26 janeiro 2009

Ataques repetidos à Tailândia / ศัตรูของประเทศไทย



O veneno anda à solta, em grandes doses, pelas parangonas daqueles ditos orgãos de informação que só se escandalizam depois de avisados da benignidade de mais uma cruzada pela "civilização". Depois do sensacionalismo sobre o "massacre em alto mar" supostamente perpetrado pela marinha tailandesa contra "opositores ao regime militar birmanês" - por acaso todos homens, nem uma mulher ou criança, atestando um típico caso de entrada ilegal de imigrantes indocumentados - agora vem a telenovela do pobre australiano que se atreveu defrontar o trono tailandês. Duas numa semana é obra. Só por encomenda ... Para bom observador, não são necessárias mais explicações. Há um governo novo em Banguecoque, por sinal a governar a pleno gás, os amigos de Thaksin estão em apuros, perdendo consecutivas eleições e importa abrir novas frentes.

Se há país nesta região que tem sido amigo dos apátridas, dos espoliados e perseguidos, esse tem sido a Tailândia. Recebeu no fim da década de 1970 cerca de dois milhões de boat people fugidos às maravilhas do concentracionarismo vietnamita, recebeu um milhão de cambojanos que recusaram a "reeducação" de Pol Pot, mais uns centos de milhares de Karenes, Mon's e Shan's fugidos da Birmânia.

Se há país mais amigo e tolerante em relação aos "farangs", esse tem sido a Tailândia, que sempre os desculpou pelos excessos de bebida, noitadas, altercações e até, ofensas graves às leis, crenças, modos e hábitos do país. Fosse o jornalista australiano detido no Laos, na Birmânia ou no novo Eldorado do business mafioso da região - falo, claro, do Vietname - e não mais haveria que uma nótula de 5ª coluna, depressa resolvido com a intervenção da embaixada da esquina.

Não, aqui importa rezar missa todos os dias. Uma estória cada semana - se possível duas - para não deixar adormecer o pagode. Os direitos do homem, expressão redonda que quer dizer tudo e por vezes até não quer dizer nada, bem se podiam interessar pela sorte de populações inteiras escravizadas por governos intrínsecamente ilegítimos, instalados pela força, geridos pela ameaça e entregues a camarilhas de bandidos. Mas não, em vez de mandarem delegações à Birmânia e ao Laos indagarem das práticas mafiosas, dos campos de concentração e do trabalho escravo, dos desaparecimentos no Camboja, da vergonhosa legislação segregacionista existente na Malásia, mandam uns meninos à Tailândia, bem vestidos, bem comidos e bem bebidos, bem instalados e bem guiados para dizer mal de um país que os recebe de braços abertos. Eu por mim, continuarei a olhar este país, este povo e este Rei como modelos extremos de santa paciência e comedimento.
Lendo o artigo que o João cita, só me resta desculpar. No fim, tudo não passa ... de falta de leitura. A leitura, bem entendido, não se limita a papéis despachados pelas agências noticiosas - aquelas que falavam das armas de destruição massiva no Iraque, dos progressos do último plano quinquenal soviético ou da maravilhosa vida que os judeus tinham em Theresienstadt - mas de livros (sim, essa coisa aborrecida de se ler, longos e cheios de páginas). À jornalista que não tenho o prazer de conhecer- até escreve bem e demonstra boa fé - só posso dizer que sobre a Tailândia li, ao longo dos últimos seis ou sete anos, cerca de trezentas obras e milhares largos de páginas pintadas com tinta e continuo sem comprrender muito do que aqui se passa. Essa é a diferença entre o estudo - o amor ao conhecimento - e a militância. Quem estuda quer mais e sente-se, a cada passo, inseguro. Quem milita e vive no agit prop, só quer sangue e coisas escaldantes. São dois estilos. Há lugar para tudo no mundo !


"A jornalista Inês Nadais escreveu um artigo no jornal Público. Não sei se foi uma "tradução" de outrém ou um artigo de fundo. O que me atraiu foi o pasmo, boquiaberto, exclamativo e tão insurgido sobre "o tempo em que havia leis lesa-majestade: o nosso tempo". Muito poderia escrever sobre esse "pasmo" mas o que me importa referir é que existem leis lesa-majestade, leis lesa-presidente da república, lesa-ministros, lesa-cidadãos. Existem leis. A Inês Nadais deve estar incomodada com o facto "majestade". Ainda bem."

