27 setembro 2008

Um dos mais belos palacetes portugueses fica na Tailândia


São as malhas que o Império teceu. No centro de Banguecoque, com uma impressionante vista sobre o rio, a embaixada de Portugal. Um edifício belo e sereno, com frontão lembrando uma White Mansion colonial, varandas fechadas e jelosias, grandes caixas de respiração em madeira e um traçado que testemunha o profundo conhecimento português na edificação em climas tropicais. O jardim, excepcionalmente bem tratado, denuncia a mão da embaixatriz de Faria e Maya, que lhe tem consagrado muito trabalho. Ontem, por razões burocráticas, por lá passei e foi-me concedida a honra de um passeio pelo jardim na companhia da locatária. Conversa interessante e essa necessidade quase física que temos de falar a nossa língua proporcionou-me um fim de tarde verdadeiramente agradável. Às vezes, com Portugal tão longe - e não podendo, por ora, regressar - sinto necessidade de pisar terra portuguesa. A embaixada foi, durante muito tempo, o único terreno estrangeiro no Sião, pois o medo de ver estrangeiros tomarem a terra levou os thais a reforçarem os dispositivos legais que interditassem a aquisição de propriedade fundiária e urbana por súbditos de outras nações. O palacete é conhecido e venerado. Não há livro, revista de arquitectura ou de história que não lhe consagre um artigo ou uma foto. Estamos pobres, mas como potência histórica, ali ainda transpiramos grandeza.

26 setembro 2008

Sempre os oldies: há melodias que valem um grande livro



Charles Trenet: La Mer (1943)

La mer

Qu'on voit danser le long des golfes clairs
A des reflets d'argent
La mer
Des reflets changeants
Sous la pluie
La mer
Au ciel d'été confond
Ses blancs moutons
Avec les anges si purs
La mer bergère d'azur
Infinie
Voyez
Près des étangs
Ces grands roseaux mouillés
Voyez
Ces oiseaux blancs
Et ces maisons rouillées
La mer
Les a bercés
Le long des golfes clairs
Et d'une chanson d'amour
La mer
A bercé mon coeur pour la vie

25 setembro 2008

Madame Butterfly mora ao meu lado

Cruzei-me com a senhora e a criança vezes sem conta. Uma mulher bonita, arranjada mas triste, daquela palidez transparente que só as orientais conseguem sem os milagres das tecnologias da ilusão e do bisturi rejuvenescedor. Depois, olhando com mais atenção, reparei que o miúdo não era totalmente asiático: cabelos ligeiramente encaracolados, olhos redondos e grandes, nariz proeminente; um lúúk kreaung, como aqui são chamados os euro-asiáticos. Outra particularidade. A criança, a partir do terceiro encontro, passou a dar-me a mão, coisa que entre os asiáticos é, no mínimo, uma prova de tremenda ousadia. Depois, a revelação. A senhora fala francês, uma quase impossibilidade estatística após o afundamento global da presença gaulesa no sudeste-asiático. Há dois dias, no patamar, ela disse-me que me poderia dar o endereço da Alliance Française em Banguecoque. Haviamos falado sobre a França, mas nunca pensei que fosse visita dos serviços culturais daquela embaixada. Entrei no apartamento e impressionou-me a quantidade de objectos europeus: livros franceses, mobiliário e fotos, muitas fotos, espalhadas por toda a casa. A imagem de um homem de cabelo grisalho, evidentemente com idade para ser o pai dela, espalhava-se como uma obsessão por paredes, móveis e prateleiras. Perguntei-lhe quem era aquele senhor. Ela calou-se, mas depois confessou-me ser o pai da criança. "Ele viveu comigo durante cinco anos, disse-me que iríamos casar quando a criança nasceu. Depois, soube que já era casado, tinha mulher e filhos em França. Há sete anos, partiu sem dizer uma palavra. Sete anos".

