06 dezembro 2008

Monarquia, patriotismo e democracia


Recebi um longo, interessante e provocatório email de alguém que se diz comunista. Sabendo o que penso da trágica monstruosidade do comunismo, que coloco na sentina dos colóides da humanidade, não pude deixar de comungar com o signatário quando este enumera o tremedal de erros em que se afunda o tempo presente. Diz o meu amigo que o "grande capital anónimo internacional é despido de qualquer piedade pela sorte daqueles que nada têm" e que "a ordem global deste capitalismo selvagem é convite para uma nova tomada de consciência revolucionária que levará, cedo ou tarde, a uma resposta global". O meu amigo tem plena razão. O assalto dos merceeiros e desmiolados a tudo o que desprezam ou desconhecem, a substituição das velhas elites por gentinha insignificante vai provocar, cedo ou tarde, uma vaga de violência que permitirá a reedição do erro que foi o comunismo; ou pior, talvez de um neo-comunismo quase sem Marx, mas com muito Hitler à mistura.


Pergunta-me o ASC se haverá alternativa. Creio, sinceramente, que essa alternativa não pode deixar de se construir com os materiais da experiência histórica recente, mais aqueles, muito antigos, que fizeram e consolidaram tudo aquilo por que vale a pena viver e morrer. A reacção à estupidez que se julga inteligente, às catatuas e demais cabeleiras sem cérebro deve começar por se lhes dizer que acreditamos no homem, na sua liberdade e naqueles direitos invioláveis que estão em todos os textos fundadores das politéias e das religiões: o carácter único de cada homem, a busca da perfeição, a justiça e a ideia de que há um bem-comum que obriga à solidariedade que a todos deve unir na partilha de sacrifícios e alegrias, a participação de todos na vida colectiva, a preservação do mínimo ético que é a comunidade politicamente organizada em Estado.


É por isso que sou politicamente monárquico, patriota e democrático, pois não há sentimento colectivo no efémero, sendo que a monarquia - que não é só uma ideia, mas o poder personalizado que emblematiza a ininterrupta sucessão de gerações - a todos e cada um vincula num pacto que transcende as fronteiras da vida individual e as diferenças de propriedade e mérito. O Estado não é unidimensional, como o não são os homens. Ora, os desmiolados reduzem a vida colectiva e individual à produção, troca e consumo de bens, pensando estultamente que a felicidade se reduz às dimensões de um descapotável, à largura da cintura e ao conta-quilómetros de cartões frequent flyer. As pessoas têm o direito à felicidade individual e ao prazer, como têm obrigações que devem ultrapassar a esfera do seu egoísmo. A democracia sem o respeito pela unicidade cultural que permitiu o nascimento da comunidade politicamente organizada em Estado é uma abominação: é estatística que viola e mata a diversidade, que seca a cultura, opina e se ilude ao ritmo dos fenómenos gástricos; o atrevimento de querer ser tempo sem alicerces, de querer dar exemplo sem ideias e sentimentos.


Desta Tailândia que cada vez mais respeito, a luta entre os desmiolados e a monarquia parece exprimir esse choque global entre cultura e acidente: de um lado aquilo que é de todos e que nos faz todos e cada um; do outro lado, os intestinos, os estômagos e as cabeleiras à procura do sucesso, da felicidade e dos "direitos". Só que os direitos, em tal sociedade, não transcenderiam a conta bancária e a ânsia de ter, comprar e gastar. Há que escolher. Parece-me não haver aqui qualquer espaço para angustias dilemáticas.

Os vermes anti-nacionais


05 dezembro 2008

A Maioria Silenciosa disse Presente !



E ao terceiro dia, uma massa imensa de gente vinda dos quatro cantos do reino convergiu para Banguecoque para prestar homenagem ao seu Rei no dia em que celebra 81 anos de vida ao serviço do povo. Foi um calvário para chegar ao Terreiro Real (Sanam Luang), em frente do palácio amuralhado que foi o berço desta grande cidade. Não me fiando nas minhas falaciosas estimativas, socorro-me dos noticiários: cem mil pessoas. Pobres, ricos, muito ricos, gente de todas as etnias e religiões, velhos, novos e crianças de colo ali estiveram horas à espera da breve cerimónia das velas. O Rei não esteve presente, como nunca acorreu a tal festa, mas estiveram todas as instituições que decidem o ser e não ser deste país: as forças armadas, as universidades e escolas técnicas, os sindicatos, os grupos empresariais, o monacado budista, as organizações assistenciais, os veteranos das guerras contra o comunismo e o sub-desenvolvimento.


Senti a força amável deste povo civilizadíssimo na atitude estóica com que aguentou a eternidade que precedeu o acto público. As pessoas ficam caladas, ou falam baixo, sorriem e brincam sem gesticular e sem gritar. Uma massa de amarelo, muitas fotofrafias do Rei, em cada mão uma vela amarela ou flores amarelas. Tocou-me a pose hierática das delegações dos colégios militares, a indiferença à dor da pose hirta dos cadetes, rapazes e raparigas, como me espantou o tom altivo mas não arrogante dos milhares de escuteiros perfilados e alinhados.


