15 novembro 2008

Impressionante








Grandes, dignas e emocionantes, foram assim as solenes cerimónias fúnebres da princesa real Galyani Vadhana, irmã mais velha do Rei, que foi a cremar num cenotáfio erigido segundo a tradição siamesa. Um mar compacto de tailandeses seguiu as exéquias que decorreram segundo o rígido protocolo bramânico, religião privativa da Casa Real, herdada do período angkhoriano, marca genética das sociedades indianizadas do Sudeste Asiático. O governo pediu ao povo que de negro carregado se vestisse. Hoje, em Banguecoque, ninguém faltou faltou à chamada da pragmática do luto. Na vida e na morte, a monarquia é carne da carne e alma desta nação. Respirou-se grandeza sem afectação; em suma, o país mostrou uma vez mais que a continuidade e o desejo de se manter absolutamente diferente faz parte da identidade e sobrevivência deste Estado jamais colonizado. Apenas me apercebi de insignificantes actos de mau gosto, oriundos, claro, de alguma horrorosa e quase selvagem turistagem analfabeta que não se deu conta da atmosfera de pesar e teimou em exibir camisolas vermelhas, top´s de praia e calções a roçar o género Patpong. Dois estilos, duas atitudes, talvez a melhor acareação entre um mundo que respeito e outro, alvar e insignificante, que abomino. Que falta nos faz um pouco desta grandeza sem burguesinhos de jet set, carregada de vento e manias, desnacionalizada e sem marca de fervor nacional. Este é, absolutamente, um povo culto. Outra nota curiosa. Estive em Sanam Luang, no meio da massa humana e não me dei conta de um grito, uma altercação, um passar à frente. Este é, decididamente, um povo de boas maneiras.

13 novembro 2008

Traços portugueses

Em plena rua, uma vendedora de Santa Cruz - bairro católico de Banguecoque - oferece-nos os gostos da pátria distante. Não deixei de lhe comprar duas embalagens para oferecer aos meus colegas de turma de escrita thai. Um deles, japonês, disse-me que no Japão também os têm. Portugal, aqui, é um presente ausente: está em todo lado, subtil mas vivo.

12 novembro 2008

A ralé não pode passar impune



A canalhização do povo português - fenómeno degradante a que Soares em tempo crismou estupidamente de "direito à indignação" - deu passos de gigante. É evidente que um representante do Estado não pode ser objecto de tais afrontas, que o desprestígio de um titular de cargo público, a coação física e os impropérios abjectos contra eles aremessados merecem a mais dura condenação e a mais dura reacção das autoridades constituídas. Há quem goste destas coisas, se o ministro for do PS, como em tempos recentes era mister rejubilar com tais degradações se o ministro fosse do PSD. O acto canalha é sempre canalha, parta da direita ou da esquerda, pelo que só se nos impõe prestar solidariedade a uma ministra exposta às revindictas da ralé. Aqui protestei a seu tempo análoga defesa de António Assis, quando foi assaltado por quejanda escumalha nas ruas de Felgueiras, como o faria em defesa de Jerónimo de Sousa, Louçã, Portas e Pinto Coelho se tal desdita lhes ocorresse. As pessoas ainda não compreenderam que há limites, que a violência política não cabe na política mas no Código Penal, que tal gente perde ipso facto direitos políticos ao cair sob a malha dos casos de esquadra. Espero que, desta vez, a Judiciária não se fique pela constatação da ocorrência, mas que investigue, apure responsabilidades e as comunique aos tribunais para que exerçam os direitos de protecção à vítima, que o Ministério da Educação, conhecidos os responsáveis, aplique o código disciplinar e proceda ao levantamento de processos disciplinares e ao despedimento compulsivo com justa causa a homens e mulheres pagos pelo Estado para ensinarem. Espero, também, que os alunos envolvidos na arruaça sejam suspensos e afastados das escolas que frequentam. Professores e alunos destes são dispensáveis. A lei é dura mas é a lei !

11 novembro 2008

10 novembro 2008

Pol Pot, aliado dos americanos


Foi um fim de dia a todos os títulos interessante e proveitoso. Comia a minha refeição da noite num pequeno restaurante do bairro. Ao meu lado, um homem dos seus sessenta e muitos anos, barba grisalha, volumoso e tisnado pelo sol, bebia a segunda garrafa de litro de Shingha. Estava só e meditabundo. Precisava falar com alguém, pelo que me perguntou de onde era e o que fazia neste país. Assim começou uma conversa de quase três horas. É um antigo funcionário da CIA, grande conhecedor da vida política do Sudeste-Asiático, da sua história, culturas e línguas. Trabalhou no Laos, Vietname do Sul e Camboja antes de 1975, fez a guerra, planeou operações, redigiu milhares de páginas de relatórios para Washington, assistiu a interrogatórios, recolheu informações; em suma, um testemunho vivo da longa guerra que os EUA aqui travaram.


