18 outubro 2008

Guerra entre a Tailândia e o Camboja: uma entidade fictícia (2)



O actual Camboja é, como tentámos demonstrar, um artifício administrativo da política colonial francesa. Não sendo herdeiro da civilização khmer de Angkor, não existia enquanto politéia fora do Mandala siamês de Ayuthia e Banguecoque, era vassalo do Sião e o seu rei escolhido e depois confirmado por coroação pela autoridade régia siamesa. O rei de Udon (antiga capital), Norodom, foi coagido sob ameaça das armas pelas autoridades francesas a assinar um tratado com a França (1863), nos termos do qual denunciava a suserania siamesa e se colocava sob protecção da República Francesa, a qual assumia a defesa militar terrestre e marítima e passava a responder pela política externa do nóvel reino. Reino Cambojano não era, como logo deixou de o ser, porquanto o Rei foi esvaziado de todos os poderes e transformado em figura decorativa ao serviço do Residente Francês em Phnom Penh, nova "capital". Para legitimar a erecção de tal entidade, os franceses lançaram mão da engenharia historiográfica, visando lembrar aos cambojanos o seu passado glorioso, que entretanto se havia eclipsado e pedia protecção forte e as luzes da ciência para se reerguer do sono letárgico em que havia caído. Este aturado esforço científico caminhou, sempre, no sentido inverso do aprofundamento da monarquia, pois as autoridades francesas foram tomando para si fatias de responsabilidade governativa ao ponto do segundo e terceiro reis da dinastia - Sisowath e Monivong - se haverem tansformado em prisioneiros de luxo. Lendo com atenção as fontes bibliográficas francesas entre 1863 e 1953, o programa de construção da identidade "cambojana" revela a extensão do esforço francês. Os trabalhos de Coedès, Pelliot e Comaille, publicados sob patrocínio da École Française d'Extrême-Orient, farão inveja à mais delirante política cultural de assentamento de mitos e manipulação histórica. Em nome da ciência, arqueólogos, filólogos e linguístas, historiadores da arte e antropólogos desenvolveram um admirável trabalho com o intuito - quase declarado - de sustentar a viabilidade de um Camboja renascido. Ora, se atentarmos nos relatos de viajantes - e a até nas memórias das expedições científicas de Henri Mouhot e Henri d'Orleans - verificamos que a "entidade cambojana" era mera ilusão forçada pelo interesse francês no domínio do Mékongue, que os principados laocianos eram ferozmente pró-siameses e que os "cambojanos" nada sabiam ou pouco se interessavam pela civilização khmer.

Com a crescente sede de alargamento da sua esfera de influência, os franceses criaram uma bandeira para o seu Camboja, escolhendo sintomaticamente o templo de Angkhor como elemento central. Angkhor continuava então a fazer parte do Sião, pelo que em 1893, já consolidada a farsa dos direitos históricos sobre os "territórios perdidos", a França impôs um ultimato a Banguecoque, forçando o Sião a "devolver" as províncias cambojanas ocupadas. Em 1907, novo acerto de fronteiras, com incorporação de duas novas províncias. Foi assim que se fez, ex nihilo, um país. A disputa sobre o templo de Phra Vihar enquadra-se neste tortuoso manipular de fronteiras. É assim que se fazem e desfazem embróglios de um direito internacional com origem em tremendas trapaças e injustiças. Os tailandeses não querem a guerra mas, ontem como hoje, continuam a ver o Camboja como uma desconfortável invenção do colonialismo gaulês. Para quem despreza ou desconhece o valor do saber histórico - ah, como são felizes os nossos jornalistas - a luta por Phra Vihar surge como uma agressão tailandesa. Para os tailandeses, por seu turno, surge como uma ingerência do pronto-a-pensar ocidental que criou o problema. Após um ano a estudar a história tailandesa, fico cada vez mais com a impressão que o único Estado que pode reclamar a herança da civilização de Angkhor é a Tailândia, pois aqui tudo o que sustém as instituições, públicas como privadas, é consequência do influxo khmer.

