03 janeiro 2009

No Corta-Fitas, um lamentável equívoco



O caríssimo Tiago Moreira parece ter ido beber ao panfletarismo republicano tardo-Oitocentista para reunir dois argumentos hoje absolutamente indefensáveis:

1. A monarquia é um privilégio familiar. Argumento movido pelo acicate do despeito, desconhece que a monarquia não é o Rei, que se submete a leis e a um juramento de serviço sem o qual não é investido. De facto, na constituição histórica como no liberalismo, o Rei é imputável e responsável pelos seus actos, no exercício de funções ou fora delas. Um Rei que não cumpra as suas obrigações ou não se submeta às disposições constitucionais e à herança consuetudinária é substituído através de mecanismos de substituição (vide D. Afonso VI, v. Eduardo VIII). O filho do Rei será Rei se, e apenas se, aceitar a incumbência no respeito pela constituição. Os regimes ditatoriais sentiram a tentação de manipular o princípio da primogenitura régia e a introdução de um princípio electivo, como aconteceu na Itália fascista. Os fascistas queriam que a sucessão fosse aprovada pelo Grande Conselho do Fascismo, pois o Príncipe Humberto de Sabóia não era fascista e constituía um travão à expansão do programa totalitário de fascistização da Itália. O "republicanismo fascista" nasceu, assim, da compensação de, não podendo domesticar a monarquia, substituí-la por uma chefia de Estado agrilhoada. A monarquia, forma não democrática de escolha e sucessão da chefia do Estado é, assim, o melhor garante da Liberdade colectiva e de uma chefia de Estado independente e imparcial. A monarquia é caução de democracia.


2. A "monarquia absolutista". Sabe o caríssimo Tiago Moreira que tal "monarquia absolutista" jamais existiu e foi cunhada a posteriori pelos partidários da Revolução. A "monarquia absolutista" é tão inexistente como o "Despotismo Esclarecido", pois nunca tratadista algum do século XVIII usou tal conceito para defender o princípio da superioridade monárquica. Antes pelo contrário, "o tal absolutismo" estabeleceu a "indiferenciação dos súbditos perante o Rei", abrindo portas para a superação da sociedade de ordens e a aceitação do princípio da ascensão pelo mérito, que funcionava, de facto, em França nas vésperas da Revolução.
Um lamentável equívoco, quando nos lembramos que até a mais vilipendiada figura da história do Portugal Contemporâneo (D. Miguel) teve de mandar reunir cortes - as primeiras desde 1683 - para se proceder à sua aclamação como Rei de Portugal, quando D. Pedro "IV" se limitou a conquistar o trono pelas armas e impor uma Carta sem ouvir os representantes da nação. Podemos tomar partido emocional pelos miguelistas ou pelos pedristas - movimento absolutamente insignificante como inconsequente - vendo no primeiro o catalizador de "ideias antigas" e no segundo o advento de uma nova idade. Contudo, não se pode deixar de encarar a ideia de realeza de D. Miguel no momento em que assumiu o desafio de lutar pela lusitana antiga liberdade como absolutamente honesta e coerente com a ideia de um pacto com o seu povo, que D. Miguel quis restaurar.
Lembraria igualmente que os "reis absolutos" franceses (Luís XIV, Luís XV e Luís XVI) não podiam quebrar os foros e privilégios das províncias, comunas e cidades livres, tendo até, de pedir autorização aos deputados e representantes dessas unidades territoriais o direito de passagem e pernoita. Foi o Estado codificador, legislador, centralizador e confiscador dos direitos, liberdades e privilégios, o Estado do jacobinismo, que impôs o soberanismo radical, a ideia de um ente moral distinto dos homens que Samuel Pufendorf anunciara, de um indutor da "Vontade Geral" com que Rousseau resolveu o problema da pluralidade e a antecâmara do totalitarismo, ou seja, da apropriação dos indivíduos e da sociedade por uma ideia abstracta(Amendola). O absolutismo existiu, de facto, mas sob a república de 1793. Depois, chamou-se nacional-socialismo, comunismo e, até, democracia, tal como transparece da agressividade de alguns intolerantes da tolerância que julgam que a democracia, mais que a aceitação da soberania popular e um método, é um dogma.

