06 setembro 2008

Banguecoque sem Adido Cultural




Tem toda a razão o Senhor Presidente. Exige-se trabalho realizado às representações diplomáticas, não se lhes dando condições mínimas para operar no terreno. Lembro ao Chefe de Estado que na Tailândia, por falecimento do nosso leitor, o saudoso João Azeredo, não há adido cultural ... a três anos das celebrações dos 500 anos da chegada do primeiro embaixador português ao Sião. É uma vergonha que nos deslustra e que será interpretada na região como uma retirada portuguesa e um agravo. Espero que a advertência do Presidente seja compreendida nas Necessidades e que sobre o acontecimento não se inventem desculpas sem pés nem cabeça para ocultar o indesculpável.

Combustões no coração dos rebeldes: comício 24x24 horas (V)








Chovia torrencialmente, mas na avenida que conduz ao Palácio congestionava-se uma multidão coberta de capotes plásticos. Eram os visitantes, aqueles que vão e voltam para as ocupações diárias e fazem o comício permanente de 24 horas. Aplaudem, cantam e dançam freneticamente. No palco há músicos rock, pop e oldies, mais bandas de "country" tailandês, crianças que tocam piano, saxofonistas e outros amadores porque o show não pode parar. Esta gente diverte-se e vive com intensidade as alegrias da vida, pelo que a política também deve divertir. Pelas oito da noite há oração colectiva, com recitação dos mantra e meditação. Acende-se o incenso e as velas e pede-se pelo fim da crise. Pede-se pelos amigos e pelos inimigos e que o Rei triunfe. Comovente, não ?
Aqui não haverá guerra civil, como nunca houve no passado. Os thais consideram-se uma raça especial e possuem um sentido de comunidade tão apurado que não aceitam a possibilidade da divisão. Nos confrontos violentos do último fim de semana, um miliciano pró-governo foi trucidado pelos tradicionalistas. Jazendo no chão, coberto de sangue, não houve ambulância alguma que se prestasse a correr o risco de socorrer o desgraçado. Foram os próprios inimigos que o levaram ao hospital. Estranho país, este, onde as expressões mais ouvidas são May Pen Ray (não faz mal), Sabai Sabai (está tudo bem) e Sanuk (divertimento) e as pessoas, até a chorar, sorriem. Fica tudo explicado. Caramba, como amo este país !


Tong Chai McIntyre: Sabai Sabai = está tudo bem (1986)

สบาย สบาย
(...)
sabai sabai = está tudo bem
leaw ther ko khong khaw jai = e tu comprendes
rau nan ja yu rian ru kan pai = que se vamos viver e aprender juntos
cak thuk cak suk phiang nai = muita dor e prazer experimentaremos
sabai sabai = está tudo bem, assim

Combustões no coração dos rebeldes: os ocupantes (IV)








No Palácio do Governo estarão em permanência quatro ou cinco mil pessoas, entrando ao longo do dia outras dez ou quinze mil para participar no comício ininterrupto que se realiza em torno de um grande palco onde oradores e músicos realizam um show que dura há mais de quatro meses. É uma façanha, sabendo que esta gente tem casa, empregos e obrigações. Uma senhora disse-me estar ali desde o primeiro dia da ocupação e que fala para casa a partir da central de comunicações onde estão reunidos jornalistas afectos ao movimento.
Pensei que ia encontrar aristocratas e gente especial - ou seja, das avenidas ricas da capital - mas vi tailandeses absolutamente normais, daqueles com quem nos cruzamos na rua, no supermercado e no pequeno restaurante de bairro. Há famílias inteiras, há grupos vindos das províncias, com os pais e avós, há muitas crianças - felizes por viverem agora nos jardins de um palácio - e até animais de estimação: gatos, cães, pássaros e ratos brancos. Ao passear pelas traseiras da sede do governo deparei-me com uma verdadira multidão dormindo nas garagens onde anteriormente estariam os carros de serviço ao governo. Não vi quaisquer sinais de vandalismo no jardim e edifício. Os ocupantes não entraram no Palácio e só têm permissão de utilizar as casas de banho do palácio se se descalçarem à entrada ! A funcionar, como sempre neste país, o sentido da hierarquia.
Outro elemento que me chamou à atenção: a coragem desta gente. Não temem olhar, sorrir e até gargalhar para a fotografia. Ninguém se recusou tirar a fotografia e recebi, sempre, o tratamento de "Sir", forma de distinção que os thais dão a alguns farangs, pois os outros farangs - de chinela, tatuagem e cabelos à futebolista - só recebem um crítico "Mister". Isto é um povo verdadeiramente requintado. Na Europa, a habitual escumalha já teria destruído, queimado e pinchado o Palácio do Governo.

