03 outubro 2008

Estado Sentido, família minha



Faz um ano um blogue quase familiar de Combustões. A ele me prendem um irmão (Nuno Castelo-Branco), uma amiga (Cristina Ribeiro) e um friso de animadores de primeiras águas. Sem catapultas e sem apoios, o Estado Sentido foi subindo e ganhando o respeito de todos quantos, livres, reclamam vozes que não se enquadrem no grupismo, no partidismo, do extremismo descabelado e no quanto pior melhor, características infelizmente tão arreigadas no "bota-abaixo". Para eles, os meus parabéns.

02 outubro 2008

Louvável agressividade

A belíssima escadaria da Embaixada de Portugal

Os embaixadores de Portugal, Timor-Leste e Espanha

Casa cheia, grande triunfo de relações públicas

Embaixadores de Portugal

O melhor da garrafeira portuguesa

Por iniciativa da Embaixada de Portugal em Banguecoque, quatro empresas portuguesas produtoras de vinhos - Quinta do Conde, Luís Pato, Casa Champalimaud e Esporão Finagra S.A. - deram-se a provar a um restrito círculo de diplomatas e importadores de vinhos, bem como à comunicação social especializada, numa recepção que teve lugar no palacete da nossa representação diplomática. No seguimento do sucesso alcançado há duas semanas na Feira Living in Bangkok, os animadores desta incursão ao vasto mercado tailandês parece terem atingido plenamente os objectivos. Ouvi os maiores encómios ao aprumo, qualidade e bom gosto de que deram provas os portugueses. Um jornalista norte-americano disse-me, até, que iniciativas como esta se podem comparar a análogas demonstrações de profissionalismo desenvolvidas por grandes potências comerciais dotadas de avultados meios e logística. Foi com grande satisfação que senti o orgulho nacional na voz do nosso embaixador perante um público rendido à excelência dos nossos melhores produtos para exportação.

01 outubro 2008

Piranhismo


Trabalho desde os 15 anos de idade, sempre fui cidadão cumpridor, paguei as minhas dívidas e impostos a tempo e horas, servi o Estado e dele jamais me servi, cumpri o serviço militar obrigatório, nunca perdi um ano no secundário e no superior, nunca faltei ao serviço nem pedi a médicos que me passassem certidões fraudulentas de baixa, tenho o certificado de registo criminal absolutamente impoluto, nunca onerei em 1 cêntimo o Serviço Nacional de Saúde, pago a tempo e horas as taxas municipais, fiz durante anos serviço social voluntário, dei e dou emprego a contribuintes. Vivo, contudo, há mais de quinze anos numa casa pequena e tão antiga como a Lisboa anterior ao 1º de Novembro de 1755, casa que continua por pagar, tamanha é a minha riqueza. Peço, portanto, aos pródigos e misericordiosos senhores que fazem de deuses, que me ofereçam uma casa por 4 Euros mensais, se possível na Avenida dos Estados Unidos. Não é preciso que tenha garagem.


Jaws

Um aviso que não foi estudado


Para quantos identificam a liberdade económica como um dos pilares da liberdade política das nações num mundo "globalizado", recomendo leitura atenta desta obra: um verdadeiro manifesto pela preservação das empresas na luta contra a plutocracia.

Defesa do capitalismo


Como era de esperar - e de desejar, pois a polémica é útil e necessária para a defesa dos méritos do capitalismo - as carpideiras das teorias regressivas do regime económico, de direita como da esquerda, vieram a terreiro com as habituais ladaínhas ao intervencionismo absoluto, ao proteccionismo asfixiante e mesmo à autarcia, cantando os méritos da economia de subsistência e do pequeno horizonte de campanário.


Os pós-marxistas, os neo-comunistas, os pós-neo-corporativistas esquecem-se que a actual crise do capitalismo não é, obviamente, o dobre de finados da economia de mercado, mas consequência da absolutização de uma componente subsidiária e acessória do regime económico capitalista que é a actividade bolsista. A bolsa é importante enquanto dinamizador da actividade económica, mas dela é extensão causal, nunca o fundamento. O que há que reparar é a inversão da ordem e da hierarquia, pelo que requerer a intervenção correctiva não implica que o Estado fique, mas apenas que ministre a terapia necessária à restauração do status quo ante; ou seja, restaurar as condições que tornaram possível aos homens deste mundo viverem melhor e mais livres enquanto criadores de riqueza e emprego.


