13 setembro 2008

Outra universidade de excelência: Thamasat


Pridi, o fundador da universidade, estudou em França e regressou ao Sião com forte dosagem de leituras revolucionárias. Dizia-se inicialmente "comunizante" e foi, até à década de 1950, o mais destacado líder da esquerda tailandesa, antes se converter à ideia democrática e à aceitação da monarquia, por ele entendida como salvaguarda da unidade nacional e dique ante o exclusivismo nacionalista da maioria thai sobre os restantes grupos étnicos que integram a população do país. Representava o típico intelectual ocidentalizado do período entre-guerras, com formação académica europeia, mas extremamente cioso da "via asiática para a Tailândia".


A "catedral", como lhe chamam os alunos

Criada em 1934 por iniciativa de Pridi Phanomyong, figura de proa do constitucionalismo siamês, é, por oposição a Chulalongkorn (vide 1 e 2) - universidade das elites conservadoras e tradicionalistas, instituída pela Coroa - uma universidade com forte desígnio de intervencionismo político em todos os grandes debates e crises sociais contemporâneas. Seria, no Ocidente, uma "universidade liberal", informal, militante e adepta do experimentalismo pedagógico. Dela têm saído os mais qualificados quadros dos sectores moderados, mas nela estudaram também os outsiders, os radicais de esquerda, os ambientalistas e os adeptos da autarcia económica, hoje integrando a frente alternativa que se reune no PAD: People's Alliance for Democracy. Por lá passo aos sábados, usufriundo de excelente biblioteca que envergonharia qualquer biblioteca universitária portuguesa.



Um campus que impressiona pela limpeza, pelos jardins cuidados e pala calma. Situada sobre o rio Chaophraya, possui campos para a prática de desporto e um fascinante passeio ribeirinho onde, à tardinha, nos podemos sentar para observar a azáfama de embarcações que cruzam o rio.


A biblioteca central da universidade distrubui-se por quatro pisos - dois dos quais subterrâneos, iluminados por clarabóias - e oferece condições excepcionais de conforto, frescura e serviços de apoio: cafés, reprografia, audio-visuais, mapoteca, publicações periódicas, salas de estudo para grupos de trabalho, laboratórios de línguas, referência e sala de exposições.


Universidade de humanidades, oferece uma vasta panóplia de licenciaturas, cursos de especialização, mestrados e doutoramentos nos domínios da Ciência Política, da Sociologia, Ciências Jurídicas, História, Filosofia e Linguística, não esquecendo a Ciência das Religiões e os estudos budistas. A presença entre os estudantes de muitos monges é notória e motivo de espanto para quem visita a biblioteca pela primeira vez. A universidade oferece gratuitamente aos monges a frequência de cursos de Pali, paleografia, história do budismo e filosofias orientais, mas hoje conversei com um monge que estava a preparar-se para defender uma tese de mestrado em Ciência Política sobre o "sistema constitucional alemão".

A Tailândia é, antes de mais, uma monarquia, pelo que a universidade democrática presta-lhe tributo de respeito. Ao longo dos corredores, armários talhados ao estilo siamês contêm obras editadas com chancela real. São os armários mais venerados, pois muitos alunos, ao passarem por eles, executam o wãi, gesto de cortesia e respeito que substitui o aperto de mão no Ocidente. É mais higiénico e mais bonito !


Como aqui já tinha referido em páginas passadas, o sono - neste caso quase despudorado - faz parte da atitude pública dos siameses. Se têm sono, dormem: no metro, no autocarro, no táxi, no dentista, no cabeleireino. É um povo livre que encara a sesta como uma necessidade insusceptível de crítica. Até já vi um polícia, em plena rua, sentado no carro de porta aberta, a dormir como uma criança de colo. Hoje contei uma vintena de sonhadores na biblioteca. O dorminhoco da tarde foi esta criatura, que por lá dormiu durante três horas. Depois, acordou, espreguiçou-se e foi-se embora. Bom estudo ! Se fosse em Portugal, vinha logo uma megera de bata cinzenta increpá-lo por tamanho desleixo.

Lourenço Marques há quase 100 anos








Dizia há 30 anos um politiqueiro por demais conhecido, que Portugal quase nada deixara em África. À minha avó, que cumpre 92 anos no próximo dia 15, imagens de um Moçambique desconhecido para a maioria dos portugueses de hoje, lembrando que o boom económico dos anos 60 não nasceu do nada. Para calar os mentecaptos e os obscurantistas de serviço, postalinhos de uma Lourenço Marques "à britânica", cosmopolita e crente nas "ideias do progresso", que o amigo Carlos Falcão teve a bondade de me enviar. Com vénia ao excelente Malhanga.