Combustões no coração dos rebeldes: logística (III)







Os tailandeses têm duas características que por vezes se tornam quase obsessivas: as limpezas - do corpo e da casa - e a comida, que é tema recorrente de discussão. É um povo anfíbio que se banha quatro ou cinco vezes por dia e enche os armários de cremes, loções, perfumes e demais produtos de drogaria. Este traço cultural estará, talvez, associado à ancestralidade indiana bramânica desta cultura e à ideia de impureza do corpo. Olhando para as mãos e pés desta gente - do mais humilde vendedor de rua às senhoras da alta sociedade - ficamos perplexos pela atenção dada às mãos e unhas, aqui permanentemente lavadas, amaciadas, polidas e cortadas.
Os rebeldes montaram um serviço completo de higiene pública: casas de banho, carros cisterna e até autocarros para as necessidades fisiológicas. Vê-se que há aqui organização e experimentada mão de militares [reformados] na concepção e disponibilização de tais serviços básicos. O vasto recinto do palácio governamental - talvez cinco vezes maior que S. Bento - está impecavelmente limpo, varrido, com contentores de lixo substituídos cada quatro horas, como me informou um homem das brigadas de limpeza.
A comida não falta e é gratuita para quem quiser um prato de arroz com caril de galinha, uma sopa, um refrigerante ou uma água. Aqui, não há dinheiro. É tudo de graça, permitindo-me avaliar dos meios e ajudas que muitas empresas e particulares puseram à disposição do PAD. Para os doentes, há duas enfermarias - uma para assistência e outra para casos graves - e três farmácias, que facultam (gratuitamente) remédios. Vi muitos médicos e enfermeiros prestando assistência aos ocupantes.
O dinheiro não deve faltar, pois o canal de televisão pirata - visto por todo lado - está permanentemente a debitar ofertas pecuniárias que vão para uma conta bancária fora do país e que, depois, transitarão para contas particulares de pessoas relacionadas com o movimento. Há ofertas de 100.000, 200.000 e um milhão de Bath. Pergunto-me como podem manter o movimento de entrada e saída do recinto sem serem importunados pela polícia, que só sorri. Um oficial das forças de segurança fora do perímetro até me fez um discreto V !

05 setembro 2008

Combustões no coração dos rebeldes: espiritualidades (II)

Uma das mulheres mais queridas pelos tailandeses


Monges pertencentes à seita rigorista Santi-Assok (Assok Pacífico)

Altares votivos, com incenso e flores, um pouco por todo o acampamento

Os tailandeses são muito exigentes em tudo o que se prende com obrigações religiosas. A vida, para eles, está impregnada de sinais, marcadores e referências que remetem para as crenças budistas. Dir-se-ia, não fossem aparentemente tão liberais e tão tolerantes, que estas criaturas vivem em permanente prova de robustez espiritual e que a sociedade deles exige análoga profissão de fé. Estar fora do Dharma - dos ensinamentos do Buda - é viver fora e contra a sociedade. Aqui, o nome próprio, o local e mobiliário da casa, a abertura de um negócio, a venda de uma propriedade, o dia do casamento, a cor que se veste e a comida que se come estão encerrados na predicação do Iluminado. Acreditram que o mérito se ganha e se perde, que a libertação maior é a fuga à danação da dor, da doença, do sofrimento e da velhice, pelo que tudo fazem para fugir ao Samsara, que os ocidentais desastradamente limitam à crença na reencarnação. O aperfeiçoamento não é, para eles, uma compra a prestações da libertação, pois esta não se pode realizar sem um movimento voluntário. Quem mentir a si mesmo, mesmo que se desdobre em actos de caridade pública, recebe um karma negativo. Para esta gente, o próprio Buda não é senão exemplo de um homem que encontrou o seu caminho; logo, Buda não deve ser entendido como Guia tre, mas, apenas, como aquele que soube virar a sua roda e deixar testemunho desse caminho.

