31 dezembro 2009

A retranca e a esperança


O fim de ano já passou. Aqui em Banguecoque o relógio acaba de soar a uma da manhã e é hora de me deitar. A partir de uma certa idade parece perder-se, definitivamente, a sensação do novo, do nunca antes experimentado, do imprevisto; tudo ou quase tudo soa a repetição. Esta sensação é aparente, pois na vida tudo acontece até ao derradeiro grão de tempo. Contudo, se o calendário não passa de uma medida de contagem da sucessão de acontecimentos, o tempo, ora entendido circularmente enquanto eterna recorrência, como os indianos ou os gregos o pensavam, ora linearmente como uma seta projectada no vazio do não-tempo, como o pensam os cristãos do Homem da Revelação, é eminentemente subjectivo, isto é, interpela e desafia cada homem. O tempo circular exige renovação, banho lustral e regresso à pureza, às fontes e aos mananciais profundos que animam a vida. Pede a cada um, nas palavras do Solitário de Röcken, que viva na esplendorosa mansão da natureza, que seja feliz e não perca um minuto da vida, pois o tempo de cada um é escasso e marcha no contra-relógio da biologia. O tempo linear requer sonho, requer obra e caminho jamais percorrido.

Infelizmente, as pessoas, esmagadas pelo calendário, não se dão conta que o tempo - qualquer que seja o entendimento que dele se possa ter - é, sempre, para indianos e gregos, como para os cristãos, finito, pois para voltar atrás ou avançar nutre-se daquilo que cada um pode oferecer à vida para lhe dar significado. As pessoas comuns resistem infantilmente à passagem do tempo construindo castelos de areia para deter o oceano. Nesse inglório esforço, estão condenadas, sempre, ao fatal desenlace. A atitude mais comum é a de remoer o passado, roendo as unhas do estômago, encontrar justificações para não se limparem ou não saltarem em frente. A "retranca" mina, assim, a renovação da vida ou a aventura do desconhecido. A retranca nutre-se do ódio, da inveja, da justificação, vive escravizada ao pequeno mundo fechado de cada um, às experiências negativas, à culpabilização do próximo pela infelicidade em que se vive. O homem da retranca não consegue sair da prisão, não se pode auto-determinar porque não é livre.

Ouvi hoje, pela tardinha, um monge budista discretear sobre a aventura da heroicidade individual. Fazer o bem é, dizia, acumular mérito, fazer por si fazendo bem aos outros. Deixar obra, quer dizer: deixar algo que possa servir a felicidade dos outros. Por coincidência, seguiu-se-lhe um sacerdote de uma religião revelada, que disse essencialmente o mesmo.

No fundo, o calendário é perpétuo. Está fora das coisas e da consciência e podemos saber se o dia 22 de Abril de 3700 será uma quinta-feira ou um sábado. Já o mesmo não se pode dizer do tempo, que é aquilo que cada um quiser.

30 dezembro 2009

Bom 2552 e um 2009 sem história


Eu vivo no ano 2552 da era budista, pois aqui a contagem do tempo não se faz pelo nascimento do Salvador, mas pelo passamento do Iluminado. Aqui vigoram quatro sistemas distintos, aplicados segundo as situações: o Ano Budista (543 anos somado ao Anno Domini, vulgo Phó Só, abreviatura de Phuthasakará), o Ano da Era Banguecoque (227 anos, vulgo Ró Só, abreviatura de Rattanakosinsakará), o Suriakaty (versão thai do ano solar gregoriano, ou seja, 2009) e o Ano Lunar Chinês.

Assim sendo, amanhã será o primeiro dia do ano da Era Comum de 2010 e um dia sem relevância para os budistas, pois o ano novo só terá lugar em 13 de Abril (Songkran). O Anno Domini que acaba nada deixou de apreciável nem deixou sulco. O mesmo não poderei dizer do Ano Suriakaty. Trabalhei duro e os frutos escondidos vieram à superfície. Servi-los-ei a quem tiver paciência para ler as Relações entre Portugal e o Sião na Era Rattanakosin (vulgo, Banguecoque), que verá letra de imprensa em finais do ano 2554, ou seja, 2011.

29 dezembro 2009

Hmong: a desgraça dos povos sem Estado

As manchetes do mundo inteiro fazem coro contra a medida do governo tailandês em repatriar cerca de 4000 Hmong e colocá-los sob protecção e autoridade da vizinha República Popular do Laos. A medida gerou indignação e protestos que incluiram uma áspera condenação por parte dos EUA. Contudo, o problema dos Hmong foi criado pelos EUA. Usaram-nos durante quinze anos como aliados e, depois, como sempre acontece com pequenos clientes usados no xadrez dos conflitos regionais tutelados por grandes potências, abandonaram-nos e deixaram a responsabilidade de os alimentar, vestir e tratar a ONG's e à Tailândia, que foi e continua a ser, um paraíso para populações que se furtaram ao jugo dos regimes concentracionários circunvizinhos do Laos e da Birmânia. Os Hmong não têm Estado e são, entre tantos outros povos, a face visível de um magno problema que assenta raízes profundas na criação de "estados nacionais" onde antes não os havia. Tal como os Shan, os Karen, os Cham e os Mon, foram, durante centenas de anos, populações de fronteira, usadas como cordão sanitário separando as então potências regionais (Birmânia, Tailândia e Vietname) e deixados num estado de auto-governo com obrigações tributárias e de vassalidade. Contudo, com a criação de fronteiras políticas, estes povos foram alvo de "birmanização", "sinificação", "vietnamização", "cambojização" ou "thaificação". Os Hmong estão repartidos por quatro países (China, Vietname, Camboja e Laos), sendo que a população Hmong existente no Laos é bem menor que aquela que vive na China (c. de 3 milhões) e no Vietname (c. de 1 milhão).

A expulsão de imigrantes ilegais é sempre uma tragédia, mas constitui medida corrente dos Estados que tiveram de os receber como facto consumado. Lembro que Angola expulsou no ano passado 40.000 congoleses, que nos EUA a imigração ilegal é punida com pena de 18 meses de prisão e subsequente expulsão, que a Rússia devolve à procedência todos os norte-coreanos indocumentados e que na Itália vigora legislação dracoaniana. A imigração ilegal tem origens diversas, é certo, mas em alguns casos é eloquente demostração de uma ficção mantida pelo Direito Internacional, sobretudo aquela que trata de impor universalmente a ideia de fronteiras políticas - absolutamente artificiais - onde antes não as havia. Ora, os Hmong do Laos tiveram vida feliz durante as décadas de monarquia, tendo alguns dos seus dirigentes atingido o topo da hierarquia militar e civil. Com a vitória comunista de 1975, foram alvo de brutal repressão e refugiaram-se na Tailândia. Ao longo de 34 anos foram confinados a campos, mas contra eles nunca pesou a ameaça de extermínio e houve, sempre, por parte de Banguecoque e de destacadas instituições da sociedade civil preocupação em garantir-lhes o mínimo de condições.

Estou certo que os Hmong agora devolvidos ao Laos não serão objecto de perseguição ou represália por parte do regime de Vientiane. Porquê ? Porque o Laos se transformou lentamente num satélite da Tailândia. Cerca de 50% do investimento estrangeiro no Laos é capital tailandês e os governantes laocianos sabem que não poderão desenvolver, como antes, políticas de supressão e limpeza étnica sem prejudicar gravemente as relações com Banguecoque. Depois, o Laos é, ele também, uma piedosa ficção, pois é etnicamente thai, fez parte integrante do Mandala siamês até 1893 e foi criado como parte da Indochina Francesa através de um golpe de força (política de canhoneira) da França sobre Banguecoque. O Laos tem tanta legitimidade histórica em existir como "país" como o Algarve o terá, ou seja, nenhuma. Tudo indica que o futuro do Laos está na Tailândia. É presentemente um Estado-Tampão entre a Tailândia e o Vietname, mas tende a transformar-se, irreversivelmente, em extensão do poder de Banguecoque.

27 dezembro 2009

O país onde os professores são venerados

São mal pagos mas venerados. Perante eles, os alunos ajoelham-se ou sentam-se a seus pés com as mãos juntas, como só o fazemos perante os altares. São os Gurús, do sânscristo Ku-rú, que os thais fixaram e modernizaram como Krú. Os professores primários e do liceu são chamados Krú, mas aos docentes universitários é reservado o tratamento de Adjaân, ou seja, guias, mestres e reveladores do conhecimento. Numa sociedade que se inspira no modelo bramânico, o krú é o eco tardio do sacerdote bramânico, casta despojada de riqueza material, acima das preocupações que movem artífices, comerciantes, soldados e administradores. Perante eles, os tailandeses assumem uma atitude reverente, não falam, ouvem e acenam afirmativamente com pequenos movimentos de cabeça. Aqui não se bate nos professores, não se insulta um professor nem há comissões de pais iracundos fazendo esperas, proferindo ameaças e justificando o fracasso dos rebentos na culpabilização de um professor. Este é, sem tirar, o paraíso daqueles que ao ensino consagraram as vidas, escolhendo nessa ocupação a pobeza voluntária compensada pelo tributo de respeito e agradecimento dos jovens aos quais consagram as vidas.


O Krú é a antítese do "colarinho branco", do "executivo" e do obcecado pelo dinheiro. No funcionalismo do Estado, o Krú tem direito a um uniforme de cor creme, a divisas, galões e medalhas, que orgulhosamente ostenta. Um professor primário é um alferes ou tenente, um professor de liceu um capitão, um assistente universitário um major, um doutor um coronel. Das mais remotas aldeias e vilas da Tailândia rural às grandes universidades da capital, envergam a farda do seu métier e é habitual vê-los, orgulhosos, passear pelas ruas ou pelos mercados entre a massa da população que, ao identificá-los, sorri agradecida.


