11 outubro 2008

O Rot Fai Fá e beleza canónica thai





O Rot Fai Fá - Metro de superfície - é um espectáculo de cor e agressividade comercial. Os tailandeses não se pautam, obviamente, pela gramática das cores que rege os ocidentais, abominam o branco e o negro - cores fúnebres - e são entusiastas da profusão ornamental, do multicolor e da figura humana. Desprezando o não-figurativo, que tomam como elemento decorativo próprio de padrões para panos, concentram todo o génio artístico na idealização da beleza física. Nesta terra, ser-se feio é uma danação, pelo que homens, mulheres e crianças dedicam fatia apreciável do tempo de lazer na satisfação dos caprichos do ego. Unhas, cabelo, pele - quanto mais branca, mais elevado o status do portador - mais combinação de roupas, do cinto à fivela do sapato, mais maquilhagem - sim, os homens também se pintam, embora mais discretamente que as mulheres - dentes polidos e rebrilhantes, andar de maneira suphab (educada), falar baixo e pausadamente, deixar um rasto de loção e perfumes fazem o thai saaht (limpo). O capitalismo e a luta pelo mercado acertaram, naturalmente, com a natureza sibarítica deste povo, concentrando baterias na comida e na beleza. O Metro de Superfície de Banguecoque é um mostruário do espírito thai. Aqui não há lugar para lágrimas, queixumes e cinzas. Tudo brilha e tudo é eternamente jovem.


ทึ่งจริงๆ

10 outubro 2008

A vitória é completa



O Supremo Tribunal tailandês deu ordem de soltura ao major-general Chamlong Srimuang, líder da frente anti-plutocrática. Chamolong havia sido detido no passado domingo quando votava para as eleições para o governo de Banguecoque e o governo exultara com a captura da carismática figura de cartaz da Aliança Popular para a Democracia (PAD), que pretende extirpar da vida política tailandesa os vírus da corrupção, do clientelismo e da manipulação eleitoral que caracterizaram a passagem de Thaksin Shinawatra pelo poder. Não sendo, ainda, o triunfo dos tradicionalistas, a libertação de Chamlong constituiu a maior vitória do PAD desde a sua criação, há três anos, e a realização do pleno institucional que levará à derrocada de uma forma corrupta de democracia. Chamolong já afirmou que não o move qualquer propósito liberticida, mas uma investigação profunda à rede de tráfico de influências em que está atolado o PPP, partido do governo, pró-Thaksin. Com o manifesto apoio da Casa Real às centenas de militantes do PAD feridos na passada terça-feira, quando a polícia reprimiu brutalmente a manifestação que a oposição realizava em frente do parlamento, com a demissão do vice-primeiro ministro, general Chavalit - que agora apela ao golpe de Estado para solucionar a crise - dir-se-ia que a Tailândia parece querer arrumar a casa após meses de grande perturbação. Uma coisa aprendi com este povo que tanto respeito. Por detrás do sorriso, da brandura e tolerância desta gente, há uma tenacidade - uma quase teimosia - que tudo consegue vencer. O que podem a polícia de choque e o dinheiro quando a alma de um povo não teme nem se vende ? Agora faço fé nas palavras de muitos amigos tailandeses. Dizem-me repetidamente que darão a vida pelo Rei. Afinal, é verdade: os tailandeses pegaram em armas e ninguém os segura.


