01 agosto 2008

Fabergé pour le plaisir des rois


Atchara Thipayarat - que ontem conheci - é uma designer de ourivesaria e joalharia que tem dedicado os últimos anos à adaptação dos ovos Fabergé às técnicas, materiais e motivos siameses. Conseguiu a proeza de não cair no kitsch e na imitação barata, dando-lhes um toque thai e oferecendo preços que estimo imbatíveis. Para o Natal, como presente para a familia, vou-lhe encomendar dois ou três ovos. Na Tailândia é assim: mãos de ouro, trabalho profissional, bom gosto e criatividade transbordante.

31 julho 2008

Mais Chulalongkorn

O patrono da Universidade, Chulalongkorn. Aos seus pés são colocadas diariamnte flores, velas e iguarias

Bibliotecas e salas de estudo um pouco por todo o campus

Um dos sete blocos de laboratórios de engenharia

Cantina em "sala" (palavra portuguesa) destinada refeições e lazer

Os jovens tailandeses não dispensam a sesta da uma, não se coibindo de usar a biblioteca para prestar homenagem a Morfeu. Estes siameses são impagáveis !

A pedido de vários visitantes desta casa, aqui deixo mais alguns apontamentos que estimo esclarecedores aos quais, neste caso, se aplica o velho rifão "uma imagem vale por mil palavras".


Uma universidade limpa e em ordem



O contrário da bagunça da generalidade das faculdades portuguesas: arrumada, planeada para acolher pessoas e não números, verde, silenciosa, disciplinada; em suma, limpa. É a Universidade Chulalongkorn, em Banguecoque, com os seus quase 80.000 alunos e doze faculdades, onde tenho passado parte apreciável do meu tempo nestas paragens. Não, não tenho quaisquer saudades da Faculdade de Letras e da Universidade Nova, do barraquismo, do buraquismo, dos jornais de parede e dos grafitti, das salas esventradas, das cantinas e bares sujíssimos. Aqui anda tudo uniformizado, não há campainhas estridentes, mas uma luz vermelha que se acende para anunciar o fim das sessões, entra-se livremente nas bibliotecas, permite-se a leitura domiciliária - para os thais, roubar é condenação certa ao ciclo das reencarnações ! - e as fotocópias custam... um cêntimo. Em suma, o "subdesenvolvimento" de que nos falam os mestres da teoria, os mesmos que conhecem todos os cartapácios mas submetem-se ao ignóbil jugo do lixo.

29 julho 2008

Grande Helena

(...) Entre Agosto de 1974 e o início de 1975 os portugueses em fuga de África mal se vêem nas páginas dos jornais. É claro que se fala deles mas com o incómodo e os rodeios de quem tem de dar uma má notícia no meio duma festa. Esta é a fase em que os fugitivos são necessariamente brancos pois assim facilmente se integram no estereótipo que deles traçam homens como Rosa Coutinho que os classifica como "elementos menos evoluídos que têm medo de perder as suas regalias" ou Vítor Crespo que os define como "pessoas racistas que não abdicam dos seus privilégios".
Os jornalistas portugueses usam então tranquilamente expressões como "brancos ressentidos", "brancos em pânico" ou pessoas que "reivindicam um desejo de viver num mundo que já acabou" para referir a maior fuga de portugueses nos seus muitos séculos de História. Os primeiros a chegar, logo em Agosto de 1974, ainda tiveram jornalistas à espera. Mas semanas depois, quando a catástrofe se torna não só óbvia como incontornável, as notícias sobre o "regresso dos colonos" quase desaparecem e o que temos cada vez mais são longos artigos sobre a descolonização cheios de declarações de líderes ou candidatos a tal. Jornais como o Diário de Notícias, o Expresso ou O Século enviam repórteres para a Guiné, Angola e Moçambique. Estes relatam com detalhe e parcialidade as lutas pelo poder nos diversos movimentos - sobretudo em Angola. O drama das pessoas parece-lhes uma fatalidade histórica. Fatalidade aliás inscrita no termo por que haveriam de ficar conhecidos: passada a fase caricatural dos "colonos brancos", ainda se experimentou "deslocados do Ultramar" ou desalojados. Por fim surgiu o salvífico termo "retornado", pese muitos deles não estarem a retornar a parte alguma porque simplesmente tinham nascido e vivido toda a vida em África. Refugiados, termo usado então e agora com bastante ligeireza, é que eles nunca puderam ser.
Não existe uma data precisa para definir o momento em que se tornou patente que os retornados estavam longe de ser todos brancos, mas quando a ponte aérea os fez desembarcar às centenas de milhar em Lisboa tornou-se evidente que muitos deles eram negros, mulatos, indianos... com cores e hábitos de vida muito distantes do tal boneco do fazendeiro branco de chicote na mão, a que inicialmente foram reduzidos. Perante o mal-estar que a sua simples existência causava, os fugitivos passaram rapidamente da caricatura ao esquecimento. Foram precisas décadas para que grandes reportagens fossem dedicadas ao turbilhão de factos que fez deles retornados. O problema deles não era não terem uma história para contar (...).
(Helena Matos, Público, 29.07.2008)

Até que enfim !


