14 janeiro 2009

Expressões que detesto (5): "exército profissional"




Nunca compreendi a entusiástica opção pelo chamado "exército profissional" e o falso debate que antecedeu a adopção de tal medida. Sopesadas as razões invocadas, tudo me cheirou a mera contabilidade eleitoral, a decapitação da autonomia de um pilar essencial da defesa nacional, à subjugação do corpo de oficiais ao regime, à destruição da ética militar - necessariamente autónoma - e à imposição do espírito de funcionários públicos aos militares.


A questão do profissionalismo é daquelas mentiras insultuosas com que têm de viver aqueles que juraram pela bandeira defender a pátria com o sacrifício da própria vida e vêem reduzidas as suas carreiras a negociações para a obtenção de subsídios, regalias, tabelas, descontos e reformas. Se ao menos as Forças Armadas se tivessem aprimorado nas vocações, no perfil técnico e na capacidade de desempenho. Mas não, se ontem era obrigação de todo o mancebo cumprir o Serviço Militar Obrigatório - onde aprendiam a respeitar horários, a ordem, a hierarquia, os símbolos nacionais - hoje as Forças Armadas vivem em absoluta penúria, a ela chegando quase e só aqueles que no "mercado de trabalho" não encontraram lugar.


Servi durante seis anos na Infantaria, sempre em unidades operacionais. Aí aprendi a ordenar e obedecer, percorri milhares de quilómetros por montes e vales, dormi no chão, no frio e no calor em tendas que eram verdadeiros trapos, comi centenas de rações de combate, passei centenas de noites em serviço e não me queixo. Foi para mim uma excelente escola. Se por lá não tivesse passado teria perdido muito do que sou como carácter. Olhando para a balbúrdia que vai pelas universidades, pela cultura respondona do protesto, pela incapacidade da maioria dos nossos jovens em aceitar a autoridade e o trabalho de equipa, só posso deplorar o fim desse SMO que era, para muitos, a primeira e verdadeira escola de dever (e até de asseio) que lhes permitia arrostar os desafios da vida profissional.


Invocam os "civilistas" que gostam de brincar aos soldados em mestrados e doutoramentos que a guerra se tornou demasiado complexa para poder ser feita por gente impreparada. Pois, comparemos o desnorte que vai pelos profissionais americanos no Afeganistão e no Iraque, comparemo-lo com a prontidão e eficiência das máquinas de guerra de Israel e da Rússia e daí tiremos conclusões. Se estivesse nas minhas mãos, reinstituiria imediatamente e sem apelo o velho e saudoso SMO.

Moscovo saúda-vos (2002)

11 comentários:

HNO disse...

Frequentemente distante, hoje sim, subscrevo na íntegra e aplaudo.
Parabéns

Combustões disse...

Caro Humberto:
Tu, que também lá estiveste e não inventaste nenhuma junta médica, sabes quão proveitosa foi a "tropa".
Abraço
Miguel

O Estrangeiro disse...

Subscrevo inteiramente o que aqui se escreve. Tenho muita pena de nunca ter andado na tropa e desde há muito anos que reconheço que me fez falta.
Parabéns!

zero disse...

Um abraço subscrevente de um Oficial Superior do Exercito, na reserva, mas infelizmente necessariamente anónimo.

(Pelos visos nem na Reserva teremos Liberdade de Expressão, mas, como dizem os Ingleses "It comes with the territory...")

Samuel de Paiva Pires disse...

Miguel, não sei se acompanhou há uns tempos a discussão sobre esse assunto que me levou ao Rádio Clube (não sei bem se escolheram a pessoa certa, mas enfim...). Tal como expliquei na altura, discordo do Miguel quanto ao SMO, embora obviamente reconheça os benefícios desse na preparação do carácter masculino. Mas a minha argumentação (sim talvez eu seja um dos que gosta de brincar aos soldados, embora ainda só na licenciatura), é baseada numa análise utilitarista, aqui deixo 3 posts da altura:

http://estadosentido.blogs.sapo.pt/363056.html

http://estadosentido.blogs.sapo.pt/363559.html

http://estadosentido.blogs.sapo.pt/364559.html

Um forte abraço

Samuel

Jose Martins disse...

Conheci o Francisco Daniel Rocho, nos anos de 1969, na cidade de Tete (Moçambique). Vivia com uma mulher negra e tinha vários filhos dela. Foi uma figura lendária, na mata moçambicana. Verdadeiramente nunca se chegou a saber para quem trabalhava se para o Eng. Jorge Jardim ou se para as exército português. Outra figura lendária, de quem fui amigo, foi o Orlando Cristina, um homem de uma nobreza fantástica, que embora ligado ao exército português o seu objectivo era outro a independência multiracial de Moçambique. Nunca mais soube do Roxo (parece-me que foi traído e abatido como o viria a ser o Orlando Cristina, pelos homens da Frelimo na África do Sul.

Nuno Castelo-Branco disse...

Conheci o Daniel Roxo no recreio da escola primária Moreira de Almeida, em Lourenço Marques. Tinha eu uns 9 anos de idade e naquela altura, os tropas faziam-nos as conhecidas visitas de "conquista dos corações". O Roxo disse-me que ..."quando fores crescido, já não vais à guerra, porque nós vamos ganhar"... Nunca disto me esqueci. O pobre mal sabia o que iria acontecer,. A ele, a nós, a Portugal e principalmente, a Moçambique, com uma longa e desastrosa guerra civil.

Klatuu o embuçado disse...

Apoiado - sem temor nem tremor.

Joao Quaresma disse...

