25 outubro 2008

O homem providencial


Há povos para os quais não se coloca a ideia da superação do "isto funciona assim, logo assim continuaremos, sejamos poderosos ou fracos". Que eu saiba, nenhum britânico viu em Churchil um líder providencial, mas um chefe que as circunstâncias impuseram quando se tratou de prometer aos ilhéus da Albion apenas "sangue, suor e lágrimas". Também dinamarqueses, holandeses ou belgas jamais os pediram, se bem no decurso da última guerra aparecessem candidatos que, afinal, não eram homens providenciais mas traidores ao serviço de uma potência que deles fez pau-de-toda-a-obra, para logo os enganar e recusar-lhes o poder que esperavam da aliança com os atacantes e ocupantes dos seus países.


A espera pelo "homem que nos vai salvar" é uma característica dos povos meridionais, mas também do Centro e Leste da Europa, por suposto enxerto do messianismo semita que ali criou raízes profundas. Encontramo-la, também, como elemento marcante da escatologia política indo-asiática. Já me tinha ocorrido o paralelismo nas obras do clássico Georges Dumézil, mas um estudo mais aturado da até então desconhecida vasta bibliografia requerida aos estudos do Sudeste-Asiático, permitiu-me ver a questão sob um outro prisma. Temos, assim, o elemento semita veículado pelo cristianismo, de um líder de faculdades superiores de direcção que se revela em momentos de perigo, ao qual se justapõe o elemento "indo-ariano" de um homem dotado de poderes excepcionais que vem à terra travar um combate sem trégua e sem compromisso entre o Bem e o Mal. Não compreender estas linhas genéticas e com elas fazer caricatura superificial da adesão emocional entre um povo e um homem em momentos de pânico, aceitando a mais estreita cartilha do freudismo datado, torna o problema do "messianismo político" inabordável e pasto da simples opinião.


Ora, o messianismo semita padece de ponto de aplicação. É uma espera adiada, pois que vai recusando um a um os candidatos, pouco eloquentes e padecendo de fraquezas humanas que os tornam imprestáveis. Os judeus nunca aceitaram o Messias, qualquer que fosse, pelo que a liderança messiânica ali nunca vingou. Se encontramos na Europa povo que reune maior número de características deste messianismo, este será, absolutamente, o português. O "sebastianismo" é um permanente fracasso político, pois os D. Sebastião que se foram sucedendo mostraram-se pouco fieis ao cânone; logo, recusados. Olhando para os últimos duzentos anos, candidatos muitos houve, indivíduos como ideias: o pombalismo, a república, Sidónio, a Seara, Homem Cristo Filho, Rolão Preto, o Homem Novo do pêcêpismo a cavalo no neo-realismo, a Revolução dos Cravos, a "Europa" (...). Este messianismo acomoda-se na espera e é sintoma evidente da ausência de bom senso, medo de um projecto colectivo, incapacidade para reunir forças, endémica suspeição ou inveja pelos homens de qualidade que surgem para, logo, sobre eles cair uma chuva de facadas. Houvi há horas a comunicação que o primeiro-ministro da Islândia fez aos seus concidadãos. Mostrou-se forte, convencido que o mal passará e que todos devem pagar a crise que todos semearam. Em Portugal, seria de imediato constituído responsável pelo descalabro. A diferença está aqui. Enquanto nos mantivermos - homens e mulheres de esquerda ou de direita - crispados de suspeição, incapazes de dar o benefício e insusceptíveis de um projecto colectivo, estamos condenados ao ranger de dentes, aos ataques figadais e a esse odiozinho mesquinho que nos come por dentro.

