09 agosto 2008

Hoje somos todos georgianos

Foi a Polónia que atacou a Alemanha e a URSS em 1939; foi a Etiópia que provocou a Itália em 1935; foi o México que declarou guerra aos EUA em 1846; foi a Espanha que hostilizou os EUA em 1898; foi o Império Chinês que mandou queimar o ópio dos narcotraficantes britânicos em 1842; foram os birmaneses que levaram a guerra aos ingleses em 1885; foram os boers que desafiaram a Grã-Bretanha em 1900. Em suma, os fortes encontram sempre uma justificação de direito para a somar ao direito da força. Hoje somos todos georgianos.


Georgia

Asiafilia II


Eu bem sei, disse-me o sr. Manel da mercearia: os chineses matam criancinhas, no ventre ou fora dele, comem tudo o que rasteje, nade, tenha duas, três ou quatro patas, devorando toda a restante criação que exiba mais que uma asa, não contando os insectos, sim, os insectos: centopeias, mil-pernas, escorpiões e formigas enlatadas ou defumadas. Acresce, diz-me a dona Eufémia da padaria, que se pelam por suplícios - a célebre tortura chinesa - e exploram até à morte velhos e crianças, coitados, obrigando-os a garimpar minas de urânio a tronco nu.

Os chineses passam meio dia deitados na enxerga fumando ópio, outra parte devorando e a restante congeminando conspirações contra o Ocidente em lavandarias e lojas dos 300. Os chineses espalham-se como piolhos pelo mundo, preparam um império e a desforra derradeira: é a célebre vingança do chinês, cujo espólio incluirá as mulheres brancas - que eles tanto cobiçam, pois as deles são tão feias, coitadas - para as lançarem nos terríveis haréns. Diz-se que nas suas pútridas ruas, lá para o Martim Moniz, organizam tríades e uma rede subterrânea que usam como banco para financiar a destruição do outrora rico e florescente mercado retalhista lisboeta; que estão associados ao tráfico de drogas e "carne branca" - sempre a carne - e nos têm um ódio inextinguível: é a célebre tese dos Judeus da Ásia Oriental, forretas, gananciosos, agiotas, carregados de cordões de ouro, talismãs e amuletos, vivendo como ratos na penumbra das suas chinatown's.

O chinês não pára e se precisa de dormir meia hora reveza-se num catre imundo que vai sendo usado por rotação acompanhando os ponteiros do relógio. Vivem trinta e quarenta numa casa, usando o mesmo passaporte, enterram secretamente os seus mortos, fingindo que continuam vivos (diz-se, até, que os comem) e, como são todos iguais - dentes de roedor, nariz achatado, sem olhos e uma trança - não se distinguem uns dos outros, nem os homens das mulheres, nem as crianças dos velhos. É a célebre tese dos macacos amarelos.

O chinês copia. A sua natureza perversa deu-lhe dotes de copista, de macaqueador e ladrão do génio inventivo dos outros povos. Além de parasita, é impostor, pois, diz-se - quem mo afirmou foi o João da Silva, professor primário em Reguengos - que roubou a invenção do papel, da pólvora, da imprensa, da bússola, da cartografia, do compasso (estão a ver, maçonaria !), do telescópio, das fechaduras das portas, das notas bancárias, das escovas de dentes, do princíopio matemático dito de Cavalieri, da teoria dos números congruentes, dos caixões rectângulares, da serra mecânica, dos fornos siderúrgicos, do fogo de artifício, da hibridação do arroz, do papagaio, das comportas, dos sismógrafos, da seda e das pontes suspensas a outros povos que tiveram a infelicidade de lhes transmitirem tais segredos. É a célebre tese dos transistores de Hong Kong.

Na China, aquilo é uma barbaridade. Como poderemos nós, que nunca tivemos nem escravatura nem crianças a trabalhar em fábricas, nem nos matámos jamais, nem tivemos campos de concentração, nem extermínio metódico de gente, que nunca tivemos censura, nem polícias políticas, nem decapitações públicas, autos-de-fé e tiros na nuca compreender aquilo que por lá vai ? Está fora da nossa imaginação aquele terror todo, com as concubinas enterradas vivas no túmulo do Chin, com aquele horror da matança dos animais - aqui não há caça, mas um desporto, nem touradas, nem a matança do porco, nem se matam cães à fome e sede nos canis; isso, sim, foi inventado por eles - perceber o que vai naquelas cabeças tortuosas ? É a célebre tese da crueldade do chinês.