Na Tailândia professa-se o budismo da Escola Theravada, a que mais fielmente se aproxima do Antigo Ensinamento. Subdivide-se em duas ordens dominantes, o Maha Nikaya, maioritaria, e o Dhammayuttika Nikaya, mais exigente. À margem, sem reconhecimento como ordem monástica, a seita Santi-Assok, de que é membro um dos líderes dos rebeldes, o general Chamlong. No acampamento dos tradicionalistas pontificam os membros da seita, envergando a túnica de cor púrpura, destoando do açafrão das vestes monacais das ordens oficiais. Aos membros da seita é exigido que vivam, dentro ou fora dos conventos, como monges, que ofereçam permanente testemunho das virtudes budistas, que não toquem em dinheiro nem se atenham a quaisquer prazeres mundanos. Encontrei-os macerados e brancos como a cal, mas sorriram-me e um deles até me quis oferecer um copo de leite de soja, que não pude recusar. No fundo, para eles não passava de um farang curioso que por ali passava em busca de espectáculo. Estavam absortos, de um silêncio duro, quase petrificados.
Andei por ali e dei comigo a ouvir uma senhora de voz quase inaudível cujo discurso era respondido com estrondosas salvas de palmas, gritos e outras manifestações de júbilo. Trata-se de uma conhecida escritora de espiritualidades, que se encontra no último estádio canceroso - já sem cabelo e muito magra - mas que diz lutar pela vida para dar o exemplo aos doentes oncológicos. Falou do amor ao Rei e contra o dinheiro, falou da esperança e do amor que tudo podem sobrelevar. Terminou, exausta, a entoar uma canção patriótica.

Combustões no coração dos rebeldes: os guerreiros (I)

Um guerreiro malaio do Sul


Dois "soldados da rainha", com os calções azuis, cor da bandeira da soberana


Grupo de choque de Krabi


Um soldado de La na (Norte)

Guerrilheiro de Banguecoque

Lutador do Issan (Nordeste)

Foi uma corrida longa, sob chuva ciclónica, acavalitado numa motorizada até à zona onde se situa o Quartel-General dos rebeldes. À entrada, no perímetro defensivo fora do Palácio do Governo ocupado pelos rebeldes, revista completa dos pés à cabeça. Um "farang" no meio dos trinta ou quarenta seguranças armados de porretes, tacos de baseball e sticks de golfe. Disse-lhes meia dúzia de lugares-comuns, sorriram e deixaram-me passar. No interior da Utopia Tradicionalista do Sião, um enorme acampamento onde se deixa perceber organização eficiente, centenas de guerreiros gozam a paz numa Tailândia ainda aturdida pelos recentes acontecimentos: comem, falam, cantam, sorriem e deixam-se fotografar com a maior placidez. Mas ao seu lado, repousam os capacetes, as matracas, as lanças de bambú e toda a parafernália dos embates de rua. Pelo que me apercebi, não temem para já a intervenção do Exército nem da polícia e quando se lhes fala de Samak (o primeiro-ministro) não se mostram agressivos. Um deles diz-me, até, que Samak está de partida e que tem pena dele. É este o "Exército Budista da Tailândia", uma força de choque que deve ser temível na refrega, mas que não resistiria ao assalto das forças governamentais. Parece que os move uma fé profunda e que estão absolutamente convencidos da justeza das suas acções. Não vi, entre eles, nenhum que bebesse cerveja ou fumasse.