O SMO tinha sem dúvida vantagens, nomeadamente pela formação de cidadania e de educação que dava.
Mas hoje em dia a tecnologia não perdoa. As Forças Armadas deixaram de recorrer no essencial à mecânica, para dependerem muito mais da electrónica e da informática. Pode-se dizer que é a diferença entre saber usar uma máquina de escrever e saber usar um computador com a maior parte dos programas normalmente disponíveis. Não há comparação. Não só demora muito mais formar um militar, como é exigida mais selecção, mais instrução de base, patentes mais elevadas e em consequencia disso tudo, uma permanência em serviço mais alongada para justificar todo o investimento feito em formação. A consequência lógica é a profissionalização e uma remuneração correspondente ao nível de formação dada. Já não estamos no tempo em que a maior parte da tropa era infantaria regular, a quem pouco mais se dava que um par de botas, uma farda e uma espingarda. Hoje as FAs têm uma enorme quantidade de valências que não podem dispensar e que exigem uma especialização muito grande. Por exemplo, um condutor de Chaimite formava-se numa questão de horas. Hoje, o condutor de uma Pandur (blindado que substitui a Chaimite) demora 15 dias a formar. E estamos a falar de um condutor, não de um operador de um míssil ou de um técnico de manutenção de radares ou um especialista em comunicações. Mesmo a infantaria é formada essencialmente por tropas com selecção e treino de elite ou que já delas se aproximam (mesmo a infantaria mecanizada; penso que em Portugal só nos Açores e Madeira é que temos infantaria regular).

Na actual situação em que a necessidade é de atender a operações externas de pequena envergadura, não se justifica haver SMO. Mas o que devia haver era uma força reservista tal como outros países têm, para o caso de ser necessário.

Outra razão é que um profissional altamente treinado é mais difícil de manipular politicamente do que um tarata obrigado, que praticamente não é pago e facilmente se torna descontente. Por essa razão e só por essa - embora invoquem outros argumentos como a possível mercenarização e pretorianização dos militares - é que o PCP sempre defendeu o SMO.

Joao Quaresma disse...

O SMO tinha sem dúvida vantagens, nomeadamente pela formação de cidadania e de educação que dava.
Mas hoje em dia a tecnologia não perdoa. As Forças Armadas deixaram de recorrer no essencial à mecânica, para dependerem muito mais da electrónica e da informática. Pode-se dizer que é a diferença entre saber usar uma máquina de escrever e saber usar um computador com a maior parte dos programas normalmente disponíveis. Não há comparação. Não só demora muito mais formar um militar, como é exigida mais selecção, mais instrução de base, patentes mais elevadas e em consequencia disso tudo, uma permanência em serviço mais alongada para justificar todo o investimento feito em formação. A consequência lógica é a profissionalização e uma remuneração correspondente ao nível de formação dada. Já não estamos no tempo em que a maior parte da tropa era infantaria regular, a quem pouco mais se dava que um par de botas, uma farda e uma espingarda. Hoje as FAs têm uma enorme quantidade de valências que não podem dispensar e que exigem uma especialização muito grande. Por exemplo, um condutor de Chaimite formava-se numa questão de horas. Hoje, o condutor de uma Pandur (blindado que substitui a Chaimite) demora 15 dias a formar. E estamos a falar de um condutor, não de um operador de um míssil ou de um técnico de manutenção de radares ou um especialista em comunicações. Mesmo a infantaria é formada essencialmente por tropas com selecção e treino de elite ou que já delas se aproximam (mesmo a infantaria mecanizada; penso que em Portugal só nos Açores e Madeira é que temos infantaria regular).

Na actual situação em que a necessidade é de atender a operações externas de pequena envergadura, não se justifica haver SMO. Mas o que devia haver era uma força reservista tal como outros países têm, para o caso de ser necessário.

Outra razão é que um profissional altamente treinado é mais difícil de manipular politicamente do que um tarata obrigado, que praticamente não é pago e facilmente se torna descontente. Por essa razão e só por essa - embora invoquem outros argumentos como a possível mercenarização e pretorianização dos militares - é que o PCP sempre defendeu o SMO.

lusitânea disse...

O SMO como se sabe foi ojecto de muitas campanhas eleitorais em que a juventudes do sistema iam "oferecendo" cada vez menos meses de serviço de tal forma que foi inviabilizado por não permitir um mínimo de instrução.Aliás na altura os "jornalistas" tiunham a tropa como "alvo" como agora fazem ás forças policiais.Interessa derrubar tudo.Para facilitar a africanização do país e a reconstituição do império cá dentro agora "bom" por ser PAGO pelos impostos do indiginato branco...
Mas estão com azar os do politicamente correcto e do baixa cueca.T~em já uma "insurgência" interna, uma guerra de gurrilha que dá os primeiros passos com zonas libertas da autoridade e donde partem os recolectores de ouro e outros impostos revolucionários... ao mesmo tempo que floresce a importação de droga e a sua venda aretalho nessas mesmas zonas.
É que a "juventude" perdia oportunidade de vida ao fazer o SMO.Tinha pelos vistos menos tempo para se drogar e se dedicar a arrumar carros...
Eu não esqueço os que andaram "lutar" pelo fim do SMO e pela despenalização das drogas assim como nunca esquecerei os heróis de "nem mais um soldado para as colónias.No geral todos bem e altamente colocados.
Em Portugal o crime compensa, em especial se for a traição... curiosamente desvalirizada ao máximo como crime não fosse um dia alguém ser acusado...
Mas isto vai dar a volta.Um dia vai porque os sinais estão já por aí...
Que os traidores desistam de governar e de se candidatar pois serão confrontados com as suas incoerências!