30 agosto 2008

Aniversário diferente






Aniversário longe de Portugal, sem a família mas com bons amigos que aqui se lembraram de me oferecer um excelente jantar no restaurante Pathé - uma casa despretenciosa mas cheia de personalidade - mais o bolo de aniversário tailandês. São tantos os anos que, agora, deixo de os contar. Uma noite feliz na companhia do Nuno e amigos, num país que se aproxima a passos largos para o desfecho de uma grave crise política. Depois, a caminho do táxi, passei em frente do alfaiate do Rei. A casaca vermelha dos grandes dias de festa lembrou-me que haverá paz enquanto no comando estiver o homem cujo título é Phrabat Somdet Phra Poraminthara Maha Bhumibol Adulyadej, que em pali quer dizer O Maior dos Senhores Cujos Pés Repousam Sobre a Cabeça dos Seus Súbditos (....). Sem dúvida, o jugo suave, amado e respeitado como o de um patriarca.

29 agosto 2008

As figuras da "revolução siamesa": o monge da floresta


No movimento político que pretende a queda do governo tailandês pontifica o major-general Chamlong Srimuang, ex-jovem turco que nos anos 70 liderou a luta política e a acção directa anti-esquerdista e esteve envolvido no golpe militar de 1976, que pôs termo ao governo eleito de Seni Pramoj. De origem social modestíssima, veterano da guerra do Vietname e Laos, homem profundamente religioso, ascético, vegetariano, abstémio e com voto de castidade, foi líder do Partido Força Moral e é aderente da seita budista Santi Asoke, cujos postulados doutrinários se fundam na mais depurada e rígida interpretação dos ensinamentos do Buda e na exigência do reforço da ética do despojamento. O general só consome uma refeição por dia - frutos, vegetais e leite - dorme em esteira e faz meditação em severos retiros espirituais.


As intervenções públicas do fogoso orador centram-se no combate à corrupção, na defesa da vida (o general opôs-se à legalização do aborto), na denúncia do capitalismo e no reforço da monarquia tradicional. Se é possível qualquer analogia com as correntes políticas europeias, situá-lo-ia na "direita tradicionalista e monárquica": contra o jogo democrático dos partidos (que encara como clubes), adepto da auto-suficiência e entusiasta do agrarismo face à globalização, defende a permanência do Budismo como Religião do Estado. É um "anti-moderno", uma voz antiga mas sempre procurada no debate entre a "via da floresta" (dos templos rigoristas) e a "via da cidade" (do budismo sofisticado e cosmopolita). Estes homens são reverenciados e apontados à juventude traumatizada pelo impacto da sociedade competitiva, produtivista e consumista como exemplos de liderança e incorruptibilidade. O que torna simpática esta "direita monárquica e tradicionalista" é a total ausência do moraleirismo pacóvio em que se atola a congénere europeia. Deve-se esta característica ao budismo, que não impõe mas sugere, que não pune nem perdoa, situando a religiosidade num plano absolutamente voluntário de aperfeiçoamento individual. É aqui que reside a força do budismo.

Nas fileiras de Chamlong não se instalou, porém, qualquer vírus xenófobo, pois o general faz parte da minoria chinesa. Estimamos, porém, quaisquer que sejam os méritos e a probidade do velho militar - de uma honestidade por todos reconhecida - que as suas possibilidades de vitória são pouco menores que o impossível. A Tailândia é um país moderno e aberto, profundamente integrado na economia mundial e aliado dos EUA, com uma classe média urbana muito ocidentalizada e indisponível para tais retrocessos.


Contudo, é entre as classes alta e média dos colarinhos brancos, bem como entre a aristocracia, que Chamlong encontra maior eco. A Tailândia não conseguiu recobrar o ânimo desde o colapso de 1998 e olha para o capitalismo internacional como uma ameaça à sua identidade e liberdade. É deste medo pela invasão e despersonalização que Chamlong retira a aura de homem do destino, mito popular profundamente ancorado num certo messianismo budista que pede as maiores provações na luta pelo triunfo final do bem. As figuras heróicas da Tailândia foram sempre militares: Naresuan, o Príncipe Negro, que expulsou os birmaneses em finais do século XVI; o general Taksin (não confundir com Thaksin, ex-primeiro-ministro odiado por Chamlong), que restaurou a independência do reino após a tomada e saque da antiga capital, em 1767, às mãos dos birmaneses; o general Chakri, fundador da actual dinastia.
Os próximos dias mostrarão quão dura é a fibra do velho tigre, pois aguarda-se a qualquer momento a luta derradeira nas barricadas de Banguecoque. Confesso que gosto deste homem senhor de grande carisma. Lê-se-lhe a sinceridade no rosto marcado, a amabilidade e simplicidade que vincam a máscara dos homens com "uma missão". Temo, porém, que desaparecerá em breve. Este morrerá certamente pelas suas convicções e, com ele, morrerá parte da tradição siamesa.

