Sabe-se que Obama não mais fará que ler um discurso escrito por Clarence Jones, também autor do celebérrimo I have a dream, que Luther King proferiu na grande marcha contra a discriminação racial e o "apartheid" norte americano. Entra mal um homem que não consegue redigir um discurso de investidura, o fim da sua carreira como político e o início de uma fase nova como estadista. Se eu soubesse que um político que admiro fizesse tal coisa, era suficiente para deixar de votar nele e pedir a presença do verdadeiro político escritor que se esconde na sombra do anonimato. Ora bolas, Barack, o que diriam um Demóstenes, um Péricles ou um Churchill a esta habilidade ?


Melancholy Baby (Benny Goodman, 1935)

1 comentário:

Nuno Castelo-Branco disse...

É o que eu dizia há uns meses. Até nisso, Obama é um conservador e para mais, parece-me extremamente pré-fabricado, ou seja, um típico produto do politicamente correcto que mantém o establishment no poder. pelos vistos, para sempre.Embora os obamismos e adjacentes não me interessem minimamente, há que salientar o ridículo em que este mundo vai caindo, surgindo dichote "à Obama" nos locais mais recônditos. Por cá, já temos a nossa dose. Em todos os partidos.Pasme-se que até o PC, insurge-se agora com o Yes we can que o eng. Sócrates usa traduzido para português. Como se os comunistas pudessem falar, logo eles que andam a copiar palavras de ordem há cem anos! E a CDU o que é, senão uma sigla roubada e conhecida em toda a Europa por pertencer aos conservadores alemães. Não existe registo de propriedade? Que lata! A pequenez mental não tem limites.