21 junho 2008

Os comunistas de volta


Não mais seria que uma blague se não estivessemos no Sudeste-Asiático, região quase intocada pelos ventos que varreram o comunismo da face da Terra no início dos anos 90 do século passado. Aqui ao lado, o Laos e o Vietname continuam sob a férula marxista-leninista, o Camboja tem por primeiro-ministro um antigo Khmer Vermelho, a Birmânia é governada por uma distopia socialista. Perto, nos contrafortes dos Himalaias, o Nepal tem um novo parlamento maioritariamente maoísta.

Hoje de madrugada, assistindo pela tv ao comício ininterrupto a que aludi há horas, cantou-se a Internacional. Na multidão, jovens de fardamento heteróclito, boinas à Mao, estrelas e lenços vermelhos. Com eles, incitando-os, os agit prop dos anos 60 e 70, homens e mulheres em idade declinante que terão estado no maquis comunista nos anos da luta de que o actual rei saiu incontestado vencedor no plano militar e na acção psico-social. O perigo existe, não há que ocultá-lo. A grande frente cívica anti-corrupção integra gente da extrema-direita monárquica e budista à extrema-esquerda comunista, moderados, liberais e conservadores. O denominador deste ajuntamento de forças e motivações distintas tem sido a luta contra uma democracia de partidos, mas sem a efectiva participação dos cidadãos.

Taksin, o antigo primeiro-ministro, sonhou com uma Tailândia queimando etapas. Para consolidar a sua posição na luta que decidiu travar contra o aparelho do Estado e as "forças da conservação", ensaiou uma discreta política de proteccionismo social: salário mínimo, pensões, universalidade de cuidados médicos, obrigatoriedade contratual, férias, etc. Esta acção conquistou muitas fidelidades entre o povo pequeno, mas depressa se revelaram os efeitos nefastos de tal política. Os indíces de produtividade caíram, a contratação declinou, o desemprego aumentou, a conflitualidade laboral subiu em espiral. Muitos investidores estrangeiros, entre o seguro Vietname comunista em que não há direitos e a Tailândia, onde o capitalismo finalmente se deu ares de sensibilidade social, preferem o Vietname, pois quem investe quer lucro, lucro sem problemas, rapidamente. Taksin era contraditório: assentou baterias nas forças da burocracia, pediu a liderança para os empresários, mas teve de ganhar o coração do povo, dando-lhe aquilo que sabia não poder manter.

O liberalismo à outrance é assim: tanto parece querer diluir a importância do Estado na vida das sociedades, que acaba por ser ultrapassado pelo movimento defensivo daqueles cuja existência quis fragilizar. Num país onde 80% da população se poderá considerar das classes populares, é uma rematada estupidez sonhar com acelerações bruscas no ritmo da integração numa sociedade pós-industrial. A Tailândia continua a ser um país agro-industrial, com forte sector secundário, é certo, mas com tecido social maioritariamente constituido por camponeses, operários e outras categorias não especializadas. Acicatar o povo-miúdo, atirando-o contra a classe média minoritária, tida como culpada pelas desigualdades, bem como contra a velha aristocracia, que mantém a memória cultural e a identidade do país, não vai dar a Taksin qualquer Tailândia liberal, individualista e empreendedora. Vai - pode acontecer, estou certo que pode quando o actual monarca deixar este mundo - dar aos comunistas a oportunidade de ouro para um ajuste de contas com aqueles que os derrotaram há trinta anos: a monarquia, o Exército, o clero budista e as classes empreendedoras urbanas.

20 junho 2008

A força do Povo é a força do Rei


Pergunta-me um amigo por que razão não falo de política portuguesa. Que eu saiba, nada de especial acontece em Portugal desde o tremor de terra de 1755, pelo que nada há a escrever, comentar e prever. As coisinhas da política do campanário são tão pequenas que não deixam sulco, não apaixonam nem merecem atenção. Portugal fechou-se, definitivamente, no seu pequeno mundo: um mundo sem ideias, sem novidade e absolutamente vazio. Leio os blogues e tresandam àquela triste resignação - por vezes armada de cinismo, por vezes de indignação - que outra coisa mais não concita senão um desdenhoso virar de costas.

