19 dezembro 2008

A arrogância de certos "Direitos Humanos"


Ontem passei o dia na biblioteca da Alliance Française, cuja colecção oferece-me possibilidade de aceder a obras inexistentes nas bibliotecas que frequento. À saída, dei com uma exposição fora de muros - sim, fora do perímetro, para os transeuntes - em thai e francês com o enunciado da declaração dos Direitos do Homem encimada por fotos alusivas a cada passagem do longo articulado. Pois, a França - por antonomásia a Europa - a querer dar lições aos pobres thais, a fixar-lhes as condições, dizendo o que se pode e não pode fazer, o que é lícito e ilícito, como devem proceder e que tipo de regime se coaduna com a universalidade daqueles nobres príncipios, os tais que todos apregoam conquanto só os outros os devam aplicar. Procurei, procurei, mas não havia ali qualquer alusão ao respeito devido às tradições culturais distintas da europeia, ao direito à identidade e à especificidade das politéias não europeias, às instituições que os Estados jamais colonizados devem preservar. A nobre declaração esquece-se que o texto inspirador de tal Carta Universal foi copiada da Déclaration des Droits de l'Homme et du Citoyen, depressa transformada em programa pelo Club des Cordeliers, que precipitou a instauração do Terror, em 1792. Esquecem-se os preclaros amigos da humanidade que tal texto instaurou em toda a linha a soberania da Nação, quer dizer, fez tábua rasa das liberdades regionais e comunais, aboliu a inviolabilidade dos espaços sagrados, abrindo-os à polícia, tornou os indivíduos objecto da soberania do Estado, dos seus tribunais e comissários. Nunca texto algum foi mais prostituído como aquele. Como quase sempre, as mais inspiradas explicações a ocultar os mais sórdidos propósitos.
Tenho para mim que a Declaração, para os thais, como para outros povos, nada acrescenta àquilo que se encontra há muito fixado nos principais textos budistas. A noção de "direito" é aqui entendida de forma distinta. Não há, no budismo, uma teoria dos direitos, mas uma teoria das relações correctas entre homens, uma Ética Global. Como refere Inada, os "direitos humanos" são extensão da natureza humana, do bem como força de destruição do mal, da evitação do sofrimento, da paz interior que projecta a paz social. Assim, para os budistas, tal impulso para o triunfo do bem não diz apenas respeito à dimensão social e política da existência, mas a todas as relações, interiores como exteriores, do homem consigo mesmo, com os outros homens e com a natureza. Esquecem os "philosophes" que o budismo apresentou em uníssono todos esses "direitos" fixados em Cartas Universais pelo Ocidente, quase dois mil anos antes daquelas encontrarem aceitação entre nós: aqui há "Direitos do Homem", "Direitos da Mulher e da Criança", "Direitos dos Animais" desde que o Iluminado iniciou o ensino do Dharma. Por tal razão, a teoria política budista exclui a ideologia, pois não pode haver pensamento político fora do bem. Em vez de se preocuparem com "as visões da sociedade", com as "mudanças sociais" e com a engenharia das instituições que melhor servem o homem, os budistas encaram-nas como simples e pobre extensão da revolução interior que se opera em cada homem. Tudo está e tudo depende do homens; não há "humanidade" mas homens singulares em busca da perfeição.

18 dezembro 2008

Um Senhor como Primeiro Ministro / นายกรัฐมนตรีของเมืองไทย




Acabou a bagunça, como aqui disseramos há duas semanas. A Tailândia viu partir ministros de terceira ordem e restaurou a confiança no normal funcionamento das instituições. O novo primeiro-ministro Abhisit Vejjajiva prestou juramento ao Rei e a vida regressou à normalidade. Hoje apercebi-me que os turistas voltaram em força, enchendo ruas e lojas. As pessoas com quem falei mostram-se aliviadas. Vejo, de novo, o sorriso thai por todo o lado. A Tailândia aprendeu a lição. O novo governo anunciou, como prioridade, destruir as causas que levaram à vaga populista, demagógica e cesarista corporizada por Thaksin. A plutocracia não passou, não foi necessário golpe de Estado e a democracia saíu mais forte. Que assim seja, sempre. Aos pés do retrato do Rei, o primeiro servidor do Estado presta homenagem ao maior servidor da Nação. Em suma, a hierarquia natural das coisas: o Estado ao serviço da Nação. Dignidade restaurada. Queriam brincar, experimentar a fortaleza da monarquia, impor um facto consumado e acabou-se. O dinheiro vem e vai, pagando, corrompendo, encomendando parangonas, espalhando rumores e intrigas. Aqui fez mossa, mas acabou derrotado. Que assim seja, sempre.


