11 julho 2008

A Espanha não nos larga


Inaugurou-se em Saragoça uma exposição mundial dominada, uma vez mais, pelo tema dos oceanos. Esperaram dez anos para replicar a Expo 98, não escondendo o propósito de confiscar o papel histórico que coube aos dois reinos ibéricos no processo de expansão europeia nos séculos XV e XVI. Por Portugal, entre a ignorância, a estulta "boa vizinhança" de negócios e um cada vez maior entreguismo à lógica do protectorado, não se ouviu uma voz. Não se trata de um acidente retórico, nem de Franco, nem de José Antonio, dos republicanos ou da Federação Anarquista. É um geo-comportamento, e desse nunca nos livraremos.


Isabel y Fernando

Por favor, evite autores portugueses

Entre o espanto e a fúria, fechei violentamente uma obra cuja publicação aqui anunciara há meses. Foi pela mão do meu pai - que possui uma vasta biblioteca onde se destacam o memorialismo, a biografia e o epistolário portugueses dos séculos XIX e XX - que recebi a biografia de Cecília Supico Pinto: o rosto do Movimento Nacional Feminino, da autoria de Sílvia Espírito Santo. Pensei, ingenuamente, que as coisas do Estado Novo haviam, finalmente, abandonado os arraiais do jornalismo roncante e semi-analfabeto, que a Universidade, com Rosas ou sem Rosas, mau grado Medinas e similares, se encarregara de afastar os fantasmas da paixão cega, o fanatismo pró e contra Salazar, a demonização e a santificação dos temas, lugares, figuras e factos desse longo período da nossa vida contemporânea. Mas não, está tudo na mesma. Continua a não se poder escrever, investigar, avaliar e compreender esse tempo. Exige-se aos "historiadores" comprometimento, pede-se-lhes adjectivos, ideias-feitas, lugares-comuns, catilinárias e, até, soezes insinuações; pede-se-lhes que rastejem e se desculpem pela abordagem de tais assuntos, não vão os censores e os perseguidores do espírito pensar que a eleição de tais temas transporte admiração, cumplicidade e simpatia pelo ideário de tal regime. No caso vertente, a autora, para além de incorrecções que mereciam devolução imediata da obra e pedido de restituição integral do valor (e tempo) dispendidos, chega a atingir foros de quase infantil subserviência perante o censor potencial, num jogo patético de impugnação de cada frase de Cilinha. A autora, para além da superficialidade, deficiente erudição, mau domínio das técnicas elementares da investigação historiográfica e absoluta incapacidade de se libertar da subjectividade - não falo da qualidade da expressão literária, que roça a indigência - incorre no erro judicativo: vê a história como tribunal, com culpas e culpados, julga os factos à luz dos preconceitos hodiernos, faz testemunho de vinculação política. É, sem tirar, uma história excêntrica, tão eriçada de má fé e comprometimento como o são negacionismo e o revisionismo. Cilinha não merecia tal caricatura. Os leitores - empurrados pela sugestão de tão interessante figura biografada - não mereciam tamanho embuste. A Universidade, já tão desacreditada, devia exigir um pouco mais de independência àqueles que a dizem servir. É por estas e por outras que me recuso comprar, ler e citar autores portugueses. Portugal pode-se ufanar da proeza de haver conseguido, no interim de uma geração, dar cabo de uma gloriosa tradição historiográfica que inscrevia no seu frontão nomes como Cortesão, Silva Rego, Borges de Macedo e Oliveira Marques.

10 julho 2008

Regresso após duas semanas


Uma curta ida a Portugal é um cabo de trabalhos e obrigações: documentos por tratar, assinaturas, contas a saldar, impressos há muito reclamando preenchimento, assinaturas várias e requerimento de visto de longa duração prenderam-me durante quase duas semanas a uma massa de papéis carimbados. Acresce que a familia e amigos, o mais importante de tudo quanto me prende a Lisboa, me exigiram presença para longas conversas ou simples actualização de outras deixadas em suspenso em Outubro passado, quando parti para terras do Oriente. Nestes dias passados na azáfama de repartições regurgitantes vi o que sempre vira, mas em versão acrescentada. O Estado e a sua maquinaria deixou para trás o mito do fim da burocracia e aprofundou-a, agora com mais tecnologias de controlo, mais zelo e dados. O Estado escuda-se da crise para investir forte e feio contra os segredos dos cidadãos, descobrindo as moedas escondidas sob o colchão, os vinte Euro ganhos numa aula dada nos confins de Atrás do Sol Posto, questionar a inclusão do paracetamol ou de um livro sobre borboletas no IRS, exigir a devolução de uns míseros cobres mal parados. A crise reforça o Estado e nada nada há melhor que o medo para justificar a retoma do controloeirismo e da vigilância que lhe restituem a dignidade semi-divina que se havia eclipsado nos tempos de fartura. Em tempos de crise, a única crise que não existe e atormenta é a do Estado. Cidadãos fracos e temerosos, Estado forte e agressivo. Assim foi no passado, assim o é no presente. Bendita crise !