Aqui estou no meio de uma revolução. Há um mês, cansados de corrupção, tráfico de influências, desmandos, barganhas, compra de votos e caciquismo, o que de melhor há na sociedade tailandesa resolveu montar acampamento em frente da sede da ONU, com comício 24 sobre 24 horas pedindo a mudança do regime partidocrático, o fim da impunidade dos políticos e o julgamento dos tubarões que desvirtuam a democracia e a tornaram refém de um partidismo que insulta a liberdade. A geração que esteve na dianteira da revolução democrática de 1973 volta a sair às ruas. Quer democracia, mas uma democracia que sirva o povo e não aquela facécia de democracia que engorda o gansterismo, que protege e imuniza os corruptos e corruptores e se preparava - tudo o previa - para desferir um golpe mortal na instituição monárquica, que é, como aqui por várias vezes expliquei, o grande agente de conciliação e unidade nacional. São milhares, dezenas de milhares de cidadãos fiéis ao Rei, envergando camisolas amarelas, agitando bandeiras nacionais, cantando em plenos pulmões o hino real e as canções da guerra e da paz que são património da história do patriotismo thai.

Dizem as más línguas que o Rei estará por detrás da iniciativa. Discordo em absoluto. Os cidadãos que hoje se contam já por dezenas de milhares são a nata do país, não foram arregimentados, alimentados e trazidos do campo em camionetas. São professores e alunos universitários, profissionais liberais - médicos, advogados, empresários, arquitectos - militares, monges budistas, aristocratas, pessoas com elevada preparação cívica que se fartaram dos simulacros eleitorais, das chapeladas e da decomposição do sistema democrático, agora manipulado pelo dinheiro do ex-primeiro ministro Taksin - uma das maiores fortunas do país - que da sombra dá instruções ao governo chegado ao poder há meses. Invocam os defensores do governo que este é um governo legítimo, pois produto de eleições. Sabemos que tais críticas teriam cabimento numa democracia europeia, mas aqui a maioria que dizer, quase sempre, que o partido vencedor possui a maior e mais rica máquina de condicionamento. Este governo venceu as eleições no campo, onde o poder dos caciques é tremendo. Nas grandes cidades, ou entre a classe média, é simplesmente desprezado.

A democracia por que clama a mole de manifestantes é a da soberania do povo, moderada pela soberania real. Nesta multidão não há as "forças fáticas" do aparelho burocrático e dos interesses instalados. Os interesses instalados - o poder do dinheiro, da banca, do imobiliário e da especulação - invocam a legitimidade do governo. Coisa estranha esta a do dinheiro querer falar em nome do povo, sobretudo daquele povo pobre e ignorante que da plutocracia jamais mereceu qualquer movimento de solidariedade. A única força que neste país deu dignidade ao povo chão, que a ele se consagrou, lhe deu escolas, hospitais, formação profissional, dignidade e patriotismo foi o rei, que desde há 50 anos é o baluarte dos direitos dos pequenos. É para ele que se voltam os tailandeses para, uma vez mais, restaurarem a união que, no passado, foi o instrumento da paz e da unidade.

Querem que fale de política portuguesa ? Comentar o quê ? E consideramo-nos um povo maduro. Em Portugal, este movimento democrático seria impensável. Com as primeiras chuvas, com a fome a apertar o estômago, a manifestação dissolver-se-ia espontaneamente para a bacalhoada do jantar. Aqui dura há um mês ! Diferenças ...