Bach to Africa: Lambarena

12 setembro 2008

Americalogia




Os blogues, a comunicação social e as conversas de circunstância vão ter, inelutavelmente, ao tema das eleições norte-americanas. Dir-se-ia, até, que somos cidadãos desse império, com adesão primária a tudo o que cada facção em confronto vai descartando, no ódio, na pequena intriga e nas paixões de duração efémera que o jogo da grande informação debita hora-a-hora. Sabendo que as eleições americanas são importantes - pois afectam todo o mundo - o tema não me atrai, pois alguma leitura comparativa permite verificar que nada mudará após Bush. Os EUA são um império e não é pela mudança do imperador que o comportamento da grande e complexa máquina de poder sofrerá alterações dramáticas: está tudo tão implicado com tudo, tantos são os interesses firmados, as fidelidades pagas, os negócios e a trama de influências que o novo imperador, qualquer que venha a ser, não passa de pormenor. O império rege-se por uma inteligência diferente do pequeno Estado-nação. Pode, até, manter uma sucessão quase ininterrupta de "imperadores loucos", que tal não constitui óbice à expansão e consolidação da força externa do império e à riqueza e desafogo intra-fronteiras. Não há opção dilemática entre Obama e McCain: os dois representam - com as variações de humor, carácter e gabarito próprias dos homens - o interesse do império, pelo que a expectativa de messianismos e a chegada de um "tempo novo" ou a reivindicação da estabilidade e da continuidade são, apenas, ingredientes de sedução. Obama quer entrar e promete o céu; McCain quer manter e promete apurar a máquina. Depois da eleição, os EUA manterão tropas no Afeganistão e no Iraque, continuarão a carregar aos ombros as obrigações geopolíticas herdadas, os adversários e inimigos de hoje serão os adversários e inimigos de amanhã. Espanta-me que as pessoas, mesmo as medianamente inteligentes, não se dêem conta disso. Estão tão intoxicadas de esquematismo ideológico, tão fragilizadas pelo marketing - sobretudo tão desarmadas de conhecimento histórico - que julgam que os EUA escapam, como império, às leis que regem os impérios. No fundo, a histeria em torno das eleições americanas tem uma explicação, ou antes, duas:

- a vontade dos aliados, parceiros e bárbaros em saber o que acontece em Roma: se o imperador é casado com uma égua, se mandou envenenar o valido de véspera, se a Messalina de serviço arranjou novo amante entre a oficialagem pretoriana ou se o novo imperador vai ou não manter as festas no Coliseu;
- o desejo incontido de imitar Roma, de ser romano ou amigo dos romanos.
É matéria infantil. Só fica mal a quem por ela se esgota, pois exibe o pueril fascínio por coisas que não podemos evitar e nas quais não podemos intervir.


The Clarinet Polka (jimmy Dorsey)

11 setembro 2008


Acabada de chegar. Uma surpreendente fotobiografia que recomendo.


White Cliffs of Dover (Vera Lynn)

10 setembro 2008

Escolha o golpe de Estado que mais lhe agradar

Um dia sem aulas - tive um dia de férias, pois o terceiro nível de língua thai começa amanhã - e depois de umas horas de leitura em casa, tive tempo para espairecer na ginástica. Falei com meia dúzia de colegas de fitness sobre a actualidade política e, garanto-vos, fiquei perplexo. Todos, sem excepção, defendem um golpe militar, fartos da balbúdia que vai atrapalhando os negócios, as exportações, o turismo, os horários dos transportes, os vôos da Thai Airways; em suma, a imagem internacional da Tailândia. Já não suportam os políticos, as infindáveis discussões parlamentares, os golpes de teatro, as manifestações e greves, os enfrentamentos de rua, as cabeças partidas, as bandeirolas que se agitam, os ministros mentecaptos e a oposição bota-abaixo que o Nuno vai debitando. Só se ouvem duas palavras: autoridade e paz.