Militia redux

O previsível está a acontecer. Hoje, pela manhã, a polícia começou a "limpeza" pedida pelo primeiro-ministro, mas não conseguiu tomar o reduto dos contestatários, que neste momento se concentram nos jardins do Palácio do Governo, ocupado desde anteontem. Houve gás lacrimogéneo, cabeças rachadas, barreiras destruídas, pedras pelo ar, gritos e fugas. Auto-estradas e linhas de caminho de ferro cortadas, aeroportos fechados, greves e desafios à ordem estão a espalhar-se pelo país. O Exército está reunido com o governo, diz-se para evitar novo golpe militar. Os insurgentes estão a tentar impedir o acesso à capital das milicias pró-governo o que, a acontecer , iria desencadear uma onda de violência que poderia culminar com um banho de sangue. Espera-se que o Rei, o único homem respeitado por todos, tome uma posição no decurso dos próximos dias.
Os tailandeses envergam camisas negras em tempo de guerra, pois o sangue derramado não deve ser visível. Abro o canal rebelde e destacam-se, entre os 10.000 resistentes, muitos jovens envergando camisas negras e bandas coloridas a cingir a fronte, bastões e sticks de golpe - lembrando a origem social dos contestatários - fotos do rei e das armas nacionais apostas nas camisas. Para assistirem em directo as emissões da tv rebelde, basta clicar aqui. Para uma informação imparcial (Thai Tv International), clicar aqui ou aqui

Contudo, hoje andei pela cidade, fui às aulas de tailandês, fui à biblioteca, passei pelos centros comerciais e Banguecoque está, como sempre, frenética de vida, cheia de turistas e business. Dir-se-ia que nada está acontecer. Como Luís Capeto em 14 de Julho de 1789, apetecia-me escrever, hoje, 29 de Agosto de 2008: "nada a assinalar".

28 agosto 2008

Os "Tigres bebés": o país onde os Escuteiros são um quase-partido

Uma farda é sempre uma farda, sobretudo no Sião, onde só tem farda quem tem poder. Quem a não tem, não tem poder. Logo, o povo humilde exigiu fardas. Há fardas para todas as situações e condições. Até a junventude, no Ocidente tão rebelde e individualista, aqui se uniformiza desde a pré-primária à Universidade, e quando não tem de ir fardada para a escola vai fardada para os escuteiros. Os escuteiros -(ou "luuk sê-á" = "tigres bebés") estão em todo o lado e dominam grande parte das actividades extra-escolares dos rapazes e raparigas deste país, ensinando-lhes música e facultando-lhes cursos de artes plásticas, prática de desportos, viagens e acampamentos, montanhismo e mergulho, explicações e até cursos de formação profissional. São eles que animam as grandes campanhas de preservação da fauna e flora ameaçadas pelo imparável processo de industrialização de um país que entre 1960 e 2000 viu multiplicada por 25 a sua capacidade produtiva.

Houve até um tempo em que no Sião de Vajiravudh (ou Rama VI r. 1911-1925), o movimento escutista se constituiu em verdadeiro partido político oficial de apoio às políticas nacionalistas do Rei. Rama VI, homem de inquestionável valor intelectual, promotor do ensino superior, criador das principais instituições de salvaguarda patrimonial do Sião, fundador da Biblioteca Nacional e dos Arquivos, amante do teatro e da música, era considerado um homem excêntrico. Tivera uma juventude problemática, tão bem retratada pelos seus biógrafos Walther Vella e Stephen Green. Enviado para estudar na Europa, aí permaneceu por dez longos anos, lendo freneticamente os autores nacionalistas e convivendo com temas caros da cultura e ideologia imperial britânica. Ao voltar, trouxe as ideias europeias de "missão civilizacional e nacional" e de inculcação da fidelidade ao Estado. Opinam alguns que Rama VI conseguiu a estranha síntese de Baden Powell, Kipling e Mussolini, colocando o nacionalismo nascente sob a tutela real.

