13 dezembro 2008

Combustões visitou os "vermelhos": o nascimento da esquerda tailandesa



Os "vermelhos" de Thaksin realizaram hoje um grande comício no Estádio Nacional de Banguecoque. O estádio data dos anos 60, não se comparando em dimensão e conforto aos nossos estádios de futebol. Não posso deixar de registar a afluência de umas 20.000 pessoas à concentração que terminou com uma alocução do líder exilado. Por lá estive entre as duas e as quatro da tarde, ou seja, entre o início do acto multitudinário e as primeiras intervenções de oradores da "Frente Democrática Contra a Ditadura". Metade do estádio encontrava-se vazio ou parcialmente vazio. As bancadas, resguardadas do calor sufocante pela pala de betão, eram disputadas por milhares de pessoas. Para a Tailândia, tal ajuntamento pode ser considerado um sucesso de mobilização, pois na tradição política local os comícios que conhecemos são praticamente desconhecidos, reunindo em média um milhar de participantes.



Verifiquei, com espanto, a completa ausência da figura do Rei. Nas centenas de bancas de propaganda pontificavam fotos dos líderes do movimento e muitas referências a Thaksin, entre posteres, autocolantes, bandeiras, calendários, pulseiras vermelhas, faixas para a cabeça e postais. As obras à venda - antologias de escritos de Thaksin, brochuras anti-PAD e um sortido de obras apologéticas do defunto partido de Thaksin - motivavam pouco interesse dos passeantes. A juventude vermelha parecia mais interessada nas bandeiras vermelhas com a efígie do Che.


A meio da tarde, a composição do público parecia homogénea no que ao tipo social respeita: muito proletariado urbano e gente muito pobre eventualmente vinda em excursão dos confins da Tailândia rural e dos bastiões do thaksinismo no nordeste. Aquela gente que ali estava, humilde e sorridente, não me inspirou qualquer temor. Exibiam, como é marca tailandesa, aquele sorriso infantil e desarmante que tudo diz e tudo esconde, um enigma de cambiantes que desafia qualquer ensaio sobre a mais simpática e pacífica expressão dos sentimentos humanos. Perdoe-se-me a analogia, mas tudo aquilo lembrou-me as concentrações do PC, da sua base de apoio suburbana e rural e do poder de enquadramento que entre nós os leninistas mantêm desde os anos 70. Sociologicamente, estes milhares de tailandeses parece serem mais reaccionários que os manifestantes do PAD que por duas vezes visitei. É gente que se viu ultrapassada pelo processo de generalizado enriquecimento que o país experimentou ao longo das últimas décadas e que se agarra com esperança messiânica a um "grande homem" que os resgatará da marginalidade social e política.



O comício iniciou-se com um potpourri de canções de luta. Os cânticos foram entoados de punhos cerrados, mas logo, traço tipicamente siamês, a expressão corporal deu largas aos maneios próprios das danças regionais e as famílias ali sentadas em esteiras logo se deixaram entreter por outra ocupação que enche os thais de alegria: descascar mangas e comê-las ainda verdes demolhadas numa solução de açúcar e sal.



Os vermelhos têm um ídolo: Thaksin. Porém, questão merecedora de reflexão, dir-se-ia encontrarem-se nos antípodas do homem que veneram: ele muito rico, distante e autoritário; eles muito pobres, chãos e doces. Era como se em Portugal, Belmiro de Azevedo, Américo Amorim ou os donos do BCP fossem idolatrados pela outra-margem do Tejo, pelo Casal Ventoso ou pela Quinta dos Mochos ! A atracção pelo grande líder é tão velha como a história do país. O homem providencial vem do topo e reune os seus clientes na conjugação da estrela do bem aventurado - um homem muito rico é um homem de mérito, pois o dinheiro só escolhe os eleitos - e de condutor de homens que padecem de grande infortúnio. O vermelho - aqueles que vi e com quem estive - envolve-se na actividade política sem outra esperança que a de poder, um dia, ser reconhecido como cidadão de pleno direito. O líder falou via televisão, algures do estrangeiro. Esta presença distante, quase icónica, aumenta-lhe a dimensão humana, a distância, a intocabilidade. É o sortilégio da tecnologia associado a tudo o que para um povo rural significa o homem que está lá em cima, lhes diz o que devem fazer e não os ouve.