Está em exibição nos cinemas um filme que é a exaltação do professor. Tem por título Krú Bâan Nok - o Professor da Aldeia dos Pássaros - e conta a saga de um jovem professor primário chegado aos confins da Tailândia nos anos 60. Ali chegou para ensinar a ler, escrever e contar, mas também para estimular a iniciativa colectiva, demonstrar os benefícios do saneamento básico, da limpeza e asseio dos corpos e das ruas, do exercício físico, do patriotismo e da cidadania. É um hino à heroicidade do funcionário do Estado que não busca recompensa pecuniária, que se defronta com a reserva dos poderosos e acaba por se tornar no líder da Aldeia dos Pássaros. Comovente, arrebatador, merecedor de cópia entre os portugueses.
Há dias encontrei uma velha professora universitária nos arquivos nacionais. Eu estava na companhia de um americano que ali também faz investigação. A senhora, nos seus setenta anos, perguntou-me o que ali fazia. Naturalmente, estando ela sentada, não fiquei de pé nem me sentei na cadeira vazia que ela me indicara. Vergei as pernas e coloquei-me, como o fazem os thais, num nível inferior à cabeça da professora. O americano, esse ficou de pé, com as manápulas nos bolsos e a mascar pastilha-elástica. No fim, perguntou-me: "que raio de posição a tua, até parece que lhe deves alguma coisa". A típica atitude do ocidental, que olha para os professores como pessoas que não possuem predicados para fazer dinheiro; logo refugiam-so no ensino. São dois mundos. Por mim, estou cada vez mais deste lado da civilização.


Nakpendin = Terra Forte (1944)

25 dezembro 2009

A história desconhecida de Portugal na Ásia: o arquitecto misterioso

As fontes documentais escritas constituem, naturalmente, o suporte por excelência da investigação histórica. Contudo, por vezes, à conta de tanto as citarmos, acabamos por nos tornar escravos involuntários e bem intencionados de um erro. Muitas são as referências ao Consulado Português em Banguecoque, a mais antiga representação diplomática estrangeira na Tailândia, mas excassas são as descrições do edifício onde se instalou desde a década de 1820, quando o primeiro cônsul titular - Carlos Manuel da Silveira - dela fez residência. Há uma vaga descrição, datada dos anos 40 do século XIX, em Frederick Arthur Neale (Narrative of a residence at the capital of the Kingdom of Siam, with description of the manners, customs and laws (...), v. pp. 276 e 279), bem como nas memórias deixadas por missionários norte-americanos que ali perto viveram durante os primeiros anos da sua actividade de pregação bíblica. Nestas últimas, que privilegiam o aspecto humano, o acolhimento caloroso que lhes foi dispensado, as conversas de fim de tarde à sombra da frondosa figueira centenar que ali ainda existe, não há propriamente a descrição da casa, mas traços impressionistas da aguarela da memória. Há, finalmente, executada em Março de 1844 por Luís Pereira de Campos, uma planta topográfica da Feitoria Portuguesa no Sião.

Sabemos que o edifício sofreu grandes obras nas décadas de 1860 e 1870 e que as gravuras publicadas nas páginas da Revista Ocidente (1883 e 1897) apresentam-no com a traça hoje existente. Dizia Neale que o Consulado era uma construção em bambú e varas, coberto de estuque caiado, que o cônsul Marcelino da Rosa pretendera substituir o frágil edifício por outro em pedra e alvenaria, pedindo a Goa que lhe enviassem os materiais para a erecção de uma representação digna do nome de Portugal. Reza Neale que a embarcação naufragou e que se perderam os precisos materiais. Ora, olhando para a planta topográfica de Luís Pereira de Campos (1844), consultada a legenda descritiva, avultam algumas referências que contradizem a fragilidade cantada por Neale: um caminho calcetado em tijolo, que ligava o embarcadouro ao edifício principal, vasto de onze compartimentos e que havia um muro em alvenaria protegendo a feitoria. Talvez as palavras de menos apreço de Neale se referissem ao edifício da Feitoria e não à residência do cônsul, contígua mas separada. Na planta de 1844, o edifício consular apresenta os contornos da actual residência do Embaixador, provando que o mesmo já existia e que terá sido posteriormente objecto de trabalhos de melhoramento estético.

Tudo isto não passaria de um simples [e até delirante] exercício de possibilidades se , entretanto, não tivesse sido confrontado com a imagem de uma réplica exacta do actual edifício principal da nossa embaixada. A UNESCO promove anualmente desde 2000 um concurso internacional para atribuição do galardão Asia-Pacific Heritage, destinado a premiar iniciativas que visem promover e distinguir as melhores obras de preservação da herança cultural arquitectónica no espaço Ásia-Pacífico. Em 2008, a Suffolk House, casa do governador de Penang, recebeu o prémio. Foi erigida em 1805 e sofreu alterações de vulto entre 1810 e 1812, funcionando como centro administrativo - leia-se "feitoria" - e residência do representante da Companhia Britânica das Índias Orientais. Ao percorrer a exposição alusiva ao prémio, agora patente em Banguecoque, olhei para a gravura da Suffolk House e disse para comigo: "conheço este edifício de algum lado". Depois, socorrendo-me da memória visual da nossa Embaixada, acrescentei-lhe caixa em madeira e frontão dórico, retirei as colunatas da varanda do primeiro piso e enxertei na fachada largas janelas. Olhando para o piso térreo, nada tirei nem acrescentei: é, tal e qual a nossa Embaixada. Mas surgiu um pequeno problema. Na Suffolk House, projectada no primeiro piso, uma varanda parece desafiar a minha especulação. Depois, lembrei-me que na residência dos nossos embaixadores, a sala de visitas é projectada e possui todos os traços de uma outrora varanda, entretanto fechada e anexada ao espaço da casa.

Se o actual edifício da nossa Embaixada é, tal como o vemos, produto de trabalhos executados na década de 1860, por que razão mimetiza um outro edifício construído 60 anos antes ? O edifício dito "georgiano" britânico integra elementos formais de uma gramática arquitectónica que era, na década de 1860, obsoleta. Que motivo levaria os portugueses a copiar um edificio com funcionalidades tidas por ultrapassadas ? O piso térreo de ambos os edifícios integra aquilo que comunmente se designa "estilo sino-português", uma adaptação do muito glosado "estilo chão português" do século XVII, exportado para os trópicos e muito praticado no Brasil colonial e em Macau dos séculos XVIII e XIX. O "estilo georgiano" exportado pelos britânicos para o Oriente não oferece qualquer similitude com a casa apalaçada de Penang. Concluo que os dois edifícios foram construídos por um engenheiro muito impregnado pelas soluções portuguesas e que, quiçá, foram riscados pela mesma mão, um em 1805-1812, o outro no início da década de 1820. O edifício de Penang ficou tal como fora projectado; o edifício português de Banguecoque sofreu alterações de monta na segunda metade do século XIX. Pinang foi povoada por muitos católicos luso-descendetes oriundos de Malaca, Quedá (Kedha) e Sião e teve importante paróquia dirigida por padres portugueses. Ora, os padres eram, como o sabemos, arquitectos improvisados. Não será a Suffolk House um edifício concebido por um português ? E não será o edificio da nossa embaixada o verdadeiro e primitivo edifício, subsequentemente alterado ? Aqui fica o desafio para os entendidos.

Comício republicano em Banguecoque


Foi hoje pela tardinha que o PRT - Partido Republicano da Tailândia - reuniu hostes. Nas fotos, respectivamente o Presidente e o Secretário Geral. Tudo correu sem incidentes, com confetins e apitos em língua de papel. A manifestação reuniu os únicos dois militantes da organização que tem como meta implantar a república em 2800.

24 dezembro 2009

Jantar com os irmãos cismáticos


Este ano não fui à catedral da Assunção. Recebi convite de amigos britânicos para com eles partilhar o jantar de véspera do Natal e não podia recusar. No fundo, esta gente da Igreja Anglicana é, em tudo, muito parecida com os católicos. Com uma excepção: o sacerdote que celebrou era uma mulher ... e casada !
A conversa não podia deixar de tocar as coisas de Roma, do Portugal do Oriente e da velha aliança luso-britânica. Os mais rasgados elogios ao Santo Papa, uma grande e quase invejosa admiração pelos feitos portugueses de antanho - nada que se compare com as negociatas da Companhia Britânica das Índias - e pelo nosso "sempre amigo e fiel aliado, Portugal". Não gostei do "fiel", mas é assim que eles vêem a relação. Aliás, um dos presentes, professor aqui numa univesidade, disse-me que na Europa, eles, britânicos, só confiam nos dinamarqueses e nos portugueses, pois nunca os "traíram". Simpatia e polimento bem britânicos, boa atmosfera social, o habitual e inteligente non-sense e os trocadilhos.

Na rua desta gigantesca capital budista, muitas iluminações de Natal, algumas muito belas em armação de vime forrado em papel. Ali estão há dias, em plena rua, coisa impossível na Europa, onde a mão de um qualquer vândalo as destruiria em minutos. Mas isto é um país tolerante e civilizado. A civilidade não está na riqueza que enche os bolsos, mas na educação e na atitude. Feliz Natal para todos.


23 dezembro 2009

Bonnie & Clyde Ceausescu, assassinados no dia de Natal*

Muito se escreveu nestes dias sobre Nicolai e Elena. Tiveram uma terrível e maravilhosa vida. Ele, um pobre sapateiro rural de origem cigana, ela uma costureira quase iletrada. Ele comandou, foi incensado como o Danúbio do Socialismo, o Leão dos Cárpatos, Herói da Pátria; ela fez-se Cientista de Renome Internacional, Física Prodigiosa, Mãe dos Romenos. Adulados a extremos, acreditaram no conto de fadas em que viveram, um mundo mágico de palácios forrados em teca, espelhos e candelabros de Morano, pavimentos em mármore de Carrara, maçanetas em ouro. Duas criaturas insignificantes. Ele gago, mal sabendo compor uma frase, com discursos corrigidos pelos mestres da propaganda, sem jamais ter lido um livro, foi agraciado pelas academias do Leste e do Ocidente, recebido em todas as capitais, partilhou banquetes com reis, recebeu deputações de todos os azimutes. Ela, laureada com honoris causa em mil e uma universidades, nunca compreendeu exactamente o que era uma tabela e não obstante ter recebido lições para melhor ludibriar a inconsistente fraude, era uma obsoluta nulidade. Diziam os seus professores que adormecia, que se levantava e abandonava sem palavra as aulas, que copiava sem pudor. Madame CO2, como era referida pelos romenos, lembra uma daquelas vilãs da história antiga, uma aventureira que atingiu a púrpura imperial. O casal Ceausescu não tira nem nada acrescenta aos tiranos comunistas que se alçaram ao poder de vida e morte sobre milhões. São, ambos, produto de um tempo e a cabal demonstração que a "classe operária" no poder é a maior inimiga da classe operária e dos pobres.

