23 agosto 2008

Para a minha orientalia: novas aquisições














Ir às livrarias Kinokuniya ou Orchid é como entrar em gruta carregada de tentações. Por lá passo duas ou três vezes por semana e regresso sempre com uma ou duas obras. Os estudos sobre o Sudeste-asiático ganharam um ritmo e diversidade tais que não há tese cujo conteúdo não solicite novas abordagens ou de precisão ou de contextualização, tamanho é o manancial de arquivos e tantos os investigadores em campo. É um prazer... e uma dor de cabeça para a contabilidade.

Somjit Jongjohor: o ouro pelo Rei


Segui o combate com o entusiasmo com que exulto com as vitórias portugueas. Foi com emoção que vi subir ao pódio para recolher o ouro este homem simples, filho de camponeses, gente pobre e muito sacrificada, que guardou para os 33 anos o troféu maior reclamado por qualquer lutador. No fim, levantando bem alto a fotografia do Chefe de Estado, dedicou a medalha de ouro - a segunda conseguida pela Tailândia - ao seu Rei. Coisas destas já não acontecem. É bonito, é emocionante e uma boa lição. Decididamente, a Tailândia já faz parte do meu coração. Ao ouvir o hino - os hinos dizem aquilo que as pátrias julgam que são - atentei nas últimas quatro estrofes:
(...)
thai nee rak sa-ngobdtae thueng rob mai khlard
aek-ga rart ja mai hai krai khom khee
sa-la luead took yard ben chart plee
tha-loeng bra thet chart thai ta-wee mee chaicha-yo

Os thais amam a paz, mas não temem a guerra,
Nunca permitirão que outros lhes roubem a liberdade,
e sacrificarão a última gota de sangue pela Nação,
dando ao seu país o orgulho da vitória, Viva !


Tailândia

Remorso (para a Maggie)


Eu sabia que não devia ter pactuado com tal monstruosidade, mas fi-lo. Comi a barbatana do tubarão e arrependo-me. Aliás, soube-me mal, como quem vai à pedicure e pede que lhe guardem as raspas de pele num saco plástico para depois as converter em sopa caseira. Sabe a isso. Aquilo são cartilagens, não tem sabor nem valor nutricional algum. É tão detestável como comer a lampreia, que é indigesta e até pode matar, tão absurdo como comer os passarinhos fritos, as patas de rã, as caracoletas em desaparição acelerada, o bacalhau que dentro de 30 anos já não existirá. Estamos, ainda, muito marcados pela ideia [bíblica] da inexauribilidade da vida "à nossa disposição", vida para cevar e destruir. Parece que se nos fecha o coração e fica de fora a ideia de crime e assassínio quando se trata de "vida animal". Já fiz, a seu tempo, o corte radical com soezes divertimentos - ditos "culturais" - com animais: odeio o vergonhoso espectáculo das touradas, odeio caças, caçadores e quejandas loucuras cinegéticas, mais o conforto compensatório que proporciona aos bípedes implumes, refastelados numa tocaia, garrafa de vinho na mão esquerda e bacamarte na direita, alvejando corajosamente - a 100, 200, 300 metros - tudo o que corra, rasteje e voe. A Maggie zangou-se comigo, e com razão. Não mais comerei aquela porcaria.

22 agosto 2008

O judeu que criou o Islão


Há autores cuja leitura devíamos evitar e perante os quais reagimos como o interrogador de Galileu, muito certo da sua ciência aristotélica: "recuso-me olhar pelo telescópio, pois provoca-me dores de cabeça". Pela mão de um amigo francês chegou-me às mãos o primeiro tomo da controversa tese L'Islam, ses véritables origines: un prédicateur à la Mecque, da autoria do Padre Joseph Bertuel, discípulo de Hanna Zakarias, pseudónimo do frade dominicano Thery.

Após ciclópico trabalho de análise do Corão, empresa em que evidencia excepcionais dotes filológicos e um exaustivo conhecimento da Sagrada Escritura, da história bíblica e exegése, bem como das línguas e religiões do Médio Oriente, Bertuel despedaça uma a uma as teses coranológicas.