Contudo, ao suceder ao pai (Rama V), verificou que a resistência do aparelho às suas ideias reformistas era demasiado forte para um homem tímido que preferia os jogos de guerra no tabuleiro do seu gabinete ao confronto com a realidade de um país atrasado. Refugiou-se num grande parque - hoje Parque Lumpini, o pulmão verde da capital - aí imaginando uma sociedade perfeita. Nesta Utopia - com moeda própria, correios, tribunais, jornais e até comboio - os sócios moradores, membros da aristocracia e jovens criteriosamente seleccionados pelo mérito que lhes possibilitava bolsas régias - davam largas à imaginação, lendo e discutindo os principais tratadistas e filósofos da tradição ocidental, redigindo e representando peças de teatro, organizando tertúlias onde se discutiam livremente temas da literatura, das ciências naturais, da religião e da economia sem qualquer inibição, pois até o monarca exigia que o tratassem como simples con-sócio. Há quem ridicularize o Rei que a tal se prestou - a família praticamente com ele deixou de falar, vendo-se preterida nas escolhas ministeriais pelos favoritos do Rei - mas esse movimento foi responsável pela criação de uma classe governante fora da esfera da parentela real, abrindo as portas à constituição de uma sociedade civil embrionária que anos volvidos reclamaria responsabilidades de governação.

Neste movimento de responsabilização dos siameses, nesta rotação da soberania real para a soberania nacional, os escuteiros tiveram parte de leão. Dizia-se que lhes cabia coleccionar notícias, transformá-las em informação, ouvir e transmitir rumores e intrigas, impedir o surgimento de forças contrárias ao trono e, até, defender de armas na mão atentados à integridade do país. Nas vésperas da Segunda Guerra Mundial, o movimento era tão forte que lhe estavam reservadas atribuições nos planos de emergência do Estado, destinando-se-lhes a guarda de pontes, estações de caminhos de ferro, rádios e jornais, hospitais e outros edifícios do governo. Com a Guerra Fria e a ameaça comunista, os escuteiros mantiveram a influência, atribuindo-se-lhes tarefas de acção psico-social nas regiões perturbadas pela guerrilha comunista. Hoje, no canal pirata de televisão dos contestatários, surgiram pela primeira vez os escuteiros. A multidão exultou, pois, aqui, os escuteiros são milhões.


Na sequência dos últimos textos aqui depositados, fui confrontado com uma série de pedidos de informação bibliográfica sobre a Tailândia. Para os interessados, aqui deixo dois títulos acessíveis no mercado livreiro virtual. Dois agradecimentos especiais, um ao Doutor BSF, do Ministério dos Negócios Estrangeiros do Brasil, que me deu conta da utilidade que o texto As revoluções à siamesa teve na confecção de informação para o seu director-geral, outro ao Professor Jewkins, que da Austrália enviou acertados comentários.
O primeiro livro sugerido cruza a história das ideias com a ordem dos acontecimentos, sendo o segundo, chancelado pela prestigiada editora de Cambridge, um meticuloso trabalho sobre os acidentes da vida tailandesa, dos umbrais da modernidade aos tempos actuais.

27 agosto 2008

As revoluções à siamesa

Rama V e família

Avisado pela história dos últimos 300 anos, dou comigo a introduzir uma nuance à prospectiva ontem aqui sugerida. A ideia ocidental de revolução - ou antes, o mito da revolução - não se aplica ao Sião/Tailândia, pois todas as súbitas rupturas aqui verificadas desde 1688 (a famosa "Revolução do Sião", delicioso exercício de descupabilização francesa pelo clamoroso fracasso da intervenção de Luís XIV) não mais foram que acções dirigidas pela elite social, política [e religiosa] contra um poder central enfraquecido ou descredibilizado. A paz interna duradoura foi, aliás, já no período Rattanakosin (período de Banguecoque, de 1782 à presente data) a garantia para a sobrevivência e independência do país. O Sião, como sabem, conseguiu manter-se independente e constituir-se em "Estado Tampão" entre a Indochina Francesa e o Raj britânico na Índia-Birmânia-Malaya mercê da paz interna que sucessivos monarcas, de Rama III a Rama V, conseguiram impor a um vasto território que cobria uma superfície duas vezes equivalente à da França actual, antes da aplicação da política de canhoneira franco-britânica que o obrigou a abrir mão dos actuais Laos e Camboja, bem como do norte da actual Malásia.