Como Bonnie and Clyde, assinaram um pacto de sangue que os levou aos píncaros e depois os precipitou no abismo. Mas tiveram um fim heróico e não se amedrontaram perante aquela farsa de tribunal improvisado por traidores, cúmplices de véspera - os que mataram, torturaram e levaram o povo romeno à fome - e que, mudados os tempos, queriam embarcar no novo amanhã cantante da democracia e da Europa. Talvez, a grande nota de grandeza que os dois deixaram foi o derradeiro pedido aos algozes: "nós temos o direito de morrer juntos". É evidente que o golpe não foi a revolução que por aí se diz. Foi um típico golpe mafioso que partiu de dentro do Partido Comunista para salvar a nomenclatura. Provas ? Uma só: ninguém se lembra de matar no dia do Natal. Só os comunistas.
A Roménia, pelo que se diz, mudou muito pouco desde 1989. Continua nas mãos dos ex-PCR's e dos ex-Securitate. No tempo de Bonnie and Clyde, a Roménia figurava no mapa das relações internacionais. Hoje, figura nas listas dos observatórios contra o crime mafioso, o tráfico de drogas e de carne branca. Nem tudo é negro, nem tudo é branco. Nicolai e Elena morreram, literalmente, sobre a sua fortuna e sobre a sua desgraça e o seu infame fim só deslustra a Roménia.


Partidul, Ceausescu, Romania

* A Roménia, maioritariamente ortodoxa, não se rege pelo calendário gregoriano, mas conta com certa de 5% de católicos e 5% de protestantes.

Ten'O, BANZAI !


Com vénia à lembrança que um português no Japão depositou na caixa de mensagens, no 77º aniversário do Imperador do Japão. A segunda economia mundial, o país cujo nome se confunde com 0,08% de iletrados, a maior percentagem mundial de licenciados, mestres e doutores, a maior esperança de vida do planeta, o primeiro no registo de patentes científicas, o terceiro em inovação, o terceiro maior dador internacional, o último em mortes violentas. Em 1945, era um quase certo candidato ao comunismo. Depois, foi o milagre. É uma monarquia, pois claro.


Kimigayo

22 dezembro 2009

Monarquia nova


Por mais que os seus detractores insistam, ancorados em complexos e preconceitos malsãos e numa certa subcultura de burguesia de dinheiro novo inseguro, a evidência é que a solução monárquica se coloca hoje como futurível e muitos portugueses, de esquerda como de direita, aceitam agora discutir a Restauração como tópico relevante da agenda política. De tema marginal, a possibilidade da Restauração ganhou paulatinamente adeptos. Já não é um dado de memória, partilhado e transmitido por herança familiar; é uma corrente de opinião que vai ganhando espaço, que concita simpatia e adesões em todos os escalões sociais e profissionais. A república habituara-se a monarquices extravagantes de dedos brasonados e bizantinas exibições genealógicas; hoje debate-se com uma verdadeira insurreição cultural que lhe mina os fundamentos, a legitimidade e desafia a sua mitologia. De facto, a república nunca teve republicanos e os que teve confundiram-se sempre com o Partido Democrático, essa coisa tentacular, carregada de baias e dominada por pulsões liberticidas. Os republicanos, hoje, são poucos, inconsistentes e invertebrados. Pedem a mudança na república, mas tudo o que defendem já foi experimentado e falhou: falhou no republicanismo parlamentar primo-republicano, com uma chefia de Estado simbólica, falhou com o cesarismo plebiscitário de Sidónio, falhou com a presidência submetida ao "presidencialismo do Presidente do Conselho", falhou com o semi-presidencialismo de voto directo universal que ainda temos. No fundo, a república é o passado e desse passado não se consegue libertar. Está, arrasta-se, finge consenso. Não sendo detestada é, no mínimo, desprezada. Viraram-lhe as costas, por ela não se interessam, não mobiliza corações nem inteligências. Refém das lutas partidárias, a chefia de Estado republicana passou a ser encarada como pré-aposentamento para os locatários de Belém. Vai-se descendo em intervenção, subindo na hierarquia do Estado. O Presidente é, hoje, um Roi fainéant, um falso rei constitucional, sem o prestígio de um monarca hereditário, sem a influência fáctica de que gozam os reis e com a tremenda e irreparável suspeita de continuar, por mais que o negue, a depender do(s) partido(s) que o colocaram na chefia do Estado.

Por seu turno, a possibilidade de uma monarquia nova parece identificar-se com a grande política e com a destinação de Portugal. Hoje, defender a monarquia pressupõe a defesa de uma certa ideia de Portugal, da lusofonia, da preservação do mínimo da soberania do Estado, das liberdades regionais, da separação de poderes, da fiscalização dos abusos cometidos pela partidocracia, de colocar no seu lugar os plutocratas mais as negociatas e os favores. Defender uma monarquia nova é sinónimo de reposição da respeitabilidade do Estado, da solidariedade social e da realização dos grandes objectivos colectivos.

Acabei de ler uma excelente antologia comentada de textos de Lord Salisbury, quiçá um dos maiores pensadores de acção conservadores do século XIX, infelizmente pouco conhecido pela generalidade dos conservadores portugueses. Salisbury era defensor da paz e do equilíbrio, teoria que aplicava aos negócios estrangeiros como aos assuntos internos. Para a sua realização, advertia para o perigo do imobilismo conservador e do aventureirismo trabalhista. Uma política serena, de unidade no essencial, com partilha de responsabilidades era, em suma, a sua solução. Portugal precisa, mais que no passado, desta concórdia e deste embainhar de espadas. Portugal precisa de recobrar a segurança e o ânimo, voltar a gostar de si, pensar as aventuras do futuro. A república atira-o para o passado, para a guerra civil, para a disputa miniatural, para o fulanismo. É por isso que sempre que olho para os nossos príncipes vejo essa possibilidade de recobro do direito que temos ao futuro.Andámos 100 anos a perder tempo ! Nós, os austríacos, os hungaros e todos os poquenos povos que só foram grandes e unidos sob monarquia.

Realismo lírico: amor proletário

Seis da tarde, Banguecoque. Dois trabalhadores da construção civil. Ele cabeceando de sono, um sono semi-acordado martirizado pelos solavancos do carro, pelo barulho do tráfego e pelo calor inclemente do sol. Ela, sem sapatos e com meias de criança, lenço sobre o rosto, dormindo e confiada na mão protectora que a ampara.

21 dezembro 2009

No país onde não há um sorriso

Uma brincadeira inteligente, provocatória e um desafio à fibra de muitos bloguers percorreu este fim de semana a internet. O Mário do Mail de um Louco passou de imediato para a minha coluna de preferidos, pois deu sobejas provas de atrevimento, chegando a aguçada farpa ao reduto dos inconfessáveis medos do "género" que cada um guarda cercado de arame farpado, parapeitos e casamatas. A brincadeira era a seguinte: escrever um mail ao dono de um blogue, pedindo-lhe a cedência do mesmo para conquistar o coração de uma bela Sílvia "de corpo fantástico". O peticionário requeria que uma foto sua figurasse no blogue emprestado e que fossem retirados textos de timbre excessivamente feminino. O que foi o Mário fazer ! Lendo a relação de respostas, ressalta o mais reservado e sombrio diagnóstico:

- Na generalidade, os portugueses não têm sentido de humor e respondem com pedras na mão, julgando que a vulnerabilidade e os fantasmas se defendem melhor com a agressividade.

- Os homens sentem verdadeiro pavor pela feminilidade, mesmo quando esta os poderia favorecer em dotes de sensibilidade e graça. Estranho medo, quando verificamos ser o único país do mundo em que os homens não perdem a oportunidade, uma vez por ano por alturas do Carnaval, para se mascararem de ... mulheres.

- As pessoas com blogues sentem-se importantes, uma ilusão que há muito descortinei nos escritos de quem quer "ser lido", "fazer carreira" e condicionar a agenda. Os blogues são uma brincadeira e disso não passam. Quem os lê ? 200, 300, 1000, 2000 pessoas por dia. O que é isso ? Nada, ou pouco mais que nada.
Ao receber o tal pedido, li-o a uma colega de escola. Riu-se até às lágrimas, mostrando que os asiáticos, ao contrário do que reza a lenda, têm sentido de humor e desinibição que vencem a nossa proverbial desconfiança, ranger de dentes e agastamento ante o desconhecido e o imprevisto. Bom mergulho às "profundidades" da alma portuguesa.

Monteiros e Albergarias em terras do Camboja


Entre outra curiosa documentação que tive oportunidade de localizar nos Arquivos Nacionais do Camboja, encontrei processos completos de funcionários da Coroa e de servidores do Residente Superior francês. Exaustivas folhas de serviço, com apontamentos e notas marginais, correspondência, pedidos de informação, promoções e punições, gratificações e multas, são elucidativa mostra da instalação da modena burocracia e da transição do Estado dinástico patrimonial asiático para o império de Leviatã. Os cambojanos são, desde o século VI, uma sociedade bem ancorada na escrita, atestando a complexidade das suas instituições políticas. Entre algumas dezenas de processos consultados, destacavam-se os de servidores luso-khméres que residiam no país desde o século XVI e ali se mantiveram influentes até à chegada de Pol Pot ao poder. São gerações de Monteiros, Cantos e Albergarias ocupando lugares de relevo na administração palatina e nas sedes provinciais, uns escrivães, outros tradutores, outros ainda secretários, militares, tesoureiros, diplomatas e ministros. Eram homens bem relacionados, como o atestam as cartas de referência, com acesso directo ao Rei e ao Residente Francês, à alta hierarquia católica e, até, com sólidas amizades em Macau, em Singapura e em França, uma minoria que nada mais sabia fazer que servir o Estado.