Aquela gente foi feita para matar. Não se lembram da invasão dos mongóis ? E quando vier essa gente toda, de cutelo em riste, destruindo tudo à sua passagem, como núvem de gafanhotos a queimar, comer e violar os povos amantes da paz e tementes a Deus ? E quando essa gente toda destruir as nossa bibliotecas e museus, transformar em celeiros as nossas universidades, escravizar e matar por exaustão os vigorosos braços que outrora edificaram S. Pedro, a city londrina, a Torre Eiffel e o Partenon ? Pois, as guerras, se as houve - a tal do Ópio, as tais expedições punitivas à megera Tsi Hsi, acolitada pelos boxer's, inimigos da civilização, mais a destruição do Palácio de Verão de Qianlong, mais o escaqueirar da maior colecção mundial de porcelanas, em Tianjin, mais os bons soldados franceses ao pulos no trono da Cidade Proibida - tudo isso foi para lhes dar uma lição. É a célebre tese da invasão amarela.
Os chineses têm pelos portugueses um ódio particular. Por isso, para nos humilharem, nunca nos quiseram tirar Macau, nem sob o Império, nem sob Chiang Kai Shek, nem ainda durante a tirania de Mao. Eles só quiseram negócios com os jesuítas, essa outra raça pestilenta de sotaina - não deixem de ler a Monita Secreta, está lá tudo - e até tiveram como pró-ministro dos estrangeiros um renegado português que lhes salvou a pele no século XVII, enganando os bons dos russos em Nerchinsk. Abram os olhos. A D.ª Felismina é que tem razão: "os chineses até o meu Piruças mandavam para o tacho". Vai daí, agarra na saca plástica e vai ao "Martins Moniz", pois "lá as coisas são mais baratas".
Para os sempre presentes Miss Pearls, Carla Quevedo, Jansenista , Joshua e Brief New World, obrigado pela lembrança dos três anos de Combustões

08 agosto 2008

Asiafilia




Bangkok Cultural Center (Julho de 2008)

Fobias


07 agosto 2008

Um blogue que promete

Os primeiros passos, tão leves e seguros como os de Sidharta, acabado de nascer, sobre as flores de lótus.

Um leque com os "nossos imperadores"



Bateram à porta. Era o miúdo do casal sino-tailandês que mora no 24º andar. Trazia um embrulhinho na mão e vinha da parte do pai: "o senhor pai [é assim que os tailandeses se expressam] mandou este presente para o senhor "Miken". Abri - uma falta de educação, pois na Ásia não se abrem prendas em frente do ofertante - e lá dentro um leque com um friso dos imperadores Qing, que nem eram chineses. O miúdo disse: "o senhor pai diz que é um leque com os nossos imperadores". Fiquei aliviado por não ser a carantolha do Mao. Os povos, sobretudo os grandes povos, sentem uma tremenda nostalgia do tempo em que tiveram Filhos do Céu a governá-los.

O minuto de glória a que têm direito

O encarniçamento contra a China na véspera dos Jogos de Pequim - atitude estúpida, irreflectida e desastrosa - poderá explicar-se pela conjugação acidental de uma forma de "pensar antiga" e preconceitos há muito inscritos na atitude ocidental face ao Império do Meio, aos quais se juntou um certo cruzadismo pela univeralização de um tipo preciso de modelo político e social que não vinga - nem vingará - na ecologia civilizacional daquela região.

A China não vai ser, jamais, uma "democracia ocidental". A vingar, essa democracia seria o fim do país, artificialmente mantido na crença da unidade nacional e de um patriotismo que é, para todos os efeitos, a grande ilusão com a qual o regime comunista se prepara para deitar para o caixote das antiqualhas tudo o que ainda o prendia à tradição política ocidental. O Estado chinês não é o Estado ocidental: é uma maquinaria menos complexa e menos subtil - logo mais dura e repressiva - que exige total subordinação, não aceita competição nem prevê qualquer margem de liberdade a uma "sociedade civil" que diminua ou ponha em causa a fortaleza do Estado. Se se dissipar o eixo que mantém o país sob controlo, se a hierarquia formal desabar, a China fragmentar-se-á em regionalismos, autonomismos, especificidades étnico-linguísticas (e religiosas), tal como aconteceu quando os Qing, em meados do século XIX, perderam o pé à situação.