Entre a multidão destacavam-se muitos tailandeses de etnia chinesa, daquela gente da pequena burguesia urbana com pequenos negócios, empreendedora ou com empregos no sector terciário que se foi consolidando ao longo do século XX. Senhoras de cabelo tratado, unhas pintadas e camisas de melhor corte, homens exibindo calças de fazenda e relógios de pulso refulgentes. Estão com Thaksin por identificação com a origem étnica do líder, mas também porque reclamam acesso à vida pública até hoje centrada nas elites que dirigem o país desde o reinado de Rama VIII: as Forças Armadas, o funcionalismo público e a alta burguesia. É este, quiçá, o mais forte arrimo de Thaksin. A Tailândia está a experimentar, tacteando, a entrada em cena dos pequenos homens suburbanos e rurais numa vida pública ainda muito "oitocentista". O PAD e os Vermelhos exprimem a entrada em cena de massas reivindicativas. A minha previsão - no tempo longo - é que se Thaksin está politicamente agonizante, a gente que o secunda, mesmo que o dinheiro do capitalista desapareça, ganhou consciência da sua expressão numérica e procurará quem de futuro a possa comandar. A esquerda tailandesa, refém de um multimilionário, parece estar a nascer neste interim entre o velho sistema das capelinhas de políticos profissionais e o sistema representativo que acabará por se afirmar. Quanto ao PAD, se for consequente, constituir-se-á em direita partidária. Os dois extremos do continente político emergente estão criados.

Ao sair do estádio, deparei com um grande retrato do Rei, ali colocado pelo ministério que tutela os desportos. A monarquia está firme, mas para os vermelhos é "amarela". O futuro primeiro-ministro terá dado o assentimento a uma política de "correcção de assimetrias", visando retirar das mãos de Thaksin o proletariado. Este país precisa, obviamente, de grande investimento em políticas sociais. O descontentamento só é debelado com justiça social. O Rei conseguiu vencer a tentação do comunismo nos anos 60 e 70 mercê de grande atenção às suas causas sociais. Chegou o momento de refazer o pacto e restaurar a esperança dos pobres tailandeses no Estado e na elite que os governa. Tenho pelo povo humilde da Tailândia grande afecto, mais que pela burguesia, sobretudo aquela que se estragou no macaquear dos EUA. Desta gente que trabalha dez, doze, quinze horas por dia, sempre recebi sorrisos e gestos de tocante graça. Por eles, pela Tailândia e pelo futuro desta raça nobre, espero que cresçam em dignidade e se libertem do opressivo sufoco de candidatos a ditadores e exploradores.

Ruam Thai, Ruam Jáy = unir os thais, unir os corações

12 dezembro 2008

Militante do bem e do belo

Criptograma da Princesa

Irmã de dois reis (Rama VIII e Rama IX). Foto no exílio (anos 30)

A primeira mulher tailandesa com brevet de pilotagem

Foi ontem inaugurada em Banguecoque uma exposição evocativa da Princesa Real Galyani Vadhana, princesa de Naradhiwas (สมเด็จ พระเจ้าพี่นางเธอ เจ้าฟ้ากัลยาณิวัฒนา กรมหลวงนราธิวาสราชนครินทร์), irmã mais velha do Rei, cujas exéquias fúnebres aqui reportei há duas semanas. Morreu após doença prolongada - cancro no cérebro - aquela que foi, ao longo de meio século a mais militante das causas a que hoje se entregam as ONG's.



