07 março 2008

De facto, Carla, é assim a blogosfera


A Carla Quevedo tem vindo a abordar, com a propriedade e serenidade que lhe reconhecemos, a "fenomenologia" inerente a este medium absolutamente revolucionário que em cinco anos obrigou muito jornal a sair da tinhosa modorra do corta-cola e a muitos políticos a esgravatar as circunvoluções e ensaiar uns rabiscos de texto. Nunca morri de amores por isto, se bem que lhe reconheça o mérito de haver inicialmente provocado apreciável rombo no dispositivo de amiguismo, promocionismo e no "diz-se ser um homem notável" só por conseguir aparecer nas colunas da imprensa oficial. É sabido que em Portugal, por mais que se tente, há portas [blindadas, reforçadas com cadeados, chapas de titânio, sistemas de electrochoques e repelentes] que evitam a aproximação de quem, não munido por salvo-conduto passado por um protector, se atreva dirigir-se a um desses grandes senhores que comandam a comunicação social e a difusão das ideias. São sempre os mesmos, pelo que reagiram de imediato ao surgimento dos blogues para aqui reproduzirem os tiques, estilo e conteúdo dos linguados e zurrapas com as quais fabricaram a nova censura. Sem qualquer partis-pris, é por isso que nunca citei e linquei Pacheco Pereira, que se quer um jornal diário, distante, pontifício e doutoral. Se o Abrupto pertence a esta comunidade, o que não me surge de manifesto, terá de compreender que aqui não há súbditos, mas uma comunidade.

Naturalmente, como uma fatalidade, a blogosfera - com muitos arrivistas e exibicionistas à cata da promoção para o mundo do papel - foi perdendo autonomia e reconstruindo os tais canais informais do monopolismo e do vedetismo que haviam flagelado a comunicação social dos ricos. Para isso, socorreu-se amiúde de encontros, debates, incursões televisivas e radiofónicas para cerrar as fileiras da oligarquia emeaçada, numa infantil prova - sempre por provar - que há uma "blogosfera séria" e uma "blogosfera amadora". Tem a Carla toda a razão e mais alguma quando diagnostica com precisão a tipologia dos blogues: há-os interessantes, há-os importantes, há-os noticiosos, mas há, infelizmente, muito lixo, muita bílis, muito ódio vesgo e canalha que disto se serviu para vazar os instintos mais reles e a procura de espaço que a vida jamais proporcionou a essa categoria de bípedes prenhes de maldade. Esse mundo subterrâneo de paranóicos e energúmenos encontra breve sucesso, mas depois, com a exibição de tanta pus, morrem asfixiados à míngua de leitores e interesse.

O grave problema, cara Carla Quevedo, é que as razões que enumera para o autismo da blogosfera - certíssimo - se manifesta na forma como se comportam aqueles que teriam a obrigação de a alargar, de a vivificar e abrir. Como em tudo - ah, grande miserabilismo - o clube dos opinadores que macaqueia o jornal, a tv e a rádio não cita e não comenta quem não participa nos tais "encontros espontâneos" das "forças vivas da blogosfera" - onde é que já ouvi isto ? - fingindo, simplesmente, que o interesse de um blogue se radica no conta-gotas do noticiário hora-a-hora e na afirmação pública da adesão a ideias em voga. Para desabafo - faço-o sempre sem hipocrisia - informá-la-ia que nunca recebi um mail, um telefonema ou um cartão para ir aos tais encontros ajantarados, pois este blogue - pessoal, que lê quem quiser, mas não faz parte de qualquer clube - não se submete ao ferrete do nihil obstat de nenhum protector. E assim ficarei !

05 março 2008

Seis insignificâncias forçadas pelo Euro-Ultramarino


Só por se tratar do Euro-Ultramarino , sento-me com olhar parado em frente da pantalha procurando as seis insignificâncias exigidas pelo interrogatório na moda. Pelo teor, ficarão com a ideia (se bem que pálida) de quão estranho me surge tudo o que por aí é condição para viver e respirar. Até dou oito exemplos de mil outras enormidades.


- Nunca li O Sol, nem leio o Expresso, o Público e outro papel sujo de tinta que com tanto plástico, tanto caderno, caderninho, separata, embrulhinho e descartável vai inundando os caixotes de lixo daqueles 200.000 portugueses que ainda se sentem integrados na "comunidade da informação", se sentem civilizados, europeus e, por obrigação, claro, não desdenhariam um lugarzinho num partido, num governinho ou numa assembleia de notabilidades;


- Nunca ouço - recuso, detesto - os rocks em todas a sua florescente mediocridade cacofónica, esse detestável ruído que se desintegra após duas ou três audições. Para mim, a música acabou nos anos 50 !


- Nunca li a Lídia Jorge, nem o João de Mello, nem o Augusto Abelaira, nem o Mário Cláudio, nem a Maria Gabriela Llansol (é assim que se escreve?), nem a Teolinda Gersão (talvez me sentisse tentado se mudasse o nome para Tailandinha Gersão), nem o Nuno Júdice, nem o José Luís Peixoto e penso não ter perdido nada. Aliás, tal como o cinema português - atire a primeira pedra quem, de verdade e sem afectação, realmente se sente empolgado com tal ordália - é coisa chata, carregada de rodriguinhos, falsos intimismos e falsa profundidade.


- Fumo e bebo café com indiscritível prazer, mas não consigo estar perto de inveterados do álcool.


- Fico de pé atrás sempre que alguém se gaba por haver sido seminarista. Apetece-me de imediato perguntar-lhe por que não é padre !


- Abomino convites para conferências. Após as primeiras sílabas, deixo-me cair num quase torpor comático e desperto quando palmas imerecidas me sacodem de comezinhos sonhos de doçaria, praia, sensualidades várias e viagens que fiz ou acalento fazer.


- Raramente me deixo agarrar por "convívios", jantaradas, tertúlias, baptizados, casamentos e funerais. Parece-me que tudo se resume a chás, portos, carpideirice, falsa alegria/falsa dor, oportunidades de emprego, correntes de amiguismo e maledicência


- Detesto escumalha, com ou sem dinheiro, analfabeta ou catedrática, com "nome" ou sem ele. Olho para as centenas de pessoas que fui conhecendo ao longo de uma vida razoavelmente atribulada e apenas retenho dez ou doze por quem mantive respeito profundo, admiração e lealdade. Os outros, dissiparam-se como a bruxa de Oz.

03 março 2008

A bagunça e o porrete


Chegam-me notícias alarmantes sobre a espiral de violência em que lentamente parece estar a mergulhar Portugal. É consabido o facto da violência e o crime organizado florescerem em sociedades empobrecidas. O colapso do Estado, da ordem e da lei - tantas são as manifestações dessa agonia - determinará a prazo, como sempre, a dilemática escolha entre menos liberdade e mais segurança ou a aceitação da violência como dado corriqueiro de uma democracia latina, irresponsável e exposta às investidas de associações criminosas. Estamos a colher, maduros, os frutos de décadas de uma anti-cultura cívica que instilou nos portugueses a falsa ideia que Lei, Ordem e Autoridade são sinónimos de repressão, ditadura e privação de liberdade. Nada mais errado, pois a democracia não vive sem paz nas ruas. Quando morre a segurança e os cidadãos se enchem de medos, não confiam nos tribunais nem nas forças da ordem, nem no governo e nos valores em que assenta o Estado de Direito, está aberto o caminho para a aceitação de regimes de força. Entre nós, sempre oscilando entre regimes da bagunça e regimes do porrete, a escolha acontecerá mais cedo do que pensamos.