16 agosto 2008

Os leões não se matam como cães

Há uns anos, o corpo de Savimbi, sem botas e calças removidas até à pélvis, foi exibido sem qualquer pudor pela banditagem que em Luanda se refastela com o ouro negro sugado ao futuro de um povo maltrapilho. A tentação de humilhar os mortos, de os despir e insultar é coisa que me revolve as entranhas pois, como dizia o saudoso libertino Luiz Pacheco, ninguém tem razão alguma perante um morto. A vandalização dos grandes e poderosos, depois de abatidos e impotentes, só diminui aqueles que a tal desbragamento se entregam. As fotos de um Mussolini espezinhado, pontapeado e urinado cobriu para sempre de vergonha a reputação italiana, como de vergonha se cobriram aqueles que se entregaram ao mórbido festim da exposição do Che, de Ceausescu e Saddam Hussein. Diz-se que Alexandre, o Grande, mandou executar de imediato os sátrapas persas que o vieram presentear com a cabeça de Dário III. O conquistador do mundo afirmou então que esses que agora lhe traziam a cabeça ensanguentada do Rei dos Reis não eram dignos de qualquer perdão.

Ontem, as autoridades deste país fizeram divulgar um mandado de captura contra o antigo primeiro-ministro Thaksin Shinawatra, com direito a foto, peso e altura, como se de um assaltante de estradas se tratasse. Por mais detestável que seja a criatura, esta atitude só deslustra aqueles que a conceberam. Os criminosos, sobretudo os estadistas e líderes políticos, são em tudo diferentes dos comuns bandidos de estrada: representam muita gente, têm milhares de seguidores, foram amados ou temidos, pelo que, se merecem julgamento e condenação, deve-se-lhes o elementar direito ao respeito que a qualquer ex-titular de um cargo de Estado é devido. Julguem-nos, coloquem-nos atrás das grades, matem-nos, até. Porém, ao olharmos para um desses leões caídos em desgraça, neles vemos as ilusões, as paixões, a ferocidade até, não do homem, mas das ideias e interesses que estes representam. Quando se quebra a dignidade e serenidade e quando a baixa vingança se sobrepõe, os mais cavilosos facínoras ganham em humanidade e pedem-nos uma lágrima de piedade. Ontem, até senti simpatia por Thaksin.

Dream of Babylon

Precisa-se budismo

15 agosto 2008

Esplendor morto

A Itália, agora já sem músicos, escritores e realizadores universais, parece carpir de saudade o tempo em que era adorada, imitada e requestada para dar à Europa o tal toque que falta aos afectados e pretenciosos franceses. A Itália, sim senhor, deu cartas durante décadas. Aos pés de Marinetti andou meia rive gauche dos provocadores, agarrada aos casacões de urso de D'Annunzio andou a fulanagem barulhenta, fumarenta e noctívaga dos bistrots de Paris, inebriados por Mussolini, que cometeu a proeza de transformar o machismo em doutrina política, andaram os rebeldes da juventude cheia de amanhãs cantantes, depois de se cansarem da clássica axiomática do velho Maurras. Depois, foi a veneração pela discreta e aristocrática sabedoria de Visconti, foi a excitação por essa inacreditável aventura de travestismo ideológico que foi o príncipe Berlinguer - só tolerado a um país que deu cabo do marxismo, reiventando-o e oferecendo de volta uma fascinante (in)versão pela mão de Gramsci - mais Pasolini, cujo Il Vangelo Secondo Matteo é o único filme "bíblico" autorizado pelo Vaticano. Depois, morreu.
Abro um álbum evocativo desses anos dourados que precederam a americanização, uma selecção da colecção cartazes do cinema italiano guardados no Museum of Modern Art de Nova Iorque e dá-me uma dor de alma. Como foi possível que o berço de tanta grandeza pudesse, no interim de 40 anos, descer tão baixo ? A Itália, mais que a Alemanha, mais que a França, parece ser o melhor exemplo da decadência e irreversível apagamento da Europa. Que pena.


Come Prima (Dalida)

14 agosto 2008

A melhor do dia



Não resisto. Em 1959, Cuba ocupava o quarto lugar nas estatísticas de riqueza do hemisfério ocidental, a seguir aos EUA, Canadá e Uruguai, pois que da Argentina, após quase uma década de "socialismo de direita" do casal Perón, se havia eclipsado a fartura de outros tempos. Hoje, campeiam a miséria e o pluri-emprego: médicos dedicam-se ao taxismo e enfermeiras fazem um pé de meia na indústria da alternação. Coisas do socialismo, do progresso e da revolução.


Mambo 8 (Perez Prado)

A agonia

Dar força aos que nos defendem dos bárbaros, eis o propósito do melhor e mais útil blogue de intervenção cívica do presente: SOS LISBOA.

O Condestável


Heróis como Nuno Álvares não estão na moda. Os heróis, hoje, ou usam calções e são estipendiados por clubes castelhanos, ou estafam-se em suadas batalhas na minúscula bolsa de valores ali para os lados da Praça de Espanha. O conflito entre a Rússia e a Geórgia vem lembrar que,afinal, a guerra existe, que a paz é sempre ilusória e que as pequenas nações têm de manter perpétua atalaia pela sua liberdade e independência. Lembrar Aljubarrota assume, pois, pleno significado.