Graças a Galyani, os elefantes do Sião foram recenseados e protegidos de maus tratos, o comércio de presas proibidas e a exibição em festividades e divertimentos rigorosamente legislada. Em finais da década de 70, a espécie encontrava-se em vias de extinção. Graças ao trabalho da fundação que a princesa animava, o número de paquidermes está em franca recuperação. Ecologista avant-la-lettre, a princesa foi também uma defensora das florestas ameaçadas pela cobiça de madeireinos e construtores civis sem escrúpulos. A ela se ficou a dever a criação de reservas florestais, parques naturais e bibliografia especializada sobre a fauna e flora tailandesas. Ao contrário da Malásia, Camboja, Laos e Birmânia, verdadeiros paraísos para especuladores e devastadores da natureza, a Tailândia tenta corrigir os atropelos do desenvolvimentismo cego e possui, caso raro na Ásia, um vasto público que terça armas pela causa preservacionista.


Galyani foi também a grande amiga dos deficientes profundos: abriu escolas técnicas destinadas a diminuídos físicos e mentais, animou a rede de orfanatos que o país não possuía - hoje um dos emblemas da protecção à infância na Ásia - e espalhou pelas regiões mais remotas a quadrícula de postos de acolhimento, diagnóstico e tratamento de problemas congénitos. Poucos meses antes de morrer, ainda se deslocava de helicóptero de aldeia em aldeia para verificar in loco a efectiva aplicação do seu programa. As associações de protecção aos doentes cardíacos e às crianças autistas receberam da princesa muitos milhões de Euros e são hoje igualmente consideradas modelares.

Nos tempos da guerra contra o comunismo, envergou o uniforme de miliciana e desenvolveu a guerra pela conquista dos corações e das inteligências. A Cruz Vermelha Tailandesa, mais que as tropas governamentais, fez recuar a guerrilha.


Manteve durante toda a vida intensa actividade de promoção de outras culturas. Viajou por todo o planeta, aprendeu e inspirou-se na visita a museus, feiras culturais e exposições, transmitindo o conhecimento adquirido nessa viagens de estudo aos técnicos das instituições que na Tailândia zelam pela preservação, restauro, estudo e divulgação do património arquitectónico, museológico, bibliográfico e arquivístico do país.



Galyani foi, sobretudo, uma mulher de cultura. Deve-lhe o país a difusão do gosto pela música clássica ocidental, a criação de orquestras sinfónicas e o envio de muitos jovens músicos talentosos para as mais renomadas escolas de música e composição do Ocidente. Lembro-me vê-la, semanas antes de morrer, assistir ao concerto para piano 26, de Mozart. Os dedos tamborilavam acompanhando o ritmo e, decaída, ainda sorria. Galyani deixou obra escrita, mas foi como professora da universidade de Thammasat que cultivou e promoveu o gosto pelas letras francesas, de que era incondicional admiradora. É destas pessoas, mais que de merceeiros e contabilistas, que as sociedades modernas precisam, perdidas no frenesim do nada e sem esteio de dignidade para a promoção daquilo que é substância da liberdade.

11 dezembro 2008

Leitura de Natal: o grande Rei leproso




Príncipe contemporâneo de D. Afonso Henriques sobre cuja infância e juventude pouco ou nada se sabe. Obscuras primícias, com perda de privilégios, enxovalhos e destituição pela mão de um rei usurpador remeteram Jayavarman para os confins de um império khmer decaído e vulnerável. Ali esteve anos estudando e discutindo religião à sombra de um templo bramânico até que, subitamente, por volta dos quarenta anos de idade, a pálida estrela deste desterrado mudou de radiância. Uma invasão brutal e destruidora, o saque e colapso da capital khmer fizeram deste proscrito o salvador do seu povo. O monge fez-se soldado, o estudioso deixou de parte o recolhimento e comandou os exércitos camponeses na reconquista da liberdade. Depois da vitória, corou-se rei e transformou-se no mais ardoroso pregador do budismo, declarando-o religião do Estado. Na tradição khmer dos reis divinos, foi tido como o mais virtuoso dos mortais, o mais rigoroso intérprete da palavra do Iluminado, logo, como Assok o fora para a Índia, um Buda-Rei. Reinou quase meio século e dele ficou a nagara (capital) Angkor Thom que conhecemos. Do "culto da personalidade" que rodeou este génio militar e político ficaram vestígios ainda hoje profundamente enraízados na teoria do poder real que o budismo therevada transporta. O Rei da Tailândia é o último destes monarcas, posto que o Rei do Camboja, reposto no trono após o pesadelo totalitário comunista de Pol Pot, perdeu grande parte do halo sobrenatural que o investia como intermediário entre o cosmos e o mundo dos homens.