Insuportáveis lições de moral

Tive hoje discussão acalorada com um colega norte-americano, funcionário de uma ONG, que se queixava das privações que aqui experimentava com os míseros dois mil dólares que lha pagavam para "ajudar pessoas". Dois mil dólares, na Tailândia, é uma fortuna. Mas logo acrescentou que o fazia por razões humanitárias. O sonho deste apóstolo é o de converter a Tailândia numa sociedade livre e, até, numa república. Balelas. Os europeus, sempre que tal se proporciona, retiram da cartola os "valores civilizacionais" e tratam de comparar. Detesto comparações pois, se tudo neste mundo é desigual, relativo, contingente - fulano é carteirista e cicrano contrabandista; o contabandista é mais nocivo à sociedade, mas a fortuna que faz permite-lhe que no futuro venha a constituir uma empresa que dará emprego a muitos; logo, tornar-se-á útil à sociedade - por que razão nos agarramos à ilusão de um princípio universal que mais não passa de justificação ?


Aqui, longe da Europa, mas em permanente contacto com ocidentais - sobretudo americanos e australianos, que estimamos das populações mais broncas e limitadas na capacidade de apreender as subtilezas - ouço frequentes lições de moral a respeito dos asiáticos. Se Banguecoque não possuiu um Louvre, se os tailandeses não produzem vinhos que se degustem, se abominam o queijo e o consideram uma matéria rançosa e malcheirosa, se mantêm uma monarquia "como a Europa tinha antes da Revolução", se o "feudalismo, como era na Europa, aqui ainda impregna grande parte dos comportamentos", se acreditam em "espíritos, como no tempo do obscurantismo europeu", se não cumprem os "direitos do homem" como "nós também os não cumpríamos antes da Declaração", se são "preguiçosos e desorganizados" e têm de "evoluir para uma sociedade mais moderna" (...), logo, ainda se encontram num "estádio de desenvolvimento" anterior ao nosso, têm de se aprimorar, seguindo o nosso exemplo.


Eu sinto-me feliz nesta terra, precisamente por não ser europeia nem haver sido jamais uma colónia de qualquer "agente civilizador". Aliás, olhando para a vizinhança - Laos, Camboja e Birmânia - compreendo o orgulho dos tailandeses. Os vizinhos (Laos, Camboja e Birmânia), foram revolvidos em profundidade pelos agentes da "civilização", receberam tecnologia e conhecimento "superior", receberam os códigos, as leis, as constituições, os partidos, as ideologias e filosofias da Europa e o resultado é o que sabemos. Estes "selvagens" tailandeses", que mantêm uma monarquia "à antiga", que se regem por fórmulas "arcaicas" de relacionamento social, que colocam o budismo como princípio ordenador de toda a ética e da política, "merecem" que os conduzamos à luz, aqui espalhemos as alegrias do mercado, as delícias do "bem-estar", o "direito ao protesto", os sindicatos e as lutas reivindicativas, varrendo os miasmas da obediência, do "absolutismo" e dos arcaísmos para o caixote do lixo.


A Tailândia é adorável, precisamente por ser diferente. Em Singapura nada há para se ver, assim como na Malásia dos petrodólares, dos prédios de 70 andares, das paradas de Porches e Rolls Royce e dos magnatas das festarolas que se sentem promovidos por enviarem a criançada para os EUA, para a Austrália ou para a Europa para a aprendizagem da magia das contabilidades, do import-export, das joint-ventures e dos mercados de capitais, dos bull-spread's e quejanda sub-cultura da agiotagem.


No século XIX, muitos patetas europeus que aqui aportavam cheios de boas-novas, repreendiam severamente os "costumes bárbaros", o "servilismo" e a "imobilidade" do Sião, dedicando-se com especial ardor à erradicação da escravatura, da servidão e da poligamia aqui existentes. Contudo, como bem lembrou M. Pallegoix, que aqui foi bispo apostólico, os siameses "tratavam melhor os seus escravos que os europeus os seus empregados domésticos", pois aqui os escravos podiam ter propriedade, podiam constituir família, tinham direito de apelação, não podiam ser molestados fisicamente pelos seus amos", quando na Europa os domésticos eram tratados como gado, submetidos às mais vis afrontas, não possuiam quaisquer diretos sociais e até se lhes negava o direito ao voto.