Ao ler com maior atenção o relatório que Sir John Bowring - governador britânico de Hong Kong e Ministro Plenipotenciário para a negociação de um tratado com o Sião (1855) - publicou em 1857 com o título The Kingdom and People of Siam, encontrei, como outra coisa não seria de esperar, referências a Protuguet que trabalhavam, tal como os seus irmãos luso-khméres, para a corte. Entre eles, o incontornável Pascoal Ribeiro de Albergaria, citado por todas as missões diplomáticas que desde a década de 1820 haviam tocado o Sião. O homem, oficial general de artilharia, teve longa e próspera carreira e, tudo o indica, era também mestre de cerimónias da corte. Encontra-se sepultado num cemitério católico de Banguecoque, sintomaticamente localizado no chamado Ban Khmer (aldeia khmér). Perguntei a um dos seus descendentes, hoje quadro superior do MNE tailandês o que sabia do seu ilustre antepassado, mas não obtive resposta satisfatória.

Ao fim da tarde de ontem, ao chegar a casa, tive um pressentimento, uma daquelas intuições que violam as leis da racionalidade. Se Albergaria estava nas proximidades do ban khmér - poderia ter alguma relação com os khméres portugueses vindos para Banguecoque numa das três vagas de fugitivos cambojanos aqui chegados entre finais do século XVIII e meados do século XIX. Ora, por mero acaso, nos escritos de um diplomata britânico que veio a Banguecoque na década de 1820 encontrei a ligação: Albergaria era luso-cambojano e a sua família estabelecera-se em Oudong - e depois em Phnom Penh - para, em inícios do século XIX, transitar para Sião. Era bisneto de pai português e de mãe anglo-malaia "half caste" de nome Lister, convertida pelo casamento à fé católica. Os britânicos, sempre intratáveis nas desdenhosas apreciações racistas, tiveram por ele respeito imediato. Diziam ser um homem elegante, extremamente inteligente e comunicativo, muito apreciado pelo Rei siamês e altos hierarcas do Estado. Falava siamês, khmér, inglês, português e latim, ou seja, dominava as línguas que lhe proporcionavam um lugar indispensável em contactos com comerciantes, diplomatas e eclesiásticos europeus que passavam pelo reino. No próximo encontro com a família Albergaria de Banguecoque levo-lhes as boas novas. Agora, para além da pedatura siamesa e portuguesa, saberão que lhes corre nas veias sangue inglês e khmér.Estes não eram lançados nem aventureiros, desses "portugueses à solta" e "gente de bandel", semi-analfabetos e rudes que se confundem com a presença portuguesa fora dos territórios administrados pelo Estado da Índia. Eram letrados e, pelos apelidos, pertenceriam a uma pequena nobreza portuguesa que se lançou por mares em busca de nova vida.

20 dezembro 2009

Domingo de um pessimista: da praga humana


A festa acabou em Copenhaga e não deu e nada, como se esperava. Porquê ? Porque o ser humano é, para todos os efeitos, análogo a uma praga: não tem inimigos naturais, mata todas as espécies [vegetais e animais] em processo acelerado de surplus killing e surplus consommation, vive cada vez mais tempo e multiplica-se a um ritmo superior à capacidade que o meio tem em se regenerar. Há quem fale da extinção da espécie, como aquelas pragas de caranguejos e gafanhotos que triunfam sobre todas as restantes e acabam por morrer à míngua de alimento.

Domingo de um pessimista: do verbo contrair

Hoje, falando com um amigo de longa data que teve a gentileza de passar por Banguecoque e almoçar comigo, descobrimos que o verbo contrair só se aplica em três situações: contrair dívidas, contrair uma doença e contrair casamento. Estranho !

18 dezembro 2009

O Príncipe anti-maquiavélico


Não procura o poder, nem a notoriedade, não faz lóbi, não serve plutocratas, tem ideias, é culto e invoca permanentemente a matriz cultural que fez do Reino Unido a grande excepção europeia, pois ali nunca a malfadada revolução - a mãe de todos os totalitarismos - pôs os pés. Isto é o bastante para ser empecilho às aritméticas contabilísticas de quem se vai apossando da liberdade, condicionando e teledirigindo uma opinião pública que age com reflexos condicionados e abre mão das liberdades que fizeram da Inglaterra a Terra Prometida da Liberdade. Trata-se, claro, do Príncipe Carlos, uma das mais vilipendiadas figuras europeias. Pois claro, reclama o ethos inglês, não pactua com o betão, com as deslocalizações, as bolhas bolsistas, as falsas globalizações e "alter-globalizações", é defensor do património natural e do património arquitectónico, diz que a terra é para ser trabalhada, que o mar é para ser lavrado pelos pescadores, que a pequena propriedade, a pequena empresa familiar e o comércio de proximidade devem ser protegidos contra a ganância dos fazedores de proletários - os grandes especuladores, tão nocivos para o mercado e para o capitalismo como os eucaliptos, que desertificam e matam a terra - e um céptico das engenharias eurocráticas.

O DN publica hoje ecos da nova arremetida do dinheiro anónimo contra o Príncipe anti-maquiavélico. Um artigo pouco inteligente, diga-se, atestando a intoxicação e a tirania do opiniarismo que vai matando o jornalismo um pouco por todo o lado.

Ao contrário da falsa ideia instalada, segundo a qual os reis e famílias reais estão reféns de um mero cerimonialismo, os repetidos ataques a Carlos vêm demonstrar o contrário: enquanto houver monarquias, o bem-comum e as fontes que irrigam a Sociedade Civil estão protegidos. Habituados à governação de bufarinheiros, os europeus continentais espantam-se com a ousada liberdade do Príncipe de Gales. Foi para isso que as monarquias ocidentais foram, uma a uma, executadas: para dar rédea solta a habilidosos e desclassificados.Na ilha da Liberdade e das liberdades, a jacobinagem não entrou, como não entraram nem o marxismo nem o nazismo. É isso que os dana !


Vera Lynn: Rose of England

17 dezembro 2009

O puzzle da História Desconhecida dos Portugueses na Ásia


Já tinha visto a bandeira reproduzida em velhas gravuras britânicas do século XIX, mas confesso não me ter despertado curiosidade, pensando não passar de mera liberdade criativa dos ilustradores. Há dias, porém, encontrei numas memórias da última campanha militar inglesa no norte da Birmânia (1885) a fotografia de estandartes capturados nos dias que precederam a queda de Mandalay, última morada da dinastia Konbaung. Lá esta ela, a enigmática bandeira, no chão juncado com outros troféus: uma cruz negra sobre campo vermelho.


Aquela não era, certamente, a bandeira dos reis da dinastia, mas um estandarte militar. Só podia ter a ver com a existência de cristãos nas hostes reais de Mindon e Thibaw. Hoje, ao consultar o melhor sítio web dedicado a vexilologia lá a encontrei, com a seguinte nota de rodapé: "the flag shown here is the standard of the royal artillery who were mainly Christian Portuguese descendants". Depois, bastou compará-la com a bandeira da Ordem Franciscana e lá estava, sem confusão, o símbolo. Como foram os Franciscanos portugueses os primeiros a fixar-se na Birmânia (1660), aquela bandeira era, só podia ser, empunhada por católicos portugueses.

Os artilheiros e sapadores portugueses-birmaneses tiveram longa e respeitada carreira nos exércitos das dinastias Taungoo e Konbaung, resistiram ao passar dos séculos e combateram siameses, malaios, franceses e holandeses, até serem destroçados pelos exércitos britânicos. Nos derradeiros dias de Mandalay, foram a última defesa militar moderna contra os expedicionários do general Prendergast.

O puzzle vai-se fazendo, peça a peça. É fascinante assistir à progressiva definição do nome de Portugal emergindo do quebra-cabeças da investigação. Tudo tem a ver com tudo. Não há registo siamês que não compagine com uma nota, um adereço, uma foto ou um simples pormenor iconográfico cambojano, birmanês ou malaio. Portugal era, ainda no século XIX a bater à porta do século XX, a grande referência inspiradora nesta vasta região entre a Índia e o Império do Meio. Pena que ninguém disso queira saber na definição da nossa política externa e que sigamos, sempre, infileirados no comboio do europês sem memória e sem experiência do mundo.

16 dezembro 2009

Ninguém brinca com a Estrela de David ou com as barbas do profeta

Fosse o profeta ou a estrela da David e Tróia arderia. Mas não. A Igreja Católica não mata, não manda matar, não degola nem lança fatwa exigindo a cabeça dos seus inimigos, daqueles que a insultam e ofendem, dos que a ridicularizam ou, simplesmente, daqueles que se comprazem com pequenas e grandes iconoclastias ditas provocatórias. Provocação a quê, quando se sabe não haver resposta ? Vivemos, decididamente, num mundo hemiplégico. Não há artista, escritor, historiador, politólogo, jurista ou estudioso das religiões que se atreva tocar nas coisas sagradas de judeus e muçulmanos. Há, até, um quase entusiasmo pelo "outro", mesmo que tal implique justificar o injustificável, fechar os olhos à evidência e transigir com práticas sangrentas que ofendem a sensibilidade hodierna de qualquer homem. Há dias recebi, de mão amiga, a imagem que aqui reproduzo: uma Virgem - neste caso Nossa Senhora da Conceição - transmutada em gata e tendo a seus pés três putti instrumentistas. O objecto parece ser a atracção do Hotel Gat, propriedade de espanhóis e situado na Rua Jardim do Regedor, nº 27, ao Rossio. Até já corre pela internet um pedido de reposição da imagem primitiva. A arte é, por natureza, livre e coloca-se fora da tutela do religioso, pois a sacralidade que a ilumina não a obriga a ser anteparo de qualquer sistema de crenças. Contudo, a arte não deve ser um vulgar instrumento de provocação. Quando exposta a públicos que a não procuram e de alguma forma viola direitos consagrados na lei, deve ser retirada para fruição de públicos que a procurem em locais apropriados. É por isso que para a exibição de algumas obras de arte - vide Jeff Koons, vide filmes eróticos - é aplicada legislação preventiva.