Todas as conturbações políticas que sacudiram a vida siamesa ao longo do séculos XIX e XX limitaram-se à confrontação localizada, intra-muros, entre uma velha elite em queda e uma nova elite ascendente. O papel das massas foi, sempre, marginal e decorativo. Assim, vejamos:

- A conflitualidade política ao longo dos primeiros reinados da actual dinastica Chakri centrou-se na disputa entre o Rei e o "Segundo-Rei"(Uparaja), instituição desconhecida no Ocidente, cujas atribuições alguns historiadores americanos - visivelmente em busca de paralelo didáctico - consideram disparatadamente como equivalente ao "Vice-Presidente dos EUA". O "Segundo-Rei" existia, também, nos principados Laos, no Estado vassalo do Camboja, na Birmânia e no Butão, ou seja, nas monarquias indianizadas do budismo Theravada. O Uparaja possuia exército próprio, corte e funcionários, designava sucessor e não lhe era exigida a protocolar genuflexão ante o seu co-Rei. Enfraquecia-o, porém, o facto de não possuir a faculdade de recolher impostos, nomear governadores e comandantes militares, pelo que a manutenção do seu estatuto exigia consecutivos pedidos à prodigalidade do monarca principal. Rama I teve como co-rei um dos seus irmãos, muito querido pela população pelos dotes de estratega que tornaram possível ao Sião exconjurar sucessivas invasões birmanesas entre 1785 e 1802. Ao abeirar-se da morte, o Uparaja de Rama I terá tentado, segundo Klaus Wenk (The restoration of Thailand under Rama I, 1782-1809), promover uma revolta palaciana contra Rama I (1803). A conspiração foi descoberta e os filhos do "Segundo-Rei" executados. Para evitar manter o poder da linhagem do seu irmão, Rama I indicou como Segundo-Rei o seu filho mais velho, Poramen, que, por morte do pai, cingiu a coroa como Rama II. A tensão entre os "dois palácios" - o palácio do "Primeiro-Rei e do Segundo-Rei" manteve-se. No reinado de Rama V (Chulalongkorn), novo conflito eclodiu. O Uparaja de Rama V, Boworn Vichaicharn, terá pretendido exigir do rei maiores atribuições governativas. Em resultado desta tensão, Rama V decidiu-se pela extinção do título de Uparaja, determinando a monocefalia da monarquia e impondo, também, a prática europeia da sucessão dinástica pela designação do Príncipe Herdeiro na figura do primogénito.


Marechal Sarit, o "general Monk" da Tailândia

- Em 1911, poucos meses após a morte de Chulalongkorn (Rama V), foi descoberta uma conspiração visando a extinção da monarquia absoluta. Os cabecilhas da intentona eram os membros da nascente burocracia civil e das forças armadas, dois pilares da ordem criada pelo reformismo europeizante de Rama V, que ao longo de quarenta anos fora evacuando lentamente a velha monarquia patrimonial, substituindo-os pelo modelo do Estado moderno europeu. Se a tentativa fracassou, deixou frutos, pois em 1932, as forças armadas capitanearam a "Revolução de 32", que os tailandeses celebram como "Revolução Democrática e Constitucional" que colocou o monarca em exercício (Rama VII) sob o império das leis. A monarquia nascida em 1932 concluiu a transição da mono-arquia para a monarquia constitucional. Porém, a "revolução democrática de 32" só o foi no nome, pois os novos governantes depressa iniciaram espiral de supressão das liberdades proclamadas, obrigando o rei Rama VII a exilar-se no Reino Unido. Na vacatura do cargo, os todo-poderosos membros da alta burocracia e das Forças Armadas nomearam sucessivos regentes (Príncipe Narisara Nuvadtivongs, Oscar Anuvatana, Príncipe Aditya Dibabha Abhakara, Pridi Phanomyong e Príncipe Rangsit). De assinalar que a imposição da república jamais terá sido tentada, tamanho é o respeito tributado pelos tailandeses à figura do Rei, o qual incorpora, para além das funções de Chefe de Estado, uma dimensão de guia espiritual que se confunde com a sobrevivência do Estado. O hino real tailandês, cuja letra é inteiramente escrita em Pali, começa com um significativo "Kha pa poo ta jaô", o que quer dizer "o meu nome é como o de Deus". O Rei da Tailândia é, ainda hoje, considerado o "Senhor da Vida"/ Chao Chivit.
Foi durante o interregno 1935-1946 que o país assistiu à maior e sistemática campanha de uniformização totalitária, escalada liberticida, nacionalização das minorias étnicas e perseguição às religiões minoritárias. Só em meados da década de 1950, com o golpe de Estado de Sarit Dhanarajata, foram restituídos ao Rei substanciais poderes constitucionais. A importância do actual Rei assenta, assim, na habilidosa capacidade de submeter os "partidos" militar e burocrático e evitar a eclosão de conflitos sociais que se situem fora da quadrícula de fidelidades disposta pelo monarca. Se há figura unanimemente respeitada, essa é a do Rei, pois as 17 constuições que o país teve desde 1932 mostraram-se incapazes de assegurar o governo civil e representativo. Os partidos, aqui, são como os velhos clubes liberais do século XIX europeu: não possuem ideologia e são mero ajuntamento de amigos e comparsas, pelo que falar em democracia é, no mínimo, abusivo. A única ideologia é a do Rei. A única instituição acima dos interesses fulanizados e dos grupos aspirando ou poder é a Coroa.
O actual monarca, Rama IX