A escassez demográfica produziu, até, um fenómeno inverso. Os amos tratavam bem os seus escravos e servos, pois estes, caso contrário, fugiam para as imensidões despovoadas do Reino, privando os senhores "feudais" de braços para as corveias e trabalhos exigidos pelo Rei. As crónicas e códices do velho Sião estão cheios de ordens para que os senhores tratem com respeito e bonomia os seus servos e escravos, que os governadores de província averiguem práticas contrárias aos ensinamentos de Buda, que as crianças e mulheres grávidas não sejam obrigados a trabalhos físicos, que se averigue que os doentes e velhos são protegidos.


Cá está a Europa a pregar moral. Diziam de nós, "retornados", que espezinhávamos o preto, que andávamos de chicote na mão, que tínhamos quatro mainatos a lavar-nos os pés, mais dúzia e meia a limpar o pó, mais jardineiro e tombazana para a pernada. Contudo, o meu pai, quando a Portugal foi pela primeira vez, salvo erro em 1944, assistiu a algo que em paragem alguma da "África esclavagista" se poderia ver: em pleno inverno, sob chuva intensa, no porto de Leixões, mulheres grávidas e subnutridas e descalças fazendo a descarga de carvão.
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Os ocidentais que aqui vivem, sobretudo americanos e australianos, pedem "reformas", pedem democratização, abertura e justiça social. São os mesmos que vivem aqui com a atitude colonial e falam da Tailândia como eventualmente falariam os senhores dos clubes para cavalheiros da Albion victoriana do "problema da escravatura" nos Estados Sulistas, pedindo, escrevendo e intrigando, mas esquecendo-se que menos de 100 metros do clube londrino haveria, certamente, um rancho de crianças ranhosas, subnutridas e descalças trabalhando 18 horas por dia para um dos seus ilustres consócios predicadores da moral da justificação.

04 setembro 2008

Barricadas de Banguecoque










Banguecoque, Agosto-Setembro de 2008. As imagens da "Veneza do Oriente" a ferro e fogo.

As figuras da "revolução siamesa": o homem com o coração dividido


Samak Sundaravej, o actual primeiro-ministro da Tailândia daria uma boa personagem literária, pois a complexidade que evidencia parece, de todo, artificial. É corpulento e alto, sanguíneo e sorridente, com irresistível queda para afirmações brutais e truculentas, que depressa se transfiguram em instantâneos de simpatia e quase comovente ingenuidade para um experimentado homem que vive da política desde os anos 60.


Recebeu formação no Colégio de Assunção, baluarte do ensino católico na Tailândia, parece ser medianamente instruído e dotado de um inato sentido da sedução. Apostou, sempre, nesta capacidade para falar com o povo comum, sentar-se à mesa e comer em público, entrar cozinha-adentro dos restaurantes para fazer de chefe. Aliás, a gastronomia parece ser a sua grande paixão, pois escreveu livros de culinária, teve um programa à Chefe Silva na TV e diz fazer política como um cozinheiro. Foi governador de Banguecoque e tornou-se notório que fala mais que trabalha. Os tailandeses - juntamente com os filipinos, são um povo dado às alegrias da vida - pelo que se deixaram seduzir pelo brutamontes simpático, esquecendo-se ou perdoando-lhe um passado estranho que se cruza com a brutal repressão que conduziu em 1976, e logo depois em 1992, contra opositores dos regimes militares que serviu com lealdade.


