31 maio 2008

Encurralados


Uma tarde longa e quase dolorosa fora de casa, mergulhado no vozerio da multidão que invadiu os grandes espaços comerciais para os saldos de fim de estação. Nada comprei. Aqueles milhares de mãos, afanosas como tentáculos, apalpando tecidos, virando e revirando peças, atirando-as para um monte logo revolvido por dúzias de outras mãos, deixaram-me exausto. Incomoda-me estar no meio de tanta gente, tanto cacarejar e tanta cobiça do inútil. Incomoda-me, sobretudo, o deus multidão, que parece agir com uma inteligência de amiba, sem freio nem fim, numa sopa de criaturas cujas vidinhas se parecem satisfazer com coisas pouco maiores que ervilhas. O consumismo, o ter em formato pequenino, o querer para si como afirmação de existência, é uma praga; mais, o consumismo como entretenimento para um mundo sem alicerces, vai dar cabo de tudo. Quando o petróleo acabar - diz-se que 2/3 de tudo o que temos provém dos malditos hidrocarbonetos - vamo-nos virar outra vez para as madeiras; ou seja, acabamos com o que resta das florestas. De facto, se não há que hesitar entre a penúria e o miserabilismo esfarrapado do socialismo e o capitalismo, este último parece ser, absolutamente - com a sua veneração pelo crescimento e pela erosão dos recursos naturais - uma péssima solução para o futuro. Estão a ver os meus amigos um bilião de indianos com dois popós, seis aparelhos de ar condicionado em casa, máquina de lavar a roupa e outra para a loiça, mudança de tv's, dvd's e pc's de dois em dois anos, mais dois jornais diários, três revistas semanais, despensa a abarrotar de bolachas, sopas instantâneas, garrafeira, mais shampoos, sabonetes, loções, seis ou sete pares de sapatos (ou seja, sete biliões de sapatos deitados ao lixo de ano e meio em ano e meio) ? O mundo mete medo !
Quase me rendo ao velho malthusianismo e aos negros presságios de Paul Leyhausen.

28 maio 2008

O equívoco Baptista-Bastos



(Baptista-Bastos a respeito de Sócrates, no DN)

Não ataco Baptista-Bastos, pois tenho pelo homem - que está nos antípodas de tudo o que penso e defendo - um grande respeito. Foi ele [Baptista-Bastos] que deu a mão, visitou e esteve à cabeceira de um "fascista" (António Maria Zorro) nos derradeiros meses da misteriosa e implacável doença prolongada que acabou por vitimar um grande amigo meu. Baptista-Bastos pode ter todos os defeitos de arrogância, pesporrência, irritância, monomania e ligeireza que se lhe queiram atribuir, mas naqueles meses foi o anjo da guarda, o amigo presente, o colega de que António Maria precisava para entreter os dias do inverno de uma vida que se finava. Ao lado dele não estiveram os "católicos", os "monárquicos", os "nacionalistas", os "Mocidade Portuguesa", os ex-SNI, ex-ANI e ex-ANP. Foi um comunista. Por isso, onde quer que se mastiguem comentários sobre BB, saio em sua defesa e mando calar os poltrões.

Baptista-Bastos é um crente. Acredita no socialismo como muitos acreditam no paraíso, no derradeiro julgamento e no inferno. Baptista-Bastos já não muda, e ficar-lhe-ia muito mal sair a terreiro para defender tudo aquilo em que não acredita. Porém, a sua inteligência, a sua implacável verve crítica, a sua chama irrequieta apaga-se perante o comunismo, o maior flagelo do século XX. Se BB se libertasse da coerência, se prescindisse dos artigos de fé que o guiam, talvez se perdesse um polemista, mas ganhava a verdade.

26 maio 2008

A bagunça

Como aqui prevíramos há meses, começou a bagunça que levará a novo golpe de Estado. Este país é uma adorável caixa de surpresas.

A muralha açafrão





Os budistas theravada pouco impressionados ficaram quando, a partir do século XIV, se iniciou a pregação muçulmana, a que sucedeu, cem anos depois, a evangelização católica do sudeste-asiático pela mão dos missionários portugueses do Padroado do Oriente. Aqui na Tailândia, hoje como ontem, muçulmanos e cristãos jamais os encontramos entre os siameses, mas entre minorias étnicas submetidas a Banguecoque. São malaios, karens, shan, mhong e chineses, mas raramente siameses.