Aqueles que acreditam no milagre de uma "revolução democrática" pacífica não sabem - por que nunca leram , porque são absolutamente iletrados na matéria - que os chineses, a pedirem outro regime, terão guerra civil, "senhores da guerra", limpezas étnicas, paralização económica, desinvestimento estrangeiro, colapso da ascendente classe média, luta entre o campo e a cidade, desestabilização de todo o equilíbrio regional, com possível exportação dessa instabilidade para os circunvizinhos Vietname, Laos, Camboja, Mongólia, Rússia, Nepal, Tajiquistão, Kazaquistão, Butão, Birmânia e Bangladesh. O colapso económico chinês afundaria a região no caos, transformando-a num verdadeiro perigo para a paz mundial, com ondas sísmimas que afectariam profundamente os EUA e a Europa.

O grande desastre chinês não foram nem o comunismo nem o nacionalismo, nem tão pouco a invasão japonesa. A queda do Império deixou um vazio jamais preenchido. A China andou, durante oitenta anos, à procura do prestígio e grandeza perdidas e encontrou-os recentemente no gosto pelo consumo, na exibição de prosperidade (que só distingue 10% da população) e na benevolente e interesseira atenção que os outrora arrogantes sinófobos manifestavam pelos "pequenos homens amarelos". Neste particular - compare-se - o Japão foi muito mais perigoso para o Ocidente, pois atacou-o frontalmente, destruiu-lhe os impérios coloniais, espalhou o ódio contra o branco e humilhou sem reparo o modelo europeu, abrindo portas às independências. A China nunca levou a guerra fora das suas fronteiras, com excepção das lutas fronteiriças que manteve nos anos 60 e 70 com a Índia, a URSS e o Vietname, nas quais foi, objectivamente, um aliado do Ocidente.

A China é menos perigosa que a Índia. A Índia tem uma tradição marítima e comercial importante, foi colónia e, no fundo, transporta o ressentimento de todos os ex-colonizados. Acresce que os indianos têm importantes colónias em África e no Sudeste-Asiático, colónias que vivem fora e em auto-exclusão. O chinês quer ser respeitado. O chinês contenta-se com isso. O Estado chinês não é aquela poderosa, precisa e metódica máquina que muitos julgam. O improviso, o não saber como fazer de outro modo, o desleixo crónico, mascarados com aprumo e teatro, mantêm a China de pé. Tudo isso pode entrar em colapso, caso os velhos preconceitos sinófobos persistam em exigir aos chineses aquilo para o qual não estão capacitados nem interessados.


Ode ao Rio Amarelo (Xian Xinghai)

06 agosto 2008

Uma monarquia muito britânica


Um pequeno país nos confins do Pacífico, uma coroação à inglesa e um rei que impõe novo pacto. A partir de ontem, Tonga tem uma monarquia constitucional, com partilha de soberania. São os tempos. Ou a eles nos adaptamos, ou não vale a pena pensar em Restauração.

Bisonho, terrífico e anti-moderno


Confesso que nunca senti grande interesse e atracção pela escrita de Alexander Solzhenitsyn até me chegar às mãos, há cerca de 15 anos, esse monumento que dá pelo nome de Agosto de 1914, quiçá a mais bem sucedida e legível obra do autor do Arquipélago Gulague. O seu profundo misticismo, traço que o liga aos maiores prosadores russos de Oitocentos, a atmosfera densa, as personagens hieráticas que lembram bonecos de Deus, a permanente presença da queda sem remissão, o fatalismo associado ao absurdo da paranóia concentracionária que tão bem conheceu, condenam-no a autor "regional" à margem da tradição literária ocidental, a qual, aliás, detestava. A obra, ameaçada pela historicidade e pelo tom auto-biográfico, desenvove-se em torno da condenação do comunismo (v. O Primeiro Círculo; Um dia na vida de Ivan Denisovich), impedindo que dela se lavre imparcial juízo sem que se dissolvam os miasmas dessa brutalidade que se abateu sobre a Rússia, a matou como potência cultural e como Terceira Roma. É evidente que a comunistagem de pé-rapado, as cabeças cinzentas e os patetas líricos sempre o repeliram, difamaram e relegaram para a categoria de panfletário "anti-soviético", assim como muitos direitistas o exaltaram pelas mesmas razões, muitos sem jamais dele terem lido duas páginas. Neste particular, Solzhenitsyn pouco mais valerá que Harriet Beecher Stowe e a sua Cabana do Pai Tomás.

