26 julho 2008

O triunfo da ética budista



Um dia extenuante, com alvorada às cinco e meia, deslocação de carro ao limite da grande cidade, onde o campo parece querer resistir à expansão da vida moderna. Um calor implacável, que tudo sufoca, obriga-nos a saltar de sombra em sombra. No imenso templo budista, com dez salas e pavilhões mortuários e dois fornos crematórios, centenas de familiares e amigos dos mortos que ali aguardam a viagem derradeira fazem os preparativos para a despedida dos seus. Monges budistas assistem cada uma das salas, cantam mantras, recitam e lêem textos sapienciais. Em torno dos caixões, embrulham-se as lembranças que serão dadas aos participantes, enrolam-se as flores de papel que cada um depositará no forno crematório quando soar a hora final, dão-se os retoques nas coroas oferecidas. Abomino funerais e sempre que me posso furtar ao espectáculo da morte, é com alívio que dele me aparto. Mas hoje era diferente. Tratava-se de um amigo e de um português caído ao serviço de Portugal nesta terra distante. Fá-lo-ia pelo maior inimigo, pois quando se trata de um português, não há mesquinha paixão da alma que se atreva interpor ao elementar princípio da solidariedade que a todos nos deve juntar.

Contudo, há dias aziagos, daqueles em que tudo parece correr mal. Uma queda aparatosa, com lenho profundo na perna esquerda pedindo ida a um posto médico, uma súbita dor de dentes - que me aterroriza mais que a morte - e a perplexidade de não encontrar português algum nas cerimónias fúnebres, deixaram-me a remoer sobre a desdita do João, que poderia ser eu ou qualquer outro português. Para suavizar a minha depressão, foi confrontado com o amor e amizade que os tailandeses exibiram pelo nosso compatriota. Vieram alunos, muitos alunos, elementos da comunidade católica tailandesa, o Fine Arts Department enviou representante, assim como a universidade onde o João leccionava. Vi muitas lágrimas e patéticos acenos de mão quando a urna entrou no escuro túnel da cremação. Como da embaixada de Portugal só estavam presentes funcionários de nacionalidade tailandesa, pediram-me que representasse o país. Fi-lo, contrafeito, pois não sou diplomata. Fi-lo, apenas, para que não se pensasse que o João fora esquecido por Portugal. Triunfou hoje, sem apelo, a ética budista. Perante ela, curvo-me respeitosamente. Afinal, o João já nela se integrara quando, nos dias que precederam o passamento, pediu que as suas cinzas fossem arremessadas ao Golfo da Tailândia, que há 500 anos assistiu à chegada da nossa primeira embaixada. A morte e a vida são coisas insondáveis. Hoje, através do João, revelaram uma ponta do mistério que a todos nos domina. Resquiēscat in pace.


Chopin: Nocturno Op. 62

25 julho 2008

A justiça é cega ou vesga ?