Durante muito tempo acreditei que tal facto se devesse à incapacidade que os thais demonstram na aceitação das religiões reveladas, à indisfarçável indiferença dos budistas pela existência de Deus e de um ordenamento que não brote dos dados imediatos da natureza e da consciência. Perguntava-me um amigo, budista, que diferença faz saber se Deus existe ou não, se tal busca requer a aceitação pela fé daquilo em que a nossa razão vacila e recusa. Acrescentou: se tens a percepção natural do bem e do mal, se o bem e o mal se manifestam no tempo e na vida dos homens, se estão inscritos na alma de cada homem e fazem parte dos valores das sociedades, por que não aceitá-los como evidências sem procurar, em vão, a mão que supostamente os inscreveu ?

É estranho que, não possuindo metafísica nem transcedência, o budismo haja conseguido guiar mais homens no caminho da rectidão que outras religiões que, de tão exigentes, parecem mais contentar-se em assinalar perigos e culpas que ensinar-lhes o caminho do aperfeiçoamento, do compadecimento e do amor. Esta gente é absolutamente responsável pela sua vida e não tem a respaldá-la a absolvição pelos actos praticados. Aqui, não há tribunal celestial, mas há uma contabilidade de justiça cósmica que cada homem transporta. O facto dos budistas viverem no receio de pagarem, através da reencarnação, pelos maus actos praticados, impede-os de roubar e matar. Um avassalador estudo feito entre a população das penitenciárias tailandesas confirma-o: os crimes de sangue são, habitualmente, cometidos por muçulmanos, hindús e cristãos.

Se os thais mentem culturalmente, isto é, se mentir é prática corrente, fazem-no marcados por longa tradição de servidão. Dizer a verdade é, normalmente, uma manifestação de rusticidade e agressividade. Assim, os thais jamais exprimem o que pensam, falam em circunlóquios, raramente dizem sim e nunca dizem não. É uma sociedade assente num delicado e quase insuperável jogo: quem tem poder e dinheiro protege, com paternalismo e bonomia, os inferiores; quem não possui poder e dinheiro procura um protector. A possibilidade de movimentos sociais reivindicativos neste país é uma quase impossibilidade. Aqui, o marxismo, só conseguiu recrutar a inteligentzia ocidentalizada e o liberalismo e a democracia ainda são vistos como agente de desagregação da unidade social.
Não obstante a mudança se operar a ritmo acelerado, a sociedade tailandesa parece ainda fortemente marcada pelos ensinamentos e práticas budistas. Não é de estranhar, pois, que em Banguecoque, cidade enorme - das maiores do mundo - nos encontremos diariamente com centos de monges budistas mendigando o arroz, os frutos e outras vitualhas necessárias aos templos, que os jovens ainda procurem, pelo menos uma vez na vida, integrar a vida monacal e que o ano seja marcado por inúmeros feriados e festividades budistas aos quais a população atribui relevante significado. O budismo está inscrito nas mais pequenas coisas do quotidiano. Não há casa que não possua um altar votivo, há estátuas de Buda um pouco por toda a cidade e a literatura sapiencial é das mais consumidas pela população.
Há dias, saíndo de Banguecoque, fui confrontado com o tremendo poder integrador do budismo. Cheguei a uma aldeola sem nome e ouvi mantras e cânticos. Aproximei-me do modesto templo entre os arrozais e dei de caras com centos de miúdos togados. Eram crianças de 9, 10, 11 anos, no fim das férias escolares. Os pais, em vez de os mandarem jogar futebol para o campo pelado da escola, submeteram-nos à iniciação doutrinal e entregaram-nos por três semanas à guarda dos monges. Aqui estava a prova da "quadrícula" budista. É claro que, com tal socialização e doutrinação, estes miúdos crescerão no respeito pelo legado tradicional e nunca sentirão qualquer vazio que os leve a buscar a verdade noutros quadrantes. Tudo aquilo me fez lembrar a velha Europa de há 300 ou 400 anos, onde, como afirmava um historiador francês, a impossibilidade da descrença era absoluta. Depois, vieram os libertinos e a descrença alastrou. Hoje, só se acredita na sorte do totoloto !

O inquérito filosófico na moda


Para minha surpresa, o pronto-a-revelar que tantos têm divulgado atribui-me as seguintes características. Por outras palavras, a prova que a Filosofia, para além de delicioso género literário, pouco me incomoda e seduz. Contudo, olhando os resultados, dou a mão à palmatória: a vida é o grande espelho do carácter para todos quantos a vivem activamente, deve ser conduzida para causar o menor dano a terceiros, obedecer a objectivos, ser gerida com doses iguais de equilíbrio e paixão e ser a imagem da nossa solitária responsabilidade.


Existencialismo: 70%
Justiça: 65%
Utilitarismo: 60%
Apatia: 50%
Nihilismo: 45%
Kantismo: 40%
Hedonismo: 40%
Forte egoísmo: 25%
Ordem divina: 20%