Jayavarman foi um rei patriarca e paternal. Doente minado pela insidiosa lepra que lhe corrompeu o corpo e reforçou o espírito, espalhou o bem e a misericórdia. Mandou construir mais de cem hospitais, leprosarias, casas de acolhimento para orfãos e deficientes, rasgou estradas e assegurou protecção a peregrinos, dando-lhes comida, cama e lume. Ao morrer, com noventa anos, mereceria sem dúvida mais santidade que S. Luís de França. Rezam as crónicas reais khmeres que o Rei trabalhou até ao último dia de vida, padecendo de dores lancinantes. Ao morrer, o seu povo chorou-o durante décadas, na lembrança do grande monarca que os retirara das trevas.

É desta aventura espiritual de um homem diminuído mas gigante que nos relata a The King's last Song. É raro um revolucionário religioso (ou político) possuir tacto político. Amenófis IV condenou o Egipto à miséria, como Lutero lançou a Europa na mais perversa e longa das guerras que levaram ao colapso da Respublica Christiana. Basta um homem bom para que o mundo se salve da dor, parece ser o epitáfio do grande Rei. É destes homens visionários que o nosso tempo padece. Infelizmente, os homens escolhem preferencialmente os bandidos. É a nossa condenação.



Ók sip pii (60 anos), hino em homenagem ao Chao Chiwit (Senhor da Vida) Rama IX, o Grande, por ocasião do 60º aniversário da ascensão ao trono. Compreendo hoje, sem desconstruções positivistas, que no Rei da Tailândia vive o fogo e exemplo de Jayavarman. A Iluminação bate os iluminismos aos pontos !

10 dezembro 2008

Combustões acertou



Parece estar por dias a formação de um novo governo na Tailândia. Os extremos (amarelos e vermelhos) ficam de fora e a Maioria Silenciosa "azul-amarela" triunfa sobre a crispação que quase levou o país ao caos. O novo primeiro ministro na calha é Abhisit Vejjajiva, jovem nascido no Reino Unido, educado em Eton e proveniente de uma velha família de origem chinesa estabelecida no Sião deste o século XVIII e com provas dadas de lealdade ao Rei e à dinastia. Como aqui prevíramos em finais de Agosto, o princípio do equilíbrio prevaleceu, prova da maturidade política dos thais. A análise e previsão políticas não são especialidade minha, mas o estudo aturado da história contemporânea da Tailândia, de 1767 à presente data, permite-me encontrar constantes linhas de força. Parece encerrada, definitivamente, a crise tailandesa: não houve revolução, a democracia não soçobrou e o Rei saíu, como sempre, mais forte e estimado.

Abhisit é um homem cordato, educado e monárquico; em suma, um verdadeiro thai. Era disto que a Tailândia estava à espera. Falhou clamorosamente o golpe subversivo e os arranjos externos para manipular o país e forçá-lo a descaracterizar-se. Thaksin acabou. Por outro lado, o PAD fez o que tinha a fazer e resta-lhe limpar e arrumar as armas, aceitar a legalidade e submeter-se a sufrágio. O interminável desfilar de carrancas e carantonhas thaksinianas, dos homens de mão e dos valetudinários que encheu o país durante os últimos anos vai terminar. O dinheiro, segredo de tantas dedicações, parece estar a acabar. É a altura de chegar um homem impoluto.


