19 setembro 2008

Os blogues são uma brincadeira ?

Parece que aquilo a que chamamos blogosfera chegou a um ponto decisivo. Inicialmente, os blogues seriam cadernos diários de apontamentos públicos - nunca diários, pois os diários são absolutamente privados e espontâneos - com estudada pose e finalidade, ora recreativa, ora destinados a partilhar mundivisões sem cobertura dos media oficiais. Essa fase terá terminado, pois ao bloguismo colou-se a promoção de produtos e ideias supostamente destinadas ao "vasto público". Percorrendo uma centena de páginas pessoais editadas sob a forma de blogues, apercebemo-nos que a política - da política de campanário das autarquias aos grupúsculos políticos marginais no grande jogo - é razão central que as anima. Nesta acepção, o blogue é uma modalidade pobre de fazer política, não se lhe augurando outro futuro que o de curiosidade, muitas vezes mais enfraquecedor de quem o assina - debilidade argumentativa, falta de estilo, repetição temática - e, logo, sem capacidade para concitar a atenção fora do restrito grupo de amigos virtuais que o visitam. Não, os blogues não dão força àqueles que, minoritários, pensam intervir na vida política. Parecem-se, neste particular, com as tertúlias, que podem reunir vinte, trinta ou quarenta convivas e acabam por iludir os tertuliantes da fictícia impregnação dos pontos de vista aí unânimes, pensando que a "sociedade" se confunde com a tertúlia.


Outra conclusão a que cheguei após uma noitada percorrendo a "blogosfera" portuguesa, é a da inexistência de "massa crítica". Em Portugal, há cerca de 500.000 assinantes da Internet. Se por assinatura houver dois ou três utilizadores, o número total de internautas portugueses ascenderá a milhão e meio. Ora, somando os vinte blogues "sérios" mais lidos, o número de participantes - que deve ser estacionário - oscila entre vinte e vinte e cinco mil. Se a este número acresentarmos vinte mil para os restantes blogues "sérios", o universo não excederá as 40.000 pessoas, ou seja, 2,5% dos potenciais destinatários. Sei perfeitamente que o número não representa nada, quando o que se discute é a qualidade dos leitores, a sua preparação e influência. Contudo, os blogues não são como as velhas tertúlias, que tinham sempre um projecto editorial ou cívico encartado. Na blogosfera frequenta-se várias "tertúlias", não há fidelidade nem linha dirigente. Acontece comigo deixar de acompanhar um determinado blogue e a ele voltar um ou dois meses depois, sem que com isso tenha perdido. Ao regressar, ouço as mesmas expressões, as mesmas teimosias, a mesma perspectiva sobre assuntos diversos, sejam a culinária, a literatura, a política caseira, os acontecimentos internacionais.


Restam os "blogues de autor", animados por um ou mais indivíduos. Nestes, o velho diarismo auto-censurado como as cartas íntimas em tempo de guerra - abertas e lidas por mão atenta - parece sobreviver e reune as qualidades do autor, a sua graça e verve, formação, inclinações e experiências. É como quem abre umas páginas amarelas de sensibilidades e tendências e não choca com propaganda gratuita. É neste reduto que reside o interesse dos blogues. O blogue de autor sobreviverá, pois a especificidade e vis dos autores não esgotam o permanente interesse que os outros - absolutamente únicos - nos inspiram. Dou comigo a simpatizar com "blogadores" nos antípodas da minha mundivisão e a deter-me em questões que estão fora do meu mundo de interesses particulares. Esta blogosfera não é residual, é o sal da outra blogosfera que se vai parecendo, cada vez mais, com os jornais e as estações de rádio.

17 setembro 2008

Portugal entre as potências

Dava uma excelente petite histoire para umas memórias da nossa Embaixada em Banguecoque. Um dia de festa. De um lado, os embaixadores, sentados em torno da mesa, comendo e falando. Numa sala contígua, os respectivos secretariados distribuídos por duas ou três mesas. No fim do almoço, pergunta-se a uma das nossas secretárias se havia estado na mesa do pessoal do país X. Resposta: "não, na nossa mesa estavam só as potências". Potências na Ásia quer dizer: os EUA, a Grã-Bretanha, a França, a Rússia, o Japão, a China e Portugal. E esta ? Que panache !


