14 junho 2008

Um rei diferente


Dizem aqueles que com ele privaram que é a antítese do monarca esfígico, distante e quase-divino que a tradição do budismo theravada, com forte dosagem de elementos bramânicos, impõe. Desde a minha visita a Angkor não mais me saiu da memória o sorriso gélido de Jayavarman VII, um quase esgar de quem , convivendo com os deuses, sem jamais pisar a terra, se impunha aos seus como o representante de Shiva na terra. Nas pisadas desse rei-revolucionário, a história reservou aos cambojanos um outro sorriso, mais letal e sanguinário, que quis fazer regredir o seu povo aos confins de uma antiguidade mítica em nome do socialismo: Pol Pot. O actual rei do Camboja, Norodom Sihamoni, esteta e reputado conhecedor de dança clássica khmer, parece negar essa ancestralidade. Não é guerreiro nem político e é de uma humildade quase chocante para os seus concidadãos, durante tanto tempo submetidos aos mais extremos sacrifícios. Dir-se-ia que, com Sihamoni, o que de melhor há no budismo - compassividade, tolerância e paciência, a "Santa Paciência" que também é valor cristão - se coroam com a mansidão de um monarca que está a virar uma página na história dessa nação martirizada.




Camboja: Hino do Rei

A Irlanda


Tão desinteressado ando das coisas europeias, bem como da pelintra politiquisse portuguesa, que deixei passar em branco o resultado de uma consulta popular em que um milhão e quatrocentos mil votantes (é essa a expressão da Irlanda) chumbaram os aprofundamentos de um tratado em que já ninguém se revê. A Europa unida - o tal projecto que se distorceu com alargamentos sucessivos ao ponto de perder consistência - é hoje, novamente, uma quimera; ou seja, não se uniu pela mão de Marte, não se quis unir pela mão de Mamon e por maioria de razão deixou de acreditar nos eurocratas, essa burocracia sem Estado que parece, apenas, entretida em jogos bizantinos e na defesa de privilégios de casta. Contudo, como bom advogado do diabo, lembraria aos entusiastas do Não pelo Não que a Irlanda só se exprimiu negativamente porque julga não precisar dessa Europa. A Irlanda é rica e os irlandeses esqueceram séculos de fome e emigração, pelo que confiam na sua sorte. Há quem diga que o milagre irlandês se abeira do fim, que as primeiras físsuras deixam antever um retrocesso, senão mesmo um desastre, nas pisadas de análogo "milagre" que acometeu a Islândia e hoje se salda por um clamoroso fracasso. Estou certo que os irlandeses, logo que a crise lhes bater à porta, correrão pressurosos para Bruxelas de mão estendida. Aí se finará a rebeldia, pois, como dizia um certo estadista, a fome é a pior conselheira da liberdade.

10 junho 2008

10 de Junho na Tailândia



Wan, "portuguet" que fala a nossa língua com espantosa desenvoltura. Dentro de dois anos estará aos comandos de um F-16 da Força Aérea Tailandesa.

Os líderes da comunidade luso-descendente na companhia de alta funcionária do MNE tailandês

Embaixador e Embaixatriz de Faria e Maya, anfitriões

O hotel Shangri-la acolheu hoje centenas de amigos de Portugal para as festividades do dia de Camões. O corpo diplomático, as autoridades governamentais, alunos de cultura e língua portuguesa, muitos "portuguet" (comunidade luso-descendente) e compatriotas nossos residentes em Banguecoque emprestaram a esta noite a ilusão do encurtamento das distâncias. O embaixador Faria e Maya dirigiu-se com especial carinho aos "portuguet", comunidade católica miscigenada que tem servido com lealdade o seu rei ao longo dos últimos quatrocentos anos, mas que se afirma de um portuguesismo e patriotismo profundos que fariam corar de vergonha muitos dos nossos. Saí da cerimónia esperançado que em 2011 se celebrem os 500 anos da nossa chegda ao Sião e não surjam, como infelizmente aconteceu na Índia e no Ceilão, "imprevistos de calendário". Longe dos futebóis, com um quinteto de cordas da Marinha Real executando Abril em Portugal, Coimbra, Na Rua dos Meus Ciúmes e Lisboa não sejas Francesa, mais um soberbo jantar à portuguesa e uma Torre de Belém em gelo, ideia da nossa embaixatriz, foi um dia em cheio.

Outros 10 de Junho

Lourenço Marques, 1972

Portugal, sempre !


Povo que lavas no rio
E talhas com o teu machado
As tábuas do meu caixão.
Pode haver quem te defenda
Quem compre o teu chão sagrado
Mas a tua vida não.

Fui ter à mesa redonda
Bebi em malga que me esconde
O beijo de mão em mão.
Era o vinho que me deste
A água pura, puro agreste
Mas a tua vida não.

Aromas de luz e de lama
Dormi com eles na cama
Tive a mesma condição.
Povo, povo, eu te pertenço
Deste-me alturas de incenso,
Mas a tua vida não.

Povo que lavas no rio
E talhas com o teu machado
As tábuas do meu caixão.
Pode haver quem te defenda
Quem compre o teu chão sagrado
Mas a tua vida não.



Dulce Pontes: Povo que lavas no Rio