01 março 2008

Wodehouse: um génio da pilhéria

Lá pelos anos 50 ou 60 foi moda, infelizmente curta, traduzir para o público português textos insuperáveis de um género pouco apetecível e quase inacessível à maioria dos nossos concidadãos: a literatura cómica. A graça, para ter graça, requer inteligência, subtileza, dizer-sem-dizer. Os portugueses, na sua quase generalidade privados de vis comica, contentam-se com a graça pesada, a ordinarice, o trocar melões por tetas, cenouras por príapos e quejandas demonstrações de terra-a-terra com que o Parque Mayer e as suas revistas ordinarecas entretiveram gerações de basbaques. Aqui nunca tivemos um Pitigrilli, um Chesterton ou um Wodehouse. Nós não gostamos de rir com elegância, como os britânicos, de gargalhar infantilmente como os italianos, sem maldade e sem remoque. Aqui o riso soa a escarninho vitupério, a mesquinho ajuste de contas de quem não pode oferecer mais que supostas evidências, a despeitozinho de mesa de café, a fel e a canalhice. É o que temos, para nosso mal.
Pois bem, um desses génios do cómico volta a estar na ribalta. Wodehouse, o criador de Lord Sidcup, que fez a vida negra a Sir Oswald Mosley, o candidato frustrado a Hitler da Grã-Bretanha mais o seu BUF - que raio de nome - conhece na Amazon um enorme êxito, vendendo-se como nunca. O genial humorista encontra hoje a aclamação. Não é um autor fácil, pois o humor nunca foi fácil; não se destina a pessoas cinzentas e cabeçudas, pois um estúpido jamais consegue sorrir para além do manifesto. O segredo de Wodehouse reside num ridendo castigat mores que não fere, mas mata pelo ridículo. E Wodehouse encontrou esse ridículo em Mosley, nas suas arengas a imitar os ditadores na moda, nos discursos inflamados privados de substância, no entusiasmo que tal palavreado causava entre os pobres de espírito, cheios de amanhãs cantantes, marchas triunfais e do "É a Hora". Ontem comprei o DVD do Ditador Amador, um monumento, uma pilhéria que dispensa tratados de ciência política. Ali está o século XX e os seus caçadores de públicos, a tentação de fazer crer que tudo é fácil, que não há ideias e que o entusiasmo e a excitação conseguem milagres. Ali está Hitler e Mosley no tempo das camisas negras-verdes-castanhas, mas também está o comunismo - outro embuste monumental do século - mais os políticos e politiqueiros sem nível, sem biblioteca e sem cérebro com que a Europa se vai entretendo na ilusão de grandeza. O Ditador Amador pode ser o líder do partideco sem audiência que promete o poder para amanhã de manhã, mas também pode ser Berlusconi, Francisco Louçã ou qualquer cavaleiro andante que se constrói sobre a necessidade que o homem comum e o Zé Ninguém têm de "entrar" e "ter voz", mesmo que nada tenham para dizer.




29 fevereiro 2008

Potência histórica: lição para as Necessidades

"On sunday, the twenty-fourth, three large boats came to ancher near the ship, under the charge of the captain of the port of Bangkok, Mr. Josep Piedade, a christian Portuguese born at Bangkok"(pág. 26).

ROBERTS, Edmund. Embassy to the Eastern Courts of Cochin-China, Siam and Muscat; in the US Sloop-of-War Peacock (...) during the years 1832-33-34. New York: Harper and Brothers, 1837

"Dinner at the palace of Phraklang" (ministro responsável pelos contactos exteriores do Sião) served à la Siamese and Portuguese" (pág. 44).
Idem

"Ficámos com a impressão que Albuquerque e seus homens haviam saído dos túmulos e estavam agora entre nós após trezentos anos. (...) Estes valorosos senhores podiam invocar a ancestralidade portuguesa e a naturalidade siamesa. Como outros descendentes dos Portugueses em qualquer parte da Índia, enquanto a ossatura manteve a forma, a cor da pele foi escurecendo até se tornar igual à dos nativos das terras onde vivem, dos quais já mal se distinguem" (pág. 143-44)

RAUCHENBERGER, W.S.W. Narrative of the round the world during the years 1835, 36, and 37, including a narrative of an embassy to the sultan of Muscat and the king of Siam. London: Richard Bentley, 1838.