Os tailandeses não são maníacos da organização como o são os japoneses, nem possuem o espírito de formigueiro organizado que os chineses insistem em mostrar ao mundo sempre que se lhes pede uma demonstração de força. Os thais são informais, muito afeitos à personalidade de cada, pelo que o holismo que aqui se diz existir vive na tensão entre o espírito comunitário e preceitos que ninguém se atreve infringir e o aquela dose de irreverência simpática com que cada um tenta distinguir-se do grupo. A maior arma dos thais é o sorriso. Parece uma banalidade, mas não é. Nesta terra, só o Rei não sorri, fiel à crença budista que afirma tratar-se do estádio supremo de perfeição humana que precede o nirvana. Se atentarem nas fotos, não há pessoa que não tenha as comissuras sorridentes.

De súbito, a grande banda da marinha executa o hino monárquico e a multidão que até aí estivera em silêncio transforma-se num coro em que cada um tenta sobrepor-se à voz do parceiro. Uma liturgia impressionante. As pessoas cantam e os olhos brilham de orgulho. Cada um acende a sua vela e a noite faz-se dia. Nunca assisti a tal coisa na minha vida. Um alto dignitário escolhido para o efeito lê uma longa declaração em louvor do Rei, posto que pede aos presentes que reiterem um juramento de fidelidade ao Rei. É o velho juramento que vem desde os tempos do Rei Trailok (século XV) e que obriga cada um a purificar o coração, oferecendo-o ao trono através de um comovente movimento de entrega da vida ao interesse colectivo consubstanciado na figura do Rei.





Terminado o juramento, uma marcha patriótica tendo como fundo uma cascata de fogo de artifício com as cores nacionais. Furo a barreira policial. Devem ter julgado ser um jornalista farang, pelo que me envolvi na alta roda da nata da aristocracia que se encontrava no palco do terreiro. Aqui está a aristocracia que serve a dinastia há mais de duzentos anos. Percebi estarem unidos por laços de sangue, mas sobretudo por uma cultura de corte que faz deste país terreno difícil para as arremetidas do lodaçal plutocrático. Foram gentilíssimos. Sorriram, fizeram pose e um alto dignitário coberto de medalhas até me disse "come, joint to us and take pictures has your pleasure". Não posso deixar de reparar que é gente de bela presença, finas maneiras, falar quase inaudível como manda a educação da corte. Que diferença entre esta estirpe que venceu batalhas e fez este país e a gandulagem suburbana feita gente que assaltou o poder no Ocidente e nada mais traz na cabeça que o tilintar do venal dinheirinho. Esta aristocracia tem uma vantagem. Não possui títulos nem é hereditária, como o era a ocidental, o que a faz aberta ao mérito e capaz de profundas alianças estratégicas com o povo chão. Família aristocrática sem mérito e sem folha de serviços volta, após cinco gerações à estaca zero. Aqui parece reunir-se o melhor antídoto à inveja revolucionária do dinheiro: a união entre o povo e o rei servida por uma aristocracia de serviço. Hoje, pela primeira vez desde que aqui estou, cantei a plenos pulmões o "sadudi Maha Rahja, sadudi Maha Rahjinii" (saúdo-vos meu Rei, saúdo-vos minha Rainha). A maioria não é só a força bruta do número, mais o papel verde. A maioria também é, deve ser, a força da qualidade. Fiquei aquietado após o sobressalto de ontem. Aqui, "eles" terão de passar por cima de toda esta gente para implantar a tal coisa repelente que vigora em tantas paragens da orbe.

A Maioria Silenciosa disse o que tinha a dizer ! Pronto.


(Fotos de Miguel Castelo-Branco)

A unidade nacional


(Fotos de Daily Life)

Mundialismo de croquete e pipa: canalhices euro-americanas

(...) Agora, parece ser a vez da Tailândia, o único país da região que jamais foi colónia europeia. Um país onde os brancos foram populares e tratados como iguais, sem os constrangimentos impostos pelos complexos de inferioridade herdados da colonização. Os brancos querem impor ao povo as mesmas cinzentas, feias e desprezíveis criaturas que na sua versão ocidental, vemos todos os dias desfilar em páginas e páginas de roubos, escândalos, manipulações e vigarices de toda a ordem. O senhor Thaksin tem os seus irmãos de sangue em Paris, Washington, Londres, Madrid e até nesta Lisboa em que vivemos. Como eles, controla bancos, televisões e "centros de aplicações financeiras", nome etéreo para antros de falcatruas. Liquida inimigos, tem as mãos medonhamente sujas. É farinha do mesmo saco, ou vinho da mesma pipa.
Ah, como às vezes compreendo a revolta dos boxers!
(...)