"Somos thais de todo o coração"

Bangkok: a Veneza do Oriente em grandiosa exposição (2) / กรุงเทพมหานคร งานศิลปะ และ ประวัติศาสตร์


A Banguecoque clássica - programa urbanístico e monumental com declarada intensão restauracionista vazado de Ayuthia - terminou no último quartel do século XIX, quando a macademização, a recepção do urbanismo e edificação de estilo ocidentais se sobrepuseram. O Sião conheceu transformações económicas e sociais aceleradas durante os reinados de Rama V e Rama VI. A construção do Estado moderno estava praticamente realizada, sustentada pela ideologia de uma via siamesa para a autocracia (desenhada a partir do modelo russo dos últimos Romanov e pelo Raj britânico sobre a Índia), mas também pela crescente afirmação do nacionalismo.

Em 1932, um golpe militar e o anúncio da imposição de um regime constitucional, abriu novo capítulo na história do país. O novo regime, nascido com a aprovação do Rei Rama VII, depressa deixou revelar as suas verdadeiras fontes de inspiração: as ideologias da modernidade então prevalecentes no mundo entre-guerras, ou seja, o comunismo e os fascismos.





No fim dos anos 30, os novos dirigentes do Sião, vendo na preservação da monarquia um forte bastião reactivo à escalada totalitária que subscreviam, impuseram uma regência e precipitaram a saída e abdicação de Rama VII, que morreria no exílio na Grã-Bretanha em 1941. O país, agora regido pelo filo-fascista Phibun Songkram (พิบูล สงคราม), transformou Banguecoque no centro de experiências de duvidoso alcance e resultado, aplicando nas obras públicas um programa cujo objectivo era o de exibir o nascimento de um Estado-nação étnica e linguisticamente homogéneo. As minorias foram confrontadas com sistemático programa de nacionalização compulsiva, os siameses submetram-se à brutal política de "thaificação" - paradoxalmente, o novo regime aboliu os trajos tradicionais, impondo a ocidentalização como conquista da "civilização" - e desenvolveram a mística nacionalista mercê da uniformização, inculcação ideológica, mobilização e propaganda. Em 1940, com o colapso da França ante Hitler, o Sião mudou de nome e passou a chamar-se Tailândia. Os exércitos tailandeses iniciaram uma guerra com a Indochina Francesa, atacando o Camboja para a recuperação dos territórios da margem esquerda do Mécongue, outra vassalos do Sião. Em 1941, o país declarou guerra aos EUA e permitiu a passagem do exército japonês nos ataques à Malaia britânica e Birmânia.


O programa de obras públicas de Phibun marca, ainda hoje, os grandes nós rodoviários da capital. Os monumentos-praça da Democracia, mas sobretudo o Monumento à Vitória (Anusawari Chai Samoraphum, o único existente no mundo em memória da vitória do Eixo), foram encomendados a arquitectos e decoradores italianos residentes na Tailândia e são, sem tirar nem por, verdadeiras obras de arte fascista com colagem de símbolos siameses.