Beethoven: Sinfonia nº 3 Eroica, Finale

24 outubro 2008

Despolitização galopante


Pede-me um leitor que me pronuncie sobre os acidentes da vida política portuguesa. Não sendo este um blogue de política ou um blogue de missionação ideológica, nem tão pouco bandeira de qualquer grupo, partido ou associação - estou desligado, crescido e suficientemente experimentado para saber que essas coisas não levam a lado algum, pois reunindo-se três portugueses em torno de uma mesa, há três putativos presidentes, três receitas miraculosas para salvar o país, três difamações e três cisões à vista - vou-me reduzindo a distante e desinteressado expectador do que por Portugal se vai passando. Hoje li, por acaso, o noticiário dos jornais disponíveis em linha. Fiquei espantado, até zangado, com a minha absoluta indiferença face a todo aquele arrazoado: os fulanos e fulanas, as circunstâncias do culebrón e os desenvolvimentos da novela nada me dizem. Começo a não saber distinguir os nomes dos líderes políticos - dos de primeira, segunda ou terceira linha - dos ministros e dos ex-ministros, dos deputados, dos homens que encenam e dos que analisam, dou comigo a decifrar siglas de partidos e, até, tentar situar acontecimentos que galvanizam e sulcam o quotidiano, as emoções gritantes, os impropérios e as aclamações estridentes. Estou, então, em fase adiantada de despolitização. A apatia política não acontece por acaso; a despolitização é precedida pelo desencanto ou pela desilusão, pelo que, ao invés de acidental, decorre de um movimento profundo de rejeição que nos leva a esquecer. É uma auto-terapia e abandono de lastro para aspirar à indiferença, estádio fecundo em que a nossa consciência se coloca num novo plano. A fuga da Cidade não é apanágio dos universos sociais privados de vida pública. Não é só sob ditadura que se manifesta. Sob ditadura, o indivíduo sente-se agredido, incomodado e ultrajado pelo pequeno papel que lhe reservam na mole de estribilhos e bandeirinhas. A apatia, nas ditaduras, é ditada pelo medo e pela certeza que, um dia, tudo aquilo passará. Por isso, em regime de vigilância, os artistas ganham ânimo, erigem um universo paralelo e dão largas à criatividade. Os corpos sofrem com as grilhetas, o espírito não. Do que vos falo é coisa diferente: é consciência de que não há saída, que tudo se continuará a passar sem um fim, que aquilo que se passa fora de casa não nos diz respeito e, mesmo que dissesse, não poderíamos mudar coisa alguma. A despolitização, neste particular, é a morte da cidadania e quando a cidadania morre, as sociedades sucumbem.



Artie Shaw - Alone Together (1939)

23 outubro 2008

Um grande acontecimento a não perder


Um simpósio de nível mundial que se realiza em Lisboa e Macau, a provar que há em Portugal académicos de primeiras águas que também sabem organizar eventos que prestigiam o país. Estão de parabéns os realizadores. Para todos quantos se interessam ou estudam a presença portuguesa na Ásia, e porque não posso estar presente, aqui deixo o conselho: inscrevam-se e usufruam deste acontecimento irrepetível.

22 outubro 2008

Libertadores



Por esse mundo fora serão apenas quatro ou cinco os estadistas que ultrapassaram os umbrais da sua circunstância histórica e se transformaram em objecto de veneração pelos seus concidadãos. Refiro e sublinho cidadãos, pois concederam-lhes a plena dignidade de seres humanos, refizeram o pacto em que repousam as sociedades de homens livres e reforçaram a unidade de sentimentos que torna possível o sacrifício exigido pelo patriotismo. Alexandre III da Rússia, D. Pedro II do Brasil, Abraham Lincoln e Chulanlongkorn do Sião não terão sido propriamente homens privados de coragem. Invocando princípios - hoje chamar-lhes-ão "questões fracturantes" - correram tremendos riscos pessoais, declararam guerra à tradição e instituições que se confundiam com as sociedades em que viveram. Por isso, Alexandre III morreu estilhaçado por uma bomba, Lincoln morreu varado por uma bala e Pedro II perdeu o Trono do Amazonas. Desde as Antiguidades Ocidental e Oriental que se esgrimiam argumentos ontológicos sobre a desigualdede dos homens e se discutia sobre os males da servidão, da escravatura e da segregação pelo acidente do nascimento, com os conservadores de sempre reconhecendo-as como mal necessário e fatalidade, e abolicionistas radicais conclamando a uma libertação sem agenda, dois pólos extremos de hipocrisia ou cegueira. Para lhes aplicar a terapia fatal, foi necessário que homens de excepcional talante invocassem aqueles princípios transfinitos que estão antes e acima da tradição e do presente - por que fundamentos da ética, da moral e da justiça - e lhes dessem letra de lei.


Amanhã é feriado na Tailândia, dia de "São Chulalongkorn", do passamento do monarca que aboliu por decreto a escravatura e a servidão no seu reino. O retrato do Libertador está em todas as casas, em pagelinhas em todas as carteiras de documentos, em todos os templos, repartições de serviços públicos, escolas e viaturas. O mérito conferido pelo bem que aos outros se faz terá garantido a Rama V (Chulalongkorn) o corte no ciclo das reencarnações. Para os budistas, Chulalongkorn é mais que um rei: é um avatar de Buda que por este mundo andou para cortar as grilhetas da degradação e recomeçar a sociedade. Amanhã, vou acender uma velinha por S. Chulalongkorn, autocrata que destruiu os fundamentos da autocracia e lançou a semente do Estado para todos e de todos. Os retratos populares de Rama V exibem uma cabeça nimbada por halo de luz. Aqueles que maior veneração por ele exibem são, naturalmente, os thais de pele escura, descendentes dos antigos servos e escravos. Amanhã também serei "negro".