10 comentários:

Nuno Caldeira da Silva disse...

Não posso concordar com o Miguel. Sempre aceitei opiniões diversas mas não aceito opiniões cegas. Vejamos: “O massacre em alto mar”. As evidências apresentadas pela marinha indiana e pelos meios de comunicação social, são suficientes para que o PM tivesse aberto a porta ao solicitado pela UN. Uma investigação independente. Por que é que ela não se faz? Porque é que os militares o recusam e metem as mãos pelos pés? Porque é que a marinha nega factos que estão visíveis nas fotos e nos relatos de pessoas que presenciaram o que se passa em Kho Sai Deang? A “novela do pobre australiano”. Vê-se que MCB escreve sem saber o conteúdo daquilo que Nicolaides escreveu. O que ele escreveu pode muito bem ser ouvido na boca de milhões de tailandeses. Basta ter os ouvidos abertos.E nada mais digo! Duas numa semana presume-se encomendas! Muitas mais houveram! Só conferências organizadas e/ou apoiadas pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (penso que uma organização que a todos nos deve encher de orgulho pelo trabalho que faz) houve cinco e todas elas abordando questões relativas a violações dos Direitos Humanos. Todos os países, mesmo todos, talvez com os EEUU à cabeça (vide Guantamano) não estão limpos sobre essas violações mas o que se deve condenar é fazer-se orelhas de mouco e enterrar a cabeça na areia perante os casos quando eles são trazidos à superfície. O PM Abhisit falou bem sobre o caso dos Roynghia e sobre outras questões como a necessidade urgente de resolver vários casos como o de Somchai e o dos diplomatas sauditas que já data, este último, de há 20 anos, mas esteve mal quando não traduziu em acções nenhuma das suas palavras desta última semana.
Não ver estas questões é tapar o sol com uma peneira e isso queima a vista de todos.

Nuno Castelo-Branco disse...

Estava em Penang, na Malásia. Entrei numa padaria e coloquei-me na bicha para comprar pão. Assim que a vendedora "despachou" o cliente que estava à minha frente, ergueu a mão direita e disse-me ...you a wait!... e serviu outro. Pensei que se tratava de um caso urgente, mas não: voltou a repetir a gracinha e quando a inquiri acerca do desplante, disse-me de forma seca:
First muslim people, first asian and after, I sell bread for you!

Meia volta volver e sai porta fora. Contentei-me em ir a uma espécie de 7eleven e comprar uma espécie de Panrico. Um nojo, é verdade, mas menos degradante do que comer o pão que o diabo amassou.

A Tailândia é deveras um caso único de decência. Daí o ódio da escumalha do costume. Rebotalho engravatado, claro e de preferência, dono de jornais, tv's e interesses "bolseiros".

Não te rales: quando "eles" estiverem todos atrás das grades ou no exílio ao estilo Betino Craxi, a Tailândia estará como sempre esteve. Será ela própria. É isso que os dana!

Nuno Castelo-Branco disse...

Estava em Penang, na Malásia. Entrei numa padaria e coloquei-me na bicha para comprar pão. Assim que a vendedora "despachou" o cliente que estava à minha frente, ergueu a mão direita e disse-me ...you a wait!... e serviu outro. Pensei que se tratava de um caso urgente, mas não: voltou a repetir a gracinha e quando a inquiri acerca do desplante, disse-me de forma seca:
First muslim people, first asian and after, I sell bread for you!

Meia volta volver e sai porta fora. Contentei-me em ir a uma espécie de 7eleven e comprar uma espécie de Panrico. Um nojo, é verdade, mas menos degradante do que comer o pão que o diabo amassou.

A Tailândia é deveras um caso único de decência. Daí o ódio da escumalha do costume. Rebotalho engravatado, claro e de preferência, dono de jornais, tv's e interesses "bolseiros".

Não te rales: quando "eles" estiverem todos atrás das grades ou no exílio ao estilo Betino Craxi, a Tailândia estará como sempre esteve. Será ela própria. É isso que os dana!

Combustões disse...