Hoch Habsburg - Kaiserlicher Hochzeitsmarsch

Da América dos radicais à América das bagatelas


Nazis e Black Power juntos

Acompanhar, por necessidade elementar de informação, a corrida à Casa Branca é espectáculo pouco propiciador para pessoas em busca de sensações fortes. Da paupérrima qualidade do debate e dos temas abordados ao miserável friso de candidatos, a eleição de 2008 vem provar a decadência da política, o lento adormecimento da sociedade civil e a instalação do fatalismo num grande país que não soube, tudo o demonstra, tirar partido de duas décadas de supremacia absoluta. Após 63 anos de Império, os EUA oscilam entre a resignação da queda e as pequenas operações cosméticas que escondam as fissuras, as rugas e a completa ausência das responsabilidades planetárias que ainda detém. A "potência global" falhou: não deixou marca, não mobilizou aliados, boas-vontades e inteligências. Mais que odiados, os norte-americanos são, simplesmente, ou invejados pelos pobres, ou desprezados pelas demais potências que um dia detiveram as chaves do poder mundial. Como aqui disse um dia, os EUA foram - ou são - uma desilusão.
Se olharmos para a década de 1960, quiçá a mais interessante da vida e cultura políticas norte-americana, o contraste é flagrante. Então, do supremacista nazi George Lincoln Rockwell ao activista racista negro Malcolm X, do extremista segregacionista George Wallace ao reverendo Luther King, dos irmãos Kennedy ao conservador populista Nixon, os EUA exibiam um surpreendente, jovem e agressivo leque de opções que carregavam futuríveis opostos mas pletóricos de provocação. A América dos anos 60 era, sem dúvida, o centro da controvérsia ideológica. Hoje, ouvindo do soporífero Obama e parceiro ao decaído McCaine e alvar pateta que o assessora, damo-nos conta do fim da inspiração.

16 setembro 2008

A cultura plutocrática: livros para atrasados mentais



A propósito da utilização do termo "plutocracia" - eu, que sou defensor do capitalismo - recebi meia dúzia de pedidos de esclarecimento. Pois, sem delongas - os títulos falam por si e são instantâneo do que [não] vai nas cabeças dos adoradores da especulação - aqui estão dois lídimos exemplos. Ontem, a bolha explodiu em Nova Iorque. Os Zandingas e Houdinis da "arte" de reproduzir dinheiro que nos expliquem o fenómeno.

15 setembro 2008

Plutocracia


Não se lhe reconhecem quaisquer regras nem limites. Não é um capitalismo quantificável em obras, nem materializável em metal sonante. É uma simples e quimérica abstracção de números e de equações ou teoremas, quantas vezes imaginários, mas que controlam efectivamente a vida de todos, desde o mais ignoto habitante da Matabelalândia, até ao refastelado accionista do NASDAQ novaiorquino. Longe vão os tempos dos empreendedores florentinos que se alçaram à categoria principesca pelo patrocínio do Renascimento, pela criação material que fez o mundo ocidental saltar etapas e libertar-se da tacanhez territorial de uma Europa fria, pobre, suja, feudal e sem reminiscências daquele luxo oriental que auferira durante dois milénios. Já não existem Médicis, nem Fuggers e no horizonte, erguem-se os guindastes que possibilitam a construção de novos polos económicos que nada têm que ver com a produção de novidades, a promoção de postos de trabalho que tranquilizam a sociedade, ou pelo menos, que se destinem a embelezar a vida dos centros urbanos. Estas provisórias torres de aço, gigantescos Meccano que parodiam aquele famoso guindaste medieval que durante séculos foi erguendo a Catedral de Colónia, servem apenas a mera especulação.