Vexilogia sul-americana em Tintim

República de San Teodoro

República de San Rico

República de Nuevo Rico

02 janeiro 2009

A América do Sul é uma delícia


Polca General Stroessner

Dos fascismos e socialismos karaoke


Anda meio mundo encantado com o Che em celulóide. O ícone não resiste ao modelo: o verdadeiro Che era um gorducho malcheiroso e impante, agressivo e cruel, um outro Castro que falhou e morreu sem realizar a distopia concentracionária na Bolívia. Outro meio mundo delicia-se com o dedo em riste e as atabalhoadas baboseiras e discursatas do nababo de Miraflores, um Mussolini de pacotilha sem a verve e o encanto do original. Mussolini era um portento na oratória e cometeu a proeza de fazer a decantação do machismo, tornando-o doutrina política; o tiranete de Caracas tem vergonha da palavra ditadura e vai passar como todas as sezões dos fenos. Depois ainda há o pobre de espírito andino e o ex-bispo Lugo do Paraguai, da tal Teologia da Libertação que nunca ninguém conseguiu explicar exactamente o que era, mas que todos sabemos ser o marxismo mais infantil enrodilhado nas sotainas e incensos da geração ki-kiri-ki-ki do "trás uma viola e um amigo também". Este friso de encantos fanados monta-se sobre a lembrança da maior confusão montada sobre pernas que deu pelo nome de Perón, o homem que agarrou numa Argentina rica e deixou-a num farrapo. Nessa confusão desastrosa só escapa Isabelita, que foi estóica e deu um toque de "social-democracia fascista" ao movimento justicialista. Só na América do Sul !

É mais que evidente que a esquerda e certa direita confundem romantismo político, poder personalizado e liderança trágica e temerária com figuras e regimes de ópera bufa. As pessoas pelam-se por protectores e por um Estado que lhes dê ordens, as vigie, puna e alimente. Por um emprego sem atribulações, pelo enquadramento em fileiras sentem-se resguardadas, pelo policiamento e pelo bufismo que se lhes outorga sentem-se fortes. É dessa força dos pequenos e Zés Ninguém que se nutrem as tiranias do fascismo e socialismos karaoke da actualidade, já sem o estadão dos velhos fascismos e do estalinismo. Esses até chegavam a ter alguma grandeza cenográfica, estes são coisas ordinárias, roçando o canalha, argamassam-se sobre recalcamentos micro-burgueses e suburbanos de sociedades privadas de elites tradicionais. As versões remix da actualidade são tão pobres, tão inconsistentes e medíocres que só apelam a um tipo de pobres: os pobres de espírito.
Ao pé de deles, Pinochet e Stroessner são figuras quase clássicas, da mesma lavra dos Péricles e dos Cincinato.


Marcha Peronista

01 janeiro 2009

O único homem livre da Birmânia


A estupidez inteligente e as vozes informadas só se referem a Aung San Suu Kyi quando se trata de apresentar o rosto de uma Birmânia em luta pela liberdade e pelos direitos civis. Se Aung San Suu Kyi é filha e herdeira política testamentária de Aung San - ex-comunista convertido à variante japonesa do fascismo, cavaleiro da Ordem do Sol Nascente por imposição directa do imperador Hirohito, em 1943 - há um outro homem em Yangoon (Rangun) que inspira terror à ditadura militar. Trata-se do príncipe Tan Paya, neto do rei Thibaw, último da dinastia Konbaung, afastado do trono pelos britânicos em 1885, no rescaldo da terceira guerra anglo-birmanesa e enviado para o exílio na Índia, onde morreu quase na miséria em 1916.


Se a activista anti-regime pode ser retida em prisão domiciliária, os seus partidários mortos, espancados ou atirados para o exílio, num príncipe de sangue ninguém se atreve tocar. O ancião diz o que pensa num país onde pensar é quase um delito, deliciando-se quando afirma, referindo-se ao estado degradante de controlo a que chegou o país que "se alguém dá um flato cá em casa, há sempre alguém que leva a nova à Junta Militar". Os militares temem-no, pois Tan Paya é um símbolo de uma velha Birmânia pré-colonial onde o rei era tido como um deus vivo. Cometer o sacrilégio de atentar contra a vida de um homem com tal árvore genealógica é caminho certo para uma reencarnação descendente, pelo que os generais fingem não compreender este homem que se recusa vestir como um colonizado, recebe em sua casa jornalistas ocidentais, se recusa prestar fidelidade à constituição e se refere à Birmânia como "o meu país". Os tiranos abominam os reis, que lhes lembram a sua insignificância passageira, mas raramente se atrevem tocar-lhes. Só nós, portugueses - ou antes, "eles", os tais que tinham 5% em 1910 - quiseram resolver o destino do país matando o Rei na praça pública. Ou seja, neste particular, os republicanos portugueses excederam largamente o atrevimento homicida da Junta Militar birmanesa.


Se a Europa e os EUA quisessem, verdadeiramente, acabar com o drama birmanês, já o teriam retirado do país, reconhecendo-o como legítimo representante de Myanmar. Mas não, eurocêntricos, ferozmente adversos a qualquer tradição, só pensam numa Birmânia democrática que nunca existirá.