16 outubro 2008

Guerra entre a Tailândia e o Camboja:esclarecimento (1)


A Tailândia e o Camboja disputam militarmente uma pequena faixa de terra onde se situa o templo khmer de Phra Vihar (em khmer Preah Vihear). Lendo os jornais portugueses acessíveis em linha, espanto-me a cada passo pela tremenda falta de balizamento conceptual com que os senhores jornalistas, muito afeitos a um "Direito Internacional" feito à imagem das ideias ocidentais de fronteira e soberania, encaram esta luta fronteiriça. Sei que em Portugal os estudos orientais são coisa para meia dúzia de sábios, que estes jamais são consultados pelos governantes para exprimir, educando, como funcionam as relações entre Estados tributários da doutrina budista e que há muito menino armado de mestrados em Rel. Int. que, nada sabendo nem querendo saber, dispara as mais absurdas análises.


A ideia europeia de fronteira era, em absoluto, estimada irrelevante pelas potências da região até à consagração do Estado Moderno, importado da Europa. O espaço político e o território eram considerados elementos acessórios da soberania real, posto que o território, como hoje se entende, não existia. Nas cartas pré-europeias da região, os “três mundos”, os lugares santos e de peregrinação, os centros energéticos e mágicos e até regiões míticas eram assinalados com escrupuloso detalhe. A luta pelo poder regional desenvolvia-se em torno de adereços simbólicos (elefantes brancos, lingas, templos-montanha) e pela presúria demográfica. Populações eram objecto da luta pela hegemonia, escravizadas ou submetidas à servidão, transferidas de região para região e integradas no sistema de trabalhos forçados que as corveias reais impunham.


Para a cosmologia budista presente no Agganna Suttanta, a génese do poder real corresponde ao declínio da radiância espiritual, que se terá embotado com a materialização e diferenciação da natureza e do homem, com a formação da propriedade privada, da conflitualidade, da cobiça e da injustiça. Para pôr fim à turbulência, aos desmandos e ao poder do ferro, os homens terão abdicado da liberdade egoísta e estabelecido pacto que permitiu a eleição de um rei. Este repôs a ordem e criou a sociedade estratificada segundo a pureza de cada um, promovendo a elevação dos homens na obediência ao Dharma (ensinamentos de Buda). Este movimento ascendente promoveria a salvação e a libertação do ciclo da reencarnação, ou seja, garantiria o nirvana. O poder real fundado nos ensinamentos do Mestre – Rajadharma – antecederia a plenitude da vivência de Buda, ou Dharmaraja. O cakravartin – ou poder honrado – seria munús do bom rei e garantia da harmonia e do império da justiça.


O Estado, na acepção ocidental, não existe na região até meados do século XIX. Não é entidade abstracta, mas conjunto de instrumentos permitindo estender a presença do rei, suprir as suas necessidades em homens e aprovisionamento logístico, realizar obras públicas hidráulicas que favoreçam o escoamento de riqueza para a capital. O bem-comum e a finalidade para o Estado não existe, se bem que os tratadistas budistas tentassem oferecer a ideia de um poder interessado pela sorte dos injustiçados, dos fracos e desprotegidos.


A periodização histórica dos estados do sudeste-asiático põe de relevo a importância das sedes do poder. No que à actual Tailândia respeita, a historiografia thai refere um “Período Sukhothai”, um “Período Ayuthaia” e o “Período Rattanakosin”, fazendo crer que a sucessão de capitais corresponderia à errância da mesma entidade estatal. Contudo, importa lembrar que Sukhothai e Ayuthaia foram inimigas e que outras capitais de reinos thai coincidiram no tempo, digladiando-se e escolhendo alianças entre os inimigos das suas rivais. Em finais do século XVIII, por exemplo, existiam cinco reinos thai e nos umbrais do século XX, Lan Na, no norte da actual Tailândia, mantinha rei, corte e exército próprios. A capital do Sião moderno, Krungteph (Banguecoque), é descendente de Ayuthia e nova sede do poder siamês, mas não é a sucessora de Ayuthia, porquanto, lembramos, o rei de Ayuthia fora capturado e dissolvera-se, assim, o corpo político que justificava, aos olhos da teoria do poder régio budista, a utilidade do Estado.


