28 junho 2008

Nos 90 anos do Madiba


Também fui dos que suspeitaram da integridade de Mandela. Via-o - induzido pelo trágico catálogo de tiranetes, antropófagos e bandidos que fizeram a história recente da África dita independente - como um homem prenhe de vingança, mandarete do comunismo e terrorista. Afinal, enganei-me. Nelson Mandela é, apenas, a excepção, daquelas excepções que redimem o conjunto e permitem a esperança. Nelson Mandela é um grande homem, como foi grande como Estadista e como político. É, sem dúvida, um dos maiores vultos da história contemporânea, muitíssimo superior a esses outros santos laicos que foram JFK, Luther King e Gandhi, pois sobre esses pesam dúvidas bem pouco simpáticas. Tenho para mim que quem vê um indivíduo vê-lhe o espírito. Nelson Mandela tresanda a respeitabilidade e possui aqueles traços de fineza aristocrática, segurança e equilibrio que só os homens superiores conseguem preservar. O Madiba salvou um país, libertou o seu povo e estendeu a mão aos brancos, que foram na África perdida como o sal que permitia a estabilidade e a riqueza. Retirem os brancos e os asiáticos de África - sinónimos de vida citadina, do funcionamento das instituições económicas e garantes do Estado - e a elite negra de colarinhos brancos será esmagada pelo proletariado do caniço. Mandela operou a transição. Perante o seu exemplo, tenho esperança que aqueles que com ele trabalharam, com o Madiba algo tenham aprendido.

27 junho 2008

Prazeres asiáticos (2): guisado de patas de pato


Guisado de patas de pato: manjar que sobrevive à repulsa inicial. Perguntou-me o cozinheiro como podemos nós, ocidentais, comer coelho, caracóis e outras imundices. Gostos !

Prazeres asiáticos (1): gelado de chá verde

"I teem chá kiéw say ho fúu, túa déng káp nóm": ice cream de chá verde, tofú, feijão vermelho e leite". De morrer e pedir por mais.

26 junho 2008

Outros reis: Reis do Butão

Jigme Dorji Wangchuck (r. 1928-1972)

Jigme Singye Wangchuk (r.1972-2006)

Jigme Khesar Namgyel Wangchuk (r. 2006- )

O Shangrila, reino fictício que James Hilton idealizou em 1925 na novela Lost Horizon, existe. É, sem dúvida, um dos últimos e quase intocados paraísos, ferozmente preservado do horrendo turismo de massas e da macdonaldização. Uma monarquia budista, de ethos tradicionalista mas extremamente lúcida na percepção das mudanças irrefreáveis que estão a mudar a face do planeta.

Afago para espíritos deprimidos: António Feijó e o Sião

Príncipe Chirapravati, um dos quatro príncipes siameses enviados para estudar na Europa
Não sei se vale a pena bater na cegueira e na surdez dos portugueses. Lembrei-me, logo, das Cartas Íntimas de António Feijó, o poeta-embaixador que desempenhou cargos no Brasil (não imaginem o que ele diz e conta a respeito dos brasileiros e dos patriotas portugueses que à época por lá viviam!). Passou depois a Estocolmo, onde foi Cônsul, depois Encarregado de Negócios e mais tarde Ministro Plenipotenciário, com igual representação em Copenhaga; escreve o bom e o bonito sobre a classe política nacional. O livro recolhe as cartas encontradas no espólio do irmão José Feijó, que foi advogado em Viana do Castelo. São cartas curiosas, carregadas de afecto e de queixas, notáveis ainda pelas considerações que tece a propósito da política nacional relatando, mesmo que ao de leve, as cunhas - a que ele também não foge - os compadrios, as quadrilhas, aldrabices, burrices, tubarãozices e outras coisas pequenas. Lá encontrei uma referência ao Sião na carta n.º 122 (CXXII) datada de 3 de Agosto (sem indicação do ano) em Estocolmo.Transcrevo-a por me parecer interessante, anotando que o Feijó acabara de chegar da Dinamarca onde fora cumprimentar os Príncipes Herdeiros que comemoravam as núpcias de prata. Creio tratar-se do depois Rei Frederico VIII c.c. Luísa da Suécia e Noruega, casamento realizado em 1869, o que atira a carta para 1894.