Phleng Sansoen Phra Barami (hino real da Tailândia)

18 junho 2008

O deus elefante




Num mundo absolutamente diverso, se pergunto a um adorador do Deus Único se presta culto ao Deus de Moisés, responde-me, quase irritado, que Phra Jao (Deus dos Céus) só há um e chama-se Shiva. Resolvido o equívoco, pergunto-lhe se acredita no Céu e no Inferno. Diz-me que não, mas acrescenta acreditar na reencarnação, nos espíritos e em demónios. Ainda não satisfeito, pergunto-lhe se o Iluminado - Buda - deve ser adorado como um deus ou seguido como um mestre. Diz-me que Buda não é deus, nasceu homem e homem morreu, muito embora, ao nascer, pudesse andar e falar com eloquência de predicador. Olho para um canto da sala: uma colorida e simpática estatueta de Ganisha/Ganexa/Ganesha, filho de Shiva e Parvati, pede-me que o intrometa na conversa. É a ele que os siameses oram em momentos de aflição, pois Ganisha é o vencedor dos obstáculos, o propiciador da fortuna e do sucesso. Os seus adoradores dão pelo nome de Ganapatyas e os budistas, sem Deus, tomam-no de empréstimo num adorável sincretismo que lembra o tempo distante em que os romanos frequentavam os templos das mais desvairadas religiões, sem nisso vislumbrarem a mais pequena nódoa de contradição. Estou em pleno mundo "ariano", em contacto com as fontes das religiões pré-cristãs . Politeísmo é assim mesmo: vários eixos, camadas de sagrado, uma distribuição razoável de esferas de acção das forças sobrenaturais, com igual peso para o simples descrédito, mas que aqui nunca se precipita do ateísmo. Não continuo a conversa. Lembro que o elefante branco é animal sagrado, que a bandeira do Sião entre 1850 e 1916 exibiu um elefante branco e que as guerras que os seus reis travam com Cambojanos e Birmaneses tinham por objectivo capturar alguns desses raros albinos.


Marcha das Crianças Siamesas (Rodgers/Hammerstein)

Explosivo

16 junho 2008

Os "fascistas" no Sião



A influência das belas-artes italianas no Sião não deixar de colher de surpresa quem, estudando o percurso histórico da transição do Estado patrimonial monárquico tradicional asiático para o Estado moderno, poderia supor que a estética do poder aqui recolhida teria entrado ou por via francesa - dada a proximidade do Camboja, protectorado francês entre 1864 e 1953, do Laos e Vietname, colónias francesas - ou por via britânica, que a sul exercia protectorado sobre a Malaia (hoje confederação da Malásia) e a ocidente impunha a Pax Britannica sobre a Birmânia.

Rama V (r. 1868-1910), o grande rei que impôs modernização a passo rápido ao Sião para o furtar à colonização directa das potências europeias, viajou por duas vezes pela Europa em visitas oficiais (1897 e 1907), aí contratando inúmeros "conselheiros" técnicos. Quando desembarcou na Itália - as suas cartas à rainha Sawapa, regente durante as suas digressões ocidentais, são a todos os títulos um monumento à perspicácia - rendeu-se perante a imponência do que por lá viu, deixando-se contagiar pelo frenético ambiente cultural cisalpino, muito marcado pelo nacionalismo do rissorgimento e pelo exoticismo. Não nos esqueçamos de Madama Butterfly e de Turandot, de Puccini, mas também não menosprezemos a influência marcante que o pobre Emilio Salgari, com os seus rajás e tigres, exerceu sobre o imaginário de gerações de leitores juvenis. Ponderados os orçamentos - os italianos eram menos caros e menos perigosos que os franceses, entranhados de revolução e republicanismo - escolheu os italianos.