"Chegados ao deck [da barca do Rei do Sião], ouvia-se falar uma língua ininteligível, concerteza português. Esta gente [a tripulação] estava cheia de curiosidade e perguntaram-nos tudo o que quiseram. Um dos soldados aproximou-se, dirigindo-se-me num claro latim: "Inquis Latinum, Domine ? ". Por ele fui informado que toda a tripulação da barca era composta por cristãos e haviam sido educados por missionários portugueses. Disse-me que todos eles tinham de aprender latim, (...) mas todos mascavam betel e tabaco". (pág. 145)

"A meio do trajecto passámos por Paklat ou "Cidade Nova", onde se situa uma grande fortaleza (...). Chegámos à Piedade e fomos recebidos por outro cavalheiro do tipo de Albuquerque, um general, na companhia do filho, vestido de vermelho" (pág. 147).
Idem


Sakana Sato: Concept & Music

Blasfémias

Faz quatro anos um dos mais aguerridos "diários portugueses", agora com novo rosto. Desejo-lhe muitos anos mais.

28 fevereiro 2008

Elites


O Paulo S. Cunha envia-me um mail indignado, fazendo reparos judiciosos, polvilhados de muita ciência, muita Sociologia e muito correctês que me fizeram lembrar as intermináveis sessões de lavagem ao cérebro de marxismozinho que me injectaram anos a fio nos bancos da faculdade. Lembra-me que os acontecimentos da história são produto de "estruturas" e não acidentes resultantes da vontade de homens particulares e de idiossincracias; que são os povos que fazem a história e não os heróis. Perdoe-me o Paulo, por quem tenho o máximo respeito, mas não penso que o "povo" - esse mito romântico - jamais tivesse chegado à Índia sem um Dias ou sem um Gama, que os Gregos se tivessem disposto ir até aos confins do mundo se não tivessem a loucura grandiosa de Alexandre a espicaçá-los. Ter-se-iam ficado, quando muito, pelo primeiro saque e com a barriga cheia de vinho e violações das primeiras conquistas. O povo quer sardinhas na brasa, um copo de vinho e uma broa. O grande mito do nosso tempo reside precisamente aqui: o de fazer crer que somos todos iguais. O grande erro é o de fazermos das elites povo, atrelando-as ao estômago e à sardinha a fumegar numa broa saída do forno. Antes, ensinava-se na academia que morrer era um privilégio reservado àqueles que serviam as pátrias. Hoje, ensina-se-lhes tabelas remuneratórias, sociologia e outras fantasias. As estátuas que povoam os nossos jardins, praças e avenidas não são propriamente as de comedores de caracóis ou libadores de néctares.