Se a Constituição assegura o direito à "criação intelectual, artística e científica", asseverando que "todos têm o direito de exprimir e divulgar livremente o seu pensamento pela palavra, pela imagem ou por qualquer outro meio, bem como o direito de informar, de se informar e de ser informados, sem impedimentos nem discriminações", também assegura que "ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão de ascendência, sexo, raça, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica, condição social ou orientação sexual". No caso vertente, a colocação da imagem no espaço público viola o Artigo 13º dos Direitos e deveres fundamentais dos Direitos Fundamentais plasmados na lei magna.

Dolorosas novas


Encontrei ontem doloroso testemunho da tragédia portuguesa de 1908. Datada de 15 de Fevereiro - uma semana após o regicídio - assinada por D. Manuel II, a carta anunciava ao Rei Chulalongkorn do Sião o passamento do Rei D. Carlos I e do Príncipe Real D. Luís Filipe. Mais que uma breve e protocolar nota informativa, presente-se a dor do novo e jovem monarca ao dar a triste notícia a um chefe de Estado que vivia no outro lado do mundo, mas que tivera a oportunidade de conhecer pessoalmente em 1897, quando Chulalongkorn por Lisboa passou em digressão oficial. Os arquivos tailandeses estão, como verifico, carregados de testemunhos portugueses, aqui encontrado valiosos documentos que em Lisboa, na voragem de insensibilidade, criminosa incúria e facciosismo se perderam para sempre. Que vergonha ter de vir à Tailândia para encontrar documentação portuguesa, escrita em português e emitida pelo Estado Português.


(...) "As mortes do meu muito amado e prezado pai e do meu muito querido irmão, vítimas de abominável assassinato deixaram-me entregue, bem assim à totalidade da Nação Portuguesa, na mais profunda aflição. (...) O interesse que VM sempre mostrou por toda a minha família é consoladora esperança de que Vossa Majestade tomará uma viva parte na acerba mágoa que me causaram tão cruéis golpes. Chamado n'estas tristes circunstâncias, pela ordem da sucessão e na continuidade das leis do Reino de Portugal, ao trono de meus antepassados, rogo a Vossa Majestade haja dispensar-me os mesmos sentimentos de afecto que dedicava ao Augusto Monarca falecido e de ficar certo do vivo desejo que tenho de estreitar cada vez mais as relações de boa inteligência que felizmente subsistem entre os nossos países(...)".

Dois anos depois, a república era imposta a tiros de canhão e as relações luso-siamesas eclipsaram-se, passando a representação consular para mãos de italianos pelas décadas de 20 e 30, até à chegada de um português nas vésperas da Segunda Guerra Mundial. Portugal perdeu, então, a última oportunidade de manter no Sião o estatuto de potência aliada, a mais antiga e respeitada, que os siameses sempre lhe haviam tributado. O estado de coisas foi tão confrangedor que um dia, por volta de 1911, a polícia siamesa entrou pelo nosso consulado adentro para questionar os residentes a razão "daquela bandeira que ali puseram no jardim". Referiam-se, claro, à verde-rubra que ninguém conhecia e que Lisboa não tivera sequer a sensatez de anunciar aos países com os quais mantinha relações diplomáticas. Coisas do amadorismo de uma república que se vai celebrar !

15 dezembro 2009

Quando morre uma biblioteca

Evitei por lá passar após a comoção do dia do incêndio. Adiei, encontrei todas as desculpas e justificações, entretive-me com outros trabalhos. Hoje tinha de ser. Dois livros requisitados cujo prazo expirara obrigaram-me a ver o que não queria ver. Fui à Siam Society e saí doente. Quase um mês após a tragédia, o edifício fervilha de actividade. Os funcionários, agora sentados em cadeiras de plástico tentam contrariar a fatalidade que sobre a cultura tailandesa se abateu. Uns limpam encadernações, outros vão abrindo as páginas enxarcadas, secando-as uma a uma. Outros, ainda, tentam dar ordem a cem anos de arquivo que o fogo caprichosamente lambeu mas não consumiu. À saída, um prospecto pedindo apoio e solicitando a amigos e sócios estrangeiros da instituição que façam chegar aos seus países de origem o pedido de socorro.
Não sei o que posso fazer. Não tenho amigos influentes, não tenho acesso aos gabinetes ministeriais e não tenho senão a reconfortante e inútil capacidade de dar na proporção dos meus modestos meios. Aqui fica o apelo para quem com esta estimável e lutadora gente queira salvar dezenas de milhares de obras daquela que foi, até 20 de Novembro, uma das mais importantes bibliotecas especializadas sobre o Sudeste Asiático. Ali está, também, o rasto que Portugal deixou por estas paragens ao longo de meio milénio. Se todas as bibliotecas e livros do mundo ardessem, voltaríamos decerto às trevas. Salvar um livro é salvar aquilo que impede a queda da humanidade na animalidade.


Wagner: Idílio de Siegfried. London Philharmonic Orchestra (1938)

Poder Popular a 101,15 Euro o almoço para dois


Otelo é um morto-vivo. Desapareceu há décadas e aflora de quando em vez como assombração. Promete um livro de memórias, é incensado por El Pais e senta-se na mesa onde há o vinho-fuel-da-auto-excitação e da mitomania que o perderam. Tudo por uma centena de Euro o almoço, com sponsor exigindo discriminação dos acepipes em pé-de-página. O Poder Popular tem as costas largas, um bom caderno de amigos influentes, excelentes mecenas e, sobretudo, bom gosto gastronómico. Assim vale a pena falar das misérias do mundo. Em torno de uma boa caranguejada, claro. O que é preciso é avisar a malta.


José Mário Branco: Alerta

14 dezembro 2009

A morte do 5 Dias

Li e reli, não fosse a rotunda sonoridade das palavras ocultar uma elegante parábola. Mas não, pois ali estava tudo quanto de mais desprezível encerra a violência gratuita, aquela que mata o combate político e a guerra das ideias, que faz do ódio uma bandeira, apela aos mais primitivos instintos e justifica o assassínio como modalidade da acção política. O 5 Dias, que sempre li com o maior interesse, não obstante se encontrar nos antípodas da minha sensibilidade estética, era um exercício de contraditório, um colocar-me do outro lado, mas agora tudo isso se dissipa perante a apologia do [anti] poder nu. É o velho fantasma da acção directa, da "propaganda pelo facto", do revolverismo e do dinamitismo - usando expressões consabidas, património das esquerdas ditas libertárias, que sempre acabaram no liberticídio - que assoma na pinchagem de Renato Teixeira. Podia ser uma blague, mas não é, pois provocação - se a fosse - exigia um exercício de retórica. Ali está, sem tirar, a arte da comunicação totalitária, palavras barrando a inteligência comunicativa. Ali está, apenas, oratória, a arte por excelência de todas as tiranias, o analfabetismo dos sentimentos, a proibição do pensamento. Jamais encontrei melhor no género e bate aos pontos o mais sórdido ódio ao humano que em tempos invadiu uma certa blogosfera racista e miserável que o curso do tempo em boa hora, à míngua de argumentos, acareou e levou à extinção. Que diferença, pois, entre o nazismo e este comunismo que se dissimula no à la page das ideias ditas progressistas ?
O 5 Dias morreu hoje.


A Bandeira do Partido (marcha titista)

Os carnicões: o neo-calvinismo McDonnalds ou a América espalhando os seus males


A paranóia moraleirona da ralé micro-burguesa que nestes tempos conseguiu totalitariamente o poder que vale - o da informação à venda -, intromete-se sempre naquela área que nas democracias devia ser intangível: a intimidade, a esfera pessoal. De facto, a coscuvilhice mais sórdida, a porcaria atirada em forma de rotativa betoneira sobre todos os "prevaricadores", consagra um longo caminho que terá as suas origens nos famigerados Pilgrim Fathers do Mayflower. Gente ridícula, sombria, bisonha, má, tacanha e profundamente imbecilizada por crendices sem pés nem cabeça, fundaram os caboucos de uma sociedade que aspira a uma globalização planetáriade de lares submetidos aos ditados de Salt Lakes, reverendos Jones ou de Davides Koreshes mais ou menos exportáveis.

12 dezembro 2009

Anna Leonowens era portuguesa, Drácula também


De Susan Morgan, Bombay Anna é, indiscutivelmente, o desvelar de um mistério que a biografada e sua descendência quiseram sepultar. Bristowe,o maior conhecedor da vida de Leonowens já o dissera há muitos anos: essa Anna não era, não podia ter sido britânica de nascimento. Anna Leonowens, a famosa governanta do Rei do Sião que inspirou o clássico musical de Hollywood The King and I, com Deborah Kerr e Yul Brynner, era, afinal, uma pobre rapariguinha meia-casta nascida em Bombaim. O avô de Anna seria um desses deserdados de poucas letras nascido num qualquer deprimido pequeno mundo rural inglês de inícios da Revolução Industrial que Chegara à Índia sem eira e alistara-se como praça no exército da British East India Company. Ali conheceu na "Cidade Negra" (ou Cidade Nativa) uma rapariga Topass (1) - isto é, euro-asiática católica de ascendência portuguesa - com quem contraiu matrimónio. Desse casamento que teve desfecho na prematura morte do soldado, nasceu Mary Anne, mãe de Anna "Leonowens". Esta, casou aos treze anos com um sargento sapador, mas logo enviuvou. Desse casamento vieram ao mundo duas raparigas, tendo Anna [Harriett Edwards] nascido semanas após a morte do progenitor.