04 dezembro 2008

Antes preferia ver os comunistas no poder


Hoje tive uma festa, raro acontecimento social para um bisonho insociável. Muita burguesia, muito fato caro, excelente vinho e boas iguarias. A alta sociedade thai, mais a boa sociedade expatriada, conversa de circunstância, troca de cartões, discreto check-in de estadão e rendimentos. Gostei, como todos gostamos de um pouco de espairecimento após semanas de tensão. O evento decorreu da melhor maneira e servindo os mais nobres intuitos: angariar fundos para a protecção dos elefantes, outrora divinos, hoje objecto da curiosidade da turistagem e fonte de cobres para os seus donos e exploradores.

Alegria, enfim, por encontrar os poucos amigos portugueses aqui residentes: o Miguel, director de uma unidade hoteleira, a Sara, a nossa belíssima professora de português. À "máfia portuguesa" em Banguecoque, como gostamos chamar ao reduzido grupo, juntaram-se amigos do coração tailandeses, quase irmãos que nos proporcionam sempre a melhor companhia. Mas senti que a Tailândia já não é a mesma. No meio de toda a dança, da bateria de flashes, das poses, sorrisos e gargalhadas, as pessoas estão apreensivas, há um não sei quê de iminente que ninguém se atreve pronunciar. Depois da alegria dos últimos dias, dir-se-ia que aqueles que perderam nos tribunais e na rua se preparam para retaliar. Um diplomata estrangeiro deu-me a prova dessa revindicta. Ao aproximar-me dele, como sempre com o maior dos sorrisos, recusou-se apertar-me a mão dizendo "dont shake hands with a monarchist". Fiquei banzado mas fiz-lhe a vontade: nunca mais me verá à frente, tremendo orgulhoso que sou. Acresce que nada lhe devo e se alguém deve algo a alguém pedir-lhe-ia os livros que lhe fui emprestando ao longo dos tempos e que nunca teve a elementar educação de devolver à proveniência.
A intromissão da diplomacia europeia, norte-americana e até, bazemos, sul-americana na intriga política tailandesa é sinal que qualquer coisa se deu nos últimos tempos. A mentalidadezinha neo-colonial e imperialista ocidental, agora limitada à abertura de mercados e profit, recoberta com as sagradas mentirinhas da liberdade e dos "direitos", pressiona, manobra, manda recados, toma partido. Para esta gente rica e desafogada, que nunca se deu conta que o Laos é um enorme campo de concentração comunista, que o Vietname é um Estado comunista totalitário, que a RPC é governada pelos filhos e netos de Mao, que Singapura é uma democracia de fachada, o que interessa é atirar o Rei pela borda-fora, revolver até à base a estratificação institucional siamesa, instalar um clima de luta que leve os tailandeses a dizerem que sim, que querem ser membros de corpo inteiro da "comunidade internacional" e, volvida a capitulação, colocar a familia real num avião. São os peritos da chantagem, da ameaça de sanções, do diálogo faz-de-conta. Se algo correr mal, não faz mal. Entram num avião e regressam, ricos e desafogados, aos seus escritórios de madeiras exóticas em Washington, Londres, Buenos Aires, Madrid e Berlim. Nunca lhes ouvi o mais pequeno reparo a respeito dos 20.000 presos políticos no Laos, mais os milhões de vietnamitas sem quaisquer direitos políticos, mais a legislação quase selvagem que vigora em Singapura a respeito daquelas pequenas coisas que nos permitem chamar homem a um homem. Isso não interessa. O importante é acabar com isto, custe o que custar. E depois têm o desaforo de chamar "reaccionários" aos outros. O que querem, sim, é uma Tailândia entregue a canalha desclassificada, com os seus Bush, os Berlusconnis, os Zapateros, mais os Kirchners e demais pedicures.
Regressei tarde e cansado a casa. No carro, os tailandeses, duas amigas e um amigo, confessaram-me serem todos incondicionais do PAD, mas não o devem dizer em público, pois as pressões - lembram-se do PREC ? - são enormes. E lá cantaram, rindo, a alegre marcha que toca em fundo deste desabafo: "somos felizes e bons assim, com o nosso Rei a velar pela vida desta terra (...) que goze sempre de boa saúde". Olhando para o ano que correu celere, para os livros que comprei e li, para os mil e um apontamentos que tirei, aceitei, finalmente, a evidência: entes uma Tailândia comunista que uma coisa de plástico e gente parva.

03 dezembro 2008

O dia do Pai


Passada a tempestade, as ruas de Banguecoque enchem-se de equipas de trabalhadores que erigem um pouco por toda a cidade altares votivos ao seu Rei. Aqui, o Dia do Pai é o do aniversário do monarca, como o Dia da Mãe o do aniversário da Rainha. Hoje assisti a coisa incrível. Em plena rua, na praça da zona comercial em que vivo, jovens de camisola vermelha davam os últimos retoques numa grande fotografia do Rei, ornamentada com flores amarelas. A seu lado, trabalhava uma equipa vestindo de amarelo. Falavam despreocupados uns com os outros, gargalhavam e uma rapariga de amarelo dava a mão ao seu namorado integralmente trajado de vermelho. Culpo-me por ser metediço e, quantas vezes, fotografar sem autorização as pessoas. Perante tal cena, não tive coragem de os fotografar. O sentimento monárquico é coisa grande, forte e entranhada nesta gente. É o país dos contos de fadas ? Não, é a Tailândia.