Do tempo dos especuladores e dos jogadores de Casino, é pedido que se volte ao tempo dos empresários, da iniciativa responsável com risco de cabedais particulares; nunca a jigajoga a que assistimos ao longo dos últimos quinze anos e que se apresentou sob o nome de "globalização". Restaurar fronteiras económicas não implica contradição com as premissas do capitalismo. A história confirma que o capitalismo funciona alternadamente entre períodos de protecção ao tecido produtivo e períodos em que, para crescer, pede menor vigilância. O capitalismo é dinâmico e confundi-lo, apenas, com a finança é desconhecer que o capitalismo oferece melhores condições para a realização da felicidade e, necessariamente, da justiça.


O proteccionismo, o estatismo e o colectivismo acabam, sempre, por empobrecer, fechar horizontes, levar à substituição da manteiga pelos canhões e artificializar monopolistas. Tudo o que se opõe ao capitalismo acaba por escravizar e imobilizar. No fundo, o que os inimigos do capitalismo pretendem - à esquerda como à direita - é restaurar uma sociedade de serviçais do Estado, quando não uma sociedade de ordens. Ora, estas sociedades fechadas e privadas de competição, ao invés de desenvolverem a justiça, acabam por colectivizar a pobreza. Esta não é a crise do capitalismo. É a crise de uma distorção do capitalismo, como é o fim da ilusão que o mundo é uma aldeia. O mundo não é uma aldeia, a liberdade económica das nações e dos povos estriba-se na segurança garantida por regras que evitem o desinvestimento, as "relocalizações" e a especulação. Foi essa atenção ao balanceamento entre o interesse colectivo e as justas aspirações individuais que fez a riqueza do Ocidente. A ele temos, pois, de voltar: voltar à produção, à empresa, ao trabalho e ao lucro.


Acabar com o forróbodó dos bancos e dos meninos parvos a brincar à banca, favorecer um regime suave de tributação fiscal aos agentes económicos, proteger a fronteira económica do capitalismo contra os falsos capitalistas do produtivismo com salários de miséria, proteger e estimular a poupança, legislar favoravelmente aos interesses de quem quer correr riscos criando empresas; eis, em suma, o receituário. A finança não tem pátria. O capitalismo tem pátria e uma civilização.

30 setembro 2008

Falar de cinema


Em Lisboa, mal tinha tempo para as fitas. Aqui, com a vida atarefada que levo, vejo 5% de cinema - ou seja, cinema reduzido à pantalha do televisor - mas, confesso, nunca vi tantos filmes, antigos ou recentes, mudos, a preto-e-branco ou a cores, norte-americanos, japoneses, europeus e tailandeses, de aventuras, musicais, comédias. Com os filmes a 2 Euros, compro-os sem critério, vejo-os compulsivamente e não me canso. Hoje, por acaso, dei com o Cine-Australopitecus, excelente blogue de cinéfilo para viciados na sétima arte e, claro está, Lauro António Apresenta. Passa imediatamente para a coluna dos favoritos.

South Pacific (Rodgers & Hammerstein)

29 setembro 2008

Mussolini de pacotilha


A brincar: Os negócios não têm cara. O dinheiro não tem vergonha. A vergonha já não tem preço. Depois da revoada das visitas a Castro, o Mussolini de pacotilha especializa-se no turismo ao Eixo do exotismo político : Cuba, China, Bielorússia e Portugal, quatro casos bem sucedidos na equação "infantil fascínio pela informática+pensamento curto = autoritarismo de comic's". A continuar assim, para além do futebol, dos rodeos e dos campos de golfe, acabamos como hóspedes dos facínoras aos quais já ninguém concede vistos. Depois de Mugabe, já só falta o taxista de Teerão.
Agora, a sério: As relações externas devem ser conduzidas sem preconceitos. Nas relações comerciais entre os Estados preside o príncipio da oportunidade e do lucro. Se o Irão, a Coreia do Norte, o Zimbabwe ou o Sudão nos propuserem negócios lucrativos, que venham o Irão, a Coreia do Norte, o Zimbabwe ou o Sudão. Ou não eram os EUA que vendiam armas ao Irão para, com esse dinheiro, pagar a guerra dos "Contras" ao governo sandinista de Manágua ? A Espanha de Franco e o Chile de Pinochet fizeram fortunas, respectivamente com a URSS e a China, sem que com tais países tivessem relações diplomáticas formais. O tal senhor Hitler até vendeu armas ao Négus da Etiópia na guerra defensiva que este suportou em 1935-36 contra a Itália fascista, os britânicos inundaram os cofres de ouro vendendo armas ao Paraguai e à Bolívia - dois países que se esvaíam na guerra pelo domínio do Chaco - os russos venderam armas aos israelitas na guerra de 1948 e os franceses puseram-se na primeira linha dos dadores ao governo de Pol Pot.
Contudo, há que separar as relações comerciais das relações de regime-a-regime. Se Portugal faz parte do Ocidente, não pode receber fraternalmente um dos mais notórios líderes anti-ocidentais, sob pena de cair na ira americana. O presidente Chavez nem devia vir a Portugal e, se viesse, deveria ser recebido com toda a cordialidade e segundo as normas do protocolo, conquanto entrasse pelas traseiras de S. Bento, e só depois da meia-noite.