Para a tradição regional, o poder do soberano [ou o seu Mandala] estendia-se em círculos concêntricos da capital à periferia. Os reis consideravam-se "Monarcas Universais", pois não eram simples governantes, mas eixo da relação cósmica entre o mundo material e o mundo sobrenatural. A integração dos vizinhos fazia-se por conquista ou por imposição da vassalagem. Cabia ao Grande Rei (Monarca Universal) estender a ordem sobre o caos circunvizinho, pelo que os pólos de poder na região foram-se alterando ao sabor da ascensão e liquidação de grandes monarcas: Angkhor, Sukhothai, Ayuthia, Banguecoque.


O Camboja de hoje é um absurdo, pois, tal como o Laos, não devia, pura e simplesmente, existir, mas integrar o corpo do Mandala tailandês. Os reis do Camboja, tal como os príncipes do Laos, eram tributários do Rei do Sião, recebiam educação na corte siamesa, eram coroados em Banguecoque e exerciam as suas funções asssessorados por administradores nomeados pelo Rei do Sião. Porém, quando a França se quis apossar desses imensos territórios, tratou de aplicar o princípio das nacionalidades recortada do nacionalismo europeu do século XIX. Inventou, assim, um Camboja "subjugado" e um Laos "colonizado", pretendendo que estes possuíam uma "tradição de independência" e requeriam "ajuda" francesa" para se libertarem do jugo siamês.


Para separarem o Camboja e o Laos do Sião, lançaram mão de duas instituições culturais: a École Française d'Extrême-Orient - com o claro intuito de por a descoberto as marcas do "Antigo Camboja" - e o Institut Boudiste de Phnom Penh, destinado a separar o clero budista khmer, nacionalizando-o "cambojano", do Dhama siamês. (continua)

15 outubro 2008

Alles über Portugal



Passa a figurar nos favoritos o forum Alles über Portugal, testemunho de uma constante da nossa relação com a Europa Central desde os alvores da nacionalidade. A Alemanha - ou tudo aquilo que lhe risca a fronteira cultural e linguística - sempre para connosco exibiu uma atitude que transcende largamente a mera diplomacia. Connosco estiveram alemães nas caravelas do trato das especiarias; entre nós trabalharam dos melhores tipógrafos alemães do século XVI; a nossa tradição militar a alemães muito ficou a dever nos séculos XVII e XVIII; a um príncipe alemão devemos a descoberta, estudo e preservação do nosso património monumental. Recentemente - lembro - a Alemanha foi o único país ocidental que não nos fustigou com votos de censura na ONU e, depois, foi graças aos alemães que entrámos na CEE juntamente com a Espanha, quando franceses, britânicos e italianos levantavam mil e uma mesquinhas objecções de mercearia. Muito devemos à Alemanha, tão diferente, mas sempre generosa.
Há quem ame a Itália, a França ou a Grã-Bretanha. Eu gosto, simplesmente, do povo alemão, o coração da Europa, o seu músculo e cérebro.


Senor und Senorita (Rudi Schuricke)

14 outubro 2008

Ásia alemã



Quanto mais vou abrindo caminhos na investigação que aqui desenvolvo sobre as relações entre Portugal e o Sião nos séculos XIX e XX, as certezas com que vim armado vão-se desvanecendo perante bibliografia inacessível na Europa e só consultável nas excelentes bibliotecas e centros documentais patrocinados pelos monarcas tailandeses. Estava quase convencido que a Ásia se deixara fascinar pelo Reino Unido e do seu Raj fizera cópia autenticada pelos conselheiros britânicos que entre 1850 e os anos 20 do século passado partejaram a modernidade neste canto do mundo. Contudo, ainda poderia supor que franceses e norte-americanos, que por aqui também andaram em aventuras coloniais, tivessem deixado sulco profundo. Mas não. Afinal, os dois protagonistas escondidos pela bibliografia anglo-saxónica hoje predominante foram os russos - que inspiraram as autocracias ocidentalizadas - e os alemães, com a sua tecnologia de ponta, o seu sentido de organização, a sua competência como engenheiros ferroviários, mestres militares e burocratas sem mácula. A Alemanha, aqui, esteve quase a ganhar a cartada na competição com os britânicos. Antes da Primeira Guerra Mundial, dos 400 conselheiros ocidentais trabalhando no Sião, quase metade eram súbditos de Guilherme II. Esta relevância marcava também a balança de transações comerciais, com quase 40% do volume total de mercadorias aqui entradas. Os alemães são, positivamente, reverenciados pelos asiáticos pois, sendo contrapeso a britânicos e franceses e não possuindo historial digno de nota nas guerras de agressão contra os Estados independentes remanescentes à onda imperialista - com excepção das fanfarronadas do Kaiser aquando da Revolta dos Boxers na China em 1900 - desenvolveram importante contributo, quase desinteressado, no estímulo à industrialização, urbanização e maquinização de sociedades predominantemente rurais. O Sião declarou guerra à Alemanha, em 1917, mas o ministro siamês que transmitiu a decisão ao embaixador germânico, chorou como uma criança pedindo desculpas. O alemão respondeu-lhe que o Sião, não obstante estar em guerra com os Impérios Centrais, seria sempre poupado à guerra submarina e que seria sempre considerado um amigo pelo Reich. Esta posição foi reforçada no Reichtag pelo chanceler Bethmann-Hollweg, o qual, em emocionado discurso, fez referência aos muitos príncipes siameses que haviam passado pelas academias militares teutónicas e delas recebendo educação alemã. O pai do actual monarca, Mahidol Adulyadej, Príncipe de Songkla, cursou a Academia de Marinha em Flensburg.




