12 abril 2008

A caminho da estrada da morte


Interrupção por três dias. Estarei pelas cercanias da Ponte sobre o Rio Kwai, palmilhando sendeiros que testemunharam um dos mais conhecidos dramas do século XX no Sudeste-Asiático: a conversão dos orgulhosos soldados do império britânico em trabalhadores forçados dos japoneses. Uma viagem simbólica ao começo do fim do homem branco na Ásia.

11 abril 2008

O discreto charme do colonialismo




Este país não foi ocupado e colonizado, nem se converteu em protectorado, não teve um "residente" estrangeiro ditando ordens nem viu hasteda bandeira que não fosse a sua. Contudo, não se fechou teimosamente, esperando a retaliação certa da boca dos canhões das canhoneiras ou o crepitar das armas de repetição. Serviu-se de um estratagema. Como Estado-tampão entre a Indochina Francesa e o Raj britânico instalado na Índia-Burma e na Malaya, fez de cordeiro entre o leão e o agressivo galo, cedendo a um para inveja do rival, enquanto ia afagando o orgulho de um e outro. Assim se manteve, quase de cócoras, durante meio século, entre 1851 e 1900. Sabendo que o imperialismo se nutre de negócios e que na ordem imperial são os cavalheiros dos bancos e das oportunidades que fazem a agenda da diplomacia, da guerra e, até, dos mais nobres sentimentos filantrópicos - "acabar com a escravatura", "acabar com os vestígios do despotismo", "levar as luzes, a ciência, a medicina e a tecnologia aos bárbaros" - resolveu travestir-se em obediente aluno. Abriu portas aos gananciosos que ditam ordens e espalham presentes entre os políticos, cedeu-lhes iniciativa e monopólios na banca, nos transportes, na construção de vias de comunicação, cobriu-os de medalhas e casas apalaçadas, fê-los sentar-se à mesa do Rei e até lhes atribuiu títulos de nobreza. O Sião sobreviveu à era do Euro-mundo, mas mudou tanto que passou a assumir o seu filo-ocidentalismo como coisa do seu sangue. Passeando por Banguecoque, vou fotografando os vestígios dessa sociedade da Belle Époque em que os estrangeiros, gozando as delícias da extra-territorialidade e dos "tratados desiguais", viviam nas sete quintas de um Oriente que os tratava como pequenos deuses, entre negócios da China, drogas de Burma, tecas de La Na e encomendas de fazer corar Crésus. Mas o Sião mutilado, aluno exemplar e cumpridor, com os trabalhos de casa irrepreensíveis e assiduidade sem reparo - o Sião que se fez capitalista e até constitucional, que aboliu a servidão e fez dos camponeses cidadãos com partidos e tudo - fez-se forte com a provação e é hoje, passada a era europeia, um dos principais parceiros dos EUA. Lição: os países devem vender a alma ao Diabo, se tal se impuser como condição para a sobrevivência. O Sião mudou quase tudo, mas secretamente não tocou no essencial. Este país continua a viver segundo o ritmo do pensamento do seu Rei e os jovens continuam a afluir aos templos para a tonsura monacal e a mendicância que o trajo açafrão impõe, os altares continuam incandescentes com tanta vela e tanto incenso e pela manhã o país inteiro põe-se de cócoras para rezar pelo seu chefe. Há negócios, há farangs investindo e vivendo como nababos, há multinacionais em cada esquina, mas a Politéia mantém-se centrada no Dharma budista. Nós, Portugueses, seguimos o caminho inverso: tudo fizemos para deixarmos de ser portugueses no essencial e provincianamente investimos no acidental. É por isso que chegámos aos umbrais desde milénio sem fé no futuro, sem respeito pelo passado e odiando o presente.

10 abril 2008

Banguecoque Católica: Vicariatus Siamensis Orientalis


Igreja de Assunção, em Bangrat, sede da Arquidiocese de Banguecoque desde 1841, de estilo neo-românico lembrando a presença dos padres da Société des Missions-Étrangères. Edificada em 1905 pelo bispo Jean-Louis Vey, que foi grande animador do ensino confessional no Sião e fundador do Hospital de S. Luís, hoje dos melhores do país.