28 setembro 2008

Impugnar falsas ideias

Anopong Chanthorn: estrela ascendente da pintura tailandesa

Zan Wang: A Cidade e sua Baía. Possivelmente, o maior artista mundial

Banguecoque: galeria de arte

Há tempos, um "intelectual" francês - a expressão soa-me a redundância - afirmava-me que os asiáticos não têm arte; ou antes, possuem um cânone tão tirânico que não conseguem criar nem "evoluir". A criatura, pelos vistos, continua agarrado à tara de categorização feita à imagem da História da Arte ocidental. Não quis discutir matéria tão complexa com o umbigo da criatura cerebral, mas ocorreram-me dois ou três artistas asiáticos contemporâneos, cuja obra impugna tais desconchavos ocidentais. A Europa, que já pouco cria, dá-se ao luxo de fechar os olhos e teimar num solipsismo cultural arrogante e suicida que a impede de conhecer, comparar e avaliar.
O "conservantismo" estético asiático enquadra-se na visão que o orientalismo quis infundir na comparação imobilidade/dinamismo que oporiam as civilizações asiáticas à civilização ocidental. Contudo, visitando um qualquer museu chinês, apercebemo-nos que a tal imobilidade de que nos falam os estudiosos europeus atinge, sobretudo, peças destinadas à exportação, quando pela Europa se divulgou o gosto pelas "coisas chinesas", em meados do século XVIII. Estes produtos, imprestáveis para os coleccionadores chineses, não seriam mais que artesanato destinado a compradadores privados do bom gosto e do conhecimento da verdadeira arte oriental. Outro elemento de "fixação" estética terá sido a tomada do poder na China por uma dinastia estrangeira (os Qing), de origem manchú. Querendo ser mais chineses que os chineses, os imperadores Qing - sobretudo Kangxi e Qianlong - impuseram pragmáticas do gosto, procurando decantar o "modelo chinês" e preterindo a criatividade. O mesmo aconteceu no Sião, onde, com a queda de Ayuthia e a transferência da capital para Banguecoque (1782), se quis recriar, copiando fielmente, todo o património arquitectónico destruído pela invasão birmanesa de 1767. Hoje, quando se visita o Wat Phó e o palácio real de Banguecoque, visita-se uma cópia de construções similares outrora existentes na antiga capital. Contudo, para lá da arte oficial - monumentos encomendados pelo poder - a criatividade e o experimentalismo, na China como no Sião, continuaram sem limitações. Seria o mesmo que confundir os edifícios de Estado no Ocidente - os parlamentos, os palácios do governo, os monumentos, todos talhados à imagem daqueles que Roma e Atenas outroram exibiram - com a arte dos artistas sem encomendas. Lembro que Corbusier, Frank Lloyd Wright, Edwin Lutyens e Ieoh Ming Pei fizeram arte monumental por encomenda - marcando-as com a "grandeza" inspirada no "cânone clássico" - como também riscaram trabalhos de encomenda para particulares, aí dando largas à mais expressiva independência.
A conclusão que disto podemos tirar é que nós, ocidentais, não toleramos a diferença e vivemos permanentemente viciados na falácia da universalidade. Se nós temos arte não figurativa e "eles" não, tal quer dizer que "eles" ainda não conseguiram libertar-se das formas; logo, estão "atrasados" em relação à Europa. Se isto funciona para as belas-artes e para a literatura - esquecendo que a novela e o romance existem na China desde o século XVI, que a Europa tardou em adoptar - o mesmo funciona para a política: se "eles" não são democráticos, estão num estádio anterior ao nosso. Esquecem-se os preclaros tiranos do pensar universal que a Tailândia, não sendo uma democracia à ocidental, é muito mais livre, flexível, aberta em tudo o que concerne ao indivíduo que as mais elaboradas democracias nórdicas.