08 novembro 2008

O meu "herói árabe"



Para a Cristina, Sir John Bagot Glubb, aliás Glubb Paxá, fundador da Legião Árabe, verdadeiro comandante de homens e autor de belíssimas obras, infelizmente inacessíveis ao leitor português: Arabian Adventures: Ten years of joyful service, Soldiers of fortune: the story of the Mamlukes, The changing scenes of life: an autobiography, et al. Ao contrário de Lawrence da Arábia, homem estranho, perturbado e raro, Glubb, cuja vida não foi menos aventurosa, lembra-me aqueles velhos portugueses, cabos de guerra que em Quinhentos e Seiscentos, da Pérsia à Índia, do Camboja às Malucas, de Pegú ao Achem, foram obedecidos e seguidos como se de verdadeiros reis se tratassem.

Um homem excepcional


Abdullah II, filho de Hussein. A monarquia hachemita com futuro assegurado !

Sem dúvida alguma, um dos maiores estadistas do século XX: inteligente, realista, aplicado, conciliador. Hussein da Jordânia foi sempre - notou-o Falacci quando o entrevistou - um homem simples, afável até extremos de delicadeza para com os criados, ao contrário de minúsculas potestades por nós bem conhecidas que tratam aqueles que os servem de chicote em riste. Graças a ele, a Jordânia evitou os ínvios caminhos de qualquer socialismo árabe, para depois não se render à fatalidade do obscurantismo religioso. Deu voz às minorias religiosas, emancipou as mulheres, legislou pela educação científica, não temeu Israel e sobre este até exerceu benéfica influência, demonstrando aos judeus que o Médio Oriente tem um futuro de paz e que as guerras passadas - sempre desastrosas para os árabes - não tendo resolvido coisa alguma, só podem adiar a paz inevitável. Perdeu guerras, aprendeu com as derrotas e morreu vitorioso, respeitado pela comunidade internacional e amado pelo seu povo. Deixou como legado à sua nação um filho que é modelo de estadista. As primeiras páginas da biografia de Hussein - o Leão do Jordão - auspiciam uma leitura apaixonada.


A-Sha-al Maleek

07 novembro 2008

Os EUA do apartheid


Ao longo da campanha que agora se finou, foi notória a ausência dos povos aborígenes, daqueles que desapareceram do palco da história pela caça que lhes foi movida, implacável e sem quartel ao longo de duzentos anos; dos sobreviventes exterminados pela varíola e pela sífilis; dos alcoolizados confinados a reservas inóspitas; dos alienados pela imposição de programas de "desenvolvimento separado" (leia-se Apartheid). O extermínio dos peles-vermelhas será, quiçá, juntamente com o genocídio dos tasmanes, um dos mais tremendos casos de aplicação metódica de limpeza étnica na história ocidental.
Se os descendentes dos escravos negros mereceram sempre a atenção e solidariedade de mentes bem formadas, para o índio não houve comiseração, complacência nem respeito. O índio nunca entrou na Constituição, nas leis e instituições que lhes dão expressão. Se aí foi objecto de atenção, foi para o isolar como caso perdido fora da cidadania. Nas sociedades modernas, urbanas, estratificadas em produtores, proprietários, trabalho e rendimento, o índio não cabia, nem cabe, pelo que os EUA, construídos sobre os cemitérios desses povos, jamais lhes quiseram dar o nome que é seu por inerência: o de americanos. As culturas índias ofenderam as crenças do intruso europeu: ali não havia propriedade, desconhecia-se o trabalho, a especialização e o dinheiro. Ora, o europeu arribadado ao Novo Mundo - a escória da plebe ou casos perdidos de fanatismo religioso - tinha sede de terra, afirmação individual, dinheiro e conforto. A terra que queria era habitada por "selvagens". O espírito de missão do liberalismo euro-americano não olhou a meios: fez desaparecer, do Atlântico ao Pacífico, das florestas semi-árticas aos desertos do Texas tudo o que lembrasse que aquela terra de promissão fora ocupada ao longo de 15.000 anos por cinco milhões de seres humanos.
O negro escravo servia para arrotear, semear o algodão, garimpar e escavar montanhas. Depois, com o advento do vapor, o trabalho escravo desapareceu e pintou-se a fábula da abolição. O negro passou a criado doméstico, trolha, moço de recados, bem atado em legislação que o colocava ao nível de ilota A manifesta relação utilitária entre o negro e a economia americana expressa-se pela dimensão da comunidade negra: eram 20% da população por alturas da independência, 12% após o colapso da Confederação (1865), 9% em 1940. Hoje, há proporcionalmente menos negros nos EUA que em 1776, desmentindo a vaga natalista com que os assustados WASP continuam a assustar os tementes de catástrofes. O índio não cultivava, não carregava nem sabia o que era uma cozinha, pelo que foi colocado fora da vista, sucessivamente empurrado para, finalmente, cair sob o fogo dos rifles.
Não experimentei qualquer comoção com a vitória de Obama. Era tão previsível como a próxima ascensão à Casa Branca de um "hispânico". Os impérios são todos multirraciais. Os romanos tiveram imperadores sírios, africanos, trácios, hispânicos e ilírios e Roma era, no século II, uma cidade povoada pelos mais desvairados povos, línguas e crenças. O que senti, sim, foi que os índios, aos quais foi dada cidadania nominal apenas em 1924, continuam sob a lei dos "bantustões índios". Há hoje 560 governos autónomos índios (calcula-se), mas privados do mais ínfimo vestígio de soberania. As reservas são administradas por nomeação de Washington e o negócio dos casinos, única fonte de receitas, é largamente controlado por redes mafiosas. Os índios são os menos escolarizados, os mais pobres e menos privilegiados pelas agências federais. Com a integração dos africanos gastou-se, entre 1963 e 1990, tanto quanto se aplicou na conquista do espaço. Para os índios, dominados por pequenos régulos corruptos e incapazes, não há aliados. Os negros não lhes perdoam terem sido caçadores de escravos fugidos, que devolvidos aos proprietários brancos rendiam armas de fogo, vestuário e alimentos. Os euro-americanos não lhes perdoam terem sido aliados dos britânicos na "Guerra da Independência", aliados dos mexicanos na guerra de 1846 e depois dos rebeldes sulistas. O índio ficou de lado, nas fitas de cowboys e na literatura de timbre romântico.



