02 janeiro 2009

Dos fascismos e socialismos karaoke


Anda meio mundo encantado com o Che em celulóide. O ícone não resiste ao modelo: o verdadeiro Che era um gorducho malcheiroso e impante, agressivo e cruel, um outro Castro que falhou e morreu sem realizar a distopia concentracionária na Bolívia. Outro meio mundo delicia-se com o dedo em riste e as atabalhoadas baboseiras e discursatas do nababo de Miraflores, um Mussolini de pacotilha sem a verve e o encanto do original. Mussolini era um portento na oratória e cometeu a proeza de fazer a decantação do machismo, tornando-o doutrina política; o tiranete de Caracas tem vergonha da palavra ditadura e vai passar como todas as sezões dos fenos. Depois ainda há o pobre de espírito andino e o ex-bispo Lugo do Paraguai, da tal Teologia da Libertação que nunca ninguém conseguiu explicar exactamente o que era, mas que todos sabemos ser o marxismo mais infantil enrodilhado nas sotainas e incensos da geração ki-kiri-ki-ki do "trás uma viola e um amigo também". Este friso de encantos fanados monta-se sobre a lembrança da maior confusão montada sobre pernas que deu pelo nome de Perón, o homem que agarrou numa Argentina rica e deixou-a num farrapo. Nessa confusão desastrosa só escapa Isabelita, que foi estóica e deu um toque de "social-democracia fascista" ao movimento justicialista. Só na América do Sul !

É mais que evidente que a esquerda e certa direita confundem romantismo político, poder personalizado e liderança trágica e temerária com figuras e regimes de ópera bufa. As pessoas pelam-se por protectores e por um Estado que lhes dê ordens, as vigie, puna e alimente. Por um emprego sem atribulações, pelo enquadramento em fileiras sentem-se resguardadas, pelo policiamento e pelo bufismo que se lhes outorga sentem-se fortes. É dessa força dos pequenos e Zés Ninguém que se nutrem as tiranias do fascismo e socialismos karaoke da actualidade, já sem o estadão dos velhos fascismos e do estalinismo. Esses até chegavam a ter alguma grandeza cenográfica, estes são coisas ordinárias, roçando o canalha, argamassam-se sobre recalcamentos micro-burgueses e suburbanos de sociedades privadas de elites tradicionais. As versões remix da actualidade são tão pobres, tão inconsistentes e medíocres que só apelam a um tipo de pobres: os pobres de espírito.
Ao pé de deles, Pinochet e Stroessner são figuras quase clássicas, da mesma lavra dos Péricles e dos Cincinato.


Marcha Peronista

1 comentário:

Nuno Castelo-Branco disse...

Não imaginas o que eu ri e até cantei a marcha Perón-Perón! ehehehehehe, genial!