Ocorreu-me o triste pressentimento que um dia o bandido apareça para lhe roubar a criança. Enquanto falávamos em francês, o garoto não me largou a mão. Confesso que dali saí combalido e sem vontade de voltar. Os europeus são assim: arrebatam, cansam-se e partem. Devia-se reinstituir a poligamia para evitar estas vergonhas.


Un bel dì vedremo, Madama Butterfly (R. Tebaldi)

Evocar um amigo de Portugal


Sempre tive uma admiração sem limites por aquele estadista de grande visão, cuja obra, magnífica e impressionante, foi estilhaçada pelo mais negro obscurantismo.

24 setembro 2008

Oldies


Acabado de comprar. Banguecoque tem a particularidade de gostar de oldies, o meu género predilecto. Em suma, antes da eclosão do lixo "rock", no tempo em que os compositores sabiam ler uma pauta e os artistas vinham das academias !


Jag vill ha en gondol (Zarah Leander, 1933)



Revoir Paris (Charles Trenet, 1947)

Ainda a ignóbil mentira


Um texto desassombrado. As mentiras duram um, dez, vinte, trinta anos, mas acabam por ser desmontadas. Ler a obra de Manuel Amaro Bernardo é ajuda precisosa para quantos, inocentes ludibriados, perseveram na mitologia que foi imposta pela propaganda marxista. Os mil soldados portugueses negros fuzilados pelo PAIGC, aqui evocados no seu martírio.

23 setembro 2008

Eanes


O Estado Sentido tem toda a razão. Não precisamos de um vociferador intelectual, nem de um banqueiro, muito menos de um florentino. Precisamos de um homem absolutamente honesto e patriota sem mácula que saiba devolver Portugal aos Portugueses e levantar, de novo, a esperança. Nunca fui "eanista" nem senti pelo general qualquer interesse. Hoje, reconheço, este homem é diferente, um caso isolado, mas um exemplo. Talvez seja Eanes o Monk português. É só querer e terá ao seu lado os melhores portugueses.

Faz 35 anos uma grande mentira


Faz amanhã 35 anos que a Guiné-Bissau, "sem Guiné e sem Bissau", proclamou unilateralmente a "independência". Corria o ano de 1973 e os "nacionalistas", em Angola e Moçambique, estavam confinados à irrelevância numérica e à absoluta insignificância estratégica e táctica. Haviam perdido a guerra. A URSS, a China e os ditos não-alinhados viravam-lhes as costas, depois de haverem tentado por três vezes aplicar um rumo esclarecedor à guerra de guerrilhas que aqueles moviam desde o início da década de 1960 contra o Exército Português. Em Moçambique, Samora Machel possuía mil guerrilheiros moçambicanos, numa Frelimo de 4000 efectivos recrutados na Zâmbia e Tanzânia. Em Angola, o MPLA já nem lutava, a FNLA confinava-se a uma ténue linha sobre a fronteira do Zaire e a UNITA tinha, contas feitas, cem guerrilheiros.



Na Guiné Portuguesa, o PAIGC vivia dias conturbados após a morte de Amílcar Cabral. Diz-se que Amílcar queria, a todo o custo, negociar com os portugueses, encontrar uma saída honrosa para o fracasso militar do seu partido, já a braços com severa limitação de efectivos, quase impossibilitado de manter bases logísticas no Senegal e transformado em aríete do governo do regime de Conacri. Tudo o indica, conhecendo os soviéticos, manipuladores e intriguistas excepcionais, que Amílcar conheceu a mesma sorte que, anos volvidos, eliminaria Samora Machel. Em suma, a cabeça do PAIGC já não acreditava na sua estrela e via-se transformado em refém do governo comunista de Conacri. Querendo libertar-se, só podia correr para os braços dos portugueses. Urdiu-se um complot, Amílcar foi eliminado e em seu lugar colocado um meio-irmão que se tornaria famoso pelas matanças que em 1975 tiveram lugar em Bissau contra os 13.000 soldados negros das forças especiais portuguesas. Ou seja, o Exército africano Português da Guiné era superior, numericamente, ao PAIGC.