A prisão de Radovan e a fieira de julgamentos que têm decorrido sob os auspícios do Tribunal Penal Internacional, com sede na Haia, confirma a paulatina aceitação dos limites da soberania dos Estados, a sua impotência para punir crimes perpetrados por indivíduos que de outro modo jamais responderiam pelos seus actos em sede da justiça interna de cada Estado e a afirmação da universalidade dos Direitos Humanos. Importa lembrar aos chorosos que nele não mais enxergam que uma "vingança", que só são presentes a tal tribunal criminosos oriundos de países que assinaram e ratificaram o tratado, pelo que o processo de localização, detenção, extradição e punição dos culpados por crimes contra a humanidade só se torna efectiva com a colaboração dos governos. Objectarão muitos que tais julgamentos só são obtidos mercê da troca de favores e que os Estados amiúde abrem mão da jurisdição penal sobre indivíduos aos quais são imputados crimes de guerra e genocídio como forma de se verem livres de opositores internos. Ou seja, o TPI só labora com o assentimento dos governos, pelo que os suspeitos são ele presentes só e apenas após a mudança de regimes que alimentaram actos tidos por impróprios pelo Direito Internacional.
Historicamente, justifica-se plenamente a existência de tal tribunal, não como "tribunal dos vencedores", mas como instância que torne efectiva a assunção da responsabilização dos criminosos depois de longo processo de investigação e apuramento de factos. Aos que lembram Nuremberga e Tóquio, lembraria que os principais protagonistas desses processos não ratificaram o tratado que instituíu o TPI (Rússia, EUA, China) e que países a braços com problemas internos que podem ser inscritos nos crimes contemplados por tal tratado também o não ratificaram, nomeadamente a Índia, Israel e a Turquia. Fica, pois, descartado, o argumento do "lóbi sionista", qua tanto demagogo invoca. Contudo, o outrora forte lóbi comunista, com todas as suas cambiantes e nuances, ainda é coisa poderosa que mexe com gente entretanto reciclada e alcandorada a posições de relevo na vida política de muitos Estados saídos do jugo comunista. Se os responsáveis nazis foram condenados pelo seu crime metódico, os gestores do Gulague - cujas vítimas ultrapassam quatro ou cinco vezes aquelas trituradas pela máquina de extermínio nazi - mantêm-se fora de qualquer possibilidade de intervenção do Tribunal. Ou seja, as vítimas do comunismo têm menor valor que as vítimas da barbárie hitleriana. Ao nazismo pede-se uma justiça imprescritível; ao comunismo evoca-se o tempo que tudo lava e esquece.
O julgamento e condenação de Radovan parece cair como mel neste equívoco. A clique de irresponsáveis que levou à guerra nos balcãs e à humilhação da Sérvia é o elo fraco do que resta dessa oligarquia de bandidos, torturadores e tarados que durante décadas, perante a impassibilidade das boas consciências, fez o que bem lhe deu na real veneta. Estou certo que, mais dia menos dia, Castro e seus capangas estarão sentados na Haia. Contude, de fora ficarão, para todo o sempre, os seus grandes mandantes soviéticos.

24 julho 2008

Quando um português morre na Ásia


Morreu o João Azeredo, nosso amigo de longa data. O João estivera em Macau como professor de português, antes de se fixar na Tailândia, onde se dedicava com entusiasmo ao ensino da nossa língua e cultura numa universidade de Banguecoque. Conquistado por esta terra, aqui refez a vida, voltou a casar e dedicou o que de melhor tinha aos seus alunos. Hoje encontrei o Anop, seu antigo aluno, hoje guia turístico. Quando lhe contei a desdita do João, que já não via há anos, o Anop deixou cair duas lágrimas pelo homem que lhe ensinara a nossa língua. O João era um homem sem complicações. De fala mansa, sem alardes e sem vedetismos, lá ia caregando a cruz de uma rotina a que ninguém por Lisboa parecia dar importância, não fosse a nossa presença na Ásia um absoluto desconhecido para os homens importantes que na "metrópole" vão deixando cair, letra a letra, da Índia ao Japão, a memória multissecular da presença de Portugal no Oriente.

Com o João trabalhei em várias ocasiões. Conhecia-o há dez anos e nunca uma sombra obscureceu a nossa relação, mesmo sabendo-o acorrentado ao risco e censura de uns senhores importantes que continuam a partir, maltratar e calcinar tudo o que mexa, pense, opine e faça algo por Portugal no Oriente. Da última vez que com ele trabalhei, há dois anos, numa conferência que aqui organizou e para a qual me convidou para falar sobre a visita de Rama V a Portugal em 1897, pressenti-lhe profunda mágoa pelo descaminho do IPOR (Instituto Português do Oriente).

Já vivendo em Banguecoque, encontrei-o em Novembro do ano passado, macerado e doente, não mascarando com rodriguinhos a sorte que a traiçoeira doença lhe ia traçando. Mantivemos contacto telefónico e em Março pediu-me que interrompessemos o contacto, pois já não tinha forças para manter longas conversas. Disse-me que nos encontraríamos em Junho, nas celebrações do dia de Portugal. Não apareceu. Fiei-me na magnanimidade da Parca e agendei uma visita para Agosto. De regresso a Banguecoque, coube ao Nuno dar-me a notícia do desfecho: "o João morreu hoje e o funeral vai ter lugar no próximo sábado". O português, ao fixar-se na Ásia, morre várias vezes: morre em vida para os senhores importantes de Lisboa, morre de saudade pelo tempo, locais e afectos que para trás deixou, morre civicamente, pois aqui vai vendo, à distância, o lento apagar do Portugal distante, cada vez mais pequeno, ridículo e sem sentido. Há, queiram os não, um destino para as pátrias. O nosso destino nunca esteve ancorado à Europa. Foi no mundo e para o mundo que nos esgotámos em tormentas, naufrágios, guerras e febres. Disso não sabem nada os senhores importantes que em Lisboa vivem a Oeste de tudo isto !
Só espero que se compadeçam da mulher que aqui deixou desamparada e que, honrando o morto, se preparem - com todas as tisanas e sais - para comemorar os 500 anos de relações entre Portugal e a Tailândia, previstas para 2011. É o mínimo que se lhes pede.