92 anos, um colar de marfim e um estojo em prata


Custa-me estar longe e não lhes poder dar pessoalmente os parabéns. A minha avó faz hoje 92 anos. Nasceu em 1916 e recebeu a graça de Irlanda, homenagem que o meu bisavô quis fazer aos patriotas irlandeses que nesse ano pegaram em armas contra a insuportável ocupação inglesa. Diz-me o meu pai que a Avó lhe levou alguns objectos, coisas dela porque acha que está na hora de partir e não vai chegar ao fim do ano. Não há que ficar preocupado, pois estas coisas não são como queremos ou pensamos, mas como a hora escolhe. Assim, começou a distribuição; fomos beneficiados com um lindo estojo de peças para escritório em prata que lhe foi oferecido pelos colegas da repartição há pelo menos 76 anos (!), creio eu, quando saiu do emprego para se casar com o meu avô, um mês depois de ter feito 17 anos! A minha Mãe também recebeu várias coisas, entre elas um belo colar de marfim que já deve ter mais de 100 anos. É este o espólio de uma colonialista. Por outras palavras, não faz o boneco da exploradora, uma mão empunhando a chibata da exploração das "mais valias" do negro, outra mão com um bacamarte para o abate dos elefantes. A minha Avó é um monumento vivo da África que acabou. Viveu todo o século XIX e já quase uma década do século XXI. Nunca lhe ouvi um insulto a quem a privou da sua vida, dos seus afectos e da sua dignidade de portuguesa africana.
Os meus pais celebram hoje 50 anos de casados, coisa quase impensável nos dias que vão correndo. Quando as experiências vida atingem tais dimensões e se cruzam com tantos acontecimentos que a história impõe, há que concordar, finalmente, que tudo tem um sentido. A vida não é fatalidade; fatalidade seria viver de cócoras perante terceiros. O meu pai, olhando para o passado - eu sei, porque ouvi e vi, semanas após o 25 de 74 - até poderia ter sido ministro da cultura do Moçambique independente. Recebeu, por alturas de Maio de 74, uma verdadeira delegação da FRELIMO - ainda proibida - que o vinha sondar para a "colaboração" com a situação que se desenhava. Recusou. Fez as malas, comprou cinco bilhetes de ida sem volta, e "regressou" a uma terra a que chamávamos Metrópole. Assim se fechou um capítulo das nossas vidas. Viver é uma aventura. Viva-se.

14 setembro 2008

O dinheiro como mal



O Papa lembrou ontem, para escândalo de muitos, que o dinheiro é a raíz do mal. Nunca como hoje, tantos homens foram bafejados com a riqueza e bens materiais. As classes sociais, no Ocidente, praticamente desapareceram pela mágica da reprodução do dinheiro: o acesso à posse da propriedade, ao lazer, ao conhecimento, à informação são bens ao alcance de quase todos. Contudo, o Ocidente sente um tremendo vazio. Pela tardinha, antes de jantar com bons amigos que me prepararam uma deliciosa e portuguesíssima arrozada de marisco, passei por uma livraria e dei comigo a espantar-me a cada passo pela doença galopante e contagiosa de livralhada de marketing, vendas e sucesso, pequenas bíblias da nova crença no dinheiro, no fazer dinheiro e no impingir produtos aos outros: "Sê um Alexandre das vendas", "Conquista o mercado", "Estratégia de vendas", "Sê um Midas" e demais pérolas do reles culto de Mamona.


As civilizações dominadas pela espiritualidade relegaram sempre os ofícios do dinheiro e das mercadorias para grupos sociais subalternos. Na Índia, os brâmanes nem lhes tocavam, considerando-as impuras. Na Idade Média Europeia, os banqueiros, os prestamistas e agiotas eram considerados como infractores voluntários; logo, desdenhados e só tolerados se pertencessem a enclaves étnicos e religiosos. O dinheiro, o culto do dinheiro e a febre do dinheiro só transtorna espíritos inferiores; é um jogo, uma permanente fonte de maquinações, uma obsessão que acaba por escravizar. O capitalismo, encarado como sistema económico baseado na liberdade dos agentes económicos, no risco individual e na valorização dos homens, só é defensável se os empresários criarem, produzirem, inovarem e servirem necessidades.


Ora, aquilo a que temos assistido ao longo das últimas duas décadas é a negação do velho capitalismo. Onde antes havia produtores de bens, hoje parece só haver produtores de serviços. Onde antes havia proprietários, hoje só há accionistas. Onde antes havia homens enérgicos correndo riscos, hoje temos operações financeiras. Onde antes havia marcas, produtos e criação, hoje temos apenas conglomerados e fugazes associações de interesse aplicado a um objectivo temporal limitado. O jogo da especulação accionista, a abstracção e a matematização da riqueza, antes de servirem, estão a provocar o desinvestimento, o desemprego crónico ou a precaridade do emprego. Este novo capitalismo, com os males que vai espalhando, parece estar a fazer tudo para ressuscitar o proteccionismo, a autarcia e o socialismo. O Eldorado chinês, a que se somou ultimamente o País da Cocanha indiano, demonstra quão irresponsáveis são os técnicos de reprodução da riqueza. No fundo, o Ocidente vive da ilusão colonialista e imperialista que tal situação se poderá manter. Mas não, a China e a Índia, logo que alcançado o patamar de sociedades industrializadas modernas, reclamarão os benefícios das sociedades pós-industriais. Nesse momento, a Europa e os EUA nada terão. O dinheiro vai matar o Ocidente.