Sob o céu da Tailândia (ópera em homenagem aos Reis que fizeram a nação)
Crematística, só no Jansenista.

Não tenho medo, tenho nojo


Pergunta-me um amigo de longa data se tenho medo da plutocracia. Respondo-lhe que não, que a plutocracia não mete medo a ninguém. É um arranjo cuja preocupação se centra em monopolizar o poder político, confundindo-o com aqueles que detêm o capital, logo um insulto à democracia, à representação, à imparcialidade da lei e à propriedade de utilidade social. Acresce que os plutocratas, ao invés dos capitalistas, não são animados por qualquer outro valor na acção política que não seja condicionar, calar a diferença, ultrajar os que não integram o clube. Capitalistas houve que fizeram mais pela cultura, pela ciência e pela felicidade dos outros que muitos religiosos e moralistas. Vide os exemplos dos Smithson, Thyssen, Aga Kahn e Gulbenkian e atentemos da categoria dos mecenas portugueses, das doações que deixaram por herança (Champalimaud, Ricardo Espírito Santo). Comparemo-los com os merceeiros do presente e a diferença é gritante. Uns - os capitalistas mecenas - eram homens de cultura, espalharam o bem, ajudaram artistas, concederam bolsas a milhões de estudantes, abriram museus, estimularam a inventiva. Foram, sem tirar, democratizadores. Os outros - os tais dos bancos que infestam, prédio sim, prédio não, as nossas cidades - não deixarão nada.
O capitalista deixa colecções de arte, bibliotecas, parques, laboratórios, hospitais. O plutocrata não deixa nada, pois o seu horizonte confunde-se com os gostos canalhas. O plutocrata não se distingue, aliás, da canalha, com a agravante de ser canalha com poder. A plutocracia não mete medo: mete nojo.

09 dezembro 2008

158 anos, sem uma ruga / พระเจ้าอยู่หัว พระนั่งเกล้า


"Não haverá mais guerras com os birmaneses ou com os vietnamitas. Só teremos problemas com os farang (europeus). Tenham cuidado: não caiam nas suas armadilhas. O que quer que eles inventem ou façam (...) podemos imitá-los e com eles aprendermos, mas não acreditem em nada do que dizem" (1851).

Rama III (r. 1824-1851) no leito de morte. (In: PPKR, vol. II, p. 188)

Chayoo-chayoo

Alçada: pequena história


Confesso nunca ter morrido de amores pela escrita de Alçada, sobretudo a escrita menor de um envolvido na para-política de que o regime se socorre para dar polimento a uma classe política sem classe alguma. Assim pensei até me aperceber que Alçada estava lá [no regime] mas não estava, pois "eles" precisavam dele e ele teria feito a vida que sempre fez, escrito e lido, amado as coisas belas da vida sem precisar do patrocínio de um qualquer medíocre alcandorado a ministro. Era um homem fino, delicado e cortês sem ser um homem de salão. Guardo, orgulhoso, uma pequena história que comigo se passou um dia, há cerca de quinze anos, na embaixada do Brasil. O então embaixador do Brasil em Portugal, José Aparecido de Oliveira, gostava de mim e convidava-me para todos os eventos que a sua incansável criatividade ia produzindo para namorar os portugueses para a realização do sonho da sua vida: a criação da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. Com ele mantive intermináveis discussões, ele um homem da esquerda trabalhista, eu de direita e monárquico.


Um dia, Aparecido quis reunir em tertúlia uma dúzia de políticos, jornalistas, literatos e outros opinativos para discutir o manifesto da CPLP. Lá estava a velha e gorda esquerda do regime, os camaleões de sempre, os escribas de serviço cativo, mais dois ou três deputados. Quando me pediu a palavra disse o que tinha a dizer, mas logo um director da comunicação social "pensar bem" me cortou a palavra dizendo não querer ouvir "reacionarices". O Alçada levantou-se, tocou-me no braço, retirou os óculos e disse: "meus amigos, estou aqui há quase duas horas e a únicas palavras de préstimo que ouvi foram ditas pelo Miguel". Depois, dirigindo-se ao embaixador, que rebolava de satisfação, acrescentou: "se V. Ex.ª quer duas penas para um manifesto, aqui ofereço o meu humilde cálamo só, e só se, o Miguel estiver comigo". Obrigado Alçada. A liberdade não é aquilo que se diz da boca para fora. A liberdade exige a ética da liberdade e só vive em tensão. A liberdade totalitária, a única, a que não se pode discutir, não é liberdade, é tirania envergonhada.