Leonowens construiu várias identidades ao longo da vida. Nas memórias que deixou, afirmou ter nascido em Gales no seio de uma família com cabedais e que o seu pai - "oficial do exército" - a mandara vir logo que concluída esmerada educação. Se Leonowens recebeu alguma educação foi nas escolas regimentais. Viva, curiosa e extremamente inteligente - falava fluentemente quatro línguas e chegou a ser reconhecida como autoridade em sanscritologia - era uma força da natureza. Compreende-se que, ao chegar a hora do triunfo e do reconhecimento - foi sucessivamente preceptora dos filhos de Rama IV do Sião, jornalista-viajante e conferencista, militante da causa abolicionista e no fim da vida uma líder sufragista - tentasse ocultar as suas raízes.
Casou Anna com um homem obscuro, oriundo da classe média irlandesa protestante dizimada pelas fomes de 1840. Este Leon Owens morreu prematuramente. Fora funcionáro público em Bombaim mas quis mudar de vida e candidatou-se a gerente de um modestíssimo hotel em Pinangue (Penang). Ao falecer naquela que era conhecida como a "tumba do homem branco", deixou mulher e dois filhos na maisextrema penúria. Eis uma revelação que Susan Morgan não desenvolve. Pinangue é uma ilha situada no estreito de Malaca. Pertencendo ao sultão de Kedah, foi comprada pela Honorable Company em 1786, passando a integrar as possessões dos Straits Settlements. Ali, o Capitão Francis Light, oficial da EIC lançou os caboucos de uma cidade (George Town). Pinangue era despovoada, pelo que Light trouxe da península malaia muitos "portugueses" de Kedah e Malaca. Casou com uma luso-descendente e Pinangue passou a ser mais um bandel católico das lusotopias asiáticas que floresceram nesta parte do mundo entre os séculos XVI e XIX. Parece que Anna quis apagar esse registo e essa ligação. Nascera em Bombaim no seio do enclave meia-casta católico, mudou-se para Pinangue, uma ilha de luso-descendentes antes de desembarcar em Singapura, a nova pérola da Coroa. Ora, Singapura era, também, uma cidade feita por portugueses. Quando Raffles aí se instalou e içou a Union Jack, convidou muitos luso-descendentes de Pukhet e Malaca, mas também de Pinangue. Parece que tudo bate certo, mas Anna não queria ser tida por católica, muito menos por euro-asiática.


Não se sabe exactamente como se insinuou junto do cônsul do Sião em Singapura, mas se o fez terá invocado o seu nascimento britânico, pois o lugar de professora de inglês dos filhos do Rei requeria uma dama, não uma pobre meia-casta. Compreendo, agora, as amargas, injustas e depreciativas palavras que Anna escreveu a respeito dos luso-siameses de Banguecoque. Queria varrer da memória as suas origens, não se queria com eles identificar. Era um medo profundo esse de poder ser descoberta por aqueles cujo contacto evitava; ou seja, aqueles que lhe lembravam a parte oculta da sua identidade e a sua origem mestiça.


Depois de alguns anos no Sião, mudou de ares e tornou-se uma celebridade dos salões e academias da América do Norte e Europa. Era já Madame Leonowens, rica, culta, influente, pelo que destruiu toda a documentação e inventou uma vida. Um seu sobrinho neto chegou aos píncaros da popularidade. William Henry Pratt passou à história com o nome artístico de Boris Karloff e ainda é, por antonomásia, o Drácula das fitas do cinema a preto e branco. Boris Karloff, sobrinho neto de uma pobre rapariga luso-indiana de Bombaim.
MORGAN, Susan. Bombay Anna: The Real Story and Remarkable Adventures of the King and I Governess. Los Angeles: University of California Press, 2008.


(1) Discute-se a origem do termo Topasse. Alguns, dizem derivar de tupasi, que em Tâmil refere pessoa de duas línguas. Aceitando a palavra dos filólogos, não podemos deixar de encontrar flagrante analogia entre Topasses e "Tropas", cuja corruptela daria "Topass"^(lê-se tó-pás), com plural Topasses. Os ingleses possuiam no século XVIII um entreposto comercial em Bencoolen, na ilha de Samatra. Os soldados mercenários que aí prestavam serviço eram católicos de ascendência portuguesa e eram conhecidos, também, por Topasses. Que relação poderá haver entre um termo tâmil e a Insulíndia ?

11 dezembro 2009

Um grande bluff ou a "ciência" do nada: os estudos do género

A moda pegou nos anos 80 e 90, galgou alto, invadiu universidades e não há quem a consiga impugnar. É uma nova ciência e dá pelo nome de "estudos do género": umas pitadas de sociologice, mais uns grãos de antropologia, salpicos de teologia, borrifos de história da literatura, mais uns grãos de estudos jurídicos e temos um enorme continente. São corredores de biblioteca com obras a trepar até ao tecto, um imperialismo que se vai aboletando nas tradicionais áreas do saber, estilhaçando-lhes a funcionalidade orgânica, misturando tudo e subvertendo a segurança que é arrimo para a cultura.


Hoje passei pela biblioteca da universidade e percorri, abismado, a expansão da nova peste bubónica. Tanto inclinei para a esquerda e para a direita o pescoço, lendo lombadas e puxando sem critério obras que quase fiquei com um torcicolo: A Cultural History of the Fart, Gender and Aging in Mesopotamia, Ancient Maya Women: Gender and Archaeology, Moon, Sun, and Witches: Gender Ideologies and Class in Inca and Colonial Peru, The Essential Body: Mesopotamian Conceptions of the Gendered Body, Poetic Promiscuity in Mesopotamian Ritual, The African Wife of Moses, Mapping Feminist Biblical Criticism, The Book of Ruth and the Possibility of a Feminist Canonical Hermeneutic, A Feminist Approach to the Book of Job, Jesus and Divorce, The Hidden Heroes of the Gospels: Female Counterparts of Jesus, Christ's Birth of a Virgin who Became a Wife, Power Through Bedouin Women, Menstruation and the Power of Yurok Women, The Undeclared War Against American Women, Cooking, Cuisine, and Class, Women's Utopias in British and American Fiction, Where no Man has Gone Before: Women and Science Fiction, Menopause and Culture, The Prison as Gendered Organization.


Depois, atentei nas secções, que subentendi corresponderem às grandes áreas dessa admirável ciência nova: Women's Studies, Lesbian, Bisexual and Transgender Studies, Man’s Studies. Em cada "área de conhecimento", as subdivisões convidaram-me para o mundo espantoso de tudo quanto desconhecia. Nas trinta prateleiras encabeçadas por um orgulhoso "Feminist Studies", identifiquei: Feminist Theory, Gender Relations, Gender and International Law, African Women's Studies, Jewish Women's Studies, Women's Spirituality, Feminist Theology, Feminist Aesthetics, Caribbean feminisms, Women, Development and Administration, Post-colonial feminisms, Critical sexualities, Ecofeminism, Feminist Theory of the State.


Era a ponta do iceberg, pois para cada ramo de "saber" havia reverdescências de fazer espantar um tolo como eu: Reproductive rights, Sexual and domestic violence against women, Holocaust studies on gender, Feminism and film, The Renaissance body, Sexuality and creative writing, Gender, power and politics in Europe, Gender, culture and identity, Gender in the workplace, Gender and education, Gender and reproductive rights, Gender and social anthropology.


A coisa dá milhões. Contam-se pelas centenas os doutoramentos, mestrados, licenciaturas, pós-graduações e cursos de especialização da coisa. Funciona, rende e tem o apoio de grandes e nobres instituições e fundações que vergam servilmente a cerviz perante o novo ídolo. Regressei a casa e percorri, por curiosidade, alguns sítios web destes cursilhos da parvalhização. Parece que a América se quer vingar do Ocidente, onde ocupa um lugar menoríssimo, marginal e quase risível. As excepções, aplaudo-as até me sangrarem as mãos.

Num desses sítios web, definia-se sem ocultações o propósito desta "ciência": "Our mission is to place women at the centre of inter-disciplinary teaching and research about power relations, and to foster knowledge to transform these relations to the benefit of women". Ou seja, não é nem se considera a coisa que um movimento [político], fundado numa ideologia ranhosa que teve a sua piada como marginália para-literária com Simone de Beauvoir e depois, como a folha, caíu murcha e irreprodutível. É uma declaração de guerra à Universidade, uma caricatura de saber e um perigo que, a expandir-se, vai permitir atirar para o fogo tudo o que não compaginar com esse monstro cego. Sem dúvida, uma das maiores trapaças da história da cultura.Les sanglots longs des violons de l'automne blessent mon cœur d'une langueur monotone.Estamos a assistir à morte de tudo o que respeitavamos.



Charles Trenet: Verlaine

10 dezembro 2009

A minha Pai Natal preferida

Já a vi por duas ou três vezes promovendo produtos de beleza no centro comercial aqui da esquina. É a antítese do malfadado, plutocrático e rotundo Santa Claus, a negação da sacralidade do Natal, usado pela Coca Cola e fantoche das urban legends da parvalhização consumista. Esta, sim, é uma verdadeira Pai Natal. As tailandesas são, de facto, bem talhadas para mitos.

Portugueses com canhões de Waterloo fazendo guerra no Laos


Encontrei hoje relevante documentação tailandesa sobre a participação do Corpo de Artilheiros e Engenheiros Portugueses na cataclísmica guerra que os siameses moveram contra o Principado de Lan Chang (actual Laos) entre 1827 e 1828. Já tinha localizado algumas referências nas Lettres de Bangkok, do Padre Bruguière das Missions Étrangères, publicadas nos Annalles de l'Association de la Propagation de la Foi, mas documentos de arquivo do Palácio Real atestando a importância militar dos "soldados cristãos" permitem-nos dar um passo em frente na avaliação da importância que os luso-siameses tiveram nos exércitos siameses até ao terceiro quartel do século XIX. É outra página sobre a História Desconhecida dos portugueses na Ásia que se abre.