De Itália chegaram ao Sião fotógrafos, escultores, arquitectos, decoradores e músicos para realizar encomendas destinadas a exaltar o trono, embelezar as praças e jardins de Banguecoque e emprestar à capital os traços de uma nação orgulhosa e independente. As estátuas equestres, os frisos escultóricos, as residências reais e da vasta parentela de irmãos, meio-irmãos, príncipes de primeira, segunda e terceira linha - ou seja, da elite de sangue que dominaria o reino até ao advento do constitucionalismo no país (1932) - mais o muralismo, o mosaico e o vitralismo, a regalia da monarquia, o mobiliário dos palácios e ministérios, tudo isso foi entregue a italianos. Entre as mansardas esconsas de Montparnasse e o luxo do Sião, onde eram tratados como príncipes, muitos criadores italianos optaram pelo distante Oriente. Por cá ficaram durante décadas, num imparável esforço de iniciativas generosamente regadas pela munificência régia.

Estes artistas italianos, ardentes nacionalistas, receberam com satisfação o ascenso do fascismo em Itália. Para a consolidação doutrinária do fascismo, importa lembrar, foi necessária a aceitação por Mussolini da dinâmica corrente nacionalista liderada por Enricco Corradini, que detinha o monopólio da direita inteligente na península, dado o fascismo, fenómeno de rua, não possuir nomes de vulto nas artes e do pensamento, com excepção para o exótico e marginal Gabriele d'Annunzio, que mesmo durante os anos do regime, cumulado de elogios e prémios, nunca deixou de increpar com aspereza o Duce.

Ora, estes decoradores italianos chegados ao Sião, pertenceriam a essa linha doutrinária nacionalista impregnada de fascismo, mas nunca se deixaram impressionar pelos aspecto socialista e pela vis multitudinária do regime, mantendo, quer durante a passagem pelo Sião, quer mais tarde, já em Itália, no desenvolvimento de trabalhos encomendados pelo Estado, uma linha de coerente apego ao nacionalismo em que se filiavam: exaltação do povo, dos heroís e guerreiros, descoberta das fontes da expressão artistica popular, do artesanato, com particular fixação pelo folclore e pela literatura oral, mas também com esporádicas incursões - amadoras - ao mundo da arquelogia, da museologia e, até, do cinema e das artes gráficas.

Em Banguecoque - ao assunto voltaremos mais tarde - persiste o único monumento à vitória do Eixo - o Anusawalli Chai Samoraphum, ou Monumento à Vitória - erigido em 1941 para celebrar a guerra franco-siamesa de 1941, que se saldou pela incorporação das províncias ocidentais cambojanas na Tailândia. Esse monumeto, executado por Corrado Feroci - que no Sião criou a Faculdade de Belas-Artes e fez-se siamês, passando a chamar-se Silpa Bhirasi - é, para os tailandesas, o "monumento ao embaraço", porquanto, três anos volvidos, a Tailândia foi obrigada a devolver aqueles territórios à França.

Entre os artistas aqui chegados, destacou-se, pelo mérito e prolifica actividade, Galileo Chini, florentino de méritos vários que se iniciara na Arte Nova. Amigo de Puccini e Mascagni - dois outros nacionalistas seduzidos pelo mussolinismo - chegou a Banguecoque em 1911, realizando importante trabalho na decoração da Sala do Trono ( Ananta Samakhom) e no ensino do cânone ocidental aos pintores siameses. Para evocar o artista, os serviços culturais da embaixada de Itália na Tailândia prepararam uma brilhante exposição, acompanhada de catálogo, que está patente no Central Chidlom desde a passada semana. Merece uma visita, pois reflecte o entusiasmo e capacidade de fazer bem que os italianos possuem. Poderá esta exposição servir de exemplo para tantos miserabilistas que por Lisboa se arrastam em queixumes, buscando evasivas para nada fazer e adiando a necessária prestação que se nos pede para, em 2011, celebrarmos com análoga decência, os 500 anos da chegada dos portugueses ao Sião.
A Tailândia foi muito marcada por essa geração de italianos. O culto pela farda, pelas medalhas e passadeiras, as coreografias do cerimonial de Estado, os hinos e marchas, tudo isso, afinal, são vestígios desse "fascismo" aclimatado, doseado pelo exotismo e incorporado por um povo orgulhosíssimo da sua identidade.