Políticamente seria, no quadro europeu, um homem da extrema-direita populista, com "discurso de taxista" e uma quase ausência de propostas. Fala, fala, pouco diz, matéria em que, aliás, não perde nem ganha quando confrontado com muitos dos nossos políticos profissionais. Hoje, a professora de tailandês dizia que "Khun Samak chóóp phuut ba-ba bo-bo, téé pen khon díí" (o Senhor Samak gosta de falar para nada, mas é um bom homem). Nos últimos anos, porém, cruzou-se com o homem mais amado e odiado da vida política tailandesa: Thaksin Shinawatra, hoje homiziado no Reino Unido por crimes cometidos no desempenho das funções de primeiro-ministro. Thaksin precisava de um homem que agarrasse a máquina do seu proscrito Thai Rak Thai - partido que fundou - e escolheu, tudo o indica, o nosso Samak. Samak criou um partido ex-nihilo, crismou-o de PPP e ganhou as últimas eleições gerais entre repetidas acusações de compra de votos. Hoje, debate-se pela sobrevivência. Ao longo dos sete meses de governo acumulou disparates, evasivas, frases anedóticas e, até, desastres tremendos, como aquele que permitiu a saída de Thaksin do país - fiando-se que aquele se dirigia a Pequim para assistir aos Jogos Olímpicos - facto que desencadeou a grande vaga a que estamos a assistir.


Samak é, tudo o indica, um homem que ama o Rei - aqui não se diz "gostar do Rei", mas "amar o Rei - e sempre se pautou por imaculada lealdade pela monarquia. Contudo, o dinheiro de Thaksin dividiu-lhe o coração. O amor ao Rei e a tentação de Mamona fizeram dele o líder indeciso e quase trágico que se vai arrastando penosamente. As suas qualidades estão-se a evidenciar neste momento crítico. Teimoso como um bulldozer, fica, faz finca-pé da legitimidade que lhe assiste e só saíra empurrado. É capaz, num último assomo de coragem - que ninguém contradiz - de trazer para a capital os milhões de camponeses que nele votaram e trucidar a eito os rebeldes. Não creio que tal seja possível, pois aqui o Exército é uma força temível, não está dividido e é de absoluta fidelidade ao Chefe de Estado. Como aqui disse, aqui não haverá 14 de Julho algum. Acrescento: aqui não haverá um Irão-2. Os próximos dias revelarão o destino de Samak.

O braço de ferro das teimosias e uma ideia que não lembra ao diabo


A situação é estacionária. Não há lutas, tiros nem enfrentamento violento, os tailandeses e os estrangeiros fazem uma vida normalíssima e a política fá-la quem a ela está ligado. Conhecendo minimamente a psicologia desta gente, dir-se-ia um braço de ferro de teimosos para saber quem cederá primeiro. Os asiáticos são assim: muito obstinados, não recuam um passo e insistem, insistem e voltam a insistir até que os seus pontos de vista triunfem. Chamlong não é homem de vacilações; Samak também o não é. Vamos ver de que lado rebenta a corda. Porém, um facto salta à vista de qualquer observador: quanto mais tempo passar, maior mobilização conseguem os rebeldes, que entretanto já começaram a receber apoios expressivos das universidades, dos sindicatos, das províncias e, até, da forte minoria muçulmana do sul. Vinha para casa e notei quanto aumentou desde ontem o número de transeuntes envergando as camisolas amarelas e como decresceu em proporção o número de camisas negras.

O governo aqui anuncia o recurso ao referendo para resolver uma questão que passou há muito para as ruas. É evidente que tal ideia - perfeitamente justificável e democrática em tempo de normalidade - não terá vencimento, pois os opositores, pura e simplesmente, apelarão ao boicote ou à abstenção. Samak está a oferecer luta e a invocar a legitimidade eleitoral que o colocou na chefia do governo. Em todo este longo processo, tem-se portado com moderação, talvez a moderação de quem tem pouco ou nenhum poder para recorrer aos meios violentos de que se serviu noutros tempos quando, também ministro, mandou carregar e disparar sobre milhares de pessoas.