Gloria, gloria, aleluia (1863)

21 outubro 2008

Jugular

Entra pela porta grande o Jugular, do melhor da esquerda portuguesa.

Coisas da citologia



É verdadeiramente triste pensarmos que a desdita portuguesa tem origem em Portugal.Pateta como sempre e já quase desabituado das facas e tesouras, não dei por ela durante meses. Fiei-me nas blandícias, nas afabilidades e simpatias. Fiz alusões breves a um projecto que me animava desde há meses e para o qual movi montanhas para demover reticências, conquistar pessoas para um objectivo que iria honrar Portugal nesta terra da Ásia e fazer "serviço público", quando a minha presença nestas paragens não é em nada compreendida por quem, pura e simplesmente, nada quer saber. A palavra de ordem é barrar, obstaculizar, minar terreno, não deixar fazer. Se não são os amigos, então, que não cresça erva. Quando o meu interlocutor estrangeiro, antes sempre prestável e claro, se pôs a fazer um circunlóquio interminável, levantando uma miríade de insignificâncias, dei comigo a rememorar situações análogas experimentadas em Portugal. Pois, o homem já tinha "sido trabalhado" e, sem saber que estava a colaborar num pequeno crime - tudo o que contraria o esforço português é crime - deixara-se envolver na velha arte da intrigazinha lusitana. Vi-lhe ansiedade estampada na cara e uma vontade genuína em desculpar-se. Não o deixei em sofrimento. Disse-lhe, apenas, "não se preocupe, meu caro amigo, estou habituado a estas coisas".

São os tentáculos incansáveis da mediocridade os que maiores danos - quase sempre irreparáveis - causam a Portugal. Não são tentáculos de um polvo: são mais como os oxiúros e outra fauna intestinal, incómoda, insignificante e quase invisível. E assim vamos, cantando e rindo, destruindo o pouco que ainda nos seria permitido fazer. Lisboa só é grande na arte da intriga, pois que no resto não pesa nem conta. Me ne frego ! Só me apetece largar o corso e dedicar-me à pirataria.


Le chant du pirate (Edith Piaf)

20 outubro 2008

Não podem connosco


Primeiro, um sorrisinho irónico, como quem diz "olha o portuguesinho, o pobretanas, o papista da Inquisição, da escravatura e das guerras coloniais que veio ter à Europa para nos sorver os subsídios e agora anda pela Ásia". Depois, quando no plano da absoluta igualdade tratamos de matéria não recoberta pelo preconceito, quando me vêem falar thai com os thais, francês com os franceses, alemão com os alemães e até espanhol com aquela holandesa que queria brilhar com o castelhano aprendido no Cervantes, uma observação ainda mais pérfida: "você não parece português". O vexame de uma holandesa com cara de Göring não ficou sem resposta. Lembrei-me logo dos relatos de viagens dos globetrotters ingleses que deixaram registo do arsenal de desdém por nós. Um deles, escarninho, dizia em 1902: "no vapor que me levava de Singapura ao Sião havia meia dúzia de europeus, um mar de chineses, indianos, malaios e alguns portugueses de pele escura". Ao francês e à holandesa com aquela língua que não é língua, mas uma doença de garganta, lembrei que a minha língua é a terceira mais falada no Hemisfério Ocidental, ao inglês que aqui tivemos embaixada em 1511 e relações de Estado a Estado quando por aqui só chegavam piratas e comerciantes recebidos como tributários pelo rei do Sião. Em toda a conversa de sorrisos e canivetes só tive - claro - o alemão como aliado, o qual lembrou certeiramente que os portugueses são um povo cheio de qualidades e que um dia, quando a Europa cair de novo e se transformar num extremo ocidental do continente euro-asiático, o Brasil será, talvez, depois dos EUA, o segundo país mais forte do Ocidente. Como sempre, os alemães a defenderem Portugal.

19 outubro 2008

Exotismos santificados


Cruz de Guerra e heroína da sua pátria adoptiva, mãe de dezenas de desvalidos, dela afirmaram os sempiternos patetas da maldade ser meio-humana, meio-símio. Foi uma santa e morreu no palco para alimentar as pobres criaturas que os "homens de valores" prefeririam ver em reformatórios. A santidade também se conquista de seios à mostra. Hoje comprei a nova antologia de Joséphine Baker. Comprei-o por ela, apenas por ela.

Josephine Baker - Ma Tonkinoise (1931)