Príncipe Mahidol de Songkla


Depois da Grande Guerra, a desagregação do exército alemão provocou uma vaga migratória sem precedentes. Por todo o mundo surgiram conselheiros alemães: na Bolívia, no Paraguai, no Sião e na China chegaram mesmo a receber comando militar directo ou altas funções como inspectores responsáveis pela modernização das forças armadas. A China conheceu, através da Missão Militar Alemã, um momento alemão. à cabeça dos exércitos dos Nacionalistas estava Alexander von Falkenhausen, um general prussiano que inspirou a mais bem sucedida vaga modernizadora no antigo Império do Meio. Folheando directórios comerciais e registos de marcas e patentes do Sião dos anos 20 e 30, as marcas, companhias e nomes alemães afloram em cada página. No fim dos anos 30, recuo. A política externa desastrosa de Hitler deitou tudo a perder. Trocou a China pelo Japão e ofereceu a esfera de influência que detinha no Sião aos japoneses. Os erros do homem foram tremendos. Não tivesse havido o seu efémero Reich e hoje, do Sudeste-Asiático ao Extremo Oriente, a Alemanha seria a maior referência ocidental. O Rei do Sião, Rama VII, esteve na Alemanha em 1935. Recebido por um delicodoce Hitler, dele não mais retirou que espinhas recurvadas e banquetes. Hitler, um primário, ainda era devoto da crença no "perigo asiático", mito muito divulgado entre a pequeníssima burguesia europeia no princípio do século. Foi uma oportunidade perdida. E assim, a Alemanha perdeu a cartada asiática e perdeu a China, que em vez de se juntar aos Aliados na Segunda Guerra Mundial poderia ter sido uma enorme dor de cabeça para os EUA e Grã-Bretanha. Ontem fui ao Colégio Alemão de Banguecoque. Parece um bocado da Alemanha nos trópicos. Fiquei surpreendido. São centos de estudantes os que ali aprendem o idioma de Goethe. Até ouvi trechos de opereta alemã que inundavam a excelente biblioteca. Não obstante a americanização crescente, dir-se-ia que esta gente olha os alemães como amigos. Pena foi Hitler ter chegado onde chegou.

A nótula Saramago



Parece que Saramago já está a fazer companhia a Wole Soyinka, Wisława Szymborska e Doris Lessing no Olimpo dos grandes desconhecidos aos quais coube a sorte da tombula de Estocolmo. O Nobel da Literatura é como o Nobel da Paz, outro parente pobre da árvore do mérito universal. Quando não há ciência a galardoar, a academia de sábios garatuja umas frases sem sentido, como quem risca um guardanapo em noite de copos e contempla a Eritreia, a Costa Rica, o Bangladesh ou a Macedónia. Em Asmara, San José, Daca e Skopje exulta-se, como exultam os beninenses com a Taça da África Ocidental, os brunienses pela palma de ouro no festival de Kuala Belait ou os guadalupanos com o a citação na quinta coluna da página de culinária do New York Times. Fica por aí. O resto é um ciclópico esforço dos promotores comerciais em manter o público aos pés dos heróis que cometeram a proeza. É como aqueles povos do ignoto Pacífico que nada tinham a mostrar aos viajantes que aportavam para além da mulher gordíssima que mantinham numa gaiola, alimentada dez vezes por dia com tutano de porco e mitras de galinha. Era a atracção local. Nós temos Saramago.