Após o choque causado pela introdução pelos conselheiros soviéticos de armamento anti-aéreo de grande precisão, em finais de 1972 - causando o derrube de cinco aeronaves portuguesas - os mísseis Strella tinham perdido o efeito de surpresa, pois os pilotos portugueses haviam descoberto maneira de os fintar. Era a tecnologia soviética, mentira tão gabada, que não conseguia detectar os alvos logo que estes desligassem os reactores e procedessem a elementares manobras evasivas. O PAIGC limitava-se, agora, a incursões de ataque e fuga: entrar pela noite na Guiné, disparar morteiros e armas ligeiras contra aldeamentos defendidos e fugir de seguida. "Zonas libertadas" não as havia. Assim, tentando uma jogada publicitária junto dos retitentes subsidiadores, o PAIGC fez reunir na mais pobre e quase despovoada região da Guiné algumas centenas de guerrilheiros, mulheres e crianças, mais jornalistas e outros profissionais do artifício, proclamando a "independência" da Guiné-Bissau. A sessão durou menos de duas horas, não fosse a Força Aérea Portuguesa detectar o ajuntamento. Um discurso solene, uma salva de palmas, muitas fotografias de punho cerrado para a Reuters e fuga. Dias depois, na companhia de uma jornalista sueca, o então capitão Otelo Saraiva de Carvalho visitava a "capital provisória da Guiné-Bissau" e, no meio do nada, disse à nórdica curiosa: "como vê, conseguimos vir de carro de Bissau a Madina do Boé sem ver um guerrilheiro".


É assim que se fazem os mitos. Madina do Boé nunca existiu.

22 setembro 2008

Loucas máquinas tailandesas






Uma extravagância. Americanice, kitsch ou apropriação asiática da tecnologia ? Paragon, Banguecoque, Setembro de 2008.

21 setembro 2008

Moçambique, com 40 anos de atraso

Moçambique integralmente coberto por ligação aérea em 1967


O aeroporto Gago Coutinho (Lourenço Marques)

Os jornais portugueses a que posso ter acesso noticiam a integral ligação rodoviária de Moçambique, mercê da criação de um eixo que cobrirá o território da ex-província ultramarina portuguesa. A exultação, contudo, se merece o aplauso de qualquer moçambicano, como é o meu caso, padece de originalidade. Em 1973, pela mão do então governador-geral Pimentel dos Santos, o projecto agora anunciado encontrava-se na iminência de conclusão, faltando apenas cumprir algumas obras de arte de engenharia para a transposição dos obstáculos naturais mais difíceis. Ou seja, aquilo a que as autoridades moçambicanas se agarram - deitados para o caixote do lixo os absurdos planos russo-búlgaros e alemães-orientais - decanta-se na mais pura doutrina de desenvolvimento integral do país a que os portugueses, há quarenta anos, se dedicavam. Então, o território detinha uma rede infra-estrutural portuária e aeroportuária sem paralelo na África sub-saariana, com excepção de Angola (também portuguesa) e da África do Sul. Era o tempo - mal se previa a entrega do "Estado português de Moçambique" aos mil guerrilheiros de Machel - em que a economia moçambicana crescia 16% ao ano, em que não havia fome, a rede escolar e sanitária cobria a quase totalidade do território, Moçambique detinha a menor taxa de mortalidade infantil da região, a electrificação das zonas rurais caminhava a passos de gigante, os hospitais provinciais rivalizavam com qualquer hospital de Lisboa e a agricultura de subsistência sofria a metamorfose deciciva que a levava para os umbrais da agro-indústria vocacionada para a exportação. Há que lembrar estas coisas, sobretudo porque, para as novas geração intoxicadas de mentiras, a imagem de um Moçambique colonial entregue a capatazes das companhias majestátivas continua a fazer escola.