Ora, esses portugueses vivendo perto da Igreja da Conceição eram nada mais que o corpo de elite do exército. Não era, pois, nem gente sem preparação - para se ser artilheiro ou engenheiro militar é necessário saber-se matemática e balística - nem simples peões. Viviam separados da restante população, detinham foros e liberdades que os isentavam de trabalho braçal nas corveias reais e sabiam línguas (latim, português e inglês). Quando aqui vieram as primeiras missões diplomáticas britânicas, respectivamente nos reinados de Rama II e Rama III, a Grã-Bretanha dispôs-se modernizar os exércitos de Banguecoque mercê do fornecimento de armas ligeiras de fogo e, depois, peças de artilharia. O Sião foi, nas palavras do Phra Khlang (Ministro para os contactos externos) "inundado de armas pelos britânicos". Os siameses, contudo, delas não sabiam fazer uso adequado, pelo que os conselheiros britânicos investiram fortemente na formação tecnológica da minoria católica luso-siamesa. Com canhões que haviam servido Wellington em Waterloo, estes artilheiros aplicaram pela primeira vez no Sudeste Asiático a tecnologia de fogos concentrados, devastadores sobre exércitos que de tais armas não tinham, sequer, conhecimento. A guerra foi brutal. O Príncipe de Vientiane, Chao Anou, um homem de grande carisma, pensara poder unir os principados Laos e denunciar a vassalidade que o obrigava a enviar tributo anual a Banguecoque. Confiante, deixou de enviar o bunga mas aos siameses, sondou os britânicos para lhes solicitar protecção e iniciou a rebelião, invadindo território siamês, chegando às cercanias de Banguecoque. No momento derradeiro, o Corpo de Artilheiros Portugueses fulminou a investida. A retaliação siamesa foi brutal. Lan Chang foi riscada do mapa, a sua capital destruída até às fundações e a população, por inteiro, transferida para aquilo que é hoje o Issan, no leste da Tailândia.

Nessa primeira guerra moderna, coube aos portugueses a parte de leão. Integrados no Primeiro Exército Siamês no teatro de operações, forte de 85.000 homens e comandado pelo Segundo Rei, tinham por camaradas de armas outra minoria étnica cristã com sobejas provas de habilidade castrense: os japoneses católicos que haviam sobrevivido à tomada e saque de Ayuthia pelos birmaneses em 1767. Deixaram um rasto de destruição tal que, em 1880, os franceses ainda recolhiam memórias da "grande guerra" entre os anciãos laocianos. No fim, Chao Anou foi trazido cativo para Banguecoque, torturado e morto.

O importante disto reside no facto de não se tratar de acontecimentos do século XVI ou XVII. Trata-se de história contemporânea. Infelizmente, em Portugal, só se estuda a Ásia que os portugueses conheceram no tempo de Mendes Pinto e Camões. Uma pena, pois mal sabemos avaliar a importância que nestas paragens tivemos até há bem pouco tempo. A receita, então, é: investigar, investigar, investigar.

Bibliografia disponível:NGAOSYVATH, Mayoury; NGAOSYVATH, Pheuiphanh. Paths to Conflagration: fifty years of diplomacy and warefare in Laos, Thailand, and Vietnam, 1778-1828. New York: Cornell University Press, 1998

09 dezembro 2009

Desabafo anti-mafioso


Hoje celebra-se o Dia Internacional contra a Corrupção. Indignado fico até ao limite quando confrontado com a falta de respeito, o abuso de autoridade e ganância que as camarilhas - todas as camarilhas acolitadas nos partidos, mais lóbis e teias de influência, da direita como da esquerda - exibem perante as leis e regulamentos que estabelecem a indiferenciação dos cidadãos perante o Estado. A abstração e a universalidade da lei, a selecção pelo mérito, os direitos fundamentais e o acatamento das leis promulgadas deixam de valer o que quer seja quando nas mãos de gente que entende a coisa pública como propriedada sua. Para os amigos, o favor, para os outros, a lei. Paguei sempre caro não fazer lóbi, não ter cartão de partido, não carregar a mala do protector. Por isso, bati com a porta e saí. Um dia, talvez, a justiça se erguerá triunfante sobre um povo caído na escravidão. Sebastianista, pois claro, ainda acredito que na 25ª hora um sobressalto de liberdade moverá os corações e inteligências adormecidos e restituirá aos portugueses a cidadania confiscada, abusada e ridicularizada por todos os pequenos e grandes lóbis que nos reduziram a caricaturas.

08 dezembro 2009

Ir ao cinema com Vítor Alves e com a Condição Feminina





Sabe o Eduardo Pitta, que muito estimo e leio todos os dias, que não sou a favor nem contra o governo. No que à política partidária respeita, tenho o direito, após 35 anos, de duvidar de tudo e todos. Contudo, há coisas que ainda me deixam perplexo. O Eduardo anuncia hoje a nomeação de MJS para a direcção da Cinemateca. A MJS é, indiscutivelmente, uma mulher inteligente e culta, muito simpática, conversadora de talento e merecedora de convites desta natureza. Tomara que a maioria dos empregados políticos chegassem aos calcanhares da MJS.Mas eu esperava informação relevante sobre uma cinéfila. Mas não, só vejo um estendal de cargos políticos. É a outra fita que evito ver. Enquanto o regime confundir todos os planos e se mantiver no aquário autista, nada feito. Começo a compreender as terríveis advertências de Rui Ramos sobre a sorte que espreita esta III República. LA CINEMATOGRAFIA È L'ARMA PIU FORTE !


Mamma bisogna vincere (1942)

07 dezembro 2009

Eu ainda vivi na Pré-história: a criadagem


Nota prévia: ao contrário das sociologi[ces] e das "mitodologias", muito assépticas, muito bata-branca e luvas de poliuretano, a vida parece contradizer as racionalizações, acertos e julgamentos à posteriori, não passando aquelas, as mais das vezes, de simples anacronismos. Estas notas não são, pois, manifesto de qualquer visão do mundo, mas simples apontamentos do que vi. É importante o aviso, pois nos tempo que correm há sempre um censor à espreita.


Não havia família que se prezasse que não tivesse criados. Havia-os conforme o nível dos patrões. Em África, criada branca era um luxo, mas o luxo pagava-se caro. Era uma segunda patroa, a comandante dos criados, que por sua vez se estratificavam em moleques, mainatos e cozinheiros, estes últimos verdadeiros sobas que exerciam poder sobre os demais da sua raça. Os criados africanos tinham pedigree diferente. Uns eram uns verdadeiros príncipes, netos ou sobrinhos de reinetes e não se misturavam com os outros. O tribalismo separava-os em níveis distintos de respeitabilidade. Ninguém aceitava ter um M' Chope em casa, pois a casta especializara-se na arte de varrer as ruas das cidades. Trabalho só arranjavam nos serviços camarários. Um criado angoni ou vátua valia uma fortuna. Eram uma espécie de alemães de Moçambique: consideravam-se superiores aos outros, nunca recebiam ordens que não dos patrões e só aceitavam farda diferente.


Fardas, havia-as conforme o nível do criado: calção e camisa castanha alaranjada ou azul para os criados menores, calça comprida e camisa para criados superiores. No fim da era colonial, com o desafogo que se respirava, os criados superiores passaram a recusar farda e vestiam-se com o que de mais caro podiam comprar nos bazares. Tinha um criado que só vestia calças com boca de sino, sapatos de quatro andares e camisas de seda brilhante, isto para o trabalho. Quando saía para passear, levava óculos escuros - de noite como de dia - e transportava às costas um daqueles rádios de dez quilos e som poderoso que apareceram no princípio dos anos 70. A maquineta despejava em altos decibéis marrabentas e música sul-africana pop que se ouviam no quarteirão seguinte.


Depois, os criados tratavam de forma diferente as visitas da casa, conforme a posição que o seu juízo atribuía aos estranhos. Se eram "brancos de segunda" - vendedores, cobradores, "cravadores", como lhes chamavamos - entravam pela cozinha. Porta da frente, só para "senhores e senhoras". Quando o convívio interracial se tornou prática comum, os mistos tiveram problemas. Os negros odiavam os mestiços e não aceitavam que fossem "senhores e senhoras" como os "outros". Se fosse indiano, a cara fechava-se. Nunca vi tanto ódio negro acumulado e tanto ressentimento como aquele que era destinado aos indianos. Se a visita fosse negra, era um problema, um problema muito grave. Lembro-me que um dia o grande pintor Malangatana, amigo dos meus pais, lá foi a casa almoçar. O criado que servia chamou a minha mãe e impôs-lhe condições pouco menores que um ultimato: "se a Senhora me obrigar a servir este preto, vou-me embora". A razão era simples: Malangatana Valente era oriundo de um grupo étnico que o Augusto - Augusto Matavela, de seu nome - considerava inferior à sua pedatura, pelo que obrigá-lo a servir um inferior o sujaria.


O criado de primeira tinha um sonho: fazer a escola primária e ir trabalhar para uma companhia. No dia em que terminou a 4ª classe, o Augusto colocou uma mão dentro da camisa, outra atrás das costas e disse: "agora já sou Napoleão". Era um excelente homem e considerava-se um bom português. Discutia longamente com um vizinho, também criado, as lutas entre Dom Afonso Henriques e Dona Teresa, sabia de cor os reis e dinastias e cantava o tema de Lara com uma letra bem portuguesa: "Je-êe-sus Cristooooo, nasceeeuu'o em Belém". Um dia apareceu fardado. Tinha sido chamado para o Exército e foi cabo.


Dos píncaros da criadagem já falámos. Agora, havia outros, os qua iam para casa dos patrões e aí aprendiam o português. Tivemos um matulão de quase dois metros chamado Eugénio Lombé, mas insistia que lhe chamassem Eugéninho. Tinha a força de um tractor e de um Caterpillar juntos, nunca foi grande na arte das limpezas, nem dos cozinhados, mas era uma boa alma e de fidelidade quase inumana. Era um inocente, com um sorriso de orelha a orelha e a especialidade era levar os meninos à escola. Levava-nos - a mim, ao meu irmão Nuno e à minha irmã Ângela - todos juntos, um às cavalitas, os outros dois em cada braço. Força desta já não há.


O Eugéninho aprendeu o português por frases feitas. Ao princípio, soava a campaínha, ia à porta abrir e perguntava de chofre à visita, antes que esta tivesse tempo de perguntar fosse o que fosse: "boa dia senhor/a, não as deseja pão com doce muito gostosinho ?". Quando veio o 25, o Eugénio ouviu demais o que se propagava pelos bairros da periferia. A minha mãe perguntou-lhe: "Eugénio, se um dia pessoas más quiserem matar a senhora e os meninos, o Eugénio fazia mal à senhora e aos meninos ?". Resposta: "minha senhora, se eu matasse a senhora e os meninos, matava depressa para não fazer mal".