08 dezembro 2008

É disto que tenho falado e alguns não querem entender

Escumalhização dos filhos da burguesia: "Andreas Grigoropoulos, filho de uma família rica da Grécia, estava em Exarchia com alguns amigos quando passou um carro de polícia, o qual começaram a apedrejar." (in DN)

Capitalismo sim, amálgama não


Os dias da Tailândia democrática de Thaksin


O nosso amigo Insurgente publica hoje, assinado pelo caríssimo Helder Ferreira, uma simpática contestação a texto aqui ontem publicado. Li-o e reli-o, não fosse a minha diminuta acuidade intelectiva forçar-me a injusta tréplica. Estou absolutamente de acordo com tudo o que diz o Helder, pois também sou adepto do capitalismo, da economia de mercado, da livre iniciativa e todas as decorrente sociais e políticas dessa opção: a democracia e os direitos extensos de cidadania, a defesa da propriedade, a não intervenção do Estado em tudo o que toca a esfera do privado. Assim entendido, o capitalismo é alavanca de libertação, agente de promoção dos homens e salvaguarda daquela sã desigualdade que permite a rotação das elites que criam, têm iniciativa, geram emprego e riqueza, reforçam a sociedade, multiplicam a felicidade.



O que, porém, está em causa - é esta a fractura que nos pode separar - é a destruição da propriedade mercê do triunfo dos jogadores, o eclipse da economia em favor da especulação financeira, a derrogação das vantagens sociais do capitalismo pela errância do capital, pelo desinvestimento e pelas relocalizações. Esse capitalismo está a matar o tecido económico europeu, mutilou profundamente os EUA e transferiu tecnologia para zonas do planeta em que a opção pelo capitalismo é meramente instrumental, sem qualquer vantagem individual e social para quem recebe as transferências. Sei distinguir capitalismo de plutocracia, que é o poder dos homens do dinheiro, impunes, agressivos, quase iletrados. Essa plutocracia não carrega o Liberalismo; pelo contrário, dissemina os bacilos que levam à identificação da democracia com a miséria.



O que se passa na Tailândia deve ser visto como uma tentativa de apossamento do poder político por homens ricos, prodigiosamente ricos, que querem abater por inteiro uma sociedade capitalista para aqui imporem a lei de bronze do banditismo económico. Estão a tentar encontrar contrapesos ao poder chinês e indiano. Como na China já só é possível entrar de chapéu na mão, há que encontrar parceiros regionais fracos que forneçam a pataco mão de obra, que produzam legislação que permita comprar por inteiro a liberdade económica de que goza a Tailândia - a 5ª potência económica da Ásia - diversificando, assim, os países receptores do investimento ocidental.


Não lhes interessa saber se a Tailândia foi ou é, durante os últimos 60 anos, o mais fiel alinhado ocidental no Sudeste-Asiático; não lhes interessa saber que aqui a monarquia foi o elemento decisivo para conter o comunismo na região; não lhes interessa saber que metade do país vive da visão reformista de um rei que permitiu níveis de desenvolvimento social invejáveis: uma rede hospitalar e assistencial digna de nota, a escolarização que suprimiu o analfabetismo (99% dos tailandeses sabem ler e escrever, 25% dos jovens com menos de 23 anos acabam o ciclo escolar com diploma universitário), paz social e índice de criminalidade dos mais baixos do mundo, mobilidade de emprego e capacidade de absorver, todos os anos, mais 2 milhões de jovens no mercado de trabalho. Aqui não há fome e a pobreza, que nos anos 70 era condição natural para dois terços da população, reduz-se a 20%.