Severamente bombardeada pela aviação Aliada, Banguecoque renasceu dos escombros nos anos 50. Agora cidade alinhada com o Mundo Livre, com os 3 biliões de dólares recebidos dos EUA para se apetrechar de infraestruturas necessárias a uma grande capital, foi rectaguarda logística e de divertimento para centenas de milhares de GI's durante o conflito vietnamita. Deste tempo marcado pela procura de paraísos artificiais, nasceu a indústria de divertimento nocturno, hoje uma sombra do que tará sido nos anos 60, 70 e 80, com os seus bordeis, "ago-go" bares, cabarés, salas de massagens e hotéis de curta permanência. A Tailândia deixou para trás o subdesenvolvimento. A consolidação económica, a industrialização, o nascimento de uma classe média urbana com necessidades de consumo e lazer, resultado da era do desenvolvimentismo a todo o custo que marcaram os regimes militares após Sarit Dhanarajata , converteram-na numa Meca do turismo exótico, com os hotéis de luxo, as grandes superfícies comerciais, os parques e indústrias temáticos fixando "a verdadeira atmosfera thai" (Rose Garden, Jim Thompson House, Snake Farm), a que se juntou, depois, o incentivo governamental a festividades tradicionais ameaçadas pelo desenvolvimento. Banguecoque passou também a emblematizar o caos rodoviário, com interminável congestionamento automóvel, poluição galopante, anomia e desorganização resultantes da chegada de milhões de camponeses em busca de melhores condições de vida. Os últimos anos têm assistido a importantes melhorias. A criação do Metro de Superfíce e do Metropolitano, a limpeza e pintura sistemáticas das fachadas, centrais de tratamento de efluentes e resíduos sólidos estão a dar uma nova cara à capital. As preocupações ambientalistas, muito estimuladas pelo Rei, desencadearam o surgimento de muitas organizações cívicas que se vão impondo aos interesses de construtores e especuladores. Banguecoque muda todos os dias, mas fica sempre Banguecoque.





Contudo, para os budistas, o tempo é ilusão: tudo passa, tudo morre, tudo está condenado ao esquecimento. Tal como Sukothai e Ayuthia, ontem grandes capitais siamesas, hoje meros parques arquelógicos, Banguecoque sabe que um dia também desaparecerá, tragada pelas águas ou pela luxuriante natureza. Dou comigo cada manhã, do meu apartamento num 20º andar no centro da zona comercial, a seguir o voo de corvos, das aves de rapina e dos grandes morcegos. Ao descer, nos galhos das árvores saltam esquilos, ratazanas maiores que gatos regressam aos interstícios da terra, cobras de anéis brilhantes e coloridos apanham os primeiros raios de sol. Banguecoque, quando deixar de o ser, ilustrará a vã ilusão do homem em viver para a eternidade.


Paz, Desenvolvimento e Liberdade, canção em louvor do reinado de Bumiphol (Rama IX)

16 dezembro 2008

Banguecoque: a Veneza do Oriente em grandiosa exposição (1) / กรุงเทพมหานคร งานศิลปะ และ ประวัติศาสตร์




Os olhos não se cansam e os pés não param com tantos eventos de primeiras águas. Os tailandeses, decididamente, adquiriam as técnicas mais arrojadas e lançam-se em catadupa de exposições que, no Ocidente, entrariam pela porta grande dos maiores museus e salas de exposição. Hoje, depois de horas de leitura na biblioteca - sintomaticamente lendo uma memória histórica sobre a fundação de Banguecoque - visitei a Art of Yesterday, Art of Tommorow - patente no já aqui referido Bangkok Cultural Center.

Busto do general Taksin

Krung Thep Maha Nakhon, ou antes, Banguecoque para os ocidentais, era um simples lugarejo em meados do século XVIII, primeira paragem fluvial para o trade junk oriundo de Macau. Após fiscalização da carga e tripulação na foz do rio Chao Phraya (o rio em forma de serpente que atravessa a actual megalópole), as mercadorias eram transvasadas para embarcações de menor calado e transportadas para Ayuthia, então capital siamesa. Em 1767, Ayuthia foi assaltada e saqueada pelos exércitos birmaneses e o Estado thai entrou em colapso. Um líder surgiu nesse momento trágico e liderou a resistência ao invasor. O novo homem forte, Phya Taksin, verificando a indefensibilidade da antiga capital devastada, instalou-se em Tonburi, hoje cidade satélite de Banguecoque, situada da margem oposta do rio. O seu sucessor, general Chakri, fundador da actual dinastia, foi coroado rei em 1782 e decidiu erigir uma nova cidade na margem esquerda do Chao Phraya, menos exposta a incursões inimigas.



