27 novembro 2008

A contra-revolucionária "Farang"


Kelly Newton Wordsworth, a mais famosa das cantoras "farang" (europeia) a viver na Tailândia, juntou-se esta noite aos revoltosos e cantou o já conhecido RainMan em homenagem ao Rei. A canção de intervenção está, decididamente, ao lado da monarquia e dos tradicionalistas.

Kelly Newton- Wordsworth: The RainMan

Crise na Tailândia: antologia de textos de Combustões

Multidão tradicionalista ocupa aeroporto internacional de Banguecoque

Para quantos acompanham nos noticiários a aguda crise tailandesa, deixo, a pedido de uma amiga, relação de textos aqui vertidos sobre a vida tailandesa ao longo dos últimos dois anos:
Pacote 1
Pacote 2
Pacote 3
Pacote 4

Chegou o momento do Pai-Árvore, uma vez mais, salvar o país do caos.


Tongchay McIntyre: Pó Dton May = Pai Árvore [Rei]

Expressões que detesto (1): Aldeia Global


"Aldeia Global", uma descoberta de Wyndham Lewis, depois popularizada por McLuhan e vendida a pataco pela parelha Toffler. Cheira-me a artesanato das feiras de turismo, uma mentira que carrega às costas a cultura de guia para turistas de poucos recursos que inundam os Mc Donalds, compram Nossas Senhoras de plástico fluorescente e julgam que um shemagh faz um Arafat, uma boina estrelada um Che e umas tranças imundas ninho-de-ratos um Bob Marley.

25 novembro 2008

Fortuna de Cressus


Diz-se que Medina Carreira terá avaliado em dois mil milhões de contos o montante de dinheiros mal parados recebidos da Europa por Portugal ao longo de vinte e cinco anos; ou seja, mais de setenta milhões de contos desaparecidos, dados, esbanjados, mal aplicados e desviados anualmente pelas curibecas agora finalmente postas a descoberto pelas primeiras [e tremendas] revelações do escândalo que abala o país. Compreende-se, assim, o atraso, a impreparação, a falta de competitividade das empresas e dos trabalhadores portugueses. Se a esta soma quase cósmica aduzirmos os milhões de milhões de contos gastos anualmente com a fulanagem inútil que serve os aparelhos partidários - os eurodeputados, os deputados, os presidentes de câmaras, as assessorias (vulgo boys), as aquisições de serviços a familiares, amigos, primos e protegidos -trememos de espanto e indignação. Portugal não pode sobreviver se continuar entregue a tal camarilha devorista. Temos sido, literalmente, sugados até ao tutano por gente que nem para arrumadores de cinema presta. Tempos houve em que o Estado era rico, pagava mal aos seus servidores e dava o exemplo a um país pobre. Hoje, com o Estado pobre, brincamos impudicamente com a pobreza sem esperança de um país definitivamente encostado à berma da história e pagamos regiamente a funcionários de partidos que ainda têm o supino atrevimento de chamar parasitas aos funcionários do Estado. O sistema, como está a funcionar, parece estar a fazer tudo para despertar messianismos.



Ravel: Valsa para dois pianos

24 novembro 2008

Can asians thinking ?


O nosso bom amigo Nuno Caldeira da Silva - que aqui tem sido como a família que me falta nesta terra distante - lança-me hoje um repto a propósito do manicómio (sic) em que se transformou a vida política tailandesa ao longo de um longo e penoso processo que se iniciou há mais de dois anos e para o qual parece não haver solução. Temos tido - e de que maneira - discussões sobre a situação; o Nuno, legalista, afirmando não poder haver caminho fora da ordem constitucional; eu, que da Tailândia só conheço o passado, procurando compreender a actual crise no quadro da história do país. No fundo, temos razão nas razões que invocamos. Não há soluções contra a cultura política de referência da ordem global, como também não há solução sem atender à especificidade de uma cultura política que se funda em alicerces sólidos e sem a qual a Tailândia não existiria. Daí que a quadratura do círculo seja aqui, passe a redundância, impossível. Ou a Tailândia renega todo o passado, transformando-se num país sem viabilidade, pois a aplicação do princípio um homem, um voto, iria abrir portas à explosão de particularismos étnicos, religiosos e regionais em que ninguém quer por ora tocar, somando-os a uma certa forma de democracia manchada pelo caciquismo, fraude eleitoral e poder do gangsterismo da máfia do dinheiro e dos negócios, ou a Tailândia fechar-se-á numa rodoma, desligando-se da comunidade internacional e aplicando, como o fizeram os birmaneses, uma solução autoritária isolacionista.


