13 janeiro 2009

O paraíso canalha


Aos poucos, dão cabo de tudo. Vale tudo. Em todo o lado. Pois é, por todo o lado se espraia, imensa, imparável e avassaladora a mancha da canalhização horinzontalizadora, por todo lado se compara aquilo que é superior, que inspira e eleva com aquilo que é medíocre, baixo e acicatador do reles. É a desdita do nosso tempo, a de fazer crer que tudo é igual, que tudo é estimável e que tudo pode jogar com tudo. É o totalitarismo, eventualmente o pior por que inconsciente, com a sua raivinha, o seu vedetismo e atrevimento e uma quase criminosa inclinação para sujar e deformar tudo aquilo em que põe as manápulas. É a americanização, dizem os fatalistas; é a democratização, dizem os optimistas. Mas que não, se a democracia é isto, isto é um ultraje à justiça, um freio à genialidade, à criatividade e à liberdade. A democracia exige homens cultos e preparados, exigentes, inquietos, questionadores. A democracia pede mais liberdade em nome de um direito natural que a todos deve contemplar e recobrir: o direito ao reconhecimento pelo gabarito, pela inteligência e pela livre expansão dos dons com que cada nasceu. Democracia não é oclocracia, nem plutocracia, nem demagogia. Se assim for, estamos condenados, irremediavelmente condenados a uma era de embotamento glorificador de futebolistas, jogatadores da bolsa e patetas. Infelizmente, é para lá que se caminha. Nesta nódoa, que falta faz um pouco de Versailles e de Ancien Régime, com os seus chevaliers d'épée, as suas academias, os jogos de erudição, os duelos de honra e o serviço do Rei. Tudo isso passou, a canalha não quer subir à aristocracia de maneiras e espírito, mas o inverso: é o momento em que aqueles que poderiam aspirar à aristocracia descem ao nível da canalha.


La foule (Edhit Piaf)

6 comentários:

Jose Martins disse...

Eu até observei esta manhã uns "tipos" (não designo os nomes) a facturarem com o prémio concedido ao futebolista da Madeira!
É o mundo de oportunistas e bacoc no mundo onde vivemos.
Abraço

Jose Martins disse...

Eu até observei esta manhã uns "tipos" (não designo os nomes) a facturarem com o prémio concedido ao futebolista da Madeira!
É o mundo de oportunistas e bacoco onde estamos inseridos.
Abraço

João Pedro disse...

Antes de ver, estava um pouco alarmado. Depois abri-o, e francamente, senti que passou o perigo. Julgo que é uma reacção excessiva por somenos. Os suíços limitaram-se a escolher o seu mais belo recinto para atribuír o prémio de Melhor Jogador do Mundo, que, por acaso, é português. O futebol pode, nos seus momentos mais sublimes, ser uma arte como qualquer outra, pela sua enorme beleza estética, praticada muitas vezes em grandiosos recintos. E não é por acaso que os italianos o levam tão a sério e os seus "magos da bola" são considerados autênticos artistas da modalidade.

Nuno Castelo-Branco disse...

Bem, neste nosso mundo sem censura, continuo a ler nas entrelinhas e se bem te conheço, este post vai muito além de uma bola de ouro qualquer. Vou voltar a ler, reler e "tresler", para tentar "lá" chegar :)

Combustões disse...

Nuno
O futebol é sintoma, é coisa detestável e medíocre e há que começar a dizer aquilo que ninguém se atreve. Eu, por mim, não gosto e até desprezo todo o imaginário da bola. É uma ditadura ou um "tabu" em que ninguém se atreve contradizer.

cristina ribeiro disse...

Compreendo o fascínio que possa haver pelo jogo- tenho irmãos e uma irmã que dele partilham, saudavelmente- mas tanta valorização, desproporcional ao que possa eventualmente representar na vida das pessoas, não posso compreender....