05 abril 2008

Cepticismo: por fim, Tennyson

Há muito que deixei de investir nas pessoas; corrijo, só nelas me aprofundo após prova de absoluta sanidade, atestado de serenidade, limpidez de intenções e coração limpo, urbanidade e lealdade. Em suma, abandonei em definitivo a idade em que, tardiamente, persistia em equivocar-me perante um sorriso, uma palavra amável ou um elogio. Os poucos amigos que tenho censuram-me o bisonho semblante, a falta de habilidade para o convívio, a sempre esperada recusa para um jantar, o aparente desinteresse pelas doenças e operações alheias, as conversas sobre terceiros [ausentes], a indisponibilidade para "engrupar", o gosto pelo isolamento. Posso falar durante horas, rir-me a bandeiras despregadas, brincar, anedotar e, até, fazer a rábula do palhaço, mas só o faço com quatro ou cinco amigos, familiares ou aquelas raras pessoas que, não sendo amigas, ainda me permitem obedecer ao conselho da intuição. Estou absolutamente convencido do desperdício da forma imediata do gregarismo - aquela para a qual nos empurra a solidão - bem como daquela chamada amizade que esconde um interesse, um negócio ou um pedido. Não fossem as poucas evidências em contrário, fiar-me-ia incondicionalmente na ideia de amizade dos asiáticos: os verdadeiros e únicos amigos são aqueles que transportamos desde a infância; os outros, não são amigos mas pessoas que recrutamos para objectivos de natureza profissional ou política. Assumo ser uma perda não poder franquear o coração e a confiança a tanta e tão boa gente que porventura pulula à minha volta, mas estou demasiado ocupado com o tempo que me resta para fazer qualquer coisa que desculpe a existência que fui arrastando. Descobri Tennyson, depois de me cansar da rudeza de Schopenhauer e do infantil egotismo de Nietzsche. Aquele homem de olhar distante e perfil bíblico parecia aguardar há muito que o visitasse. Foi um choque, como quem vai a um quiromante e na mesa do baralho de cartas nos contam tudo o que sabiamos mas não ousaramos ver. O cepticismo é, sem dúvida, uma bela escola !

03 abril 2008

Banguecoque: magia da música luso-brasileira do século XIX

A Embaixada de Portugal em Banguecoque foi hoje cenário para um magnífico recital de piano de Paulo Zereu, um virtuoso do mágico instrumento e amigo que finalmente revi após ano e meio. Sala replecta, com o corpo diplomático em peso, altas autoridades civis e eclesiásticas e muitos amigos de Portugal neste distante Sião para ouvirem os grandes compositores portugueses e brasileiros da passagem do século XIX para o século XX. Um repertório escolhido criteriosamente - Ernesto Nazareth, Heitor Villa-Lobos, Francisco Mignone, António Lima Fragoso, Vianna da Motta e Óscar da Silva - lembrando aos presentes a universalidade da música e a plena integração da cultura musical luso-brasileira nas coordenadas e correntes do seu tempo. À minha frente, uma holandesa esgalgada sussurrava a cada instante para a sua parceira: "isto é Lizst, isto é Chopin, isto é Satie, isto é Rachmaninov". Tive ganas de lhe perguntar se a língua destaramelada que fala é um idioma ou uma doença de garganta. Dei-me por contente ao verificar que a música clássica portuguesa e brasileira não se confinara ao reduto do isolacionismo, que transpirava as influências e estéticas do tempo e que é hoje tão audível como os trabalhos dos mais afamados ícones da música civilizada. Após o recital, o Embaixador de Portugal ofereceu a todos os presentes um CD editado pela Steinway & Songs, gravado na University of Assunption of Thailand e patrocinado pelas Embaixadas de Portugal e Brasil na Tailândia. Foi uma noite diferente, encerrada com o simpático convite do Embaixador Faria e Maya para um Porto de honra nos jardins do belo palacete da nossa representação diplomática. Ao terminar o beberete, a holandesa esgalgada, no meio de um círculo de convivas, parecia ainda procurar argumentos para minimizar a magia que persistia em largar o edifício. Velhos inimigos, peritos na arte da pirataria e do comércio, nunca por nós deixaram de manter o fogo velho de ódios que teimam. Aqui no Sião ficaram os filhos, netos e bisnetos dos aventureiros de Quinhentos e Seiscentos, ficaram as ruínas dos templos, as receitas gastronómicas e a lembrança do tempo passado das naus do trato, das lutas e guerras em que fomos, sempre, indefectíveis amigos desta gente. A música de Zereu fez lembrar essa marca. Pena é que nas Necessidades ninguém ligue a tais insignificâncias !


Heitor Villa-Lobos: Nesta Rua

01 abril 2008

Mitos & guerras


Foi argumento decisivo para inculcar a inevitabilidade da derrota militar e, consequentemente, para desculpar todas as patifarias feitas nas costas dos portugueses europeus, as patifarias decididas contra os portugueses ultramarinos e a supina patifaria de entregar países e povos a semi-analfabetos com declaração abonatória de marxismo-leninismo exarada nos cursilhos de Pequim, Moscovo, Sófia e Belgrado. "A guerra de guerrilhas não se vence". Rematado disparate, como se qualquer guerra, colisão de forças e vontades, não termine, sempre, com a vitória de um dos contendores. O labor dos historiadores isentos e indiferentes às paixões que devoram os políticos e simplificadores faz-se pela investigação, pela comparação de fontes e pela legibilidade dos acontecimentos e suas consequências. Ora, se o movimento das independências africanas e asiáticas se manifestava como uma tendência do redesenho das esferas de influência no fim de um conflito mundial em que a Europa se consumiu, permitindo o ascenso dos EUA e a expansão da União Soviética, nas derradeiras lutas coloniais travadas por holandeses, britânicos e portugueses, os exércitos coloniais não só contiveram a subversão, como triunfaram sobre os seus adversários. A comprová-lo, a derrota dos seguidores de Sukarno, o esmagamento dos Mao Mao pelos britânicos no Quénia e o colapso da guerrilha comunista malaia. Até a França esteve a minutos de destruir as forças do Vieth Mihn em Dien Bien Phun, se o pedido de apoio requerido por Paris à esquadra norte-americana do Pacífico tivesse sido deferido. Porém, nos anos 50, os EUA eram ardentes defensores dos "ventos da história", pensando poder dominar, em modelo Filipino retocado, as vastas regiões abandonadas pela retirada da Europa. O encantamento exercido pela propaganda marxista não resiste a acareação, mas naquelas décadas em que o comunismo se apresentava com a legitimidade da vitória, a simples tentativa de contestação ou impugnação daquela argumentação infantil incorria em perigosas consequências. À força de tanto se repetir a banalidade, esta ganhou raízes de doutrina. Agora, apaziguados os ânimos, surgem os primeiros trabalhos de vulto sobre esses derradeiros momentos da presença imperial europeia na Ásia e África. Nestas Forgotten Wars comprova-se a tese da impossibilidade da guerrilha em destruir exércitos modernos, bem equipados e profissionais. Uma obra indispensável para os nossos memorialistas da "guerra colonial".

Geheimnis