11 janeiro 2009

Como matar o cesarismo e a demagogia



Resultados das eleições parciais hoje realizadas na Tailândia, destinadas a preencher 29 lugares para deputados, cujos titulares haviam sido impugnados no exercício das suas funções: 20 lugares para a coligação monárquica no poder, 9 lugares para a oposição afecta aos thaksinistas. Ou seja, após um mês de governação, um primeiro-ministro sereno e civilizado e o anúncio de programas de reforma social, a demagogia e adeptos dos métodos caciquistas sofrem tremenda derrota eleitoral, confinando-se agora a redutos no norte e nordeste, onde ainda funciona a malha do controleirismo. A nota mais saliente vai para o inexpressivo resultado da coqueluche de Thaksin, o recém criado Pheu Thai ("Para a Tailândia"), que se confunde com o Movimento Contra a Ditadura (os "vermelhos"), que obteve cinco lugares. Como aqui disse há semanas, acabou a turbamulta, a paz voltou às ruas, o governo governa, a polícia policia e o trabalho retomou a normalidade. Os adeptos do quanto pior melhor sofrem uma penalização inesperada, pois a situação económica não é favorável, facto que aumenta a expressão da vitória monárquico-governamental.


Li há tempos no Human Smoke: the beginnings of World War II, the end of civilization, de Nicholson Baker, uma curiosa análise sobre a inépcia do governo alemão nos dois anos que precederam a ascensão de Hitler ao poder. Se os governos de Weimar tivessem operado com determinação e mão de ferro para assegurar a vigência da democracia, se os sociais democratas tivessem então travado o duelo com o Partido Comunista e se os conservadores e monárquicos se recusassem a qualquer pacto com o Partido Nacional-Socialista, tudo teria sido diferente. Aliás, em finais de 1932, a crise económica estava virtualmente ultrapassada, Hitler havia perdido para Hindenburg as eleições presidenciais de Março e o partido nazista estava em acentuada queda eleitoral (de 38% para 33%). O que fizeram ? Em vez de o perseguir judicialmente pelas mil e uma ilegalidades cometidas pelos seus seguidores, medidas que poderiam até envolver a extinção do NSDAP por crimes contra a Constituição, deram-lhe voz. Os banqueiros forneceram-lhe crédito ilimitado, retirando da agonia os cofres do partido, a sua imprensa em ameaça de fechar portas e o lumpen de desempregados que servia o partido para as arruaças sem vencimento, a Igreja Católica não exprimiu qualquer indicação de voto aos 40% de alemães a ele fiéis e o exército (maioritriamente monárquico) afivelou suicidária imparcialidade. Hitler teria ficado na ribalta por mais quatro ou cinco anos até se perder na vida grupúscular do extremismo sem votos. Teria sido, porventura, jornalista ou editor, animando publicações de circulação restrita destinadas a cultores do esoterismo. Dele teria ficado pouco, ou nada.


O cesarismo e a demagogia combatem-se com a lei e serenidade, pois o extremismo requer o caldo de agitação, crispação, medo e irracionalidade que leva as pessoas a fazer o que nunca fariam sem o acicate da perturbação. Aqui na Tailândia foi hoje a enterrar o cesarismo e o espectro do caudilhismo plutocrático. Hoje encerrou, de vez, a "crise tailandesa". Thaksin, que tem perdido milhões com a sua estrela declinante, vai regressar, mais tarde ou mais cedo para se dedicar aos negócios. Será, eventualmente, amnistiado e dele perder-se-á o rasto.


Adieu, mein kleiner Gardeoffizier (Richard Tauber, 1930)

2 comentários:

Nuno Castelo-Branco disse...

Boas notícias.

Klatuu o embuçado disse...

Este texto é brilhante. E de uma ironia amarga e profética... estes republicanozinhos não aprendem, e se voltarmos a alombar com outro «pai da pátria», nunca culparão esta treta de democracia corrupta, mas sim mil e um «conservadorismos na sombra».
É patético.