Contudo, lendo 1914, há ali potência, complexidade e naturalidade que fazem uma obra de arte. É o retrato completo e panorâmico de uma certa sociedade que morreu, talvez o último momento em que à inteligência foi dada voz. Depois, foi o ascenso das massas, das carnificinas, das demolatrias e sua crueldade, ódio e incapacidade para ver para além da gamela e do porta-moedas. Recomendo-o vivamente, pois ali está toda a sociologia, toda a política, toda a filosofia e toda a economia de uma Europa à beira do suicídio.

Solzhenitsyn não teve vida fácil, nem após a queda do comunismo. O seu nacionalismo moderado mas firme concitou ódios entre os patetas ultra-nacionalistas - os tais que pregam "os valores" e o "orgulho nacional" mas nunca leram um livro, não conhecem um monumento, não cultivam a língua nem sabem da história do seu próprio povo - como ofendeu quem pensava poder atraí-lo para as delícias do mercado. Manteve-se, sempre, obstinado e quase quadrado, agarrado à visão de uma Rússia imperial, ortodoxa, arcaica e quase selvagem.

Foi um homem de grande coragem, não há que duvidar, chegando ao extremo de se solidarizar com os alemães, esmagados, agredidos, roubados e mortos como animais pelo Exército Vermelho (v. Noites Prussianas), de condenar a duplicidade dos Aliados, atacar acerbamente os militantes anti-guerra do Vietname e defender uma Nova Rússia monárquica. Mas tudo isso é secundário. Importa é ler 1914.


Marcha Eslava (Tchaikovsky, 1876)

05 agosto 2008

Tea with Berlusconi

Berlusconi mandou a obesa tropa e a policia do ar condicionado e da papelada restaurar a paz nas ruas das cidades italianas. A medida está, naturalmente, a concitar as mais vivas reacções, sobretudo daqueles que se escudam nos sempiternos "argumentos constitucionais", agora encavalitados nos "direitos sindicais dos trabalhadores das forças de segurança". É elemento de toda a evidência que ao longo dos últimos anos o quotidiano dos europeus mudou muito, mudou para pior. A velha Europa da abundância, das ruas limpas, dos cidadãos cumpridores e dos passeios seguros deu lugar ao império da banditagem, do tráfico de estupefacientes, dos esticões, da mendicidade, dos "sem-abrigo", dos "sem-papéis" e, até, à chegada de verdadeiras hordas de migrantes que do Leste vão trazendo as nobres profissiões nas artes de estender a mão em concha, cobrar imposto sobre lavagem compulsiva dos vidros dos automóveis colhidos nos semáforos e da escravização das trabalhadoras do sexo, delícias que fazem o imaginário de ONG's e demais cultores da ingenuidade retardada.

A medida de Berlusconi é aplaudida pela generalidade dos italianos, que estão prontos da trocar muitos "direitos constitucionais" por alguma segurança, lembrando o velho lugar-comum do ventennio, quando não havia liberdade política - havia a OVRA, havia a censura, o condicionamento e a propaganda, o rícino lançado garganta abaixo dos inimigos do regime - mas os "comboios circulavam a horas". É claro que Berlusconi não é ditador, que o fascismo morreu e que a simples ideia de privar os italianos da liberdade não passa de atoarda da esquerda ex-comunista. Moral da história: as pessoas comuns, as que não fazem política, as que não se apaixonam nem querem saber da politiquice, querem viver habitualmente, querem sair à rua, sentar-se em esplanadas, comer uma pasta sem que um energúmeno, um meliante ou um assaltante lhes tolha o caminho, de faca em riste, para cobrar o "imposto revolucionário da anarquia" em que lentamente a Europa resvalou.


