18 julho 2008

Angola


O interesse nacional - mesmo que misturado com negócios de amigos - é o interesse nacional. No que a Angola toca, esse interesse não é nem pode ser uma mera contabilidade na balança de transações comerciais, mas algo mais profundo, dado coincidir com a manutenção de uma presença lusófona que o Brasil, gigante sem vontade, se recusa actualizar. Fomos expulsos de Angola pela pressão conjugada da inabilidade e falta de percepção norte-americana e pelo expansionismo soviético. Depois, ao longo de quase três décadas, confundimos os negócios com o MPLA e as negociatas de diamantes com a UNITA com as relações entre os dois Estados, a tal ponto que nos deixamos envolver num verdadeiro festim canibal em que muitos dos nossos governantes sujaram a reputação portuguesa. A evidência do que as tv's debitam é que o momento chinês passou, a França não entrou, a África do Sul tornou-se rival de Angola e com ela disputa influência na África Austral. É o momento - o primeiro em 30 anos - para canalizar tanto dinheiro que no Brasil tem sido semeado, mas que não acrescenta um grama ao aborto dos abraços e juras de amor que não conseguiram, sequer, dar corpo à comatosa CPLP. Não podemos confundir as lutas intestinas portuguesas com o interesse em abrir, de novo, Angola à presença portuguesa. Angola - o PALOP que menos ama Portugal, digamo-lo com sinceridade - aprendeu com a lição dos cubanos, dos chineses e do chupismo dos europeus e está verdadeiramente motivada para esquecer os complexos de ex-colonizada. Falamos a mesma língua, temos uma história comum de meio milénio, partilhamos a mesma visão atlantista, somos complementares nos interesses económicos, pelo que não há que hesitar. Moçambique está demasiado perto da África do Sul, a Guiné Bissau não tem massa crítica, nem riquezas, nem mercado, S. Tomé é um pequeno protectorado português e Cabo Verde há muito que é, aceitem-no ou não, um segundo Estado português em África. Chegou o momento de regressar a Angola, imediatamente e em força.

17 julho 2008

Voltaire, espeto corrido e Jansenista



O mundo tem destas coisas. No penúltimo dia desta esgotante passagem pelo rectângulo, uma manhã repimpado na leitura das Cartas Inglesas de Voltaire e um almoço de espeto corrido oferecido por um ex-aluno que, sabendo-me em Lisboa, teve a gentileza de me convidar para uma herodiana comezaina de viandas. Entretido estava a destruir o espartano regime de papas de aveia a que me submeto, quando uma voz cheia de autoridade vinda de outra mesa se foi impondo à conversa de circunstância que ia mantendo com o meu parceiro. Era um grupo de juristas, pelo tom, terminologia e estilo - os juristas usam uma linguagem que parece escrita - mas desse grupo destacava-se, pelo tom assertivo mas sem autoritarismo, uma voz que comandava o ritmo e rumo da conversa. Esclarecido e enciclopédico, parecia estar a dar uma aula. Dei comigo a pensar que já ouvira - ou lera - alguém com tal gabarito. Tenho a certeza que era um nosso confrade blgosférico. Estarei errado ? Se em mim reparou, deve ter ficado espantado com o ar de turista e veraneante, mas é hoje essa a minha atitude perante o país: cada vez mais ausente e distante dos afectos, desafectos e modos da nossa terra.

14 julho 2008

Há 40 anos:eles deram a cara por Portugal








Imagens com 40 anos. Coisas de outro mundo que a já ninguém parecem interessar. Eles deram voz a uma certa ideia de Portugal que a Revolução e depois a Europa quiseram enterrar nos quintos do inferno. Enquanto assisto em directo, pela tv, à morte dessa ideia de Portugal, sinto que regredimos. Hoje já não somos um povo, mas uma tribo; já não somos uma nação, mas um país. Acabámos mal: desprezados pelos europeus, envergonhados do nosso passado, só nos resta um lugar marginal de bantustão no puzzle das pequenas negociatas em que caiu o velho continente. Saudosismo ? Não, vergonha por ver a minha pátria reduzir-se à condição de uma Sérvia, de uma Croácia ou de uma Macedónia.

13 julho 2008

Sadr city

Foi preciso vir dos confins do mundo para me aperceber da magnitude da desagregação do Estado Português. Outros desculpar-se-ão invocando os distúrbios de Paris, outros lembrarão o flagelo napolitano, outros ainda refugiam-se no lirismo de uma terra abençoada pelo sol. Nestes curtos dias em Lisboa, para além do acentuar do cinzento esgar, das comissuras desencantadas, das fachadas literalmete vandalizadas e dos prédios devolutos, dos incêndios na Avenida e do fim de festa do tão prometido arranque económico - hoje tão credível como as profecias de Daniel - dei-me conta que já ninguém manda e já ninguém obedece. As facadas da praia anunciaram os tiros num ignoto bairro social. Talvez na próxima vez assista a tiroteio no Rossio. Volto para a Ásia com a clara sensação que Lisboa, nove meses volvidos, está muito diferente, para pior. Só nos falta emular Sadr city.