Tenho lido tudo o que me chega às mãos sobre Pol Pot e o seu regime genocida, sobre a rivalidade regional entre a Tailândia e o Vietname pelo controle dos "Estados tampão" do Laos e Camboja, mas nunca tinha sido confrontado com tão torrente e vivida informação de um homem que fizera a guerra. Disse-me, como quem conta uma confidência, que os EUA jogaram a cartada da destruição do Camboja e Laos, atirando-os para o comunismo, quando viram que o desfecho não poderia ter sido outro que aquele por nós conhecido. Os americanos, sempre que os seus bombardeiros não podiam cumprir missões de arrasamento no Vietname do Norte, despejavam carpetes de bombas sobre o Laos, uma monarquia neutral. Essa política sistemática levou à destruição da economia laociana, à fuga precipitada das populações e adesão ao Pathet Lao, o Partido Comunista do Laos, controlado pelo Vietname do Norte. Depois, aplicaram a mesma receita sobre o Camboja, matando 200.000 pessoas, descredibilizando o governo pró-ocidental de Lon Nol e reforçando os Khmeres Vermelhos de Pol Pot, pró-chineses.


Quando Pol Pot assumiu o poder, mandou evacuar as cidades e aplicar a política de terra queimada a tudo o que lembrasse a contaminação ocidental: cerca de 2 milhões de "inimigos" foram selvaticamente mortos a tiro, com barras de ferro, asfixiados com sacos plásticos ou simplesmente deixados sem comida. O terror durou três anos (1975-79), até que os vietnamitas invadiram o Camboja e impuseram um governo pró-vietnamita (isto é, pró-soviético) em Phnom Pehn. Como os EUA se encontravam em esforçada campanha de aproximação a Pequim, não permitiram que o governo de Pol Pot fosse alvo de sanções internacionais até 1979 e no dia seguinte à sua queda passaram a municiar os remanescentes dos Khmeres Vermelhos a partir dos santuários ao longo da fronteira thai-cambojana. Pol Pot não recebeu apenas armamento (americano, francês, alemão e britânico) via Singapura; foi-lhe prestada assessoria militar, informação capturada por satélites, apoio logístico (alimentos e medicamentos), cursos de especialização em minagem e destruição de infraestruturas, emissão de passaportes falsos para os dignitários dos Khmeres Vermelhos e, espante-se, campanhas de imprensa favoráveis a Pol Pot pagas através de fundos da Casa Branca. Os EUA, com a China, a França e Grã-Bretanha mantiveram o lugar de Pol Pot na Assembleia Geral das Nações Unidas até 1991 (doze anos após a conquista da capital cambojana pelos vietnamitas) e proibiram qualquer alusão ao genocídio cometido por Pol Pot. Esta política obscena custou mais 500.000 mortos e mutilados ao povo cambojano e arrastou-se por anos até que o Vietname, já sem o apoio da URSS, entretanto desaparecida, se rendesse à pressão americana. Hoje, 30% das empresas vietnamitas são propriedade de norte-americanos.


Disse-me o meu companheiro de fim de tarde que os EUA se preparavam para fazer o mesmo com a Tailândia, caso o regime monárquico não conseguisse deter a expansão comunista na região; isto é, preparavam-se para destruir tudo o que pudesse servir a um futuro regime anti-ocidental. Era a célebre teoria do dominó de Kissinger, que também investia na teoria da "vacina pelo choque": demonstrar ao mundo que os comunistas, chegados ao poder, cometiam barbaridades inomináveis, pelo que os povos por eles não dominados deviam aprofundar o alinamento com os EUA. Os EUA quiseram, também, que a teoria surtisse efeito no Irão, mas as contas sairam-lhes trocadas e o PC do Irão não conseguiu derrotar os khomeinistas. Com Khomeini no poder, em guerra com o Iraque pró-socialista, passaram a vender armas ao Irão para, com tais receitas pagarem aos Contras da Nicarágua. Tudo isto lembrou-me Portugal, antes e após o 25 de Abril. Resumindo: não podemos confiar. Desconfiar sempre ! Tenho quase a certeza que Bin Laden, que já entrou nesta sarabanda há trinta anos, continua em reserva para uma qualquer negociação para o futuro do Afeganistão, quando os americanos abandonarem à sua triste sorte o governo de Cabul.
No que à Tailândia diz respeito, tal experimentalismo poderá estar em curso, só que com cambiantes que o tempo aconselha. Já não se trata de apoiar o comunismo - que desapareceu - mas os dóceis seguidores da cartilha do market, das business opportunities e dos global investments em nome do aprofundamento da democracia; leia-se, em nome da manipulação emocional que leve à destruição da monarquia neste país. Já repararam que o proscrito Thaksin, com mandado de captura, tem residência no Reino Unido, tem visitado com frequência Singapura (cidade-Estado do business) e Hong Kong (China) e possui contas astronómicas em bancos cambojanos ? Eles querem um mundo terraplanado, entregue ao gangsterismo dos negócios, sem vestígio de passado, continuidade e tradição. O Pentágono e a Secretaia de Estado estão cheios de atrasados mentais, por sinal tão iletrados como perigosos, para os quais a guerra do Vietname ainda não acabou. Com Obama e a nova cruzada pela democracia, espera-se o pior.



Lolok Nhi Chhmaul (Meas Hok Seng, morto pelos comunistas de Pol Pot em 1976)