Meu amigo, meu Professor, o melhor da esquerda portuguesa



Recebi, comovido, a notícia da inauguração da Biblioteca Mário Sottomayor Cardia, doada pela família do saudoso professor à FCSH da Universidade Nova. Para celebrar o evento foi preparado um site e uma exposição bio-bibliográfica. Ora, em lugar de destaque, escolheram a minha obra Homem Cristo Filho: do anarquismo ao fascismo, que defendi em provas públicas para obtenção de Mestrado em Cultura e Política em 1999. Está aberta perante a cadeira em que Mário Sottomayor Cardia passou grande parte da sua vida lendo, estudando, apontando, comentando os milhares e milhares de livros que foi adquirindo ao longo de décadas. O meu humilde autógrafo ali está, tributo do respeito, admiração e agradecimento por tantas horas de magistrais lições que o Professor me deu ao longo de meses, à tardinha, no meu gabinete na Biblioteca Nacional de Portugal. Foi uma amizade que sempre me honrou, sobretudo por que vinda de um homem superior, cultíssimo e ávido de mais conhecimento. O Professor mostrou-se sempre um excelente conversador, flexível e aberto às mais acerbas provocações, sem nunca impor, sem jamais invocar os seus títulos e obra. Ficar-lhe-ei grato para a eternidade. Em suma, um homem de Liberdade.

02 dezembro 2008

[Continuação do] epílogo

A ordem voltou à Tailândia


O Nuno Caldeira da Silva tem feito aquilo a nossa imprensa não está preparada para fazer. Aqui debitou todos os dias, sem desfalecimentos, fosse qual fosse o auditório, a conta corrente dos noticiários, facultando aos portugueses informação preciosa, oferecendo gratuitamente às Necessidades o seu saber colhido diariamente da leitura, das muitas conversas e reflexão que foi possível fazer no meio do vórtice em que mergulhou a Tailândia ao longo de meses. Os seus superiores hierárquicos só têm que lhe agradecer, pois não é todos os dias que alguém se atira a tal empreitada. Não falhou em nada, pois não fez prognósticos nem fez política. Os seus pontos de vista, divergentes dos meus, são-me de grande utilidade, pois aqui cheguei só para estudar o passado e o Nuno foi-me dando, de bandeja, aquilo que não lia nos jornais. Está de parabéns. Quanto a mim, o processo "revolucionário" acabou em bem: sem guerra civil, sem muitos mortos e sem a divisão entre tailandeses. Os perdedores terão compreendido hoje quanta falta faz um Rei, o apaziguador, o elo de unidade e a porta que a todos acolhe. Os vitoriosos não se poderão exceder, pois o Rei tal não permitirá.


No rescaldo desta maratona julgo termos contribuído - eu, muito opinativo, sentimentalmente comprometido com a causa real, o Nuno, severo na apreciação de processos políticos muito distintos dos ocidentais - para esclarecer os portugueses [e brasileiros, pois muito os temos em consideração] sobre a fascinante, exótica e imprevisível tecitura anímica deste povo e desta terra que ambos amamos. Amanhã volta a paz. Espero que as feridas que originaram a luta civil tenham sido compreendidas por quem venceu a contenda. Só espero que agora os pobres, os humildes e aqueles que pouco ou nada têm e que a Thaksim se agarraram, por ele foram manipulados e usados, sejam, finalmente, contemplados com políticas sociais de justiça. Se tal não acontecer, dentro de cinco, sete, dez anos teremos de novo a repetição deste triste seriado. A sociedade civil tailandesa está a acordar, a cidadania é um dado absolutamente novo. As pessoas passaram a ter opinião, a contestar, criticar e defender os seus pontos de vista publicamente. Acabou o tempo do clubismo político, das cliques e das redes clientelares. Quem agora venceu sabe-o. Quem saiu derrotado sabe que qualquer deslize dos vencedores de hoje pode ressuscitar de novo aquilo que hoje foi a enterrar. O tempo muda. O passado é testemunhal, mas se não for compreendido apenas enquanto fonte de informação e inspiração e não como guia para a acção política, pode reduzir um país à contemplação embevecida do passado, fechar-lhe os olhos e lançá-lo no autismo.
Os tailandeses habituaram-se a ter como Rei um homem excepcional, um dos grandes homens de Estado do século XX. Contudo, a defesa da superioridade da monarquia não requer um Príncipe Perfeito para o exercício das funções reais, mas apenas o maior e mais esforçado servidor do Estado, do povo e da nação. Quando o novo rei vier, ninguém lhe discutirá o título, o fardo e as provações. Terá sempre ao seu lado aqueles que nele vêem a continuidade. Aqui está a ética monárquica: nunca discutir o Rei e servi-lo sempre, assim servindo a comunidade. A monarquia é, como dizia o clássico, um referendo todos os dias, referendo em que têm voz os vivos e os mortos, o passado e o presente.