Como a minha preparação académica se fez sempre à sombra da História das Ideias, mais importante que qualquer enunciado teórico é o confronto das ideias (e sua historicidade) à vida dos homens. As vítimas da guilhotina, dos afogamentos e da Vendeia poderiam jamais ter lido Rousseau, mas conheciam os escritos de Marat e provaram os decretos de Robespierre. Este livro, dissipado o mito, oferece pela primeira vez a panorâmica da atmosfera e do quadro cultural que permitiram que o nascimento dos Direitos do Homem e da nova soberania se fizesse sobre o signo da mais desapiedada violência programática. Ali nada foi produto da paixão, celebrada pela heróica lenda hugoniana. Aquilo foi tudo decidido, com "estadística", intendência e guerra psicológica. O Terror estava infuso no movimento e manifestou-se desde a tarde de 14 de Julho, quando o "agit-prop" irrompeu pela Bastilha e degolou, com requistes de Talibã, o seu governador. Objectará muito ignorante que se trata de obra comprometida. Mas não, ali estão Jean Tulard, Pierre Chaunu, Jean Sévillia, Le Roy Ladurie, ou seja, o que de melhor a França de hoje pode exibir.


Marche de la Garde Consulaire

28 julho 2008

Chega de Europa

A dura factura da selvajaria


Via Idolátrica, mais um triste apontamento, a somar a tantos outros descaminhos da rude e tosca insensibilidade da "gestão autárquica". Portugal quase já não possuiu património digno de nota no que a arquitectura de interiores respeita: dos cafés, restaurantes, salões de chá, barbearias, charcutarias, cabeleireiros e salões de moda datando dos fantásticos anos 10, 20 e 30, tudo foi despedaçado, partido e vandalizado pelo triunfo do alumínio anodizado, da azulejaria casa-de-banho e das madeiras prensadas. Neste extermínio, Braga parece querer dar cartas a Lisboa e ao Porto. Não somos, decididamente, um povo culto.

Memórias de uma receptadora e difamadora


A Biblioteca Nacional tem vindo a publicar ao longo dos últimos vinte anos as memórias de viajantes que em Setecentos e Oitocentos viveram ou por Portugal passaram. Esta fixação de estrangeiros por Portugal foi tão intensa que se pode falar, glosando Castel-Branco Chaves, num verdadeiro sub-género literário de literatura de viagens. Link, Rattazzi, Beckford, Merveilleux, Carrère, Dumouriez, Ruders e até o boníssimo Andersen, em tempos e conjunturas diversas encheram páginas que devem ser património cativo de qualquer biblioteca culta. Ali estão a fauna, a flora, a geologia e geografia do país, o retrato dos tipos sociais, crenças e hábitos, os acidentes da vida política, as grandezas e misérias de um país, ainda poderoso mas declinante, que fazia as maravilhas do escapismo de europeus saídos das brumas, chuvas e inclemências da Europa. A literatura de viagens a Portugal precede, concerteza, a vaga orientalista, que se fixa a partir de finais de Setecentos como tópico de exotismo e vai em crescendo dominando a literatura ocidental até meados do século XX, quando o mundo deixou de ter magia.

Acaba de me chegar às mãos, oferta da minha amiga e colega Manuela Rêgo, umas Recordações de uma estada em Portugal (1805-1806), da autoria de Laure Permon, ou antes, de Madame Junot, alias Duquesa de Abrantes. São páginas de historietas de desenfado, coscuvilhices, ajustes de contas com o passado e acessos de nostalgia de uma senhora que se tinha em grande conta na "Nova Ordem" que o Imperador impôs a ferro e fogo à Europa. No fragmento das Memórias que agora conhece tradução portuguesa com notas introdutórias de José Augusto França, assoma a visão napoleónica da Europa, que se queria de rastos e até agradecida ao astro francês que ilumuniva os espíritos após haver iluminado os campos de batalha com chacinas que ainda hoje, banalizada a violência de massas, nos deixam perplexos. É, no fundo, a visão do mundo de uma corte de mulherzinhas e generalecos que se impuseram como modelo, após haverem destruido tudo aquilo a que não podiam ter acesso no quadro do Antigo Regime caído com a Revolução. São os títulos postiços, a nova etiqueta, a macaqueação da vida das antigas cortes, os salões literários, os chás e a procura de bons casamentos - se possível com a velha aristocracia sobrevivente - à mistura com muita negociata de intendência, troca de favores e, até, compra e venda de obras de arte rapinadas um pouco por toda a geografia continental pelos exércitos da tricolor.