Os primeiros dias da nova mandala thai restaurada não foram fáceis: guerras intermináveis contra os birmaneses, penúria monetária e matérias primas, rarefacção demográfica e quase total ausência de funcionários qualificados. A dinastia Chakri queria demonstrar ocupar legitimamente o trono, pelo que não olhou a meios e sacrifícios para se lançar numa política de grandes obras que exibissem a restauração do Estado. Para o efeito, recorreu-se à pedra e tijolos da antiga capital, abriram-se portas à vaga de imigração chinesa, redesenhou-se a estrutura social dirigente. Nesses dias, muitos homens oriundos dos estratos sociais mais humildes ascenderam na administração e serviço do Rei. Entre eles pontificavam muitos católicos luso-siameses, que ocupariam doravante e até à década de 1860 postos relevantes. Nos frescos do novo coração do Estado, o complexo de palácios e templos, armazéns, casamatas e escritórios, aí estão eles, os portuguet, de mosquete e espingardas de pederneira em riste defendendo a cintura de muralhas.


Povo anfíbio, "civilização hidráulica", "economia do arroz", o Reino do Sião construiu a sua capital em terrenos propícios à produção e escoamento do precioso gramíneo. Os canais (artificiais) que até há décadas substituíam as estradas, abertos pelo trabalho obrigatório das corveias do sistema sakdina - "feudalismo siamês - de que eram isentos os portuguet, merecereram a curiosidade dos viajantes europeus, que passaram a referir-se a Banguecoque como a "Veneza do Oriente".



Em meados do século XIX, a capital do Sião mostrava o desiquilíbrio e diversidade característicos das grandes cidades agro-mercantis do sudeste-asiático. Tal como Rangoon na Birmâmia, sobre o Irrawady e Saigão sobre o Song Sai Gon, possuía um núcleo administrativo e religioso com grandes edifícios de prestígio, envolvido por um dédalo de caminhos cercados de construções de materiais perecíveis, com lojas para a rua no andar térreo e habitação no primeiro piso, habitadas por siameses. Outras "baixas" comerciais e industriais nasceram em zonas mais distantes, acolhendo comunidades étnicas de origem vária, sobretudo chineses, mas também indianos e malaios, que se foram fixando e afirmando ao longo do século XIX. Os "enclaves" das minorias religiosas, "mouros" e católicos, desenvolveram-se na zona ribeirinha em torno de mesquitas e igrejas.


Ananta Samakhom (sala do trono): estudos para abóbada

O impacto ocidental foi traumático, crescendo de intensidade a partir dos meados do século XIX e levando o Sião a adaptar-se cultural, tecnológica e institucionalmente ao Ocidente, sob pena de ser considerado um "Estado bárbaro" e intervencionado pelo leão britânico, que entretanto se apossara da Birmânia e sultanatos malaios, e pelo galo francês que havia cravado unhas sobre os actuais Laos e Camboja, territórios outrora vassalos do Sião. Datam das décadas de 1870, 1880 e 1890 os grandes edifícios públicos de aparato, feitos à imagem da arquitectura de pedra, cimento e ferro europeus. Soluções arquitectónicas híbridas, onde a mão de arquitectos, decoradores, pintores e desenhadores italianos é marcante, expressam a angustiosa procura de um "modelo siamês" integrado numa linha internacional.


(Continua amanhã)

15 dezembro 2008

Heróis de tresantontem / ฮีโร่เก๊



Perante revolucionários destes, antes o boneco com cheiro a nafetalina dos poderes populares, das lutas de classes e anti-"camadas burguesas" e "anti-imperialistas", onde classe operária e camponeses, mais soldados e marinheiros, estudantes e mulheres faziam as maravilhas dos fantasmas de muita gente desta. Hoje temos os mesmos goliardos das maravilhas radiosas enfarpelados e bem comidos, bem fumados e bem bebidos, refastelados em sinecuras e pedindo que lhes beijemos os augustos pés em nome do mercado e da liberdade que só eles sabem interpretar. Acabou o tempo dos pijamas azuis made in China, das boinas estreladas, das barbas ralas de cinco dias e das botifarras rombas. De Obama a Gordon Brown, do Sapateiro espanhol aos nossos vigilantes da pureza do pensamento que se diz bem intencionado - o único, aquele que se deliciou com o livrinho vermelho e agora só lê "faça riqueza pessoal à custa do Estado" - é uma procissão interminável de soissante-huitards recusando deixar o pódio. De porrete em riste, vão enxotando todos quantos se aproximam perigosamente da palha da manjedoura. É o socialismo de subsidiação - o anti-capitalismo com o gosto pelo dinheiro - que está a matar a sociedade de mercado e a restaurar aquele que foi tido nos países capitalistas como o maior inimigo do mercado: o cartel. A cartelização faz-se com ministros e legisladores amigos, com favores em concursos públicos, com informação transmitida a tempo. É assim, com os dinheiros públicos, que se fazem tremendas fortunas. É assim que vão à falência aqueles verdadeiros empresários que não têm entrada nos clubes frequentados pelos heróis de tresantontem.