12 agosto 2008

O verão é de Marte


Que me lembre, todos os factos marcantes da história da minha memória tiveram lugar no verão. O verão não são apenas as férias, o dolce fare niente, as longas evasões sob o sol da praia, quando o corpo se deixa envolver pela ilusão do tempo parado. O verão não são só as noites tépidas, os cheiros da natureza, o rotor da ventoínha a embalar o sono do corpo febril e causticado pelo calor que trouxemos da areia e do sal. No hemisfério norte, o verão quer dizer exércitos em movimento, cidades desanuviadas de nuvens, sirenes, populações em fuga, explosões surdas, ambulâncias, urgências hospitalares. É no verão que não há nevoeiro e a visibilidade é perfeita, a tecnologia funciona sem entraves, não há lama, as pistas estão enxutas e os homens não requerem outro alimento que a ração de combate e um cantil de água. A relação directa entre a história militar e o verão confirma o enganador espectáculo que a natureza parece ter querido prodigalizar aos infelizes povos que vivem enterrados em agasalhos oito meses, de mãos estendidas para o aquecedor e sonhando com o renascimento. Como em tudo na ordem cósmica, o equilíbrio determina que a ceifa de vidas e sofrimento atenue a explosão de sensualidade que é o verão. Dizem as estatísticas que é no verão que se nasce mais, como é no verão que a Parca mais vidas reclama. No verão não se pensa, não se cria, só se destrói e consome. Que eu saiba, também, no verão poucos filósofos pensam, poucos escritores alinham frases e até a necessidade de Deus parece ter pedido férias. O verão é, pois, de Marte.


Summertime (Ella & L. Armstrong)

80.000 pela sua rainha


Com a fuga de Taksin ainda no ar, o povo de Bangkok reuniu-se hoje sob chuva diluviana para prestar homenagem à rainha Sirikit, que celebra 76 anos de vida. O tema este ano escolhido pela soberana foi o da preservação das florestas, devastadas ao longo de décadas pela especulação madeireira, pelo crescimento da agro-indústria e pelo desmesurado alargamento da cintura das cidades. Foram 80.000 as pessoas, fardadas, ostentando bandeiras nacionais e entoando hinos patrióticos que se concentraram em frente do palácio real para mostrar, a quem ainda tinha dúvidas, que o único pacto perdurável neste país é aquele que une o povo, sem demarcadores de etnia, religião e status, aos seus reis. Se ontem foi o dobre de finados do messianismo demagógico-republicano, hoje foi dia para mais uma grande jornada monárquica. Até o primeiro-ministro, que se dizia ser um mandarete de Taksin, cantou a plenos pulmões o hino real.

11 agosto 2008

Plutocracia perdeu terceiro round


Para quem ainda tivesse dúvidas, a fuga de Taksin para o Reino Unido vem confirmar aquilo que há muito se dizia: o homem não merece uma missa. Se este país tem muitos problemas - quem o pode negar ? - a saída de cena de Taksin vai tornar a vida ainda mais difícil aos seus valetudinários, aqueles eternos servidores do dinheiro sempre prontos a venderem a dignidade por um punhado de moedas. Mais uma vez, o Rei da Tailândia demonstrou quão acertada foi a sua decisiva intervenção quando, há menos de dois anos, avalizou a deposição do famigerado aventureiro. A democracia, o regime constitucional e as liberdades que este consagra devem ser respeitados, mas há situações extremas em que em nome dessa democracia, da liberdade e dos direitos se urdem os mais sinistros propósitos. Felizmente, este país não é uma república das bananas. É uma monarquia e assim será, doa a quem doer.

Mais agradecimentos

Combustões agradece as mensagens chegadas por correio electrónico, bem as que os amigos Corta-Fitas, Insurgente, A Ver o Mundo e Estado Sentido tiveram a bondade de publicar por ocasião do terceiro aniversário desta tribuna.

10 agosto 2008

Banguecoque é uma festa

Não há rua, avenida, praça ou centro comercial onde não pontifique um grande retrato da rainha


Como foi bela esta rainha a que os tailandeses chamam mãe

Uma banda que se prepara para as voltas do palco

A tatuagem tradicional

A cantora até parou para me fazer o V

Os escuteiros que guardam, dia e noite, o retrato do seu rei saxofonista

Estafados, após uma actuação de hora e meia

Actuação de ginastas em plena rua

Uma dança frenética, com o diabo no corpo

Para desintoxicar dos decibéis, o BCC

De uma grandeza faraónica

e monumentalidade despojada

Hoje não me apeteceu estudar, ler, fazer fichas. Saí para a rua e andei durante horas. Fazem-se por todo o lado preparativos para o Dia da Mãe, que aqui se comemora no aniversário natalício da Rainha Sirikit e é feriado nacional. Há espectáculos um pouco por toda a cidade, desfiles, bandas universitárias e dos escuteiros. Grupos de jovens envergando trajos regionais dão brilho e cor às ruas, com as suas barulhentas orquestras, guinchos e aplausos. Antes de regressar a casa, fui ao Bangkok Cultural Center e tirei umas fotos a esse magnífico e colossal edifício riscado por um dos mais arrojados arquitectos thais, mas que só me lembra a monumenalidade da velha Nínive ou uma maquete de Cecil B. DeMill.


Pinai

Aguenta-te, Geórgia

A Geórgia ganhou ontem o direito a integrar a NATO e a União Europeia.

Noite no Monte Calvo (Mussorgsky)