Laura Junot esquece tudo isso. Nisto, lembra-me as memórias de antigos dignitários do III Reich, que tiveram vida farta e poder absoluto durante os curtos anos do reinado de Hitler e desse passado, cheio de champanhes e luxos, esquecem a origem dessa sumptuária, amiúde roubada, confiscada ou requisitada aos legítimos proprietários. Laura Junot foi uma perdulária. Escreveu as memórias, dizem as más línguas, para angariar uns cobres, quando se esgotou a provisão de pratas, jóias, tapeçarias e loiças saqueadas pelo excelso marido quando, assinada a Convenção de Sintra, abandonou a barra do Tejo carregado com tudo aquilo a que aqui pudera lançar a garra. Como o marido morreu ainda sob o Império, Laura, qual Taillerand, apercebeu-se que os dias do Corso estavam contados, pelo que passou a fazer jogo duplo. Quando sobreveio 1814, apoiou a Restauração e, logo depois, durante os Cem Dias, fugiu de Paris. Era conhecida em Paris pela manias de grandeza, tão ostensiva e tão pouco fiável que os liberais - que fariam a Monarquia de Julho - dela fugiam como o diabo da cruz, assim como os velhos napoleónicos que nela viam a quinta essência da traição.

Laura esgota-se em páginas de mau gosto e grosseiro despeito pela Casa de Bragança. Nunca esperaram que o Príncipe Regente, a rainha doente e a corte se passassem para o Brasil. Queriam-nos humilhados, agrilhoados e enviados para França, como aconteceu com os ingénuos Bourbons, que se deixaram seduzir pelas promessas de Napoleão e acabaram afastados do trono e substituídos por um dos irmãos do Corso. O projecto napoleónico para Portugal era claro. Queriam, como o fizeram com Veneza, acabar com este "fenómeno", oferecer à Espanha parte do território e inventar um Reino da Lusitânia, que iria ter às mãos de um dos generalecos ou centuriado entre a parentela do Corso. Mas as contas saíram-lhes trocadas. Ao chegarem a Lisboa, viram, ao fundo, a frota anglo-portuguesa rumando a toda a brida para o Brasil. Laura esteve em Lisboa como embaixatriz entre 1805 e 1806, fazendo o jogo de charme que depressa se revelaria inconsequente quando Portugal se recusou obedecer ao Bloqueio Continental. É desse período que nos contam as "memórias". O alvo de toda a fúria da falsa duquesa é Carlota Joaquina. É com Laura que se inicia a lenda negra da "Messalina" portuguesa - portuguesa, sim, pois nas páginas de Laura fica dito e redito que Carlota Joaquina se considerava portuguesa e nisso tinha o maior dos orgulhos - que depois se foi engrossando no mais reles panfletarismo dos anos vinte e passou para a historiografia comprometida com a causa liberal. É assim que se fabricam e desfazem as reputações. Uma palavra, uma "história", logo uma tese. Sempre que tal assunto abordo com ferozes inimigos de Carlota Joaquina, lá vem a estória das caçadas da rainha, as cartas enviadas a familiares - que fariam corar o autor de Fanny Hill - o corpo disforme, a corcunda, as fieiras dentes negros, verdes e amarelos. Se tais cartas foram escritas, foram-no de certeza por mão estranha à rainha. Aliás, o século XIX foi perito em cartas e textos apócrifos, usualmente do mais baixo nível e destinados a triturar reputações. Se Carlota Joaquina era tão medíocre, tão insignificante e tão devassa, por que razão sobre ela, ao longo de século e meio, assestaram as baterias da mais torpe difamação ? Em Portugal (como em França, como se vê), não se suporta um adversário de valor. Como no combate limpo nada conseguem, lá vem a rábula da alcova para eriçar de fogos intestinos a vil raça dos difamadores.

O que ressuma das Memórias da falsa duquesa é, apenas - não desconsiderando o valor documental do livro, parcialmente roubado a Link no que a informação sobre a flora portuguesa revela - é o retrato psicológico da casta de bandidos que tomou o poder em França.


Le Pas Cadencé