12 outubro 2008

A arte é sempre comprometida

A Grande Muralha de Plástico

A multidão dos "grandes de hoje". Quem terá ficado de fora ?
As Mães de Todas as Guerras: 1914 & 1939

O parietal de Phra non (Buda reclinado), como num templo

A Casa Bintang, clara materialização dos comics

Figuras que não escondem a referência archimboldiana

Flores de lótus em borracha dourada que respiram e insuflam

Um Buda monolítico feito em sabão verde

Um gigantesco Smile que nos fustiga com dois olhos holofote de cor vermelha e onda de calor

Na obra de arte está sempre presente o metatexto da cultura que antecede e limita o artista; estão as leituras ou a falta delas; as referências expressas ou os automatismos; os códigos e a semiótica civilizacional; os mitos que vinculam o autor e acentuam a personalidade no estilo e na repetição - a cultura é sempre uma prisão - como estão as linhas de reconhecimento e integração, atestando a actualidade do autor no quadro da cultura do seu tempo. Por isso, as artes plásticas requerem esses atestados de originalidade e autenticidade, enquadramento e rebeldia consciente, infracção e acomodação, sem as quais não há arte, mas tão só artesanato e jeito. A "arte moderna" - expressão vaga que tudo diz e nada diz - pretendeu-se emancipar dos dois veículos ideológicos normalizadores - a religião e o poder - que a haviam agrilhoado, limitado o repertório e fixado condições. Porém, constituindo-se em alternativa à religião e ao poder, quis-se como contra-poder, que é sempre um poder de fora (Deleuze) e escolheu o caminho da mera provocação. Uma provocação, diga-se em abono da verdade, muito integrada, muito respeitada, aplaudida e incentivada pelos circuitos comerciais do consumismo milionário. Não houve, no século XX, "ismo" algum que se mantivesse durante muito tempo imune à Sirene do Estado, que por ele não fosse comprado, convertido em propaganda e aplicado na exaltação do poder. A arte descomprometida não existe, como não existem literatura, cinema, arquitectura e tudo o que se aclama nas academias que não peça atestado político.


Hoje foi um dia de espanto. Visitei a grande exposição retrospectiva das artes plásticas tailandesas patente no Bangkok Art and Cultural Center. Percorri as galerias, grandiosas e despojadas de ornamentação e dei comigo a pensar nas diferenças manifestas entre aquilo que me era dado ver em Portugal e a realidade da criação artística thai. Confesso que lamentei o poseurismo, o "arrotar postas de pescada", o tique "intelectual", os "rodriguinhos" e o noblesse exige dos nossos artistas, sempre ufanos em mostrar a cópia mais recente recortada, ampliada, pirateada e ligeiramente alterada das revistas que se vendem por Berlim, Londres, Tóquio e Nova Iorque. Aqui, nada se esconde. Se copiar é uma virtude da humildade, pois que se copie sem entraves à perspicácia e olhar informado do visitante. A cópia nunca foi repudiada pela cultura clássica; é por isso que chamavam Obra Prima a um objecto que fosse tido como a excelência no seu género, que os artistas faziam uma vida inteira copiando para, no momento derradeiro, desferirem um golpe de génio e produzirem uma nova Obra Prima. No Ocidente de hoje, o artista tem de inovar a todo o custo e o resultado é desastroso. A neomania, contudo, está condenada, pois o artista não é um deus ex machina e, em geral, mudar e infringir por infringir, ou acaba em nada ou é o começo do sucesso económico de um autor que é assim por que é, sem que ninguém, após a catadupada de elogios, possa encontrar vestígios [e contaminação] do seu legado na vida daqueles que por eles foram interpelados.


É por isso que dou razão ao velho Eugenio d'Ors, que após anos de intenso comprometimento com as "vanguardas" acabou afirmando que a "obra de arte é sempre Tradição ou plágio". Muita da arte contemporânea que por aí reune o pleno dos plumitivos é, apenas, plágio. Para quando uma exposição de arte tailandesa contemporânea no CCB ?