06 dezembro 2009

Muralha de aço e convicções protegendo o trono: 929 manifestações em simultâneo



As celebrações de ontem estenderam-se por todo o país e um pouco por todo o mundo onde existem comunidades tailandesas. Pela primeira vez, todas as confissões religiosas estiveram representadas ao mais alto nível no palco onde se concentrava o governo, os deputados, chefias militares e reitores de todas as universidades; ou seja, todas as potências do espírito e do serviço da comunidade ante a plutocracia da usura e da extorsão. Ainda hoje pairava sobre Banguecoque a monumental solenidade do acto de afirmação patriótica.

05 dezembro 2009

5.000.000 prestaram voto de lealdade ao seu Comandante

Inimaginável. Cerca de cinco milhões de tailandeses - estimativas do Khalahom, Ministério do Interior - concentraram-se hoje em todas as capitais de província e de distrito para prestar voto solene de fidelidade ao Rei. Depois do acto que ontem cobri para os meus leitores, decidi não participar na maior concentração desta jornada, que teve lugar em Sanam Luang (Terreiro do Paço) e fui a Sillom, uma das mais concorridas artérias comerciais de Banguecoque. O povo saiu em peso à rua. Eram milhares, dezenas de milhares em todos os cantos da enorme capital. No meu prédio, engalanado no exterior, elevou-se um trono votivo e os 200 moradores, com uma vela na mão, acompanharam as cerimónias transmitidas pela tv e cantaram o hino real. Depois, todo o país foi convidado a repetir o juramento de lealdade ao seu soberano: "lutar pela paz, pela prosperidade e pela união nacional até ao último suspiro", "defender o Rei, o povo e o Estado contra todas as forças apostadas em fomentar a sizânia e a mentira", "não deixar cair a bandeira e preservar a grandeza da nação, a felicidade do povo e a liberdade".

Para felicidade de todos, com muitas lágrimas de contentamento, o Rei abandonou o hospital e dirigiu-se no seu carro escoltado por motorizadas da Guarda Real até à Sala do Trono, onde proferiu importante discurso. No caminho, centenas de milhares de tailandeses de todas as condições prostraram-se à passagem do seu Rei e elevou-se repetido um coro de votos de boa saúde ao homem que na paz e na guerra é considerado o pai e o garante da preservação da independência. Às dezanove horas, por todo o país acenderam-se milhões de velas, cada uma um coração reconhecido. Foi comovente e grandioso. Não tenho palavras. A Europa tem muito que aprender para reconquistar o orgulho, a verdadeira cidadania do serviço e do dever, deixar-se de queixumes e acreditar no futuro. Como não sou budista, rezei a oração que me ensinaram em miúdo. O "não nos Deixeis cair em tentação, mas Livrai-nos do Mal" ganhou todo o sentido.
O meu prédio engalanado. "Song Phra Charoen": longa vida para o Rei.

O altar de minha casa.


04 dezembro 2009

A força do Rei é a força do povo


Hoje fui colhido de surpresa. Pelas quatro e meia da tarde, aviões de reconhecimento da Força Aérea Real sobrevoaram insistentemente a zona onde vivo. O céu estava listado com o rasto de fumo azul, branco e vermelho que os aparelhos despejavam. Depois, voltavam de novo e libertavam uma esteira de espesso fumo amarelo dourado, simbolizando a bandeira real. Do Estádio Nacional, que se situa a menos de duzentos metros do meu prédio, ecoavam em intensidade crescente cânticos patrióticos, vivas ao Rei e à nação, bem como o rufar de tambores.



Agarrei na máquina fotográfica e saí correndo de casa. Só no curto trajecto me dei conta que hoje, véspera das grandes manifestações patrióticas que amanhã celebrarão o aniversário do Rei, tinha lugar o encerramento da campanha de 76 dias de comícios em homenagem à bandeira, ao hino e ao Rei, que aqui tenho oferecido com regularidade ao conhecimento dos meus leitores. Foi difícil entrar no estádio. Uma massa compacta de gente de todas as idades tentava entrar no grande recinto por duas portas atentamente vigiadas por forças de segurança. Lá fora, ainda tirei meia dúzia de fotos a jovens das escolas secundárias das redondezas. Uma simpatia vibrante, muitos sorrisos e palavras de ordem repetiam-se como um mantra patriótico: "Raw Rak Náy Luang" (nós amamos o Rei) e "Chayô Chayô, Chayô" (vitória, vitória, vitória).


Galguei as escadas íngremes e entrei para uma das bancadas. Faltava hora e meia para a cerimónia do hino e o estádio estava completamente cheio. Milhares de bandeirinhas nacionais e bandeiras amarelas do Rei agitavam-se freneticamente. No palco, uma banda executava o Rak, Khon Thay (amar o povo thai), um clássico do nacionalismo tailandês dos anos 40. Pelas cinco da tarde, o primeiro-ministro Abhisit Vejjajiva, a nova coqueluche de popularidade das massas, entrou na companhia do governo. Foi um estrondoso e demorado aplauso que se prolongou por cinco minutos. Uma senhora de idade, trajando o uniforme das milícias rurais, disse-me: "este jovem [o primeiro-ministro] faz-me lembrar o nosso Rei há quarenta anos". Com efeito, o líder monárquico tailandês já bate em todas as sondagens o proscrito Thaksin e introduziu um estilo de governação que prefere o diálogo à demagogia. É filho, neto e bisneto de uma família sino-tailandesa que serve a coroa desde o século XVIII e vai, lentamente, afirmando-se e conquistando o coração das pessoas. Abhsit não dá motocicletas, nem telemóveis, não paga excursões; ouve, senta-se com os camponeses, veste-se como eles e tenta compreender os problemas. A Tailândia saíu, decididamente, do torvelinho da crise política.




Entre o público presente, talvez umas 50.000 pessoas, destacavam-se as escolas e universidades, que encheram o relvado do estádio, mas também deputações das forças de segurança do Estado, dos sindicatos e confederações profissionais. As famílias vieram por atacado, com avós, irmãos, filhos e netos, numa gritaria de exaltação patriótica espontânea quase impossível de transmitir. A cada delegação que entrava precedida por enormes estandartes, um ulular tão forte que me feria os tímpanos. A Tailândia está bem preparada para o embate com a plutocracia. Aqui vive-se um patriotismo tão entranhado e genuíno que as sereias da desordem e do caos, da demagogia e da luta de classes têm enorme dificuldade em penetrar esta blindagem de ordem e união.

Nos rostos dos idosos lê-se admiração e reconhecimento pela obra do Rei. É gente que acompanhou, desde 1946, a lenta e difícil ascensão e consolidação do prestígio da casa real, que foi testemunha das tremendas batalhas pelo desenvolvimento económico, pela difusão do ensino e afirmação da cidadania, o triunfo militar sobre o comunismo e recentemente a consolidação da democracia. É gente que comunga crenças religiosas distintas, que fala línguas e dialectos diferentes, que possui diferentes tradições regionalistas. Ao longo dos últimos meses, desde que o Rei adoeceu, verifiquei que as minorias - católicos, muçulmanos, hindús, sikhs - amam o Rei de forma tão intensa como a maioria thai budista.


A maioria dos presentes envergava a camisola rosa, pois hoje, sexta-feira, é o dia rosa. Para cada dia da semana há uma cor propiciatória, mas qualquer que seja a cor, estampadas sobre o peito, estão as armas reais da dinastia Chakri. Aqui, o patriotismo está para a sociedade como o Budismo para os indivíduos: não se pode viver fora da comunidade, tal como os animais da floresta, sem aqueles valores que são arrimo da integração social e da unidade do Estado. A busca da salvação individual pelo mérito, essa recai sobre cada um. Aqui, a religião não é coerciva, não se funda em qualquer dogmática, não vigia nem pune os indivíduos; entrega-lhes a responsabilidade de serem, cada um por si, os artífices do seu destino.



De marcha patriótica em marcha, o ambiente para o grande momento foi-se transformando em liturgia. A noite caia e minutos antes das seis, hora a que os thais param e entoam o hino, a banda tocou a marcha que marcou estes últimos 76 dias de maratona patriótica. De repente, silêncio absoluto. O gongo tocou e a voz de uma locutora dominou o estádio: "wella sip pét nariká" (quando soam as seis da tarde). O hino nacional foi cantado em plenos pulmões. O primeiro-ministro entoou-o com grande desembaraço e a multidão seguiu-o. Depois, cantou-se a marcha dos reis e, por fim, o hino real. Cada um acendeu uma vela. O estádio transformou-se numa constelação. O céu encheu-se com as explosões muticolores de fogos de artifício e o acto de afirmação patriótica terminou. Mais um grande dia. O patriotismo é como a missa: tem de se celebrar todos os dias. As canções patrióticas constituem poderoso agente de exaltação patriótica, pelo que aqui não há criança que não conheça umas boas centenas. A este reportório cham os thais "Pluk Jáy", o que quer dizer "semear o coração".



Há coisas que estão para além da esfera da política, que não podem ser apoucadas e infamadas, por serem substância da vida comunitária e da liberdade individual e colectiva. Aqui não passou, por ora, o criticismo esterilizador, a maledicência e destruição das exemplares referências que alimentam a vontade de viver em partilha. Aqui, ao contrário de muitos países, o Estado não declarou guerra à cultura, à história e ao patriotismo do povo. Os thais sentem que passaram um mau momento, que aqueles que traziam a parvalhização plutocrática estiveram a milímetros de tudo destruir. Finalmente, a maré da nova barbárie do dinheiro estatelou-se contra a muralha de corações e regrediu. Hoje comemorou-se essa vitória. Amanhã, pensa-se que acorrerão dois milhões de pessoas à grande concentração em homenagem ao Rei. Com esta gente, a plutocracia não faz farinha ! Aqui, o povo é livre porque encontrou no Rei a força da maioria contra a minoria do dinheiro e das negociatas.