A plutocracia quer - assim o diz a geografia eleitoral - lançar o povo chão contra aqueles que foram obreiros de um dos mais bem sucedidos planos de desenvolvimento da segunda metade do século XX. Destruir os proprietários, evacuar o Estado da sua capacidade correctora - que permitiu obras públicas de nível europeu - cortar cerce as referências morais e culturais que permitem a força da cidadania; em suma, querem que isto se transforme numa enorme coutada dos tenentes da jogatana especulativa.



O Sr. Thaksin começou bem - como começa qualquer aldrabão - para depois mostrar em toda a extensão o que se propunha realizar. Privatizou, mandou comprar pela mão de testas de ferro para, de imediato, vender as empresas privatizadas a gente de Singapura, Taiwan e Malásia. Neste tráfico, protegido pelo poder que detinha, ganhou 78.000.000 milhões de baths. Isto não é capitalismo: é banditismo económico, traição económica, fragilização das defesas económicas numa região onde não há o guarda-chuva de uma União Europeia e onde cada um faz o que pode para vencer a crescente concorrência das economias vizinhas.



Para mais, Thaksin comportou-se como um sanguinolento déspota: matou milhares de pessoas nas campanhas que executou contra o tráfico e consumo de drogas, exerceu uma política de terror no Sul muçulmano que levou à radicalização independentista dessas províncias, fez censura à imprensa, lançou campanhas de "moralização" que colidiram com a proverbial tolerância deste povo. Eu fui testemunha presencial de alguns destes desmandos. Em 2004, de férias na Tailândia, assisti à execução a frio, na berma de uma estrada, de um rapaz que transportava uns gramas de ópio. Um ano volvido, quando aqui vim para realizar uma conferência a convite do Ministério da Cultura, novo instantâneo da brutalidade das políticas de Thaksin: a polícia dispersava com barras de ferro e cães uma pequena multidão de mulheres trabalhadoras que reclamavam jornadas de trabalho de...12 horas ! Este, caro Helder, é o tal "capitalismo selvagem". o fazedor de novos comunistas, o maior aliado dos inimigos da democracia.

07 dezembro 2008

D. António sempre com razão

A qualidade humana que querem abolir



Nós tivemos como últimos Reis um tradutor de Shakespeare e melómano (D. Luís I), um cientista oceanográfico de renome mundial e pintor de mérito (D. Carlos I) e um bibliófilo que deixou obra ainda hoje considerada incontornável para o estudo da imprensa em Portugal (D. Manuel II).
Os tailandeses têm como Rei um dos mais galardoados compositores de swing, que gravou e tocou com Benny Goodman, um fotógrafo que integra todas as antologias da história da fotografia na segunda metade do século XX e um pintor. É isto que a ganga capitalisteira e analfabeta quer destruir. São dois mundos imiscíveis: o poder dos parvenus sem nível, descerebrados e medíocres e a exigência do belo como categoria indissociável de uma visão sã do mundo; logo, aristocrática, criadora e perfeccionista.


Bumiphol Rahja

Jornalismo Patpong, massagens e SPA's




Nuno, também li a peça do Economist, certamente redigida por um fraco de espírito para aqui enviado para prestar serviço ao proscrito Thaksin. Deve ter passado os dias da estadia inebriado entre os copos dos bares com vista panorâmica sobre Banguecoque, com umas incursões às massagens dos SPA's, mais um ressort e atreve-se escrever sobre aquilo que de todo desconhece. Pelo que depreeendo do linguado, nunca leu um livro sobre o país e todo o "corta-cola" é típico do jornalismo prostituído - novo neologismo, "jornalismo Patpong" - que vai transformando essa outrora nobre profissão em concorrente dos go-go bars. Em suma, tolices do não-pensamento em que se delicia a global estupidez.