Phrabat Somdet Phra Poraminthara Maha Bhumibol Adulyadej

Epílogo



Terra dos Homens Livres: Estou satisfeito por ver que a velha e antiga liberdade que fez do Sião a Terra dos Homens Livres sobrevive ao tempo conturbado em que o dinheiro e os negócios são lei e em que os que reclamam uma democracia suja por interesses inconfessáveis se vêem impossibilitados de dar largas ao costumeiro processo de atirar o povo miúdo contra a instituição que é salvaguarda da unidade nacional. Vitória plena para a Tailândia na unidade entre o povo e o Rei é, em suma, a lição desta crise. Os Mercedes, as roletas, as contas bancárias e a pedanteria sem nível pedirão desforra, mas terão por ora de se contentar com conspiratas.
Não houve Bastilha: SS MM os Reis presidiram hoje ao desfile militar que inicia quatro dias de festejos em honra do Rei, que celebra aniversário natalício no próximo dia 5. No aeroporto internacional de Banguecoque ouve uma explosão de lágrimas, abraços e hurras. Se isto não é o povo, onde está o povo ? Como disse no início da crise, aqui não haveria Bastilha alguma. Agora acrescento: aqui não vai haver nem Nepal nem a tomada do poder pela Mafia de Sampeng. A estratégia dos adeptos do governo era a habitual: reclamar lealdade à coroa, mas insinuando que reformas necessárias teriam de ser feitas em ordem a "modernizar" e adaptar a instituição real aos "tempos presentes"; i.e, transformar o Rei em figura decorativa. Depois, quando este estivesse praticamente isolado e sem capacidade de intervenção, colocar a possibilidade de auscultar o "povo" sobre a continuidade da chefia de Estado hereditária. Referendo ganho ! Logo, o candidato a Senhor Presidente - um homem de negócios, claro - faria uma campanha afirmando ter chegado o tempo dos homens comuns terem tantos "direitos" como um homem nascido numa família "privilegiada", atiçar a inveja e fazer crer ao pobre vendedor de rua que o seu filho poderia, um dia, vir a ser "Senhor Presidente". É a velha conversa de meretriz que conheço, a converseta da inveja daqueles que não podem ser reis, logo são inimigos da monarquia. Falhou !
Eleições justas: Dirão os adeptos da democracia, que eu também defendo, que o governo em colapso saíra de eleições livres e democráticas. Livres, não sei se foram, democráticas não o foram concerteza, sabendo das chapeladas e da vaga de compra-votos que cobriu as regiões mais remotas do país, as ofertas de motorizadas, computadores e carros com que Thaksim inundou os caciques de 5000 aldeias do nordeste. Depois, que autoridade temos nós, ocidentais, para contestar a vida política de países estranhos à tradição democrática ocidental se Bush II venceu a primeira eleição após mil e uma recontagens e da intervenção do cartel petrolífero, e que na Europa da União se fazem referendos após referendos para coagir os países rebeldes a aceitar as imposições de Bruxelas ? Os erros e entorses anti-democráticas só as cometem os outros. Nós, arrogantes, somos sempre puras vestais !


Kelly Newton: The King of Siam

Acabou a crise, podem vir à Tailândia


Última hora: o partido no governo (PPP) e dois dos seus parceiros menores acabam de ser dissolvidos por ordem da Corte Suprema e os seus dirigentes impedidos de exercerem actividade nos próximos cinco anos. No elenco das faltas apontadas, corrupção, fraude eleitoral, abuso de poder e apropriação indevida de bens para fins estranhos ao bem-comum. O governo cai automaticamente com tal decisão. A Tailândia regressa à normalidade após meio ano de dura luta política. No aeroporto internacional de Banguecoque uma enorme multidão dá largas às notícias. O PAD (tradicionalistas) saiu vitorioso, mas tal não quer dizer que se possa constituir em novo governo. Cabe ao chefe de Estado ponderar todas as possibilidades e restabelecer a unidade nacional. Tal como no passado, os tailandeses viram-se para o seu Rei e aguardam a melhor decisão.

Confesso que nunca pensei em tal desfecho, habituado, como europeu, ao poder que os homens do dinheiro detêm, à concentração da opinião que se publica nas mãos dos cartéis da "informação esclarecida" e à inexistência de quaisquer instituições não recobertas pelos donos do "pensar correcto". Sou, absolutamente, adepto do sufrágio universal, do sistema democrático, da livre expressão de ideias e coetâneos direitos de reunião e associação. Contudo - lembram-se da Itália ? - formas pervertidas de democracia também existem, pelo que se em Itália se recorreu Às Mãos Limpas, aqui fez-se o que se sabe. Só espero que a Tailândia, como previ, escolha uma "ditadura à turca", limpe a casa e restabeleça a democracia impoluta que é desejo de todos os thais. Contente estará, decerto, o general Chamlong, que foi campeão da democracia neste país em 1992 - liderando um levantamento popular contra a ditadura militar - e agora vê coroada de sucesso a temerária empresa em que se lançou.