Sinfonia do Novo Mundo (Dvořák)

06 novembro 2008

As boas bombas


Coroação no Butão



Teve ontem lugar na sala do Trono Dourado de Thimphu, capital do Butão, com a pompa devida à sagração de um monarca budista, a coroação do novo rei Jigme Khesar Namgyal Wangchuk. Oxfordiano e cosmopolita pela educação recebida, reformador mas guardião da tradição de uma monarquia que é na cordilheira dos Himalaias um exemplo de estabilidade, o novo rei faz furor entre a juventude dos países asiáticos que tem visitado. A provar a vitalidade da instituição, estima-se que 80% da população participou nas festividades.


Butão: hino real

04 novembro 2008

Messianismo


A vaga obamista surpreende-nos. Quase duzentos anos depois da profecia de Tocqueville no De la démocratie en Amérique - a da edificação de um despotismo brando, da tirania da ignorância e do predomínio dos preconceitos do homem banal - vejo-a realizada no olhar cintilante e sorriso angelicar, terno pestanejar e aleluias com que o mundo espera o Messias. É duplamente perigoso, pois se para os EUA pode reeditar a cavalgada desastrosa que marcou outra passagem messiânica pela Sala Oval (Jimmy Carter), que se saldou pelo quase colapso do bom-senso na política externa norte-americana, pode provocar também a completa demissão das obrigações globais dos EUA e a tentação de uma nova vaga isolacionista, que penalizaria todo o Ocidente e seus aliados. Perigoso, também, para Portugal, pois Obama quer dizer África - ou antes, política africana norte-americana - que no passado deu sobejas provas de intrusão nas relações bilaterais entre as ex-potências coloniais e respectivas esferas de influência. Perigoso, ainda, pois pode dar carta branca à aceitação pelo facto do status quo, o que quer dizer "manter, porque existem", regimes que são, na essência e prática, absolutamente a negação da perspectiva ocidental dos negócios do mundo.


Deanna Durbin - Begin the Beguine (1943)

A banalização do café-política


Há muito que deixei de ler Mário Alberto. Corrijo, desde que li o "Portugal de Mordaça", há mais de vinte anos, tenho opinião formada e sustentada a respeito do amadorismo, impreparação, falta de rigor e superficialidade, vazio e total inabilidade literária daquele que foi, durante décadas, ícone sagrado gabado por palafreneiros em busca de protector. Tido por um "homem de cultura", o Pai da Pátria é um campeão da banalidade e do lugar-comum, tendo até a rara qualidade de aliar os piores predicados de diletantismo atrevido, preguiça mental e falta de referências que dele fazem, por inteiro, um monumento à ausência de pensamento. Pergunto-me como é possível que tivesse o supino atrevimento de se fazer fotografar em frente de imensa biblioteca. Hoje li o ditirâmbico elogio que tece a Obama e tremi de espanto: um interminável linguado de crenças e superstições, a completa falta de informação de base sobre a geo-política, ausência de distanciamento crítico, irracionalidade opinativa compulsiva e uma semeadura de frases sem sentido, tolas como perigosas, que só adensam a fragilidade do signatário. Diz que Obama tem o apoio das massas populares, mas esquece-se que as outras "massas" fizeram do futuro presidente o mais rico dos angariadores de fortunas da Wall Street. A campanha de Obama é cinco vezes mais rica que a máquina republicana. Depois, vira-se contra McCain e afirma, ao arrepio das suas convicções democráticas, que a vitória deste seria uma imensa desilusão para a esmagadora maioria dos seres humanos e teria consequências muito negativas para o equilíbrio da nossa Casa Comum, a Terra. O que quer dizer com a Casa Comum ? Que a América vai deixar de ser um império, vai abrir mão do seu poder mundial, ouvir o Luxemburgo, o Mali, os Camarões e o Laos e nunca decidir sem auscultar Pequim, Bin Laden, Kim Jong Il e os ditadores carnavalescos do populismo sul-americano ? Depois, deixa um importante aviso: que Obama não é um "socialista" mas um patriota americano que "até quer um entendimento com Cuba". A bota não joga, decididamente, com a perdigota. Se ele escreve assim para o DN, exijo que o meu sobrinho João, de 11 anos, passe a ter lugar cativo num jornal de grande tiragem !

02 novembro 2008

A nossa língua é assim tão feia ?


O Tan tem dois anos e é filho da empregada da lavandaria do prédio onde moro. Ontem, para o aborrecer, perguntei-lhe em português se já tinha comido o bolo de chocolate que lhe comprara na pastelaria do centro comercial onde o levara. Ao ouvir-me falar, surpreendido com tamanha cacofonia, fez a careta que podem ver. Como as crianças só mentem para evitar punições, a expressão desde miúdo leva-me a pensar seriamente se a a última flor do Lácio não passa, afinal, de insuportável ruído. Há semanas passara por igual percalço. Estando a falar ao telefone com um amigo português, a fulana do banco que me atendia perguntou-me admirada como podia eu, europeu, falar tão bem ... khmer !!!! Só me lembrei do tempo em que não falava alemão e aquela bela língua soava-me como o matraquear de uma metralhadora.


Tango Noturno - Pola Negri