Rataban ók páy léo = o governo já caiu


No termo de um discurso interminável, o primeiro-ministro Samak Sundaravej - fiel a Thaksin - acaba de anunciar uma quase rendição às condições dos rebeldes. Estes exigiam o Rataban ók páy, que em thai quer dizer "governo para a rua". O PAD venceu, pois o Rataban ók páy léo = o governo já caiu, de facto. Aliás, já não há governo; só um primeiro-ministro isolado agarrado ao lugar, esgrimindo infantis ameaças e afirmando que as Forças Armadas irão intervir a qualquer momento. Não cremos em tal cenário, pois o porta-voz do Exército afirmou anteontem que os militares não se iriam intrometer num conflito político.
Há milhares de simpatizantes dos rebeldes espalhando-se um pouco por toda a capital. A monarquia está prestes a ganhar a batalha contra a plutocracia.

03 setembro 2008

Não há democracia sem partidos, mas (...)

O culto dos heróis guerreiros fascina os thais

O "Exército Budista da Tailândia" (PAD), em exibição de força em Banguecoque


A actual crise política na Tailândia - política, ideológica e social, como muito bem sugere o confrade Arcádia - permite ressuscitar a discussão dos limites e defeitos da democracia partidista, tema que no Ocidente é, por ora, de impossível abordagem. Não há dúvida que a democracia é o sistema que melhor permite dar voz aos cidadãos, aquele que melhor aceita o debate e maiores garantias de rotação pacífica permite. Neste particular, a democracia é um dado incontornável do nosso tempo, pelo que regime algum ferido de nulidade anti-democrática se pode enquadrar no quadro civilizacional hodierno. Contudo, as críticas realistas à democracia devem ser escutadas, ponderadas e discutidas, pois também as democracias padecem de graves defeitos por todos assinalados: compadrio, amadorismo e demagogia, promoção da mediocridade, submissão a lóbis, manipulação, irresponsabilidade, ausência do sentido do tempo longo, rendição ao miserabilismo da propaganda, desprezo pelo passado e absoluta falta de interesse pelo futuro.


Ninguém pode falar em nome do "interesse nacional" e em nome dos cidadãos se não se submeter ao voto. Um partido com 1% não pode ser depositário do interesse colectivo antes de se legitimar com a votação expressiva que lhe permita, em sede do poder legislativo, representar as ideias e valores por que se bate. Compreendendo as razões aqui invocadas pelo PAD, em rebelião e resistência passiva contra o governo, nele não mais vejo que a caixa de ressonância das dúvidas - pertinentes - que muitos colocam à adopção da democracia, sabendo-se que aqui (e porque não, também em Portugal ?), o voto poucas vezes resulta de uma escolha esclarecida, mas da pressão dos compradores de votos, dos caciques locais, dos grupos semi-secretos e da tremenda capacidade do dinheiro. Acabada esta crise, com a vitória, estou certo, do PAD, este terá de se enquadrar na vida democrática, converter o seu protesto em votos e saber quantos tailandeses o querem como governo ou como oposição.


Contudo, gostaria de lembrar que países que estimamos pela sua tradição democrática, possuem tantos defeitos na limitação do direito de representação que ousaria chamar-lhes sistemas democráticos manipulados. Veja-se a França, onde o sistema se escuda nas duas voltas para impedir dar representação a partidos com 10, 13 ou 15% do eleitorado; veja-se a Grã-Bretanha, onde o sistema dos círculos uninominais, não fosse a liberdade de associação e opinião que bafeja os súbditos de SM, muito se parece com o velho liberalismo fulanizado. Partidos há, no Reino Unido, que atingem 20% do universo eleitoral e não têm assento nos Comuns. Cite-se, ainda, o caso alemão, em que só é dada representação a formações com mais de 5% do eleitorado. Imaginando que na Alemanha existiam 12 partidos com 4,5% do eleitorado cada, o resultado final só daria representação parlamentar a menos de metade do eleitorado, ou seja, aos partidos remanescentes com mais de 5%. De lembrar, ainda, um elemento não despiciendo, próximo na memória e emblemático para assinalar a apropriação da legitimidade dos votos. Lembro que a democracia italiana foi, durante décadas, apossada por verdadeiros criminosos ( Craxi-Andreotti-Forlani) que conseguiram usar o poder para inconfessáveis fins mafiosos.


