16 maio 2008

O isolacionismo asiático

"Excessiva auto-confiança, fanatismo e um vago sentimento de inferioridade; por vezes, doentia preocupação com o status nacional (...)".

(Ian Buruma, Inventing Japan)

Buruma não fugiria à verdade se ampliasse tal juízo aos asiáticos em geral. Teimosos, quase casmurros em questões envolvendo a imagem que de si construíram, persistentes e esforçados até ao paroxismo, inflexíveis e até suicidas na defesa de uma coerência que os leva a desastres pessoais e catátrofes colectivas; assim são, nas qualidades dos defeitos e defeitos das qualidades, os asiáticos. A tendência para a fuga, para o não-diálogo, o encerramento em torres de marfim de uma tradição por vezes mortal, a total ausência do sentido das proporções e um medo profundo pelo vazio, transformam a Ásia em paraíso de regimes longevos.



Não que os norte-coreanos, os chineses, os birmaneses, vietnamitas e laocianos amem os governos que os subjugam, mas entre a incerteza do que poderá vir e a evidência do que têm, preferem não correr riscos. Andam por aí os habituais messias da boa nova, dos direitos e da liberdade a escrever torrencialmente sobre o estúpida casmurrice do governo birmanês em recusar a ajuda internacional às vítimas do ciclone que devastou o país. Ignorantes da psicologia asiática, os senhores jornalistas repetem a respeito da Birmânia o que já escreveram e disseram a propósito do Sudão, do Zimbabwe de Mugabe, da Cuba de Fidel, do Paraguai de Stroessener, do Portugal de Salazar, da Espanha de Franco, da Albânia de Hoxa e da Bielorússia de Lukashenko. Contudo, se o isolacionismo é uma escolha ou uma imposição, o absoluto fechamento parece ser um comportamento enraízado nas culturas asiáticas, e nos termos em que se nos apresenta na Birmânia parece ser exclusivo dos asiáticos.



Atrevo-me fazer de advogado do diabo e atentar nas causas dessa atitude. Lembro que o Japão esteve duzentos anos de costas voltadas para o mundo, que a China se recusou olhar para fora e sacudiu quaisquer contactos de estrangeiros com o seu mundo, que o Sião esteve, entre 1688 e 1855, virtualmente em voluntária clausura, que a Birmânia, atacada e repartida, uma, duas e três vezes pela Grã-Bretanha ao longo do século XIX, persistiu em cultivar um modelo que acabaria por a transformar em província do Raj Britânico e que o Tibete absolutizou a rejeição do mundo exterior até ser forçado a negociar sob ameaça dos obuses e metralhadoras britânicas.



Motivos para tal atitude ? O medo ante o Ocidente ? Um vago complexo de inferioridade que se satisfaz com a auto-exclusão ? Ou não será, antes, uma formidável capacidade para pensar o seu mundo - pequeno, pobre e atrasado - não como uma fatalidade, mas como uma força ?



Lembraria aos senhores jornalistas e demais divulgadores que o mundo, na tradição confucionista sino-cêntrica como na budista, é reprodução da ordem cósmica. Quem estiver fora da civilização - ou seja, quem não viver de acordo com os ensinamentos de Buda ou não prestar culto aos antepassados, não colaborar com o seu governo e não o servir - é como o animal da floresta, um não-humano, sem direitos e sem deveres. Discutiu-se durante muito tempo o "despotismo asiático". Na Ásia, com efeito, a liberdade no sentido ocidental, é coisa não estimada; é, até, coisa maldita. Os asiáticos nunca tiveram regimes sociais em que a distinção entre "homens livres" e não-livres se manifestasse como dicotomia conflitante. A liberdade, como a vemos no Ocidente, funda-se no indivíduo. Ora, para os asiáticos, a sociedade prevalece sobre os indivíduos. Se o indivíduo pensa contra a sociedade, se se rebela contra as autoridades, se manifestar intenções de trazer o caos exterior para a ordem da "Mandala", deve ser punido.



Os governos asiáticos conhecem os limites das fronteiras dos Estados, conhecem a representação do mundo que Mercator vulgarizou, conhecem a lei internacional, as relações internacionais, as regras da diplomacia, mas tal não significa que tenham abandonado a sua visão do mundo. Esta, estende-se em círculos concêntricos, do centro para a periferia da Mandala, perdendo força quanto mais se afastar do "centro/umbigo do mundo" que é capital política.