Pee May

Plutocracia




09 outubro 2008

Tão repelente como o comunismo


Agitam-se e vociferam, suados e estupefactos, como se um castigo imerecido sobre eles tivesse caído. Para eles, que todo o horizonte se circunscreve às dimensões de uma nota verde e a percepção do belo se reduz ao novo latinório da Wall Street, parece que o mundo se encontra à beira do colapso. Durante anos, impantes e agressivos, propalaram a ideologia da salvação aquém da morte pela exibição do mérito sem letras e sem princípios, nunca esboçaram qualquer interesse pela sorte dos desprotegidos e todos quantos, impossibilitados de com eles correm pela vereda ascendente, pareciam condenados a pagar a maldição da pobreza. Aboliram a justiça, proscreveram os direitos sociais da cidadania moderna, privatizaram o imprivatizável, riram-se da fraqueza dos idosos, segregaram os doentes, legislaram contra a segurança dos lares, insultaram os servidores da coisa pública - considerando-os parasitas - e quase destruiram o Estado. Tudo o que mexesse devia ser coutada do Homem Novo que o novo século americano quis consagrar. A ditadura do atrevidismo alvar, o desdém pelo serviço público e pelo bem comum, o gargalhar escarninho sobre a cultura, a ilustração e demais ninharias não lucrativas coroou década e meia em que criaturas inferiores quiseram refazer o mundo à imagem de uma roleta. Isso acabou em desgraça. Agora, voltam-se para o Estado pedindo-lhe linhas de crédito, pedem socorro aos contribuintes que quase proletarizaram, invocam a partilha colectiva de responsabilidades e vão até ao extremo de requerer nacionalizações. Estes plutocratas são os maiores fazedores de revoltados e os maiores propiciadores de tudo quanto pode nascer do ovo do totalitarismo infuso em cada homem.
Aqui neste país do Oriente, aqueles que se recusaram servir tal gente, levantaram-se há meses. Agora dou-lhes plena razão. Há que acabar com o regabofe dos adoradores do esplendor do vazio !


Money, money (Liza Minelli)

07 outubro 2008

Notas de um não-economista sobre a crise

Ao contrário dos liberais à outrance, a crise em alastramento vem comprovar que os indivíduos se movimentam apenas pelo interesse egoísta, que a racionalidade no sistema bolsista se circunscreve à operacionalidade corrente e que as emoções comandam e sobrelevam o jogo. Tal como em 1929 e em 1987, as crises são provocadas pela absoluta impreparação dos operadores e accionistas em prever cenários de catástrofe, e se deles estão avisados pela experiência do capitalismo, agem sempre como se tal não existisse, como o jogador de casino que se deixa subjugar pela orgia especulativa antes de soçobrar na fatal sorte dos números. Um clássico devia repousar na cabeceira dos meninos parvos que se agitam na bolsa. Falo, obviamente, do The Great Crash 1929, de Galbrait, que detectou nos booms e nas "bolhas" comportamentos absolutamente irracionais impostos pela ganância. A Economia é uma ciência social, pelo que há que desconfiar de economistas iletrados, privados de informação histórica e sociológica básicas, assim como da dimensão cultural do fenómeno económico. Como alguém dizia, "um economista que só sabe de Economia, nem de economia sabe". Temos sido governados por estes economistas privados de leitura, verdadeiros bárbaros que não conseguem - pois não podem - ver para além das fórmulas que a geringonça académica impõe. Temos passado décadas sob a batuta de tais insignificâncias e tamanha foi a devastação causada pelas criaturas que de fora ficaram o interesse nacional, a inadequação do ensino à realidade envolvente e o sonho da riqueza sem indústria, maleita recorrente na história económica portuguesa. Em nome das "mãos limpas" - mãos que não se sujam no trabalho das fábricas, no trabalho dos campos, no martelo e no maçarico, na cabulagem da electrónica e na massa do cimento - fizemos duas gerações de imbecis semi-analfabetos enterrados nos fatecos de pronto-a-vestir com que os filhos e netos dos retirantes da província se exibem em ilusória alforria. Em nome do sonho da riqueza sem trabalho, destruiu-se a indústria, abandonaram-se as explorações agrícolas, desmantelou-se a marinha mercante e a frota pesqueira. Agora, que de novo sopram ventos proteccionistas e que os Estados se voltam para a economia após dela se haverem alheado, estamos nús.