- A predicação de Maomé não lhe foi soprada pelo Arcanjo Gabriel (logo, o Islão não é uma religião revelada), pois tudo aquilo que revela já havia sido revelado há mil anos através do Antigo Testamento e da Torá. Deus não faz duas vezes a mesma revelação, logo o profeta não é profeta;

- A organização do Corão não segue qualquer ordem cronológica, pois o livro foi despedaçado e revolvido, sendo a versão actual resultado de concatenação acidental (o Corão apresenta-se como sucessão de surata, em ordem decrescente de extensão), e os "discursos e ensinamentos do Profeta" (o Hadith) não são merecedores de crédito, pois terão sido redigidos ao longo dos três séculos subsequentes à morte do predicador;

- Maomé não poderia ser o cameleiro analfabeto que a história conta, pois havia lido e conhecia todos os textos fundadores do judaísmo, limitando-se a dar-lhes forma aligeirada e popular, sem referir as fontes. Maomé seria, sim, um judeu-cristão ebionita em busca de prosélitos entre os árabes politeístas da Meca, onde vigorava um claro henoteísmo - crença religiosa que postula a existência de várias divindades, mas que atribui a criação de todas a uma divindade suprema, que seria objeto de culto - e que na Arábia dava pelo nome de Alat.

Depois, vem a suprema provocação, ou antes, a insinuação que paira e desnorteia. O reformismo cristão (o "protestantismo"), assentando na recuperação da pureza originária do cristianismo, quis reinvestir YHWH (Yavé/Iavé) na sua plena majestade, recusando qualquer representação de Deus, intermediação e intercessão humana na relação entre a palavra de Deus e os crentes e considerando Jesus um mestre predicador. Os despidos templos protestantes seriam, assim, como as sinagogas (e como as mesquitas), onde não há imagens e onde apenas se guarda a revelação divina. Por outras palavras, o Islamismo é uma derivação judaica e o protestantismo o retorno ao judaísmo; o Corão é um livro judaico, uma colectânea-síntese e tudo o que o distingue da sua matriz é acidente do movimento que lhe garantiu a força e estatuto que a história regista.
Tenho pelo Islão, como por qualquer outra religião, o maior respeito, pois ali se manifesta a inquestionável aventura espiritual que confere ao homem o predicado de "animal religioso" e a busca dolorosa dos fundamentos que afastam do vazio e do absurdo da trasitoriedade da vida. Contudo, o Islão é a única grande religião que impede, não possui e até proibe, qualquer interrogação histórica às suas fontes. O cristianismo teve os seus Pascal, Bayle e Voltaire, provocações que desencadearam o nascimento de uma apologética cristã moderna e profunda e, paralelamente, a plena autonomia das "ciências da religião". Mesmo aceitando o argumento pressuposicionalista que afirma o carácter autoritário, indiscutível e absoluto da palavra de Deus - no fundo, as religiões laboram sobre a fé e adornam-se da razão apenas para justificação daquela - assistimos, com trezentos anos de atraso e fora das fronteiras do Islão, a movimento análogo àquele que obrigou o cristianismo a terçar armas pela sua sobrevivência.


A jewish violin

O Reduto

Para o Pedro no seu reduto, com votos de mais cinco.

21 agosto 2008

Grande Nelson


Já está ! Salvou-nos a reputação. Hoje, foi o maior dos portugueses.


Gladiator

O que inebria e o que mete medo

Um hall em mármore rebrilhante, parietais em pedra cinzelada, clássico e eterno, despojado e elegante. A entrada para um belo restaurante, onde as iguarias rivalizam com o aprumo dos empregados e a cenografia que não esmaga, sossega, conforta e convida a estar.
Liu, restaurante em estilo neo-clássico chinês onde se servem pratos confeccionados segundo a tradição das gastronomias de Cantão, Xangai e Sichuan. Ali, eu, o Nuno e bons convivas tailandeses deliciámo-nos com os ágapes agridoces, o pato em folha de hóstia, os pastelinhos de camarão, a sopa de tubarão - vá, insultem-me - a massa de filigrana transparente, (...)
(...) logo seguidos de gelado frito em massa pintada a ovo, regados com chá de crisântemo e, pois, o café. Um almoço que faria inveja a Cixi, mas sem exageros, falso chique, como quem come apenas por prazer. É no Hotel Conrad, em Banguecoque, e merece uma visita. Não sei quanto custou o simpósio, pois o anfitrião nem nos deixou ver a conta.