O Padre e mártir Nicolau Bunkerd Kitbamrung (1895-1944). Ordenado em 1926, foi professor de língua thai dos missionários europeus e desenvolveu actividade no Norte e Leste do Sião, onde aplicou eficaz metodologia visando a adaptação da predicação aos usos e costumes locais. Em finais da década de 1930, sob a ditadura fascizante de Phibun Songkhram - que declarou luta sem quartel a todas as minorias étnicas e religiosas da Tailândia e aproximou o país da esfera de influência nipónica nas vésperas da Guerra do Pacífico - Nicolau Kitbamrung foi alvo da acção do partido Sangue Thai, variante local de um fascismo siamês que desenvolvia intensa actividade sob o lema Um Povo, Uma Religião. A perseguição aos católicos conheceu momentos de grande violência traduzida no boicote aos estabelecimentos comerciais católicos, recusa em vender-lhes géneros de primeira necessidade, interdição do acesso nos transportes públicos, despedimento de todos os católicos trabalhando em empresas propriedade de budistas e privação de direitos de cidadania. A denúncia pública de todos os que professavam uma religião considerada inimiga do Estado, a elaboração de listas com nomes, morada e bens patrimoniais de "inimigos da Nação" precedeu a acção directa dos bandos armados. Escolas encerradas, residências saqueadas, estátuas, crucifixos, paramentos e livros litúrgicos destruídos. Com as igrejas vandalizadas e privadas de meios de comunicação social, as autoridades eclesiásticas lançaram insistentes apelos ao governo, mas este nunca esboçou qualquer atitude de protecção. Depois, deu-se início à decapitação da Igreja Católica, molestando sacerdotes ou matando-os se não abandonassem as suas áreas de actividade. Primeiro nas remotas províncias do Leste e Norte, depois em Banguecoque, a detenção e desaparecimento de padres passou a ser normal ocorrência quotidiana. Em 12 de Janeiro de 1941, chegou a vez do Padre Nicolau. Detido sob a acusação de espionagem ao serviço da França, foi submetido a humilhações que incluiam o completo corte do cabelo, detenção em cela com prisioneiros de delito comum, privação de banho e comida e trabalhos forçados em arrozais. Sentenciado em 15 anos por crimes contra o Estado, foi encerrado numa penitenciária insalubre onde os detidos depressa contraíam doenças mortais. Pressionado a abjurar com a promessa da liberdade e da vida, Nicolau recusou todas as ofertas e morreu de tuberculose em 12 de Janeiro de 1944. Em Janeiro de 2000, João Paulo II assinou o decreto reconhecendo o Padre Nicolau abençoado e mártir. Foram-lhe rendidas homenagens pelas autoridades tailandesas.

Primeira residência em alvenaria do Bispo de Banguecoque, hoje sede da Imprensa Católica tailandesa.


O Colégio de Assunção, uma das melhores escolas secundárias de Banguecoque, considerada modelar no ensino das ciências e humanidades e conhecida pela proficiência no domínio das línguas estrangeiras ensinadas aos seus alunos. Possui orquestra, estúdios de gravação e excelentes installações onde decorrem sete dias por semana actividades extra-escolares.

07 abril 2008

Pensar grande, fazer grande

A clara demonstração do savoir-faire, da libertação do medo de falhar e do hesitante constrangimento que tantas vezes mata à nascença os projectos mais arrojados; um claro sinal para quantos, temerosos e sempre envergonhados, vão dando cartas à atrevida iniciativa de outras linhas e escolas de estudos orientais. O simpósio sobre Tomás Pereira, agora finalmente anunciado, visa lançar luz sobre uma das figuras mais fascinantes da presença portuguesa na Ásia e reune a nata dos orientalistas, contando com a colaboração do Instituto Ricci, do Instituto do Oriente, do Institutum Historicum Societatis Iesu, da Fundação Oriente e do Beijing Foreign Studies University. Triunfo notável que pode servir de exemplo para futuras iniciativas visando recuperar o tempo perdido por comissões e sub-comissões sem chancela académica que têm deixado passar em branco as efemérides mais marcantes da abertura da Ásia ao mundo. Depois dos clamorosos fracassos das não-celebrações na Índia e Sri Lanka, e quase adivinhando análogo fracasso para 2011, ano em que se deveriam celebrar os 500 anos da chegada dos Portugueses ao Sião - a mais velha relação entre um Estado europeu e uma potência asiática - aqui fica a advertência para quem, ocupando funções no aparelho governamental, possui ainda tempo para não deixar repetir tais vergonhos falhanços.