"Estive em Copenhague onde onde fui para representar o Governo nas núpcias de prata do Príncipe herdeiro. Regressei ontem para assistir ao Congresso dos Americanistas de que sou membro por parte do nosso governo. Já ando cansado de festas e contradanças. É um trabalho mais fatigante do que o de carpinteiro.Em Copenhague houve festas interessantes, sobretudo para mim. Nunca vi tantos príncipes juntos. Além dos do país, que são inumeráveis, havia .... um Príncipe Oriental, com um séquito luzido, irmão do Rei do Sião. Numa ceia no Palácio Real, este Príncipe veio ao pé de mim e disse-me a seguinte frase: bebo à sua saúde, como representante do povo europeu de quem primeiro se ouviu falar no Oriente! Comoveu-me por tal forma esta frase, no meio das nossas misérias actuais que tive um desejo louco de lhe dar um beijo. Nenhum Príncipe europeu era capaz de ser mais amável! Isto devia contar-se nas gazetas porque consola a gente".

24 junho 2008

Bloco Central



Dizem as boas e as más línguas que para 2009 está marcado novo encontro de governação entre o PS e o PSD. As versões gémeas do Partido Revolucionário Institucional (México) e do Partido Democrático Liberal (Japão) têm estado no poder desde 1976, ou seja, lá estão desde o tempo em que eu ainda usava calções, acreditava que havia pirâmides em Marte e lia com avidez o Júlio Verne. Os anos, os lustros e as décadas passaram, fiz o liceu e a universidade, mudei de casa duas vezes e por duas vezes mudei de país, mas eles estão lá desde 76. Vivi sob Soares, Carneiro, Balsemão, Mota Pinto, Cavaco e Guterres, mais Barroso. Sempre ouvi dizer que "agora o país ia mudar", que o futuro estava de portas abertas, luminoso, oferecendo a Portugal riqueza e reconhecimento. Assisti à betonização, ao surto das croissanterias, dos montes alentejanos e dos jipões, à ascensão dos jovens de colarinhos brancos brincando às bolsas, às novas urbanizações e às gestões e marketings. Sou do tempo dos bip's, como também o são os farfalhudos salvadores de pátrias que se congestionam às portas das duas únicas empresas empregadoras que não sofrem de problemas de insolvência, salários em atraso e limitação orçamental, competição estrangeira e listas de excedentes. A coisa dura há 10.000 dias - um número bíblico - e parece tão imenso como o tempo geológico em que se formaram os mares e oceanos, se fendeu a Pangeia e os primeiros líquens iniciaram a corrida que levaria ao cérebro de Einstein. Em Portugal, esses 10.000 dias permitiram coisas espantosas, à cabeça das quais pontifica um partido com duas bocas, quatro braços e quatro pernas, dois nomes e cérebro algum. Perdemos todas as corridas. Perdemos a corrida para a Europa, a corrida para a industrialização, a corrida para a emergência de uma sociedade civil não artificial - porque a que por aí existe se vai parecendo cada vez mais com uma indecente barganha de dinheiros, favores e isenções - a corrida para a justiça, para saúde e para a educação. Ficou só o Bloco Central mais os futebóis, essa religião civil que vai lentamente tomando conta dos afectos, dos restos de lucidez e de bom-senso inerentes à espécie humana. Outros fogos surgiram, aqui e ali, como foguetório de entretenimento em momentos em que o comatoso recobrava o espírito. Coisas importantíssimas como os crucifixos nas escolas, as interrupções da gravidez, as drogas duras e moles, as regionalizações, as coincenerações e outras magnas tarefas do razonamento filosófico deixaram de lado coisas insignificantes como a reforma do Estado e da tributação, a reforma da educação, a formação do civismo e a discussão dos futuríveis. Estamos em coma há 10.000 dias. E aí se perfilam mais 10.000.

É assim que estamos a calcetar, com paciência de coollie, o caminho para o fecho de portas.

