14 março 2008

Dia bom, longe de tudo


Acordei, finalmente, depois de seis meses com um pé no Oriente e o soslaio para o que ia acontecendo a 13.000 km. Pela manhã, li o DN-on line, detive-me nos blogues amigos e dei comigo a pensar quão longe estou de tudo aquilo que me fez saltar borda-fora. Já não me lembro dos cheiros de Lisboa, nem da chuva fria, das carrancas crispadas e dos maus-modos, não sei quem é o ministro das colheitas, o reposteiro-mor, o preboste que comanda a guarda, o ladrão na moda, como não sei quem foi parar ao Limoeiro, quem partiu para o degredo para a costa de África e que rico brasileiro casou com a morgada minhota. Tudo está longe, longe do coração e dos olhos. Saio das aulas, entro num restaurante e não encontro bacalhau, nem batatas, vinho e pão. Como um Tonkatsu por dois Euros. Volto ao fim do dia a casa e mergulho na piscina. São dez da noite e faz 30 graus. Sim, libertei-me da Europa e estou rico de satisfação.


Dusty Springfield: I Only want to be with You

O crime compensa


O Estado Sentido tem vindo a desfiar diariamente o rosário de infâmias, mutilações e atentados que Lisboa tem vindo a sofrer desde os anos 70, quando a geração que nos passou a govenar se apossou do poder. A devastação é de partir o coração, pelo que me escuso fazer considerações que, redundantes, suavizariam a extensão desta barbaridade que as palavras não podem descrever. Perante o caudal de crimes contra a urbe, pergunto-me que valor terão as eleições para a vereação, o que é o Estado de Direito, o que é o Bem-Comum e que proveito tiram os lisboetas da existência de partidos que os não representam e dir-se-ia encarniçadamente envolvidos em privá-los da sua cidade. Portugal caiu, decididamente, nas mãos de irresponsáveis. O crime compensa !

12 março 2008

DST's, sexo, moraleiros&negócios


A América é outra terra. Cada vez que me sento à mesa com americanos, fala-se de Bíblia e "valores cristãos", ou fala-se de dinheiro. Não me espanta que os EUA, com tão entranhada inclinação para moralizar, tenham 30% das raparigas com menos de 25 anos com uma DST e que para se alcançar a cúspide de um dos centos de igrejas-empresa se coloque como requisito possuir conta bancária e património milionários. O negócio está-lhes entranhado no sangue. Sem aristocracia e tradições aristocráticas, os EUA produziram uma ética de desembaraço que tudo desculpa e isenta no plano da reprodução do dinheiro, mas exige uma ética sexual que dir-se-ia mosaica. Contudo, nada ali é mosaico. Aquela sociedade acostumou-se de tal maneira às públicas virtudes e pecadilhos privados que não sabemos onde começa uma e a outra acaba. É o preço de 400 anos de calvinismo e duzentos de negócios. Se há na cultura americana coisas que verdadeiramente me seduzem - cuidado com a palavra - tais como a bela filmografia e a excelente literatura, outras levam-me a questionar se estamos perante uma derivação do Ocidente, ou de uma civilização absolutamente distinta feita de sobras e refugo do pior que a Europa mercantilista produziu; aquela Europa dos mercadores e da caça às bruxas do século XVII que persiste sobreviver para além do razoável. Talvez seja tempo para os republicanos irem dar uma volta !

11 março 2008

Ainda o debate de ontem


Hoje foram vinte e sete mensagens, pelo que não me atrevo responder a cada um dos bons amigos que com gentileza, sabendo-me expatriado, não quiseram deixar de me informar sobre o debate que ontem passou na RTP. Parece que a velha Nova Monarquia me bateu toda à porta, confirmando que após 17 anos de separação nos mantemos todos no barco. Desde 1991 que não tinha notícias de João, do Luís Filipe, do Bruno, do Joaquim Augusto, da Cristina, da Anabela, do Jorge Manuel, do Henrique, do Orlando. Hoje, para minha felicidade, reencontrei-os cheios de afã, seguros e decididos.