Questionarão alguns a eficácia deste modelo interpretativo, lembrando que os regimes isolacionistas asiáticos são precisamente aqueles que levaram ao extremo a aceitação do Ocidente, ou seja, transformaram-se em laboratórios do experimentalismo social, do "novo homem" e do fim da história que o marxismo transporta. Pergunto se tal aceitação do marxismo foi circunstância ditada pela necessidade de lutar contra o Ocidente - invocando a teoria da exploração e aplicá-la à relação entre colonizadores e colonizados - ou se não será o marxismo, no seu colectivismo, no seu monismo linear e reducionismo, o melhor sucedâneo para a velha cultura social asiática ? Estou certo que o governo birmanês tem os dias contados, mas estou certo, também, que na Ásia nunca as democracias ocidentais terão outro valor que uma cosmética destinada a manter aquilo que força estes povos a relacionarem-se com o mundo dos "bárbaros": o comércio.

13 maio 2008

Nada na vida é a brincar

Há quem pretenda ver em tudo oportunidade para voltar aos calções, às espadas de plástico, aos revólveres de fulminantes e às acrobacias no ramo do limoeiro do quintal. Há quem acredite que ensinar os adultos a "reaprenderem" a magia do mundo infantil lhes garante a felicidade, a desinibição e a espontaneidade roubadas pelas borbulhas, pelo buço da puberdade e pelos primeiros ventos existenciais. A procura desesperada do Paraíso Perdido, quando praticada como doutrina antropológica e programa para as instituições que preparam os indivíduos para a assunção de responsabilidades perante terceiros é, mais que baldado esforço, um perigo para a segurança colectiva. Os Estados e as sociedades assentam em obrigações, deveres inculcados e irrenunciáveis privações e os indivíduos só o são se a tal se conformarem. Sabemos que custa, dói e por vezes há que pagar elevado preço pela maturidade. É por isso que os homens são desiguais: há os que investem no trabalho, no estudo e na obra e há os que vivem na procura insaciável de divertimentos. Ouvi ontem um desses pedagogos do facilitismo e do "ludismo" falar sobre experiências pedagógicas revolucionárias, em escolas onde se aprende a brincar e brinca aprendendo e onde até os professores se transformam, eles também, em alunos dos seus alunos. Claro está, o pedagogo-demagogo era homem dos seus 60 anos, da geração do Não à Guerra, do Make Love not War e do cannabis. Nasceu no boom económico do pós-guerra, teve o Estado algibeiras-sem-fundo a alimentar-lhe as lutas e pedradas no campus universitário, as férias pagas, o primeiro emprego aos trinta anos, os anos perdidos na universidade paga pelos contribuintes, o "rendimento mínimo", as bolsas, hospital de graça, subsídio de desemprego ou mesada. Aquilo foram trinta anos de forrobodó. Agora, o Ocidente está pobre, mas eles não aprenderam a lição; pior, transformaram-se em líderes e dominam o Estado, o ensino, a saúde, a assistência social e a comunicação social, são amigos dos banqueiros, influenciam os governantes e vão, alegremente e a brincar, hipotecando o nosso futuro.


Quando cheguei à Ásia, inscrevi-me numa escola de línguas asiáticas adepta de tais brincadeiras. Claro, a instituição é americana e os senhores que dela vivem são naúfragos da geração de ouro. O lema inscrito no portal, flamejante como uma mentira, rezava: aqui não há testes nem avaliação; aqui brinca-se e é a diversão que ensina. Ao fim de três meses dei comigo a questionar-me sobre os resultados de tal pilhéria. Não havia aprendido nada e só me martelava a cabeça o dinheiro gasto e as horas diárias ali enterradas. Mudei. Em dois meses passei a falar com desembaraço uma língua asiática, não pelo método faz-de-conta, mas à custa de noitadas de vigília, gramática, exercícios de escrita e pronúncia, testes e exame final. O curioso de tudo isto é que sinto uma alegria incontida, uma curiosidade crescente pela língua desta terra na descoberta da sua inteligência, das suas subtilezas e até equívocos intencionais. O estudo - como qualquer empresa - custa, mas só deste sacrifício retiramos proveito pessoal que a sociedade retribui com o reconhecimento pelas canseiras. Moral da história: nada é a brincar, nem o jogo do Monopólio, que é cruel batalha pela posse do tabuleiro. Jogamo-lo com os amigos, com gargalhadas e um copo na mão, mas não deixa de ser uma frenética luta pelo sucesso !

11 maio 2008

Síntese luminosa

Nós não pensamos o "Estado"! Vai para muitos anos que a noção-Estado não existe em Portugal. O Estado é a "alma" de uma nação, um elo agregador. Nós deviamos "ver" através do Estado. Mas ao invés, o Estado (este!) cega-nos. E a nossa existência faz-se, então, numa deriva – "guiados" através da luz facciosa deste sistema político que nos segreda: vês? Já és "livre"! És "igual"! Vai! – E vamos para onde? (JB)