14 dezembro 2008

Ora viva o feudalismo / ราชประเพณีชัยชนะ




Aqui como na pequena ilha de Sark. Por detrás da carripana dos "direitos para todos" lá vinham dois irmaozinhos plutocratas à procura de business e prontos, de camartelo em punho, para estilhaçar, vender, lotear e transformar a ilhota em ressorts, casinos e bebedeiras para a nova burguesia tonta. Não passou. Ao velho estilo das "democracias medievais", o povo votou pela constituição histórica e pelo direito a estar sossegado, longe da patetice que se vai espalhando pelo mundo de plástico. O mesmo não se passará na Irlanda. Se o povo disser não, vai ser obrigado a repetir e trepetir a sua casmurrice até que o resultado favorável aos medíocres senhores os deixe, finalmente, livres e obrigados.

A abominação / ความชัง

O rosto do comunismo no Grand Monde. Não esquecer, nunca, relativizar, jamais.

A nova elite urbana: "os políticos não deviam fazer política"




Não são nem ricos nem pobres e fazem parte de uma classe média urbana que vai crescendo em respeito e obra. Um, arquitecto com mestrado no Reino Unido, casado com uma anglo-japonesa instalada em Banguecoque e pedopedagoga num colégio britânico. O outro, fotógrafo e cinéfilo como poucos que conheci em Portugal, casado com uma rapariga inteligentíssima que se exprime com tal desenvoltura em inglês que, pela aparência, me parecia ser uma lúuk kreung (euro-asiática). Entretanto, juntou-se-nos um outro amigo, director de produção de uma empresa de publicidade. Estivemos uma tarde inteira a falar sobre coisas interessantes - o letal impacto da urbanização ocidental na Tailândia, as novas correntes na estética thai, os santuários ecológicos no planalto do Issan, a devoção budista perante o assalto das seitas de lunáticos americanos - e quando alguém aflorou a política, cortaram cerce, como quem diz "não se metam na nossa vida interna". Estes amigos, no início da casa dos trinta, são informados, abertos e dialogantes, têm uma visão do mundo que lhes permite comparar e avaliar, mas continuam, como quase todos os tailandeses, profudamente convictos da sua especificidade cultural. Fiquei desarmado quando uma delas, levantando o dedo em tom professoral, afirmou ser a política uma coisa "máy nasonjáy" (uma coisa desinteressante) e que a vida política só interessa a gente que quer fazer dinheiro fácil. O marido aduziu: "os políticos não deviam fazer política, deviam governar". Quase me ocorreu a lapidar frase de Salazar: "os meus ministros não fazem política, governam". Mas, logo, deixou-se de parte a situação política e partimos ao assalto da cesta de frutos que trouxeram para a sobremesa. À partida, o fotógrafo perguntou onde estava o retrato de Somdet Phraja Yiu Hua (o Rei), pois casa sem o retrato do Rei é tão impensável como uma casa sem cozinha, sem quartos e sem janelas. Alívio dos alívios. Esta gente ainda não foi contaminada e vai entrar em cena, como o fizeram os avós e bisavós, fiel às mesmas certezas que fizeram a unidade do velho Sião invulnerável aos "famigerados ventos da história". O fotógrafo guardou para os derradeiros segundos a mais surpreendente revelação: é filho de camponeses e vai partir para a sua província para ajudar nos árduos trabalhos da colheita de arroz na pequena propriedade da família. Os thais, na maioria, continuam um povo camponês. É esta dualidade antigo/novo, abertura/inflexibilidade, curiosidade cosmopolita e orgulho nacional que me encanta. No Antigo Sião, camponeses e militares eram sinónimos. Hoje, perante estes amigos, julguei fazer uma viagem no tempo, por sinal o tempo que não muda, nem a tiro, chapeladas eleitorais ou todos os cheques do mundo.


Púak Tahaan (gente de guerra)