Em sociedades marcadas por uma forte tradição de "linha-de-comando" - usando a expressão cara a Adriano Moreira - os militares, detentores das armas e da disciplina, são fortes concorrentes dos civis [da burocracia] e da nova burguesia ascendente da banca e da finança. Como referia nos anos 70 Clark Neher (Politics in Southeast Asia), "os militares constituem o mais bem organizado grupo do país, e em termos de disciplina e hierarquia não têm rival". O ênfase dado à hierarquia, deferência e status, que se baseiam na relação superior-subordinado, predispõem a sociedade a aceitar com mais naturalidade a autoridade dos militares. Os militares são duros, mas essa dureza conforta, protege e é "apolítica", ou seja, apartidária, o que permite fazer tábua-rasa da conflitualidade ideológica ante golpe de Estado. "Apartando a inépcia, corrupção e mau desempenho dos civis (...), os líderes militares conseguem persuadir a burocracia que são a melhor solução para o governo do país" (idem, p. 185).

Julgo estarmos na iminência de uma tomada de decisão dos militares. Resta saber que modelo de golpe de Estado escolherão. Os últimos decénios facultam exemplos, bem ou mal sucedidos, de golpes de Estado de "acalmação", de "mudança do tipo de sociedade" ou de "suspensão" de um modelo contaminado pedindo reciclagem. Esta ratio castrensis pode envolver uma componente civil - tecnocrática, carismática e ideológica, como é o caso das lideranças religiosa e académica - e, até, das ordens sociais "antigas" (aristocracia) que permitem justificar o sentido de continuidade da legitimidade histórica face aos detentores da legalidade constitucional afastados do poder pela operação militar.

Perante as possibilidades de catálogo - "golpe à chilena", com assunção de uma via que leve o país para uma revolução vinda de cima, obrigando-o a mudar de perfil; "golpe à argentina", em que os militares se apossam do poder, mas contentam-se com o monopólio do Estado sem conseguirem mudar nenhum dos factores que concorreram para o mal-estar que levou ao golpe; e o "golpe à turca", que suspenderá as liberdades políticas, dissolverá os actuais partidos, interditará o acesso ao novo jogo político a todos os políticos do actual regime - julgo que, em face da plena adesão emocional à "democracia ocidental", os militares escolheriam a via turca, autoritária e desenvolvimentista. Os próximos capítulos contarão o fim desta história.


Prince Valiant

09 setembro 2008

Finalmente !


Bem, parece que tínhamos razão. Samak abandona o cargo acusado de crimes no exercício das funções. A crise no Sião parece ter os dias contados.

08 setembro 2008

Quando voltas para Lisboa ?

Telefonam-me, enviam cartas e mails perguntando quando. Eu calo-me e vou tecendo suaves mentiras, distraindo e fintando o gume da faca que me apontam. É, fiquei farto do jazigo onde, vivo, vivi emparedado. Fiquei farto das carrancas cinzentas e da tristeza indizível, dos dias e das chuvas gélidas, do não poder ir a sítio algum por não haver sítio onde se possa ir, do lixo, dos graffiti, dos jardins sem flores, espezinhadas e arrancadas, das estátuas decepadas, das paredes e becos exalando metíficas descargas fisiológicas, do mendigo em cada esquina, daquela cor esmarecida que já foi cor, dos passadores de droga e dos músicos vagabundos drogados e alcoólicos, dos velhos abandonados e a morrer a olhos vistos, dos cães vadios sem direito a rendimento mínimo garantido, dos urros, guinchos e palavrões vicentinos do "bom povo" ventre-ao-sol. Tudo isso revi há meses, quando a saudade da família me obrigou retornar - como detesto a palavra, que soa a insulto - àquele aeroporto imundo que mais se parece com uma casa de banho pública, reflexo da desorganização funcional a que os meus pobres concidadãos se habituaram. Abri ISTO E REVI A PORTA TRASEIRA DO PEQUENO INFERNO. Estou aqui, sem o conforto da casa de Lisboa, sem os meus livros e sem empregados que me sirvam, mas estou bem. Aqui, com uma revolução no ar, barricadas, manifestações e algumas cargas policiais sinto-me absolutamente bem. Não quero ir. Venham cá ver-me.
Não sou derrotista e acredito que Portugal tem futuro, mas precisa de grande emenda para sair do torvelinho em que todos nós, portugueses - e não apenas os políticos - o meteram. O queixume é uma cobardia, e não esse caminho que nos tirará deste transe. Servirei qualquer governante, de esquerda ou de direita, que consiga a proeza. Portugal passou por análoga agonia no primeiro quartel do século XIX. Após a independência do Brasil, que pensávamos carne da nossa carne, ficámos, subitamente, sem nada. Depois, foram quase trinta anos de lutas civis, ódios e derrocada. Em 1851, o país acordou. É disso que estou à espera.


Confesso: Tony de Matos