Há um texto soberbo, da autoria do Príncipe Prem Chaya de Phra Ruang e baseado numa obra do Rei Rama VI que tem por título "Rumores, Porcas Calúnias e Segurança do Estado". O texto, publicado em 1943 e reeditado em 1986 tenta explicar esssa coisa tão invocada pelos opositores da monarquia que se chama lesa-majestade. A lesa-majestade, aqui, não é diferente das leis de protecção à coroa existentes noutras monarquias, nem daquelas existentes em todos os Estados de direito por esse mundo fora. Visa proteger a imagem do chefe de Estado dos insultos e do baixo jornalismo. O Chefe de Estado é um símbolo nacional, pelo que um insulto merece intervenção da justiça. É assim na Tailândia, nos Eua, na Alemanha e na Suécia. Acabou o tempo em que se insultava desavergonhadamente a chefia de Estado e se pedia a morte do chefe de Estado, exultando-se com o seu assassínio, como o foi com D. Carlos I. Se eu proferir acusações insultuosas contra o Professor Cavaco Silva, se ofender, queimar ou rasgar publicamente a bandeira nacional, se entoar o hino nacional com o propósito de o ofender ou ridicularizar, se não aceitar a vigência da constituição e exprimir posições contrárias à independência nacional, há leis que me podem levar a prestar contas à justiça. Essas leis são, de facto, análogas às aqui existentes. A diferença reside, apenas, no facto de na Europa não se fazer caso da lei e aqui a cumprirem escrupulosamente nesta matéria.

Nuno Castelo-Branco disse...

Pois, dá uma vista de olhos ao 5 Dias e vê o que se escreve sobre o Mário Soares, sem que se apresente qualquer prova. Veremos no que dá. Mas se entretanto, disseres algo de relevante acerca das amizades perigosas de Cavaco, então a coisa corre de maneira bem diversa. Arruinam a vida das pessoas. Na Tailândia, apela-se à lesa-majestade que afinal, consiste apenas num termo que pretende garantir a integridade das instituições. Em Portugal terá outro nome, mas qual será?

Quanto ao que o Nuno C.S. diz, creio que a ONU teria muito que fazer, precisamente em certos paraísos, a começar pela Índia das castas e passando pelo Vietname, Birmânia, China, Rússia, TODA a África, Cuba, Malásia, Coreia, etc. A Tailândia é um caso insignificante. Massacres em alto mar. Cheira bastante a Hollywood ou a nmera "campanha de hate". Aqui faz-se o mesmo, no 24 horas, Jornal do Incrível e Expresso.
Já agora, o que pensa o Nuno acerca das execuções públicas na China, com estádios cheios de miúdos, etc? Não reparou? Esta UE...

Nuno Caldeira da Silva disse...

Gostava de ver, repito ver com os olhos meus ou de quem mo mostrasse, onde é que a China, agora, enche estádios com miudos. Na verdade parece ser Hollywood que, neste exacto momento, mais de 500 pessoas tenham sido enviadas para o desaparecimento, ainda não se encontraram nem vivos nem os corpos. É por certo uma grande produção eventualmnete um best seller de bilheteiras. Nuno aconslho a ler o artigo do mais do que insuspeito Professor Titinan Ponsudhirak sobe os "boat people".Miguel está enganado o tal australiano não escreveu nada sobre o Rei. É só lesa (sub)majesté e com os tais factos que todo o tailandês conhece e fala á boca pequena. Por certo que já ouviste.

Nuno Castelo-Branco disse...

Nuno, é certo que os tailandeses - alguns - gostam de criticar nos do "alto", aquilo que eles próprios fazem quotidianamente: jogar, beber e "divertimentos pele com pele"...