Sigo para a biblioteca, onde fiquei até às sete e meia da tarde. Uma saltada ao Paragon, faraónico e ao serviço das bolsas endinheiradas da burguesia ascendente e sem gosto. O absoluto contraponto. O pirosismo sem limite e sem vergonha, o exibicionismo mais ordinário e impúdico, a total falta de referências, o quanto mais caro melhor, marcas da mudança dos tempos e da rotação das elites. Ali não há a conservação do belo traço do mobiliário siamês, as madeiras odoríferas e exóticas, a subtileza e o trabalho de artífices.

Campeia o estilo "Luís XXXV", mais o bricolage espampanante e roncante, de um mau gosto que reflecte o que vai nas cabeças de parvenus cheios de dinheiro, sem um livro e ávidos de status, que desprezam Sunthorn Phu, não querem saber de Kukrit Pramoj e julgam que o Ramakien é uma marca de perfumes. É desta gente que tenho pavor, os diluidores de tudo, que querem ser mais americanos que os americanos, que substituem a gravitas siamesa pelas afectações do golfe, pelo coleccionismo das "marcas" e mandam os filhos intoxicarem-se de MBA's para as américas. É desta gente que vai contar a história do futuro, a história do business, o fim do que resta do grande e velho Sião.
Chego a casa e está o Rei na televisão, fazendo um curto discurso para os responsáveis do Banco Nacional. Está de pé, pois um rei de pé quer dizer um rei no comando, mesmo com os seus 81 anos. Fala com serenidade, voz fraca mas imperiosa sobre a necessidade de poupar, de não esbanjar, de aplicar com parcimónia os recursos do país, de ajudar os mais pobres, de os não repelir na sociedade competitiva da globalização infrene. Olho para o seu escritório e ali não há "Luís XXXV", mas mobiliário discreto, de boa mão e de bom gosto. É o contraste que me fere mas apazigua. Ao menos, ainda há um senhor no comando. Nós, há muito que os não temos.

20 agosto 2008

A decepção, a auto-decepção e o pessimismo nacional



A transcrição do Nuno Caldeira da Silva parece injusta pela generalização, não se aplicando, decididamente, ao autor. Sim, há portugueses esforçados, inteligentes, decididos, com vontade de fazer coisas pelo país, como o Nuno que aqui em Banguecoque sempre dignificou o nome de Portugal, defende a "nossa dama" onde quer que se encontre e ama como eu o país. Para seguir as novidades da acidentada vida política tailandesa, já nem leio os jornais; leio o seu blogue, prova da qualidade e imparcialidade da informação que ali deposita dia-a-dia.

Hoje estive com ele num excelente almoço com amigos diplomatas tailandeses que se queixavam dos silêncios evasivos da nossa diplomacia em Lisboa. Eu, como sempre, disse sem rebuço o que pensava do nepotismo, do imobilismo, do não-saber-fazer e, sobretudo, o do não-deixar-fazer responsável pelo apagamento da nossa presença no mundo. O Nuno, diplomata e senhor de grande auto-domínio, optimista e esperançoso, disse que as coisas podem ser resolvidas conquanto haja boa vontade.

O problema português, do nosso sistema político e da amargura que vai afastando pessoas válidas do país é o de não querer ver que as pessoas geralmente situadas em lugares-chave da decisão política e da estratégia nacional são geralmente - infelizmente - as menos preparadas para desenvolver as actividades e funções para as quais foram escolhidas. Há sempre um invejoso medíocre, um cliente do partido A ou B, da seita X ou Y, um amigo do amigo do amigo intrometendo-se no processo da decisão governamental. Eu sei tudo isso, por que não fazendo parte de nada, a nada posso aspirar. Tenho passado anos a ser preterido por jogadas de bastidores. O que me vale ter curriculum, obra publicada, não parar de estudar, ter autonomia intelectual, não dobrar a espinha a ninguém se tal só me diminuiu no momento em que quero servir o país ? Durante anos não me apercebi - estúpido que sou - da essência do problema, até que dei comigo a comparar e avaliar os outros.

Conheço verdadeiras cavalgaduras alcandoradas por razões que a razão desconhece; conheço pessoas limitadíssimas, quando não mal formadas, quase patológicas, que foram singrando até lugares que exigem grande competência. Conheço, finalmente, pessoas honestíssimas que voltaram costas e se deixaram arrastar pelos acontecimentos, conhecedoras da inutilidade da crítica, do comentário ou do mais pequeno reparo.

