22 novembro 2008

Golpe militar


Os civis não se entendem nem se dão ao respeito. Aqui, sempre que detiveram o poder, mostraram-se incapazes de encontrar aquela estabilidade que faz dos regimes constitucionais participativos o mais forte argumento dos defensores da democracia. Ora, quando as democracias se perdem na fulanização, no grupismo, na corrupção e na anomia, o melhor destino que se lhes deseja é o de fecharem portas e despedirem aqueles que se banquetearam impunemente com a riqueza pública. As coisas estão por um fio. Amanhã, na próxima semana, no próximo mês, os tanques desfilarão entre alas de aplausos e os generais invocarão a vontade nacional. É assim que morrem as democracias. É pena, mas é assim !

Parabéns D. Isabel de Bragança

20 novembro 2008

Apaziguamento ou rendição ante os inimigos do Ocidente ?



Obra polémica, misto de ensaio e trabalho de grande fôlego historiográfico de um autor sobejamente conhecido que tem sido atacado sem dó pelos profissionais da história documental, sem asas e privada de coragem intelectual. Atacado pelo confesso catolicismo na acusação das pseudo-religiões que mancharam o século XX - o nazismo e o comunismo - bem como daquelas que se preparam para semear a presente centúria de crepes, alerta para o esperado apaziguamento entre o Ocidente e o Islão extremista. Michael Burleigh afirma sem rebuço que o apaziaguamento da luta contra o Terror Global pode carregar no seu bojo perigos ainda maiores que a contenção manu militari do Islão militante. O problema do Ocidente, diz, baseia-se na imagem de fraqueza que exibe ante aqueles que o querem destruir, no desarmamento cultural e vazio perante os inimigos, no conciliarismo a todo o custo que só aumenta o desprezo e tentação para a acção daqueles que se julgam investidos de uma missão divina. Livro notável, inovador e prospectivo, notável também pela associação genética que estabelece entre o nascimento do nazismo e do comunismo e a destruição da ideia de Europa, queira-se ou não, uma criação do cristianismo. A maior provocação ao leitor reside, precisamente, no facto de o autor, homem de direita, ser um fogoso inimigo do "mundo moderno", com as suas incuráveis tentativas de forjar religiões à la carte, macaquear as instituições que regeram e produziram as nações europeias, de se entusiasmar com a possibilidade de reinventar causas sagradas, roubando-as ao património erigido pela história. Como bem aponta, o nazismo apropriou-se fraudulentamente de toda a cultura alemã, indo ao ponto de transformar a obra de Beethoven em fundo oficial do III Reich, de confiscar a figura histórica de Frederico II e fazer crer aos alemães que estavam a reviver as façanhas pretéritas dos povos de língua alemã.


O Deutschland, hoch in Eheren,
obra poética de Ludwig Bauer (1859) e musical de Hugo Pierson transformada pelo regime hitleriano para convocar o Volksturm ("Tempestade Popular) em 1944, ideia também roubada ao levantamento popular anti-napoleónico de 1813.

18 novembro 2008

Esta já tem dois votos

"E até não sei se a certa altura não seria bom haver seis meses sem democracia, mete-se tudo na ordem e depois então venha a democracia (...) Não retiro uma vírgula àquilo que disse" - Manuela Ferreira Leite.
Pulam as carpideiras. Arrancam cabelos, cravam as unhas na cara, rebolam pelo chão e guincham "vá de retro, Satanás". A multidão guincha "morre Tentador". Eu sempre disse que Portugal está condenado a viver em balbúrdia seguida de ditadura e ditadura seguida de balbúrdia. É a nossa sina. Ainda se fosse uma ditadura comissarial à João Franco (limpar as cavalariças, suspender o bota abaixo, a reunite, a conversite, a opinarite) vá que não vá. Porém, na noite a seguir à imposição da ditadura, lá estariam todos os que na tarde anterior se haviam espolinhado em convulsões. É o nosso fado.