Outra barbaridade por aí à solta invoca a ilegitimidade de regimes constitucionais saídos de golpes de força, civis ou militares. Com excepção da Espanha, Portugal teria hoje um regime ilegítimo e a V República em França seria o resultado de um golpe de Estado, pois de Gaulle tomou o poder pela força em 1958, abolindo a IV República por decreto e impondo a fórmula presidencialista/caudilhista/plebiscitária. As Constituições vivem num tempo. Quando perdem vitalidade, há que rasgá-las.


Muitos, ainda, dizem que a democracia não deve ter limitações. Errado, pois, por definição, a democracia não é apenas o reflexo do exercício do poder pela maioria organizada em partidos, mas uma defesa contra a apropriação do poder por grupos que o querem utilizar em proveito das respectivas clientelas. É, também, a defesa das minorias e da sociedade contra o gangsterismo. Ficou provado, aqui na Tailândia, que tal ideia de democracia só favorece a falta de escrúpulos, as agendas secretas e o poder do dinheiro que de tudo quer fazer tabula rasa. O ex-primeiro-ministro usou o poder que lhe fora dado por escolha eleitoral para fazer negócios, enriquecer amigos, familiares e comprar fidelidades. É, hoje, um homem com mandado judicial de captura por crimes contra o bem-comum, ao contrário dos dirigentes do PAD que são procurados pela justiça por crime de desobediência civil.


É por isso que defendo um regime híbrido, monárquico-democrático, que garanta a permanência, que situe o chefe de Estado como árbitro não comprometido na geringonça dos politiqueiros e que saiba escutar o interesse nacional. Defendo há mais de vinte anos um regime de representação mista: o parlamento para os amadores, para o improviso, para o fulanismo e uma Câmara Alta para os especialistas, para as estruturas, para aquilo que não muda e é co-existente à ideia de sociedade politicamente organizada. Tudo indica que essa fórmula sairá vencedora no actual conflito tailandês.


Suriyothai

02 setembro 2008

Libertemo-nos da tirania do silêncio


"Sinceramente revolta-me quando vejo todos aqueles programas sobre os soldados que morreram e sobre os combates e as minas, mas nunca ninguém se lembra de falar dos retornados. É como se fosse um segredo feio que ninguém tem interesse em falar. Esquecem-se daquelas pessoas que vieram para cá, muitas só com a roupa que tinham no corpo, para um país que não conheciam e com o qual não se identificavam minimamente, fechado e tacanho que ainda teve a lata de os discriminar". (in Câmara dos Lordes)
"Aquela gente de que o taxista era um pobre exemplo, continua a mandar, desta vez enfarpelada de colarinho branco. Continua a conduzir um Mercedes de empresa, gere a banca, tem o seu círculo de influências na Europa, nos media e nos negócios do Estado. Recauchutados em neo-liberais, há muito se esqueceram daqueles emblemas de lata cunhados com a foice e o martelo, ainda escondidos numa caixa de sapatos encafifada no fundo de um baú da família. Para o que der e vier." (in Estado Sentido)

31 agosto 2008

Eles que não tentem !


No elevador para o meu 24º andar, uma quase viagem. Como companheiros, um distinto coronel reformado do Exército - que sempre me dirige um sorriso desarmante - e uma miúda da universidade. O Coronel pergunta ? Está de camisa amarela ? Sim, respondo, em honra de Nay Luang (Rei). Ele vira-se para a miúda e diz: "sim, Nay Luang, o nosso senhor. "Eles" que não tentem tirar-nos o nosso Rei porque todo o povo oferecerá as vidas pela defesa do trono". Fiquei descansado. "Eles" não passarão, nem com todo o dinheiro do mundo a atiçar-lhes a inveja do tubaronismo plutocrático. Aqui não haverá nenhum 14 de Julho. Aqui manda o povo e não o market e as opportunities for investment.

พ่อแห่งแผ่นดิน (Canção patriótica tailandesa)


Idem (versão para orquestra e coro)