Expressões que detesto (3): "um homem difícil"


Quando ouvirem tal expressão, tal quer dizer que a pessoa visada pelo labéu é merecedora de respeito e possui integridade e frontalidade de carácter. Os "homens difíceis" são, sempre, os postos à parte, aqueles que não pagam corveia, que não carregam a mala da pequena potestade, os que raramente dizem sim, não estão embrulhados em bandos e grupos, não fazem tertúlia, não pedem esmola nem a esperam de ninguém, têm opinião herética, defendem os seus pontos de vista de espada na mão e não integram a estupidez inteligente. Os "homens difíceis" não são imbecis; logo, aqueles que os colocam à parte inventam o argumento da dificuldade de relacionamento para os não convidarem para locais frequentados por "homens esclarecidos". Cortar-lhes a palavra, lembrar aos convivialistas o bisonho da criatura, não lhe fazer referência - colocá-lo, até, no obituário - são estratagemas comummente utilizados. Lembro os tempos da faculdade em que os estudantes escolhiam os professores. Sempre que se chegava ao de António Borges de Macedo - "homem difícil" e não esclarecido - lá vinha a pedra de arestas bicudas e perfurantes: "tem cuidado, ele é um homem difícil". Assim, lá iam ufanos os meus colegas para os homens esclarecidos, os de manso sorriso, os resistentes, os funcionários do PC.

01 dezembro 2008

Expressões que detesto (2): "um homem esclarecido"


Passei anos a ouvir a expressão. À míngua de qualidades evidentes e mensuráveis, sem predicados nem substância, apõe-se a uma criatura a coroa do "esclarecimento", halo de luz por certo inacessível à minha grosseira acuidade visual, mas que os outros teimam em ver ou fazer crer que vêem. Homens esclarecidos perpassam pela minha memória aos centos. Dos tempos do manicómio em que se transformou Portugal, ficou o eco de um Melo Antunes "esclarecido", de um "Costa Gomes esclarecido" e, até, de um Cunhal, figura duríssima, péssimo orador, repetitivo e fanático, besuntado com as mesuras e méis daqueles que por certo mandaria enterrar vivos em campos de reeducação, caso tivesse tido oportunidade para cravar garras no lombo deste país. O "esclarecimento" tem história velha. Vem dos tempos dos salões em que os éclairés brincavam à inteligência com cheques de erudição provocatrice, tocando ao de leve todas e nenhumas questões, do trajar dos persas à Bíblia, das maquinetas pendulares à revolução dos planetas, da circulação do sangue ao segredo da origem química dos flatos. O "esclarecimento", afinal, é como aqueles "mistérios" da religião: é tão denso e obscuro, tão inacessível às faculdades cognitivas dos grosseiros mortais que existe, pronto, sem discussões. Trocado por miúdos quer dizer: o esclarecido tem de ser, obrigatoriamente, um ex-comunista e melhor será se tivesse calcorreado aquele terreno movediço dos compagnons de route, nem carne nem peixe, carne se as coisas caíssem para o lado dos Amanhãs Ridentes, peixe se as coisas tombassem para os lados da "democracia burguesa" (outro mistério por decifrar, tão obscuro como aquela pateta expressão do "comunista puro". O "homem esclarecido" é, assim, um outro nome para o de oportunista, catavento, proteu, habilidoso, arranjista, lambe-botas. Fica bem. Dá chique e dá proveito ! Pode, também, dizer que é um "homem do seu tempo" - como se alguém pudesse ser de um tempo diferente do seu - e como tal fazer pública fé daquelas coisas que se repetem até à náusea sem jamais saber o que são. Por último, pode ser - esta é a minha interpretação - um outro nome para o de estúpido inteligente. Lembram-se do programa dos livros do Carlos Pinto Coelho ? Pois, ali está na sua grandiosa exemplaridade, o "esclarecimento".
Receita: se quer ser um homem/mulher esclarecido(a), cite, cite muitos autores, fale baixo mas como quem está a dar uma aula, misturando o "sério" com palavrotas de café ("giro", "tipo porreiro", "estás a ver ?"), locuções interjectivas e uma boa dúzia de palavras para que outros "esclarecidos" percebam estarem a lidar com um igual: "cumplicidade", "intelectual", "cultura", "saber" são sempre benvindos. Se quiser brincar ao velho intelectual, não deixe de dizer que não é nem nunca foi marxista (calha mesmo bem), mas que aceita alguns postulados do velho Karl, sobretudo se passarem na categoria de "metodologia". Pode inclinar a cabeça, assentar o queixo na mão, coçar a nuca como quem espreme o cérebro e semear a conversa de ahhhh, hmmmm, hôôô. Para elevar o ego do seu interlocutor, decerto também esclarecido, vá abanando a cabeça ao mesmo tempo que exibe um sorriso embevecido e semicerra os olhos para lhe demonstrar que o que estão a tratar é coisa verdadeiramente elevada.