Parlami d'amore Mariu

04 agosto 2008

Curiosidades: isto há coisas...


A mesma gravata, o mesmo corte de fato e de cabelo, o mesmo nariz e lóbulo de orelha, sobrancelhas sem tirar nem pôr; Boris Tadić e José Sócrates, dois líderes de países periféricos no novo império europeu que se vai fazendo em torno de Berlim e do Deutsche Bank.

Três anos


Só hoje me dei conta que este blogue faz três anos. No início foi a curiosidade, acicatada pela amiga Miss Pearls. Depois, foram os amigos, com o Pedro Guedes da Silva, o Bruno Oliveira, o Cunha Porto e o André Azevedo Alves a ajudarem na divulgação. Aqui foram travados duelos sem sangue, escreveu-se um pouco sobre tudo, com a irresponsabilidade de quem vai debitando opinião - muitas vezes simplificada - sobre as coisas que connosco se vão cruzando: livros, noticiário, figuras e figurões, viagens e música da minha predilecção. Isto foi, sempre, auto-biográfico. Aqui não há "ciência", nem "politiquice", nem a afirmação de um grupo de convivas, planos para "intervenção" e trade marketing. Aqui estão estados de alma, euforias, depressões e até acenos de desistência. Mas fui ficando, sem atentar demasiado no número de assistentes que da plateia vão enviando mails, pois aqui não se pratica a "caixa de comentários".

A "blogação" mudou. "Antigamente", o blogue substituia a imprensa amordaçada, os seus medinhos, reverências, clubismo e amiguismo, velhas lepras portuguesas. Depois, começou o ajuntamento: fazer blogues de proselitismo, à caça de crentes, espalhar ideologia, ver tudo segundo o cânone do autor A, B ou C, da Escola X, Y ou Z. Nunca fui atrás de calendário e de agenda. Se me apetecer escrever sobre pegadas de dinossauros em dia de eleições, faço-o, pois isto é meu, para mim e mais ninguém. Se o leitor bondoso tiver paciência para comigo gastar três minutos, só posso ficar penhorado. Se não gostar, paciência.

Passados três anos, só posso dizer que Combustões espera com ansiedade que novas tecnologias e programas permitam revolucionar a página hirta, a ilustraçãozinha e a música de fundo. Como sou preguiçoso, sonho com o dia em que, sem escrever, possa gravar comentários audio e montar um pequeno estúdio de imagem. Mas isso é, por ora, coisa à Júlio Verne.

03 agosto 2008

Isto é um escândalo

Descubra as diferenças

Que vergonha, ao que isto chegou.


Requiem for a city (Mike Oldfield)

Raça


O racismo distribui-se generosamente e em partes iguais pela espécie humana. Passou o tempo em que tal palavrão só se aplicava aos europeus, as White Shadows a que o belíssimo filme de Van Dyke and Robert Flaherty aludia. O limite semântico para o racismo anti-branco, que se envergonhava do seu nome, esgotava-se lexicalmente no evasivo território dos medos e das fobias: ora era "xenofobia", "eurofobia", "preconceito pejorativo", ora explicava-se como reflexo da agressão colonialista. É deveras incómodo tocar no assunto, até com os mais avisados e serenos académicos asiáticos - sejam indianos ou chineses, japoneses, malaios, coreanos ou thai's - pois tais palavrões existiam muito antes da "agressão" e faziam parte do vocabulário corrente dos povos asiáticos antes que o tal colonialismo e as tais agressões verdadeiramente ocorressem. Os japoneses referiam-se aos brancos em geral como gaijin ou nanban jin ("homens bárbaros do Sul"), tomado de empréstimo aos chineses, que ainda nos cumulam com o consabido sei gweilo (que quer dizer "fantasma morto), expressão moderada de "demónios de cabelos vermelhos. De aquisição recente, o anexim mais divulgado é, simplesmente, o de "white trash".