Quanto aos boat people, parece-me estranho que sendo esse país o inferno que quer fazer os outros acreditar, não se veja um único boat people de oprimidos siameses a fugir para os ridentes paraísos em redor, como a Malásia, Birmânia, Laos, Vietname e claro, a poderosa China. Quanto aos estádios para execuções, envie o protesto para a RTP, pois ainda há pouco tempo e à hora do telejornal, vimos uma "habilidade" neo-maoísta de um certo tipo, com um camião com gente para ser executada "à romana". não no Coliseu, mas no estádio de futebol (?)
A Europa melhor faria em deixar-se dos truques do costume e ser mais rigorosa com que NÃO pode, isto é, com a China que lhe fornece os produtos pelos preços que se sabe e nas quantidades que se conhecem. O dinheiro fala mais alto e tenho as mais sérias reservas acerca da idoneidade política e moral dessa tal UE. Que morra bem depressa - Irlanda e R.U., contamos convosco! -e nos dê de volta a velha CEE. A começar por Portugal, palco de todas as infâmias, normalizadas por uns media de serviço aos mesmos de sempre. Esta tendência que temos em querer ver os outros como meros macacos de imitação de uma Europa que se torna cada vez mais prepotente e pasto de mediocracias várias, chama-se paternalismo. Exactamente, tal e qual como nos tempos das roças com o capataz branco que fazia mulatinhos às mulheres dos criados.

Nuno Caldeira da Silva disse...

Nao consigo compreender nada sobre esta ultima questao da UE mas passo. Quanto ao facto de nao haver boat peole a fugir da Tailandia e porque isto nao e um inferno e por isso os Birmaneses e outros aqui demandam guarida. Como ja referi milhoes de vezes NENHUM pais nest mundo esta limpo no que respeita os direitos humanos. Nem as Ilhas Fidji nem os Estados Unidos ou Portugal ou o Chipre. O que importa e que quando existem denuncias elas sejam investigadas com independencia e seriedade ate porque podem ser falsas. Quem digno e vive de cabeca levantada assim deve actuar.

Quanto ao primeiro paragrafo so e verdade. Os tailandeses batem muito no peito mas criticam fortemente aqueles de quem sabemos estar a fazlr, bebem que nem uns odres, jogam por tudo e por nada e mais outras coisas que os ensinamentos do budismo nao comtemplam

Combustões disse...

"Nunos" (CASTELO-BRANCO E CALDEIRA DA SILVA):
A questão exige atenção, sem dúvida, porquanto a Tailândia é um Estado civilizado, o mais integrado nos valores (universais) inscritos nas cartas e tratados internacionais. O mais importante é que o governo qui está a actuar com limpidez e sem ocultar. Como no passado, a Tailândia é a excepção numa região dominada por regimes herdeiros dos bons e velhos dias do sovietismo que poucos se atreviam criticar. Julgo que a Europa e os EUA deviam ajudar, mas nunca impor, tomar partido, condicionar. Os tailandeses nunca foram colonizados e não aceitam lições, sobretudo quando no passado aprenderam a ver nos ocientais um perigo à sua liberdade e independência. A Europa, hoje, é uma sombra do que foi e os EUA, com governos autoritários ou não autoritários na Tailândia, sabem que foi, é e será sempre um bom aliado e amigo do Ocidente.É o que sempre digo: deixá-los viver com a sua cultura, não os obriguem nem tentem ensinar aquilo que não faz parte da sua maneira de entender as coisas. Eles são sensíveis ao que deles pensamos e com tempo compreendem os nossos pontos de vista, conquanto estes não transpirem a paternalismo, colonialismo ou arrogância.

Nuno Castelo-Branco disse...

Nuno, quando falei na UE, foi para sublinhar a constante azáfama em certas áreas do mundo, como o Médio Oriente, por exemplo. É que tanbém leio a "imprensa europeia" e apesar de tudo sei como funciona e a quem pertence. Portugal, Expresso, Público, etc. A UE bem pouco se preocupa com o que se passa no Congo belga, por exemplo, onde decorre um verdadeiro genocídio de dimensões inimagináveis. Não tendo - nem podendo ter - política externa própria, a UE tem na sua fronteira leste, o caso bielorusso que evidentemente, pouco interessa. Tem o caso narcotraficante do Kosovo, que claro está, pouco interessa. Tem o caso cipriota que, enfim, é de pouca monta. Envia milhões para a "Palestina" que são bem aplicados em contas privadas ou em infraestruturas para ensaio dos mísseis das IDF. Como vê, se é certo que a questão dos boat people é relevante - ainda me recordo da autêntica armada que há uns anos abandonou Cuba -, o país onde o Nuno e o meu irmão agora residem, é decerto e como poderá facilmente concordar, uma excepção à geral regra de prepotência, discriminação e crimes contra a humanidade. Não tem é 2 biliões de habitantes...