10 maio 2008

Os PRECS de todo o mundo


Furet, um arrependido, exconjurou a defunta paixão pelo marxismo escrevendo, em 1995, Le Passé d’une Illusion, comprovando, como o fizera anos antes com outro trabalho que criara igual escândalo entre os “intelectuais” (Penser la Révolution Française), a tese da inutilidade das revoluções. As revoluções, todas as revoluções, fundam-se no mito da inevitabilidade e de supostas “leis” que regem os comportamentos colectivos, desculpam-se da violência extrema que as caracteriza invocando uma “inteligência” social jamais confirmada. No fundo, o mito da Revolução assenta na crença [substitutiva] de uma ordem anterior e superior aos acontecimentos e aos homens singulares, numa inversão da metafísica própria do tempo das religiões, através da qual se institui em objecto sagrado e incapaz de se pensar. Ainda hoje, a Revolução - mau grado todas se terem afundado no absurdo da contradição e algumas haverem sido, absolutamente, o contrário do enunciado de valores invocados - continua a constituir terreno vedado. Este tabú reside, a meu ver, no facto de a todas ser inerente o fracasso e de a todas ser comum, não a superação do tempo passado, mas o lento regresso à ordem pré-revolucionária, havendo até aquelas em que tal regresso se expressa pela imposição de uma ordem social e económica roçando formas há muito mortas. Assim o foi na Rússia, que passou de uma autocracia czarista em busca de reforma liberal para a plena destruição da sociedade civil e, logo depois, para a restauração da servidão há muito abolida pelo cazarismo. Assim foi na China, onde a ordem política e jurídica, antes veículo de ascensão social pelo mérito, foi apossada por elementos sociais desclassificados, fazendo regredir o poder a formas de poder nú e expeditos próprios de sociedades pré-letradas.

Encontrei há dias um grupo de norte-coreanos que aqui a Banguecoque veio para participar num colóquio sobre história asiática contemporânea. Visivelmente diminuídos e privados daquele conhecimento elementar que se exige a pessoas vivas, posto que presos a esquematismos e medos que de todo compreendi, mostraram-se incapazes de discutir. Questionados sobre a sua revolução, recorreram ao requisitório contra os "inimigos". São assim as revoluções. Passam os primeiros dois ou três anos a destruir tudo o que encontram pelo caminho, outros dez ou quinze a reparar o mal feito e o restante tempo da sua infeliz existência a procurar desculpas pelo tempo perdido. Portugal também teve a sua revolução e é hoje elemento de toda a evidência que tal PREC nos impossibilitou de aderir à Europa, de construir uma nova ordem política liberal e democrática, de libertar os portugueses e restituir-lhes o direito a voz, consciência e autonomia. Só quando esse tempo passar, poderemos pensar seriamente na adesão à comunidade das nações sem preconceitos e sem contas a ajustar com os seus fantasmas. Como poderemos pensar a liberdade quando continuamos a ser governados por pessoas que foram comunistas ? Como poderemos pensar a prosperidade e a iniciativa individual quando a propriedade, o lucro e a inciativa privada ainda são tidas como agilidade inerente a especuladores, arrivistas sem escrúpulos e exploradores ? Como poderemos pensar o Estado enquanto este for encarado como troféu de um grupo portador da legitimidade da conquista e manutenção do poder pelo processo revolucionário ? Assim não vamos a parte alguma.

08 maio 2008

Do bom luxo asiático




Banguecoque, Gasornplaza
O bom gosto discute-se, sim senhor. É daquelas coisas que se afirmam por si e se conhecem por intuição. Os tailandeses, como os japoneses - porque os chineses têm um mau gosto infuso, que se precipita, ora no plástico, ora no grande e caro - detêm essa qualidade que na Europa só encontrará equivalente entre os italianos, pois o "chique français" soa a artificial. Não é o ouro que faz o bom produto. Às vezes, uma ave em papel e um espaço vazio enchem mais que os mais rutilantes mármores.

06 maio 2008

Da não-história das plutocracias e dos militarismos

Abro a CNN e só me chegam ecos de magnas preocupações fiscais, do movimento bolsista e de medos sobre as ramas de petróleo.


Se Xenofonte, Aristóteles, Plutarco ou Tucídides não a tivessem idealizado e canonizado como quinta-essência de uma sociedade imóvel e fechada, dela nada teria ficado. Esparta viveu encerrada no analfabetismo: sem literatura, sem leis escritas e registos historiográficos, sem belas-artes, teatro e música, foi a negação do Fogo Grego. Ali, tempo, pensamento, dúvida e indagação não contavam. Como Esparta, assim também foram os Citas, os "Povos do Mar", os Dórios e tantos outros lembrados pelas devastações provocadas entre povos cultos, sedentários e empreendedores. Dominados pela acção e parasitas do trabalho, do engenho e riqueza daqueles sobre os quais se lançavam, foram estimados, sobretudo, por autores que neles decantaram uma humanidade sem freio e livre daqueles bons preconceitos que tornaram possível a civilização. Os intelectuais, as criaturas que mais sublimam o poder, a força e a violência, elegeram-nas como tópico para a cerrada crítica à habitualidade, ao amor pela paz e à estabilidade.
Do mesmo modo, se Romanos, Chineses e Khmeres por elas não tivessem exibido um quase mórbido fascínio, Cartago e Srivijaya, os dois maiores exemplos de plutocracias da Antiguidade Clássica do Ocidente e Ásia, hoje pouco ou nada nos interessaria a sorte dessas sociedades inteiramente mobilizadas pelo dinheiro e pelo lucro. Quando há anos visitei Cartago, dela pouco ou nada vi para além da Cartago romana, pois que da Cartago semita não mais restam que patéticos tofét, umas estalizinhas medíocres e muitas ânforas. De Srivijaya, finalmente liquidada pelos javaneses no século XIII, não há nada e os historiadores travam inconsequentes polémicas sobre a localização da capital de tal mítica entidade.
Temo que o Ocidente de hoje , bem como os aclamados ricos tigres da Ásia, tenham regredido à condição de Srivijaya e Cartago !