31 dezembro 2008

Manjares do Sião no 31 de Dezembro




O meu Ano Novo já passou. Andei por Banguecoque na companhia de dois amigos, ele um grande pintor português - dos mais conhecidos - ela uma militante do associativismo cultural. Gente viajada, educada e muito lida, daquela com quem se pode passar um dia inteiro sem darmos conta do passar das horas. Acabou a jornada no belo restaurante de um hotel de referência. Pela decoração, só me ocorreu o Jansenista; pelo opíparo jantar - coisa verdadeiramente barroca, regada por vinho italiano e champagne estonteante - lembrei-me do saudoso Je Maintiendrai, que lá pelo Oriente Médio terá já tido a sua conta de Sardanápalo. Falou-se do Oriente: dos portuguet de outrora, de vice-reis de montante na mão, da língua franca portuguesa na Ásia dos séculos XVI a XIX, dos fastos de outrora. Regresso cedo a casa, pois os meus amigos partem amanhã cedo para o Camboja. As ruas estão cheias de gente que se diverte, pula e fotografa as esplendorosas decorações da quadra. Uma banda toca incessantemente marchas alemãs e americanas. É Banguecoque, a que vicia ao primeiro contacto. Apanho uma motocicleta táxi, para melhor fintar o trânsito. O homem pergunta-me de onde venho. Digo-lhe Portugal e ele só diz: "o país do futebol". Antes isso, não me fosse falar de coisas menos agradáveis.
O segundo fim de ano fora da pátria, mas com portugueses por perto. Confesso que me faz falta o meu país, que tanto amo e me repele como um amante desprezado. No próximo ano há mais.

30 dezembro 2008

Aqui não há prémios nem bonecas de barro tosco



Cheguei a aderir à moda, pois pensava que seria um inocente gesto de cortesia, como as prendas que damos a meia dúzia de pessoas pelo Natal. Mas não, isto na blogosfera está-se a transformar num clube do elogio recíproco. Os "grandes" condecoram os "grandes", os pequenos prestam vassalagem aos grandes oferecendo-lhes ditirâmbicos que tocam as raias da humilhação - "dou-te uma cruz de lata" (daquelas da União Zoófila que os de quatro patas exibiam nos tempos das zoonoses), "por favor tem a magnanimidade de me referir". Os povos das montanhas tinham, no Sudeste Asiático, o costume de enviar todos os anos à capital do seu protector umas arvorezinhas de prata e ouro. Os mais pobres, enviavam uma safra de raparigas púberes para o harém do rei, mais meia dúzia para distribuir pelos príncipes. As tribos paupérrimas enviavam arvorezinhas em argila, mais bonecas de palha com os trajos do seu povo. Na nossa blogosfera, o valor desses elogios é comparável às bonecas de palha ou às árvores em barro tosco; ou seja, nulo. O bom deve ser premiado, o mau deve ser pudicamente evitado. No fundo, este medium de liberdade só espera com ânsia o dia em que subirá ao papel para se rojar aos pés de ministros e presidentes. Compreendo a prostração ante o Altíssimo, seja na Meca, em Jerusalém ou em Roma, como a respeito perante o Rei que aqui é avatar de Vishnu. Não me passaria pela cabeça fazer o sajdah ante um ecrã de computador. Aquilo que é bom sabe que é bom; o que é mau precisa de prémios. É moeda contrafeita, mercadoria enganosa. Assim acabamos o ano.


Guarania Sinfónica. Nemity ((J.A.Flores / C.F. Abente)

O serial killer prepara-se para atacar de novo


Pois, tanta alegria encomendada, tanto espumante e tanto champagne, passas e desejos formulados. É já amanhã. As pessoas vão tilintar copos, correr para a varanda para gritar "vem, que nos tragas melhores dias e felicidade", mas ele, no escuro impenetrável, cego, perpétuo, só sabe que temos os dias contados. É o tempo, o único serial killer, o que nos permitiu viver e que um dia nos tragará para o vórtice. Tudo o resto, é esbracejar infantil para iludir o inevitável. Divirtam-se, pois já não falta muito.


