29 março 2008

Monarquia e soberania popular

O novo rei do Butão, Jigme Singye Wangchuck, decidiu consultar o país. Não outorgou uma Constituição; não a impôs nem se impôs. Perguntou, apenas, aos seus súbditos se queriam manter a constituição histórica do reino, fundada na tradição e no Dharma, ou se com ele [rei] queriam partilhar a soberania, afeiçoando-se ao tempo que corre. O corpo eleitoral rejubilou e a partir de hoje o pequeno reino dos Himalaias, governado pelo partido Paz e Prosperidade, é uma monarquia constitucional. Nas monarquias constitucionais, a soberania é partilhada pelo rei e pelo povo: o rei detém o poder moderador, é garante da unidade nacional, das liberdades e da lei, enquanto aos representantes do povo cabe produzir leis, exercer a administração e aplicar políticas. A grande lição desta adesão do Butão à fórmula respeitadora da vontade democrática estriba-se na evidência que as monarquias são capazes de se adaptar à mudança e constituem forte agente de paz social. Negar o tempo que passa, pretender ver no rei um chefe político, persistir na ficção de uma representação orgânica assente em corpos intermédios que deixaram de exprimir a realidade social ou conceber a instituição real como património de um homem é erro funesto. Outro reino dos Himalaias, o Nepal, escolheu o caminho inverso: fez do rei um ditador, recusou a partilha da soberania e teimosamente quis fazer da Coroa um partido ideológico. O resultado está à vista: a monarquia nepalesa vai ser abolida em Abril e o rei terá de partir para o exílio. Era isto que gostaria de lembar a tantos monárquicos: não é fazendo finca-pé, recusando teimosamente olhar o mundo e burilando excelências canónicas que se consegue ganhar a simpatia por uma ideia que é genuinamente popular. A monarquia, ou é popular ou não existe. O maior suporte das monarquias não são nem as armas, nem as elites endinheiradas, nem as velhas ideias. Os reis são amados, respeitados e obedecidos de forma diversa dos políticos: estes fundam a sua legitimidade na eleição e na obra, podendo ser reeleitos ou recusados pelos eleitores; aqueles, pelo contrário, não se dedicam ao poder instrumental da governança, não interferem no processo legislativo, não se apoiam em partidos, facções ou programas. No passado, maus reis houve que quiseram envergar a farda de ditadores. Lembro um Carol II da Roménia, lembro Afonso XIII de Espanha, que deu o poder a Primo de Rivera e Vittorio Emmanuel de Itália, que se tornou refém de Mussolini. Lembro, também, que as mais fecundas experiências reformistas não violentas do século XIX e XX tiveram triunfo assegurado em monarquias que souberam compreender o clamor das classes populares pedindo voz activa e participação. O cartismo inglês e o reformismo das monarquias nórdicas, a consolidação democrática no Japão e até a bem sucedida restauração em Espanha - diga-se o que se quiser do titular - foram resultado desta assunção de bom senso. Tudo o mais são devaneios.

27 março 2008

Crêpe Suzette ao pequeno almoço

O meu café predilecto. Ali chego ao rondarem as 9 horas. Pequeno almoço ? Não tenho fome.


Sai um Crêpe Suzette com um toque siamês: canela, laranja cozida e umas gotas de brandy.

Gabinete de trabalho sobre um jardim florido, macia relva tropical e sombras convidativas. O dia vai começar. Leio as primeiras páginas de um Kingship in Northern India e só me apetece estender as pernas e fumar um cigarro, mas nesta cidade de 13 milhões de pessoas e dois milhões de viaturas fumar também se transformou numa aventura passível de multa. Resigno-me e leio sobre o carácter semi-divino dos velhos reis indianos.


25 março 2008

Quatro anos do Pasquim


O Pasquim celebra quatro primaveras. Indiscutivelmente, uma prova em abono da perseverança e triunfo da inteligência. Para o seu incansável animador, com a amizade e admiração de quem, nem sempre de acordo, com ele comunga no essencial. O Pasquim é demonstrativo do colapso da hegemonia das esquerdas e o anúncio do fim de uma certa direita roncante e detestável que tantos e bons serviços presta aos seus adversários. O Pasquim veícula aquelas ideias que não têm tempo, por que constitutivas do Ocidente: é Tradicionalista sem venerar as pequenas e passageiras tradições, não é feito a retalhos nem obedece àqueles impulsos descerebrados que fizeram a perdição da direita nativa. Aguardamos, agora, depois da autópsia à modernidade, que se posicione como agente propositivo e, como os espóros de uma flor do deserto, lance ao vento as sementes que farão germinar o futuro.

Taiwan independente ?


A não perder, no Estado Sentido. Como aqui se disse na passada semana, a transição do socialismo para o capitalismo vem acentuando a esquizofrenia do sistema chinês. Não é possível associar capitalismo - que rima com individualismo, representação, integração no sistema internacional - com a manutenção do monopólio do PCE. A China vai preencher os noticiários de boa parte de 2008; talvez não pelas razões que o governo de Pequim gostaria !