Um "salão"

O Dia mais longo

30 novembro 2008

Combustões no aeroporto de Suvarnabhumi


Foi um repente de oportunidade que se abriu ao fim da tarde. Em frente de minha casa, um oficial da polícia, vizinho com quem nunca havia trocado palavra, disse-me que estava de partida para o aeroporto de Banguecoque e que me levaria se eu quisesse assistir a um "aontecimento histórico". Com ele, dois rapazes, a mulher e uma criança vestiam integralmente de amarelo da cabeça aos pés, cingindo a fronte com a palavra de ordem do momento: "Nós Amamos o Rei = Ráw Rák Nay Luang". Nem hesitei. Meti-me no jeep e lá fomos. Confesso que ao lusco-fusco a moderna e larga auto-estrada me encheu de apreensão. Não havia vivalma, ocorrendo-me apenas um daqueles filmes sobre catátrofes naturais ou que uma epidemia vitimara toda a gente e apenas deixara as obras de arte arquitectónicas intactas. Vinte e tal quilómetros de vazio, sem um polícia, um soldado. Temi que um grupo de adeptos do governo - os "vermelhos" - se atravessasse no caminho e de nós fizesse carne picada. Felizmente, nada se passou. A uns dois mil metros do imenso terminal - um dos maiores do mundo - as primeiras barragens dos Tradicionalistas.

Um carro dos serviços anti-fogo atravessava a estrada. A seu lado, arame farpado e "dentes de dragão" improvisados visando impedir a arremetida de blindados governamentais. Uns cem homens armados de bastões, machetes, sticks de golfe e armas de caça em atalaia para qualquer eventualidade. Deixaram-nos passar depois de breve interrogatório: "quem são ?", "quem é o farang ?". O condutor disse-lhes o que queriam ouvir e lá seguimos.


Mais duzentos metros, nova barricada, agora provida de um escudo humano. Entre a multidão, um notório grupo de muçulmanos com as suas barbichas em cone, cofió na cabeça e trajos do Sul exibiam volumosas barras de ferro cujo efeito deve ser devastador. Reparei que à esquerda, com vista sobre a autoestrada que passa por baixo, vários homens empunhavam binóculos de visão nocturna.

Eis-nos chegados ao eoroporto. Por aqui passam, em dias normais, dezenas de milhares de passageiros. Hoje estava absolutamente deserto, mas o ar condicionado, a iluminação e até os serviços de limpeza continuam a funcionar como se nada tivesse acontecido. Como verificara na Palácio do Governo, que visitei há dois meses, os piquetes de limpeza dos revoltosos trabalham como se tudo aquilo lhes pertencesse.

Subi as escadas para o patamar onde se situam as representações das mil e uma linhas aéreas que demandam Banguecoque. Uma banca de víveres [gratuitos] servia chá, café, água, refrigerantes, bolos e sandwiches. Atentei num cartaz destinado a informar os estrangeiros da luta que os anima.

"Nós somos os mais pacíficos protestantes: bombardeados, alvejados a tiro, feridos e mortos, aqui continuamos em protesto pacífico". Nos últimos dias, foguetes anti-carro têm chovido sobre a multidão que se acotovela na Casa do Governo, bombas têm rebentado, apoiantes rebeldes alvejados a tiro por milicianos supostamente afectos ao governo, mas aquela gente não arreda pé. Tais ataques, ao invés de amedrontarem, reforçam o ânimo desta gente em levar até ao fim aquilo que dizem ser o interesse nacional, a defesa da coroa e a liberdade. Não tomando partido, como observador estrangeiro interessado na vida política deste país, sinto que estado de alma semelhante não encontraria na Europa, dada a grandes efusões de um dia, mas que não resiste às canseiras de vigílias intermináveis, ao dormir no chão, às rações de combate e ao medo de perder a vida, o emprego e o conforto. São as diferenças.


Onde antes se fazia o check-in de malas e passageiros, hoje está a imprensa, as agências noticiosas, os enviados especiais, as televisões e rádios de meio globo, um acampamento tecnológico único destinado a captar o eventual assalto ao aeroporto. Os jornalistas são alimentados pelos rebeldes e até vi um jornalista de Hong Kong a partilhar uma refeição com uma família muçulmana.

Encontro com o pequeno génio do futebol infantil tailandês. A um canto, entretendo os jornalistas, o micro-jogador com dois atestados guiness exibe as suas habilidades. Bastou um pequeno aceno e um "nong, krub, chuey show pé bon nóy" ("irmãozinho, mostra-me o que sabes fazer com a bola") para a criança lançar a bola para a base da garrafa e aí a deixar imóvel durante uns largos minutos. Depois, quis-nos mostrar que a consegue chutar alternadamente com o pé direito e esquerdo de olhos fechados, atirá-la para as costas e logo a voltar a chutar dando saltos de malabarista. Deixei-lhe 20 Bath numa caixa para o peditório "para comprar mais bolas". Mas não estava ali para ver o pequeno futuro Pelé siamês. Queria ver a gente, a multidão.


Um homem cruza-se no meu caminho e insiste que lhe tire uma foto. Coloca-a, como fazem os thais, em cima da cabeça, demonstrando o lugar que o Rei ocupa na sua vida: acima da cabeça, acima da sua vida, perto do céu. É um taxista e diz que veio com os irmãos da sua província, a mais de 300 quilómetros, para dar o seu pequeno contributo à "luta final".