"O Gonçalo Ribeiro Telles está envelhecido mas por vezes tem incríveis sobressaltos de energia e entusiasma as pessoas. Adora aquilo que faz e tem uma autoconfiança enorme, o que ajuda bastante nestas circunstancias. Portou-se bem e incomodou porque nunca foi monárquico de reposteiro, valha-nos isso. O resto da plateia monárquica era composta pelo Castro Henriques - falou bem - pelo Maltês - desarma os outros, fala pelos cotovelos e deve ser uma frustração para a esquerda, porque não lhe podem pegar por nada, parecendo mais radical que eles próprios. O Sousa Cardoso espantou-me. Não pensava que fosse tão fluente e até provocador. O Miguel Otto - falou bem e sem gaguejar - tem uma certa bagagem. Foi um alívio, porque não tivemos gente do género do M., do A. ou dos C. do costume. Só lá faltavas tu. O ÚNICO argumento dos outros é a questão da elegibilidade e infelizmente aos nossos não lhes ocorreu perguntar quem é que elege o Procurador da Rpública, os juízes dos Supremos, os comandantes da PSP, GNR, tropa, etc. Nem sei como é que se esqueceram disso. O Teixeira Pinto tem um olhar fixo, muito penetrante e uma expressão severa, quase gelada. Não os largou um só momento com a questão do referendo, que o Grão-Mestre acabou por recusar ponderar. Aqui caiu a máscara. eles pensam que o vão impedir e isso quer dizer que as coisas estão a mudar e que têm medo." PJF

O debate de ontem


Longe da pátria, com ecos da uma noite em tudo auspiciosa. Informação clara recebida de mão amiga:

"Porventura não viu o debate "Rei ou Presidente". Eu, liguei a televisão sem expectativas! O novo presidente da Causa Real, Paulo Teixeira Pinto, inaugurou o debate tendo a seu lado a prestigiante figura do Gonçalo Ribeiro Telles – que lhe deve ter transmitido a prudência e a eloquência. Fiquei admirado com a calma paulatina e lúcida de Teixeira Pinto. Soube falar, como nenhum no palco, e soube ouvir, dando o exemplo. Do outro lado estava o Grão Mestre do Oriente Lusitano, António Reis e o Medeiros Ferreira. O debate (?) foi em forma de discurso – demasiado polido. A plateia com convidados dos "dois lados" teve "altos e baixos". Ouvi um interessante Adelino Maltez defender uma República com um Rei, ouvi um Daniel Oliveira, falar da virtude de termos um presidente que é filho de um "gasolineiro"! Mais uma nota a registar. Os monárquicos abertos ao diálogo, os repúblicanos cínicos (quando tomava a palavra um apoiante monárquico a televisão, sem pudor, gravava os "sorrisos" mentalmente depreciativos dos apoiantes da república)! Surpreendido deve ter ficado o "povo". Pela "abertura" da RTP ao debate da questão e pela firmeza intelectual da maior parte dos convidados. Portaram-se todos bem, tal como devem ter pretendido os promotores do programa. Ficaram algumas inesquecíveis e emotivas expressões de Teixeira Pinto e de Gonçalo Ribeiro Telles. Ficou o momento em que o Conde de Mesquitela mostra a última bandeira monárquica hasteada em Portugal.
Falta muito, caro Miguel. Talvez tenha faltado mais! O que ficou gravado não foi um diagonóstico, foi uma prova. De presença." J.B.

09 março 2008

Marcha da indignação

Eu marcharia indignado contra um governo que teima em manter-se sem arrepiar caminho ante a vereda deslizante que leva à paralisia económica; marcharia espumante de indignação pela oposição abracadabrante que temos; marcharia até se me gastar a voz e romperem os sapatos contra a pobreza, o fechamento de horizontes e a frustração para onde nos atirou esta suposta democracia anémica, que suja e descredibiliza a liberdade; marcharia com a bandeira negra do desemprego, da fome, da violência e da impunidade dos gangues; marcharia contra a resignação que se instalou para ficar; marcharia contra a comunicação social venal, voluntariamente alheada do descaminho que levará a mais que previsível amok colectivo. Não sei se ainda há tempo para mudar no quadro da Constituição, dos partidos e políticos que persistem - não obstante os mais negros vaticínios - em aplicar e reaplicar programas, atitudes e ideias que são coveiras do nosso futuro. Os regimes, em Portugal, morrem de caquexia. Os médicos que o assistem estão tão doentes como o paciente. A desesperança de quem a tudo assiste estriba-se no reconhecimento da cobardia de quantos, conhecendo o desfecho, nada dizem. Portugal é, decididamente, um prodígio de sobrevivência. Conseguir viver tanto tempo com tão maus governante e povo tão impassível perante a sua própria desgraça é coisa rara, digna de figurar nos anais do sobrenatural.