Razão terão muitos asiáticos em proclamar tal medo e aversão. Na Tailândia ouço com frequência o espantoso "Khon Thai Krua Farang", que quer dizer "os thai's têm medo dos brancos". Muitos ocidentais aqui desembarcados exibem comportamento estimado vergonhoso. Qualquer homenzinho ou mulherzinha vindos dos subúrbios da mais devastada conurbação londrina (ou nova-iorquina), chegados à Ásia, enchem-se de arrogância, que somada ao dinheiro e completo analfabetismo e desrespeito pelas cultura local, geram ressentimento e estupefacção. A linguagem gestual, brutal e ofensiva - o por os pés em cima de tudo, tocar fisicamente as pessoas, sobretudo a mania de acariciar a cabeça das crianças, o pular sobre obstáculos, - o falar alto, o trajo quase selvícola (tronco nu, calções esfarrapados), os beijos públicos e outras manifestações de intimidade, as borracheiras monumentais, o desrespeito pelas autoridades fardadas (a maior e mais perigosa das afrontas) concorrem para a tal "xenofobia" anti-branca. Á Ásia chegou sempre o que de pior e melhor o Ocidente tinha para oferecer. Aqui nunca houve um meio termo. O branco, ou chegava como funcionário do Estado (soldado, administrador, governador), como funcionário de Deus ou como lançado, criminoso homiziado, degredado, pirata, "soldado prático" fura-vidas e mercenário. Se os colonizados e "agredidos" se sentiam atraídos pelos primeiros, copiado-lhes os gestos e gostos - a elite dirigente asiática confraterniza em "clubes", pavoneia-se nos relvados do golfe, degusta vinhos e até se atreve polvilhar a conversa de anglicismos - vê no branco pé-descalço o estereótipo de tudo quanto abomina. Ainda há dias, lendo com atenção a categoria que me foi aposta no visto do passaporte, soube que era, para todos os efeitos, "alien person", como soube, em conversa com juristas, que jamais poderia aceder à nacionalidade thai, mesmo que aqui vivesse 100 anos, aqui constituísse família e aqui ocupasse cargos de relevo.

Porém, assumiria atitude "compreensiva" se tal descaminho da razão - o racismo, o preconceito racial, o complexo de superioridade - se aplicasse apenas aos alienígenas brancos. As sociedades asiáticas vivem muito apegadas à pureza de sangue e à etnicidade, mesmo que a cidadania - importada do Ocidente - camufle, distraia ou sirva para incutir unidade a um corpo social muito diverso nas línguas e dialectos, nas religiões praticadas, na estrutura familiar e hábitos culturais.

Na Ásia do Sul (India, Sri Lanka), como no Sudeste-Asiático (Tailândia, Camboja, Laos, Vietname), um indívíduo é tão mais respeitado quanto mais pálida for a sua tez. Pessoas de pele escura são tidas como inferiores, evitando-se o casamento entre "famílias brancas" e "famílias negras". Os casamentos hetero-sociais tendem a difundir-se, mas com a máxima reserva, pois tal mistura só ocorre quando o conjuge de pele escura possuir património e visibilidade capazes de apagar o estereótipo "homem/mulher escuro, servo ou escravo". Na Tailândia, os "brancos" - chineses, mistos sino-siameses ou siameses da planície aluvial do Chao Phraya - vivem em harmonia, pois monopolizam a propriedade e a riqueza, dominam o Estado e os negócios. De fora ficam os si dam (pele escura). Quando um thai quer obter informação básica sobre um terceiro, a pergunta sacramental que ocorre é: "é negro ou branco ?" Se o terceiro for khon Isan - isto é, natural do Issan, província povoada por khon Lao (pessoas de Laos), - tem todas as probabilidades de pertencer aos estratos mais pobres da sociedade. De fora ficam, num nível quase análogo aos sem casta na Índia, os povos das montanhas (Akha, Lahu, Karen, Hmong), com estatuto menoríssimo, sem cidadania plena, protegidos e vassalos com estatuto consagrado nas leis; o mesmo estatuto que no Japão reduz à insignificância os Ainu, os habitantes "negros" de Okinawa e os "coreanos". Não me venham falar, pois, em racismo branco. Há que estudar, ler e experimentar outros racismos !