Sonata para piano 27 (Beethoven)

Quando acaba o PPM ?


O Correio da Manhã confirma que o líder fadista do PPM foi a Itália encontrar-se com um fulano que se diz pretendente à coroa portuguesa. Se um e outro são, apenas, notícia para dias em que escasseiam notícias - ou seja, duas figuras absolutamente irrelevantes - , há aqui algo que nos exige um breve reparo. O mundo está cheio de lunáticos, como Rilhafoles cheio de Napoleões. Ninguém pode impedir ninguém de se afirmar o que bem entender: Joshua Norton foi "imperador dos EUA", houve um D. Sebastião "Rei da Ericeira", outro Rei de Penamacor, outro ainda, pasteleiro de Madrigal, convenceu meia dúzia de carentes antes da cair nas malhas da policia do tempo. O crédito dado a tais aventureiros - diga-se, em abono da terapia do riso, que fazem falta como contraponto à seriedade - não se deve impugnar, como também não se impugnam anedotas. As anedotas são anedotas, como a ficção - por mais verosímeis vestimentas que apresente - servem para nos mostrar um mundo de pernas para o ar. Por mais que queiram e insistam, são isso mesmo: uma facécia com os pés no lugar da cabeça e a cabeça no lugar dos pés. As feiras medievais estavam cheias destas atracções que davam lucro. Se o tal calabrês quer ser rei de Portugal - tem coroa, tem arminho, espada e trono, pronto - deixá-lo ser Rei de Portugal, como eu, embora pouco dado a megalomanias, bem poderia instituir uma ordem de cavalaria, uma religião dos adoradores do Cometa Halley ou uma confraria de bebedores de chá verde. Porém, no que toca ao PPM, mesmo que um PPM que já para nada serve, há aqui algo que deslustra uma agremiação política que foi séria, propositiva, inovadora e respeitada, pensemos o que bem quisermos do trabalho desenvolvido por Gonçalo Ribeiro Telles, Luís Coimbra, Henrique Barrilaro Ruas, Augusto Ferreira do Amaral e João Camossa ao longo de anos. Esses eram, sem reparo, homens de cultura, informados e respeitados. Este PPM é o absoluto contraponto do velho PPM, com a agravante de nem como anedota servir.


Tout va bien, Madame la Marquise

22 julho 2008

Já estou no ar

Quando estas palavras aparecerem na pantalha, já estarei de novo nos confins do mundo. A todos, um bom resto de verão. Ao V. convívio voltarei logo que passe o maldito jet lag.


Ein Matrose kamm nach Singapur

20 julho 2008

Kaisermania


O imperador que conseguiu domesticar os dados da modernidade - tecnologia, sociedade industrial, ascenso da classe média e protagonismo das massas - e colocá-los ao serviço da coroa, num arranjo intermédio entre o liberalismo e a autocracia. Fez um estilo e ensinou aos monarcas europeus do seu tempo como transformar a monarquia em orgão de Estado. Entre nós, só se poderá compreender D. Carlos cruzando o projecto reformista do decrépito liberalismo das capelinhas fulanizadas com a visão do Kaiser. Diz-se hoje, à boca cheia para quem quiser rever mitos, que o Kaiser e D. Carlos, caso tivessem logrado atingir tal programa de conversão do regime, teriam como maiores aliados osocialismo reformista e o sindicalismo. Contra eles tiveram, naturalmente, a reserva e a oposição da nova aristocracia do dinheiro. Uma biografia que exige leitura.

Wenn die Soldaten (M. Dietrich)