22 junho 2008

Faz hoje 67 anos que a Europa se matou



Uma diplomacia de capa-e-espada, com simulações, kriegspielen, amadores e ideólogos de poucas leituras, muito atrevimento e absoluta incapacidade para discernir os riscos. Um regime que cavou um desastre económico chamado autarcia e que para fugir à derrocada se atirou para uma guerra que contrariava todos os avisos que o bom-senso aconselharia. Uma percepção da geo-política mundial feita de palpites, intuições e lugares-comuns, à mistura com astrólogos, delírios wagnerianos e outras bizarrias nascidas nas noitadas de insones. Faz 67 anos que a Alemanha pequeno-burguesa de Zés Ninguém cheios de si resolveu atacar a Rússia depois de já haver declarado guerra às mais poderosas forças materiais e culturais que comandavam o planeta. Uma rematada idiotia cujo preço todos pagamos, no passado, no presente e no futuro.

O povo alemão, nas suas grandezas e defeitos, não merecia, decididamente, que uma seita de lunáticos o atirasse para tal tragédia. Por mais que queiramos discernir a inteligibilidade de tal decisão, fenece-nos a capacidade de a encarar como um dado da razão, mas como um capricho, uma infantilidade e uma demonstração de quão perigosa pode ser uma decisão política de tal magnitude quando entregue a amadores. Como sempre, dado do ethos germânico, soldados da frente e a população bateram-se com uma valentia, um sacrifício e um desprezo pela morte dignos de um povo grande, que foi cérebro e coração da Europa até ao triste dia em que um homem problemático confiscou a inteligência, baniu o sentimento e os transformou em propaganda e fanatismo.
A Operação Barbarossa foi planeada com detalhe pela mais qualificada estirpe de militares oriundos da velha escola prussiana, aplicados leitores de Klausewitz e homens de grande capacidade profissional. Porém, desde os primeiros dias da invasão, um ex-cabo impôs-lhes alterações ao plano inicial. As decisões então tomadas pelo OKW transformaram a invasão numa sucessão de mudanças de ritmo, objectivos e calendário, a tal ponto que a partir de Setembro de 1941, com a guerra praticamente decidida, Hitler resolveu desviar o centro de aplicação das operações, considerando Moscovo objectivo secundário. Concomitantemente, os alemães, que haviam sido recebidos como libertadores, deram aos russos um tratamento igual ou pior que aquele que de Estaline haviam recebido, legitimando o ressurgimento do patriotismo russo e oferecendo de bandeja a Estaline uma "guerra patriótica". Não há na história militar nada que se assemelhe a tal campanha, que se iniciou com tremendas vitórias e acabou atolada na lama, enregelada pelos nevões e decomposta pela incessante guerrilha. Depois, foi o lento, sacrificado e doloroso apagamento gradual do exército alemão, sempre bem comandado, sempre valoroso, mas sabotado por um homem de capacidades diminuídas que tinha o condão de hostilizar a inteligência. A história todos a sabemos. Depois de Moscovo foi Estalinegrado, depois Kursk, depois e eclipse. O nacional-socialismo empurrou a Alemanha para a mais completa e inapelável derrota. Quando tudo estava perdido, mas quando ainda era possível negociar, saindo de cena e entregando-o a quem poderia ainda fixar os limites da derrota, quis mais: quis levar toda a Europa para a vala comum. E conseguiu-o.

Se o Euro-mundo acabou, se os EUA e a URSS entre si repartiram esferas de influência e por todo o lado a Europa se retirou das sete partidas do mundo; se a esplêndida sociedade europeia dos anos 20 e 30, com aquele toque de grandeza faustiana, se perdeu de vez, rendendo-se à risível "cultura" sem cultura, deve-o a Hitler. O homem dizia em 1933, com toda a razão, que dez anos após a sua ascensão ao poder a Alemanha estaria irreconhecível. Profético. A Alemanha, 10 anos após o advento da pequena religião, estava transformada num monte de ruínas. As bibliotecas, os palácios, as universidades, o casco medieval dos burgos, mais as catedrais, os laboratórios, os hospitais, as estações, os aeroportos - tudo o que fazia da Alemanha a maravilha de uma Europa antiga mas actuante e na vanguarda do pensamento, das artes e da ciência, acabou.

Faz hoje 67 anos que a Europa se suicidou.


Radio Superior