É decepcionante que um país tão pobre como Portugal continue a promover a mediocridade e atire borda-fora a única riqueza que o poderia retirar do miserável estado de estagnação em que vegetamos. Não que os outros sejam excelentes; nós é que somos maus, nos tornamos azedos e cínicos quando nos damos conta do modus operandi do jogo social português. O Nuno sorri com bonomia, diz com propriedade o muito que sabe. Soube manter, sem mácula, as qualidades de um jovem: aberto, dialogante, compreensivo. Eu fui ficando cada vez mais bisonho. Como gostava ter ficado como o Nuno. Como me revejo em Schopenhauer !

19 agosto 2008

Musharraf, o último vestígio do raj


Nasceu no território da actual União Indiana, em enclave muçulmano e família de servidores da administração britânica, o pai oficial administrativo e a mãe uma muçulmana emancipada, com título académico e intensa actividade social e política. Por nascimento, é expressão indiana da gloriosa tradição dos Grão-Mogóis e de uma minoria que sempre foi a nata da Índia britânica. Ainda hoje, na Índia ou no Paquistão, esses muçulmanos - agora "retornados" - marcam pela diferença. Não são gente de bazar, das fazendas e da charcutaria. São militares, diplomatas, médicos, advogados, professores e são, quase sem excepção, de grande abertura e tolerância religiosa. São uma excepção, como os nossos "retornados" o são entre nós. A familia de Pervez Musharraf abandonou a "maior democracia do mundo" pouco após a independência e na nova pátria quis que o seu filho recebesse a melhor educação. Recebeu o jovem "retornado" esmerada educação numa escola primária cristã, seguindo para um colégio igualmente cristão para a conclusão dos estudos liceais. Esta matriz - orgulho social, lealdade no serviço ao raj britânico e educação ocidental e cristã - deram-lhe aquela compostura e aprumo que a posterior condição militar acentuou. Foi, toda a vida, um muçulmano por herança e um amigo do Ocidente, não se lhe detectando qualquer trauma compensatório e aquele ódiozinho mesquinho que marca tantos indianos na atitude perante os antigos colonizadores. Em suma, veio de família habituada a dar ordens e a saber obedecer, aquelas características que são a forma e substância das elites. Agora que parte - espero não me enganar - vão voltar o tribalismo, o caciquismo, a incapacidade de realizar o interesse nacional do Paquistão e mesmo, quem sabe, o assalto da plebe fanatizada ao poder. Ainda teremos todos saudades de Musharraf. Como gosto do poder personalizado e responsável - sobretudo quando detido por mãos prudentes, coração liso e sentido de serviço - rendo-lhe a minha humilde homenagem.


Taboo, de Natural born killers (Nusrat Ali Khan)

17 agosto 2008

Sihamoni do Camboja: o rei simpatia

Há dias, uma amiga belga, casada com um diplomata, dizia-me que vira o rei Sihamoni entrar no carro no lugar da frente, ao lado do motorista. O rei desloca-se de janela aberta, acena a quem o cumprimenta e pára frequentemente para falar com os transeuntes. Como é diferente das nulidades redondas que inundam a engravatada burocracia da Europa. Falta-nos alguém assim.

Quebrando o rígido protocolo - que considera ofensivo tocar na pessoa do rei - Sihamoni conhece verdadeiros banhos de multidão onde quer que se apresente. Numa região marcada por forte sentido de casta e pureza, esta atitude contrasta e choca algumas (in)sensibilidades, mas permite ao rei manter um contacto quase familiar com o seu povo.

O primeiro-ministro, ex-khmer vermelho, verga-se para prestar homenagem ao chefe de Estado. Há quem diga que o rei se tem oposto com veemência a julgamentos do passado, oferecendo a magnanimidade como selo da unidade nacional.

Sihamoni, o novo rei do Camboja, conquistou o coração do seu povo. Depois do flagelo comunista, restaura-se lentamente o culto da realeza, coisa que tanto espanto provoca nos ocidentais desconhecedores da doutrina da soberania real de raíz indiana, mas que passsei a compreender e respeitar após um ano na Tailândia.


Pran's Departure (Mike Oldfield)

A coisa está bem pior do que pensava