O grandioso hall está transformado em acampamento. Avaliei em duas ou três mil pessoas as que ali se deitam, seguem os noticiários, comem, conversam ou cantam. Um homem idoso, de fino perfil que denota a origem social, chama-nos num inglês correcto e diz "digam lá para fora que somos gente boa que só quer o bem do nosso país e não somos hooligans como dizem na CNN e noutras televisões amigas de Thaksin".

Saí, finalmente, do edifício. Lá fora, a multidão que podem verificar, umas seis ou sete mil pessoas sentadas em esteiras no chão acompanham os discursos dos oradores e músicos que animam a festa. Ontem estavam quatro ou cinco vezes mais assistentes, pois amanhã é dia de trabalho e as pessoas não podem deixar de comparecer nos seus escritórios. Dizem-me que no outro aeroporto da capital - Don Muang - estarão outras cinco mil, mais as cinco mil eternamente postadas no Palácio do Governo. Esta mole é acolhida, alimentada, tratada e protegida pelo "Exército Budista da Tailândia", o que exige dinheiro e trabalho voluntário prestado por médicos, enfermeiros, socorristas, estudantes e monges. A Tailândia está em polvorosa, mas, fiel ao meu compromisso de não me deixar contaminar por qualquer paixão, só posso confessar que esta gente não me pareceu perigosa e que bom seria que tudo terminasse sem efusão inútil de sangue.

Hora de regressar a Banguecoque. A passadeira deixa a mais patética advertência: proibido parar ! É a revolução e a suas inversões semânticas. A ordem soa-me tão falsa como as ameaças além-túmulo que os faraós faziam aos perturbadores do seu sono eterno, mas penso que os rebeldes a lerão ao contrário: "rebelde, agora é proibido parares".

FICO !

O senhor Secretário de Estado da tutela acaba de afirmar que o nosso governo providenciará todos os meios para retirar a salvo da Tailândia os portugueses aqui residentes ou de passagem. Ofereço o meu lugar a quem o quiser, pois daqui não saio nem empurrado. Tenho muito que fazer: continuar a estudar e investigar, pois foi para tal que vim. Acresce que não quero perder o espectáculo. Não se sai a meio da peça !

Revolução tradicionalista



Não, já não é uma revolta, agora é uma revolução. O PREC ao contrário que se desenvolve na Tailândia desde 25 de Maio - comícios ininterruptos, 24 horas por dia, reunindo agora mais de 80.000 pessoas em Banguecoque - dá plena expressão àquela obscura frase de Joseph De Maistre, segundo o qual "a contra-revolução não será uma revolução, mas o contrário da revolução". As coisas são assim. Se a revolução viesse das esquerdas, a ocupação de aeroportos, as barricadas, as greves, os piquetes, os enfrentamentos com a policia, os estribilhos, as colagens, as braçadeiras e toda a adereçagem romântica inerente às revoluções seria interpretada como uma "necessidade histórica", "violência legítima contra a violência do Estado", "mal necessário" e expressão da "fúria popular". Mas não, aqui é o contrário das esquerdas quem mobiliza milhões, quem conquista e domina as ruas, quem atira pedras às forças da ordem, chama "fantoches" ao governo e partidos do parlamento e se organiza em anti-governo e para-Estado. É um acontecimento, talvez de magnitude apenas comparável aos eventos do Irão de 1979. Ontem não consegui pregar olho. A mais de cinco quilómetros da minha casa havia comício em grande na sede do governo, ocupada há mais de dois meses pelos tradicionalistas. Bandas rock, música tradicional e cânticos patrióticos faziam tamanha barulheira que o vento as trazia ampliadas. Hoje saí cedo, para ir ao mercado. Pelo caminho cruzei-me com uma caravana automóvel. Duzentos ou mais carros apinhados de gente empunhando bandeiras do PAD, faixas amarelas cingidas na fronte, punhos cerrados, palavras de ordem, retratos do Rei. Eram jovens, muitos jovens, muitas mulheres, até crianças de colo fazendo uma algazarra insurdecedora rumando em direcção ao aeroporto internacional de Banguecoque. No meio desta multidão heteróclita, muitos muçulmanos, minoria aliada dos revoltosos, em resposta às chacinas que o ex-primeiro ministro Thaksim mandou cometer no sul do país. Lobriguei, também - quem não lhes conhece o estilo - membros da elite aristocrática, exibindo crânio rapado com um tufo de cabelos no cocuruto da cabeça. É claro que, depois de tudo isto, a Tailândia jamais será a mesma. Voltei a casa. Nova surpresa. As lavadeiras não aceitam trabalho para hoje. Trajando de amarelo dizem-me com sorriso vitorioso que vão para o comício para "defender o Rei dos homens da máfia [i.e, do governo]" ! Estamos em revolução, mas o contrário de uma revolução. Não sei se são a maioria ou uma minoria, mas noutras revoluções alguém formulou tal pergunta ?