O Nuno Caldeira tem seguido com detalhe a evolução dos acontecimentos. O José Martins bem me aconselha não "meter o bedelho" em assuntos estrangeiros. Não o farei, pois aqui estou para estudar o passado e não o presente. A política, tanto a portuguesa como a tailandesa, só me interessam como acidente. O que me interessa é a história das relações entre Portugal e a Tailândia, pelo que qualquer foto tirada no "braseiro", a acontecer, será absolutamente acidental.

A minha previsão
Tendo presentes os acontecimentos de 1973 e 1992, que se saldaram por banhos de sangue, estou quase inclinado para prever o desfecho da actual crise. O partido no poder vai tentar uma versão soft, encontrando um novo primeiro-ministro, mas tal governo não passará de Dezembro. A pressão da rua levará à desagregação do governo e abrirá portas ao retorno dos Democráticos ao poder. Da saída dos principais protagonistas um ministério da confiança do Rei será formado e marcar-se-ão novas eleições legislativas, precedidas de rigoroso inquérito à proveniência dos fundos do PPP, partido no governo suspeito de ser irrigado com os dinheiros de Taksin. Terá chegado, talvez, o momento de Abhisit Vejjajiva .

26 agosto 2008

Rádio e três ministérios ocupados: é a revolução ?

Há milhares de pessoas nas ruas, todas de camisola amarela - simbolizando fidelidade ao Rei - e bandeiras nacionais. Uma verdadeira Fronda da classe média urbana contra o governo. Parece que as coisas se poderão precipitar, dado o chefe do governo ter dado ordens à polícia para "limpar as ruas". Para informação mais precisa e actualizada, passar pelo blogue do Nuno Caldeira da Silva. Se houver tiros, prometo que Combustões irá para a braseira tirar fotos.

25 agosto 2008

Ao contrário das Cassandras

Não houve matança, nem bombas, nem manifestações, nem prisões em massa. Correu tudo bem; ou antes, correu tudo mal para quem pensava que os Jogos de Pequim abririam a porta à mais tremenda das convulsões. Quando o ocidental pensa no Oriente, disparam-se o reflexo condicionado de milhares de lugares-comuns, de anedotas e outros tropismos, prova que o Ocidente, para além da barganha que entusiasma os patetas do business, nada sabe desse mundo. É coisa velha que se prolonga e pode, concerteza, guardar-nos surpresas para o futuro. Afinal, a China é um Estado que compreende a etiqueta, as convenções internacionais e assegura - coisa em rápida desaparição entre nós - segurança a quem se passeie pelas ruas. Eles estão a enriquecer, não querem problemas e, por isso, tudo farão para se manterem no jogo do poder global evitando inimigos desnecessários e protagonismo excessivo. Para quem conheça um pouco a alma chinesa fica com a certeza que a China, por ora, não quererá ocupar o lugar deixado vazio pelo império soviético. O chinês é tímido e discreto, não transborda auto-confiança e evita o conflito. Sendo um quinto da humanidade, quererá - elementar justiça - que a sua voz seja ouvida. Elementar, não ?