Big Ben, 1890

29 dezembro 2008

Livros: amor, guerra e desgraça de uma mulher fatal



Eliza Alicia Lynch era uma beldade loura fugida à fome que assolara a Irlanda nos anos 50 do século XIX. Chegada a Paris na miséria, teve a desventura de conhecer o jovem Francisco Solano López, filho do presidente paraguaio então em digressão pela Europa em busca de engenheiros siderúrgicos, militares e ferroviários. O Paraguai, a mais próspera e progressiva nação sul-americana, possuia uma população com elevado índice de literacia, resultado do esforço das reduções jesuíticas em criar uma república nativa livre das oligarquias terratenentes brancas que na foz da Prata se haviam emancipado de Madrid. Francisco era um homem de encantos vários e dizia-se que seria um dia o grande estadista e espada vitoriosa que velhas profecias guaranis anunciavam. A paixão recíproca levou-os à mais fantástica aventura. Ele não mais a abandonou, ela instilou-lhe sonhos de glória militar e expansionismo militar. Ditador por herança paterna, Francisco lançou-se numa guerra que se prolongaria por cinco anos e no rescaldo da qual, invadido pelos exércitos brasileiro, argentino e uruguaio, o povo guarani do Paraguai foi exterminado e o país reduzido a escombros. De derrota em derrota, de retirada em retirada, Eliza manteve-se até ao fim ao lado daquele que o seu povo crismara de Napoleão da América do Sul. É esta a história ficcionada desse amor de perdição que me chegou às mãos por um amigo e li em quatro noites. De facto, para além da religião, só o amor e a política são capazes de levar os homens à loucura.

Bajo el Cielo del Paraguay (Alberto de Luque)



Que linda es mi bandera

Bandera de mi patria tan querida,
bandera de mi cielo guaraní.
Emblema sacrosanto de mi vida
sabremos defenderte hasta morir.
Enseña tricolor de mis amores
en ti se representa mi heredad,
el rojo simboliza la justicia,
el blanco la paz y el azul la libertad,
Qué linda es mi bandera paraguaya
a su sombra generosa sueño la felicidad,
En el escudo ostenta un gorro frigio,
Dice Paz Y Justicia y un gallardo león.
En el reverso la palma y el olivo,
La estrella de bonanza simboliza mi nación
Los López contemplaron orgullosos,
surcar en el progreso tu flamear.
El Mariscal de acero dio su vida
defendiendo hasta la muerte
a su amado Paraguay.
El temple de tus hijos, mi bandera,
fornará la linea plena
a mi hermoso Paraguay.

Carmelinda Pereira e Isabel do Carmo na Tailândia



Lembram-se das Base-FUT, dos PR-PBR, do POUS, da LCI, da CLARP, da FSP, URM-L, dos VAF que em 1976, passado o 25 de Novembro, ainda exigiam lutas, ocupações, "grandes jornadas", angariavam abaixo-assinados e sonhavam com uma revolução redentora ? Eram os retardatários inconscientes do PREC, a tropa miúda que tivera dois minutos de fama num país feito manicómio e que não queriam largar mão da anormalidade em que haviam prosperado precipitando-nos no ridículo. Essa militância, talvez a mais idealista - pois que os mais avisados carreiristas se haviam passado para portos de abrigo mais apetecíveis como o PS e o PSD - fazia-se de muita ingenuidade e até sacrifício. Desconhecendo que a grandes perturbações sucede um período de restabelecimento das coisas futéis que fazem a normalidade, ter-se-ão sentido ultrajados por já ninguém lhes prestar atenção. Os portugueses trocaram então Enver Hoxha, Mao, Pol Pot, as fitas das bailarinas guerrilheiras chinesas da Ópera do Povo, os poemecos de José Mário Branco, as brochurazinhas da Editora Vento Leste, as sessões de esclarecimento sobre as comunas de Qingthai e Yunnan pela Gabriela Cravo e Canela, pela Visita da Cornélia, pelo Porto-Benfica dos domingos ou, simplesmente, regressaram a Fátima para pedir uma graça ou ao Coliseu para escutar Amália.


Pois bem, tal como no Portugal pós-PREC, aqui pela Tailândia também há gente que julga que a balbúrdia pode e deve continuar. Esgotados por tanto comício, por tanta barricada, jornais de parede, os tailandeses só falam de filmes, projectos de fim-de-semana, do último perfume, do CD acabado de sair. Os "vermelhos" pró-thaksinistas querem repetir, já sem graça, o mini-PREC ao contrário que aqui se passou ao longo de meses e que culminou com a ascensão ao palácio do governo de um ministério monárquico, sereno e de acalmação. Se nos próximos dias de novo ouvirem coisas abracadabrantes sobre a Tailândia - cargas policiais e gás lacrimejante, barricadas e outras picardias - não temais, pois são os últimos cartuchos de um processo que está encerrado. É o último grito de quem perdeu e sente o chão abrir-se sob os pés. São, eventualmente, os melhores entre os fiéis de Thaksin, agora um mero gurú que parece só reunir aqueles que nada têm a perder. A polícia vai tratar do assunto e nos próximos dias nada restará desta arremetida desesperada. Venham, pois, à Tailândia. Não há nada: é só fumaça ! Estamos em Thermidor, já ninguém quer saber de política de rua.