06 outubro 2008

À beira da revolução

O Parlamento foi hoje cercado por uma multidão estimada em cinco mil pessoas. Com a sede do governo há muito ocupada pelo PAD, dir-se-ia não haver governo no país. Não deixa de constituir uma vergonha para a imagem do regime vigente o facto do primeiro-ministro se encontrar presentemente a despachar das instalações do antigo aeroporto internacional de Banguecoque. A verificar-se a tomada do parlamento pela multidão, a Tailândia deixa de ter poder executivo e poder legislativo efectivos. Depois da onda monárquica de ontem, em que a oposição varreu literalmente os partidários do ex-primeiro ministro exilado no Reino Unido, o dilema parece oscilar entre uma transição pacífica de poderes, com a chamada do líder da oposição monárquica democrática para constituir um governo provisório até novas eleições, ou a queda do regime, eventualmente com a saída dos militares à rua. Na Tailândia chegou-se a um ponto de não retorno. Tudo o que acontecer a partir de amanhã ditará o futuro do país. Este PAD é osso duro de roer e, como aqui sempre dissemos, quanto mais tempo passar sem se encontrar solução compromissória, mais forte ficará o movimento anti-parlamentar que deixou de ser, decididamente, um elemento marginal na vida política tailandesa. As ditaduras não são, como nunca foram, solução. O PAD e seus líderes sabem-no e terão agora de pensar seriamente em aceitar o repto de eleições e testar o apoio que vai crescendo em torno das suas ideias de purificação da democracia. A não fazê-lo, pode abrir portas a um longo período de lutas que comprometerão irremediavelmente a estabilidade e imagem do país.

05 outubro 2008

Grande vitória monárquica em Banguecoque


Apirak Kosayodhin foi hoje reconduzido como Governador de Banguecoque após uma dura campanha eleitoral tendo como fundo a crise política que agita o país. Esta vitória, que estimamos estrondosa (53%), reduz o campo de manobra ao governo dos seguidores do líder populista Taksim Shinawatra, ex-primeiro ministro hoje homiziado na Grã-Bretanha e sobre o qual impende mandado de captura por crimes de corrupção no exercício de funções. Em Banguecoque não funciona o efeito da chapelada nem há caciques, pelo que os populistas não lograram mais que 24% dos votos expressos. Hoje cruzei-me com um jornalista, meu vizinho, que me afirmou ser este resultado uma machadada nos desígnios dos seguidores do plutocrata Taksim, pois o governo qua ainda está no poder já não governa, estando visivelmente diminuído e aguardando a qualquer momento queda inapelável. Dizem as más línguas que o governo comatoso só está em funções para organizar as exéquias da irmã do Rei, as quais se realizarão em 15 de Novembro, bem como preparar as celebrações do aniversário do Rei, feriado nacional que se celebra no dia 5 de Dezembro. Aqui vigora a monarquia e até os seus presumíveis críticos a ela se vergam. Grande país, este !

Um livro-bomba (1)


De mão amiga, leitor em Portimão, recebi há duas semanas uma obra de autoria do General Silva Cardoso intitulada 25 de Abril de 1974, a Revolução da Perfídia. O autor não requer apresentação: enquanto oficial superior, prestou serviço no teatro de operações de Angola durante sete anos, foi adido militar português na Alemanha, Alto Comissário para Angola até Agosto de 1975, Comandante-Chefe dos Açores, Director do Instituto de Altos Estudos da Força Aérea e Presidente do Supremo Tribunal Militar até 1991. Com a chancela da Prefácio, a obra agora publicada é um verdadeiro acontecimento editorial, pois oferece uma versão absolutamente nova sobre a génese e desenvolvimento do chamado "Movimento dos Capitães", bem como da intriga internacional que se desenvolveu a partir dos anos 60 tendo como finalidade expulsar Portugal de África. Sem nos alongarmos em comentários, passamos a dar voz ao Autor, titulando a nosso critério algumas passagens mais impressivas, reveladoras do desassombro com que um general analisa a descolonização, tema habitualmente tocado pela paixão, pela mistificação e pelo lavar de mãos de muitos que nela jogaram o futuro de Portugal e da África Portuguesa.


A Guerra estava ganha

"1) A guerra em África estava a ser ganha militarmente; 2) O desenvolvimento dos nossos territórios atingia crescimentos sociais e económicos elevados; 3) A subversão na rectaguarda e a inoculação do vírus revolucionário nas Forças Armadas foi a solução que a União Soviética encontrou para impedir a vitória militar portuguesa; 4) Os autores da traição e do descalabro têm nome e são conhecidos os que fizeram, conscientemente, o jogo da URSS e dos seus compagnos de route". (p.15)