Com o Rei já octogenário - um grande fazedor de consensos, político lúcido com o condão de refazer a monarquia e confundi-la com o patriotismo ao elaborar um civismo centrado no respeito reverente pela instituição real - a Tailândia parece estar a aproximar-se perigosamente da situação em que terá, do novo (como em 1932) de escolher entre o nacionalismo (para proteger o Estado) e a monarquia, que cativa fidelidades transversalmente em todo o puzzle de povos que integram esta sociedade multi-étnica e multireligiosa. Se vingar a solução democrática nacionalista, surgirão espontaneamente partidos confessionais (budistas, muçulmanos, cristãos), como surgirão forças secessionistas no Sul malaio-muçulmano e nas zonas fronteiriças habitadas por "Povos das Montanhas" e khmeres, para não referir, obviamente, uma explosiva luta de classes da qual sairá perdedora a pequena, urbana e educada classe média que é, para todos os efeitos, o agente de estabilidade e a marca de ocidentalidade. Não esquecerá o Nuno que neste país há grandes assimetrias sociais, que o Partido Socialista (leia-se cripto-comunista) venceu esmagadoramente no Issan (a região mais deprimida do país) as únicas eleições limpas aqui verificadas no imediato pós-guerra mundial e que foi nessa região que prosperou durante mais de uma década a guerrilha comunista influenciada por análogas lutas que se travavam no Vietname do Sul, no Camboja e no Laos entre aliados do Ocidente e aliados da defunta URSS e da República Popular da China. A desaparecer o papel arbitral e central da monarquia, quem hoje vota "vermelho" (seguidores de Thaksin) poderia passar a votar contra a classe média. A Tailândia entraria num vórtice de violência e em processo revolucionário que obrigaria à saída do país de todos os estrangeiros que aqui trabalham, ao afundamento da economia, ao colapso do turismo e aos mais que certos banhos de sangue entre a burguesia e a aristocracia refinada e o lumpen das conurbações de Banguecoque. Creio que ninguém quererá uma Tailândia exposta a tal cenário.


Um segundo elemento que importa convocar é o da definição de partido político nesta região do planeta. Até países modernos e desenvolvidos como o Japão não fogem ao princípio da confusão entre o partido maioritario e a ordem constitucional. O Japão é governado desde os anos 50 pelo PLD. Na Ásia, o princípio da autoridade sobreleva todos os demais, não havendo, como no Ocidente, o entendimento da rotação no poder como algo vantajoso para a saúde da democracia. Os asiáticos obedecem, raramente dão opinião e se a dão fazem-no com o consentimento de um superior. Podemos ter amigos do coração sem que jamais saibamos o que pensam sobre política. O Nuno sabe-o bem. É difícil falar de assuntos "sérios" com asiáticos, se os assuntos sérios forem factor de discussão. Aqui, para além dos partidos que concorrem a eleições, há outros "partidos", tão ou mais fortes que aqueles, partidos fácticos, mais respeitados que os partidos políticos, pois que emanação de uma estética social autoritária. Às Forças Armadas, à Polícia, ao Templo, ao Funcionalismo Público e à Universidade são tributados respeito que não é dado aos políticos parlamentares. É, ainda, passe a cavilosa analogia, uma "sociedade antiga" à Ancien Régime europeu, afeita a pragmáticas, ao status (mérito), ao uniforme que se enverga, ao lugar que cada um ocupa. O poder do dinheiro e da livre iniciativa é forte, mas é recente. Para a generalidade dos tailandeses, pensar que o poder deve caber aos empresários sem status (boon=mérito) é tão irreverente como o de pensar que o poder deve pertencer à maioria (sem mérito e sem status, logo sem dinheiro), só pelo facto de ser maioria.


Um terceiro nível do problema envolve questões de natureza epistemológica e gnoseológica. O Ocidente sempre desvalorizou quaisquer formas de pensamento que confrontassem a nossa tradição crítica. Ora, como o Nuno sabe, até os chineses, que erigiram a sua versão totalitária modernizante do Estado moderno à imagem do Estado soviético, nunca conseguiram resolver elementares questões de tradução conceptual dos textos fundadores do marxismo. Para os chineses não há tradução possível para o conceito de dialéctica, pois na sua língua só há opostos (lança=tese; escudo= antítese) e nunca síntese. Também os indianos, que jamais poderão reclamar indianidade sem o hinduísmo, poderão fazer todos os malabarismos que a sua consabida inteligência pode realizar, mas manter-se-ão sempre aferrados à ideia de limpeza/sujidade espiritual que dita a estruturação social em castas. Poderão agora dizer que as castas são complementares, que uma mão ajuda a outra, que há lugar para o cérebro, as vísceras e os pés (poderão até ter como presidente um pária), mas a casta (o oposto da ideia de igualdade ontológica) fará sempre parte da mundivisão indiana e da sua teoria social.


No que à Tailândia diz respeito, julgo que a Europa e o Ocidente em geral poderiam ser menos metediços, deixar de pregar moral e de lhes mostrar o bom caminho. Qualquer que seja a forma de governo que aqui funcione, a Tailândia será sempre, como tão bem o sabe o Nuno, muitíssimo mais livre que as mais livres sociedades ocidentais. É esta a contradição. No Ocidente, precisamos de leis, precisamos de deputados e legisladores para proteger aquelas coisas simples que os thais sempre tiveram. Aqui nunca houve queima de hereges, o espaço público e o espaço privado dir-se-ia viverem em planetas opostos, a amabilidade e o may pen ray estão em todas as pessoas. O grave, poderá apontar o Nuno, é que estamos em violência. Essa violência, contudo, é consequência da aplicação de uma certa ideia universal que se mostrou desastrosa em todos os continentes não bafejados pela riqueza material, sustentáculo da democracia. Daí que tenha alguma simpatia por algumas reclamações do PAD, à cabeça das quais - motivo para um recente debate acalorado entre nós - está a possibilidade [diria necessidade] de manter forte e omnipresente a monarquia e de não permitir que se desfaça o pacto de unidade que Thaksin, deliberada ou inadvertidamente, quis por em causa ao pretender fazer escorregar o pêndulo para a lei da maioria. Como o PAD não tem a força necessária para mudar o que está, como o governo pró-Thaksin é um fantasma sem poder, julgo que o único "partido com capacidade de gerar uma transição para uma nova ordem constitucional mista (monárquica e democrática) são as Forças Armadas.