Superar-nos, sempre

Os meus exercícios de escrita thai

Não replicarei ao confrade Jansenista sobre as evidentes qualidades inerentes ao viver habitualmente, qualidades do estado adulto, porquanto as subscrevo integralmente. As virtudes cardinais da justiça, da fortaleza, da prudência e da temperança só se realizam quando morre o fogo da impetuosidade vã, a acrimónia, o excesso e a errância que caracterizam a procura da identidade, pelo que um adulto possuído pelo extremismo provocatório ou pelo afã de condicionar os outros é sempre um perigoso retardado. Como sempre, os puros são os mais perigosos. Os castos, os penitentes e os homens que se julgam tomados por um dedo invisível acabam, sempre, por cometer aqueles pecados veniais da soberba e da ira, não raro exibindo também os da preguiça - "se os outros não me querem, por eles nada farei" - e o dessa outra forma de luxúria que é o viver para si, para a sua pureza e para o seu pequeno mundo que querem universalizar. As pessoas mais malsãs que conheci ao longo da vida eram, quase todas, "pessoas religiosas": delas transpirava arrogância, falsa modéstia, intolerância a extremos de crueldade, desprezo pela sorte dos outros, incapacidade de amar, de oferecer e partilhar. No mesmo registo estão, também, os sôfregos da vida, aqueles que nunca param, que da vida tudo querem tomar: são os consumidores de pessoas, de comida, de objectos, de empregos, de livros e de "amizades". Essa sofreguidão perde ponto de aplicação e transforma-os em doentes egolátricos. Por isso, detesto os convivialistas profissionais, os homens e mulheres amigos de todos, os carreiristas e os curriculistas, mais os adesivos, os intelectuais, os modistas e os consensualistas, sempre à tona, sempre em movimento de expansão sobre os outros. Essa gente, no momento em que desce à terra, volatiliza-se. Delas nada fica.

Pode-se ser heróico, viver em estado de tensão lúcida, desafiar as Portas de Tebas sem sair da casinhota do mais remoto e ignoto lugarejo. As irmãs Brontë viveram em absoluta heroicidade habitual em Haworth, entre as charnecas sem vivalma do Yorshire, mas deixaram tal sulco que hoje nada sabemos da vida sem ter passado pelo Morro dos Ventos Uivantes. Li em tempos Julien Freund, que jamais tendo sido um pensador da moda, relançou a visão de uma antropologia fundada no rigor, na exigência, no dever e na responsabilidade, desmascarando a direita rotunda dos negócios na carteira e do liberalismo na garganta e desautorizando a esquerda revolucionária que vive, afinal, toda derrancada na invejosa ânsia de possuir, roubando aquilo que não lhe pertence.

A heroicidade é um dado infuso a qualquer homem. Não penso, contudo, que essa heroicidade seja a de uma qualquer "epopeia do homem comum", pois os homens comuns vivem presos, apenas, aos dados imediatos da existência e se lhes dá para outros vôos, dá-lhes para castigar, torturar e infernizar os outros. Ou não são os obcecados da moral, das "virtudes" e dos "valores" as mais insignificantes criaturas que povoam o planeta ? O confrade Jansenista leu, certamente, o If de Kipling. Ali está, despojada de artifício, a heroicidade.

Olhe, eu também sou, na minha pequenês, um candidato a herói. Quando para aqui vim, não falava nem escrevia uma língua que entre nós não contará mais de meia dúzia de interessados. São sete, oito horas de estudo diário, a que somo outras tantas para a preparação de trabalho académico. Faço tudo por superar a preguiça e as desculpas evasivas. Podia ficar na cama, entregar-me ao sibaritismo, esgotar-me em jogos sociais. Acho, contudo, que estudar é mais importante: para mim, para o meu futuro, para a profissão que escolhi e para Portugal. Sei que Portugal de mim nada quererá pelas razões aqui bastamente convocadas. Mas o que interessa isso se me sentir bem com as canseiras a que gostosamente me entreguei ?

17 novembro 2008

Contrastes



O Ocidente e o mundo acomodaram-se definitivamente à lei da mediania sem asas, sem cabeça e sem gosto. As últimas décadas são eloquente testemunho desse plano inclinado em que a demissão da inteligência fez causa comum com o exibicionismo roncante, o falso igualitarismo triunfou sobre a diversidade enriquecedora e por todo o lado se quiseram as pessoas standardizadas no vestir, no falar e no pensar. O triunfo do homem comum, delícia das delícias do totalitarismo que não se quer ver ao espelho, constitui um desastre quase irreparável, porquanto aquilo que se teima chamar globalização, ao invés de promover homens de qualidade, deu expressão à tirania dos medíocres, dos contabilistas, dos vendedores de chips e automóveis, aos angariadores de seguros e demais obcecados pelo dinheiro. Os poderosos deste mundo reúnem-se anualmente para discutir as magnas questões que afligem o planeta. Olhando para a foto de família, procura-se em vão um estadista, mas só se lobrigam Betas, insignificâncias, gente que se “quer vestir bem”, “comer bem”, “viver confortavelmente”, conhecer ressorts nas Caraíbas, palmilhar cardápios e listas de vinhos de “qualidade” . Este macaquear da aristocracia e das elites tradicionais vai acabar mal. Li ontem que a falecida princesa tailandesa que foi a cremar comia duas refeições por dia, que se recusava gastar mais de 60 bath por prato (1,5 Euro) e a traparia cabia, toda, num guarda roupa. Quer explicar estas coisas aos patetas ufanos de consumo e status ? Empresa votada ao fracasso. Olharão para si com uma imensa pena.