1961: os americanos investem no genocídio de Angola

"(...) A 7 de Março Salazar recebe o embaixador americano cuja missão era transmitir a recomendação do presidente Kennedy no sentido de rever a sua política relativa ao Ultramar, de acordo com as recomendações da ONU. Assim, os americanos prepararam uma dupla acção para evitarem em Angola o que um ano antes tinha acontecido no Congo ex-belga em que, ao lado do presidente pró-americano, Kasavubu, surge um primeiro-ministro pró-soviético, Patrice Lumumba. (...) "Para além de uma ataque generalizado às populações do Norte de Angola conduzido pela UPA, os EUA procuram quebrar a unidade da rectaguarda com o planeado golpe de Estado de 8 de Abril, conduzido pelo Ministro da Defesa, General Botelho Moniz, e a cooperação de outros militares altamente colocados no aparelho do Estado no sentido de Portugal aceitar o princípio da autodeterminação das colónias (...). Sabe-se que Salazar ouviu, atenta e longamente, o embaixador e, no final, sem comentários, despediu-se cordialmente e pediu ao representante dos EUA em Lisboa para apresentar os seus respeitosos cumprimentos ao presidente do seu país". (30)

(...) A 15 de Março acontece o genocídio no norte de Angola, onde são dizimados selvaticamente cerca de sete mil seres humanos (mil brancos e seis mil pretos) pelos guerrilheiros da UPA e, a 8 de Abril, o projectado golpe de Estado para afastar Salazae é neutralizado e os seus promotores são removidos das suas funções. Resta saber o que aconteceria se o Presidente do Conselho, Salazar, tivesse acedido à proposta dos EUA: ter-se-ia evitado o genocídio em Angola e o golpe de Estado morreria por si? Quanto ao primeiro ponto creio que teria sido muito difícil travar um dispositivo certamente já montado para evitar aquela mortandade (31).


Os movimentos guerrilheiros perdem a segunda cartada (1963-1966)

"Entretanto, a situação em Angola em finais de 1963, com o MPLA encurralado no Quanza Norte e a FNLA confinada aos seus santuários na região dos Dembos, tinha estabilizado e ter-se-ia assim atingido um primeiro patamar na guerra em Angola. Esta situação não deixaria de agradar aos americanos que, depois de terem perdido a aposta inicial quando tentaram quebral a unidade nacional relativa à política ultramarina (...) viam que os colonos não tinham fugido como acontecera com os belgas no Congo e que aquele imenso território permanecia na esfera do Ocidente" (33).


Terceira fase da guerra (1966-1972)

"Mais três anos passaram e em 1966, apesar do esforço exigido à Nação, inacreditavelmente a situação no terreno mantinha-se controlada pelas forças portuguesas. Inicia-se, então, a teceira fase do conflito com o aparecimento da UNITA e a abertura da frente Leste pelo MPLA em Angola e, em Moçambique, pelo deslocamento da FRELIMO para Sul, para a área de Tete, a fim de dispersar os meios concentrados no Norte (Cabo Delgado) e impedir ou dificultar a construção da barragem de Cahora Bassa. Foi uma fase difícil para as nossas forças, só compensada pelo apoio dado pelo recrutamento local (...)".

"(...)No início da década de 70 a ofensiva do MPLA no Leste de Angola tinha sido totalmente desbaratada com a neutralidade da UNITA que, sem apoios exteriores, estava remetida ao seu buraco nas matas das margens do Lungué Bongo. (...) O enorme empenhamento da URSS na preparação do pessoal do MPLA, no fornecimento de material de guerra que era transportado por barco até Dar-es-Salam e, depois, por caminho-de-ferro até à fronteira de Angola com a Zâmbia, foi completamente gorado. Com esta derrota terminou a nova fase e o projecto de ganhar militarmente o conflito em Angola."

"Em Moçambique, a subversão, circunscrita à região setentrional de Cabo delgado (...) alastrou para Sul até à área de Tete (...) mas esta manobra não resultou e, por alturas de 1972, a barragem era uma realidade irreversível tendo sido cumpridos todos os prazos com um mínimo de incidentes. (...) Na Guiné, (...) foi totalmente activada a componente social com a conquista da população e todo o processo de desenvolvimento no âmbito da educação, apoio sanitário, alargamento da rede viária (...). Importa não esquecer a votação pelos EUA de uma moção contra a política africana de Portugal ao lado da URSS e apresentação pela Libéria no Conselho de Segurança, que acabou por não ser aprovada em virtude do número de abstenções verificadas (34-35)".