Sinistra síntese


Estão a ver uma mistura de Pinto da Costa, Pinto Balsemão, Belmiro de Azevedo e Alberto João Jardim habitando a mesma pessoa ? Pois, assim é Taksim Shinawatra, ex-primeiro ministro da Tailândia, hoje regressado em ombros a Banguecoque: o poder da plutocracia, a demagogia mais impúdica, a vontade de horizontalizar todos os poderes simbólicos que não pode comprar com a imensa fortuna que detém, uma mão no futebol, outra na comunicação social, uma riqueza a perder de vista que lhe permite comprar políticos corruptíveis e um eleitorado campesino habilmente manipulado pelos seus caciques; a faculdade de usar e abusar das necessidades das classes baixas, usando-as como instrumento de subversão contra a classe média educada e urbana, da aristocracia detentora da legitimidade da tradição e o exército, sustentáculos da Monarquia. A Tailândia estará, pelos meus cálculos, a seis meses ou um ano de grandes e dramáticos acontecimentos. A eles prestaremos toda a atenção logo que Taksim se dispuser aplicar a vingança sobre aqueles que do poder o afastaram há dois anos. A gravidade da situação permite-me vaticinar um de dois cenários para o futuro deste país: o início e uma revolução política e social, com Taksim vitorioso, consequente diminuição do poder e influência de um Rei amado e respeitado como um deus, ou o vil fim do temerário aventureiro. O poder do dinheiro é tão nocivo como o de um déspota desvairado, mas num tempo em que prevalece a derrancada adoração pelos aventureiros do dinheiro, Taksim é um herói, sobretudo para aqueles que, nada tendo, se acostumaram a projectar a felicidade naqueles que desprezam quem o não tem. Assim é em Portugal, assim é na Tailândia. Vivemos no preamar da plutocracia.

27 fevereiro 2008

Saque


A Alemanha, depois de haver pilhado sem dó nem piedade, foi saqueada até à medula. Cento e oitenta mil obras desapareceram de museus, bibliotecas, colecções particulares, templos católicos e luteranos, permanecendo hoje acondicionadas em critpas e reservas de instituições russas e norte-americanas, ou usadas como moeda de troca no sigiloso circuito da lavagem de dinheiro sujo. A polémica sobre a restituição das mesmas aos legítimos donos - o povo alemão - tem azedado a relação entre as chancelarias de Berlim e Moscovo. Se os russos invocam a reparação pela agressão militar alemã à URSS, a qual causou cerca de 20 milhões de mortos entre os povos que integravam o império de Estaline, o Direito Internacional não inscreve nem valida a modalidade do saque como argumento. A Suiça possuirá também, em contas abertas por clientes que jamais reclamaram os depósitos feitos nos anos da guerra, toneladas de jóias, manuscritos, lingotes de ouro, estatuária e pintura avaliada em milhares de milhões de dólares. Contudo, a Confederação Helvética, um dos Estados mais atípicos da comunidade internacional - eu diria, dos mais escabrosos exemplos de duplicidade mercantil, sempre com a Cruz Vermelha numa mão e o discreto apoio aos mais acabados facínoras e rapinadores deste mundo na outra mão - diz desconhecer ou lembra o direito dos depositantes ao secretismo. Como quem diz: os ladrões de todo o mundo têm aqui a sua nova Tortuga onde podem enterrar para a eternidade os proventos das patifarias e do sofrimento causado.

Se as obras desaparecidas não servem para fruição dos amantes do belo, outras há cujo percurso acidentado constitui matéria para processos judiciais intermináveis. É o caso do Altar de Pérgamo, que foi trazido do Império Otomano pelos arqueólogos alemães e é hoje reivindicado pela Turquia (onde se situa Pérgamo) e a Grécia, pátria espiritual da obra. Um dos tópicos da diplomacia de hoje repousa sobre a reivindicação de tesouros desviados. O Egipto, o México, a China, a Índia, o Irão, o Iraque e o Sudão travam batalhas sem derramamento de sangue para ver restituídos objectos retirados dos territórios que compõem actualmente estados soberanos. Com uma pontinha de advogado do Diabo, diria que tais obras estão melhor entregues, mesmo que roubadas ou furtadas, nas colecções britânicas, alemãs e americanas, que nas mãos de governos que dão testemunho de desprezo pela arte e pela cultura. Não teria sido preferível se as colecções do Afeganistão tivessem sido retiradas nos séculos XIX e XX e expostas/ estudadas/fruidas em Berlim, Londres e Paris ? No Ocidente respeita-se ou aprendeu-se a respeitar o valor de tais objectos. Noutras paragens, a reivindicação serve, pelo que vemos, para espicaçar vaidades nacionalistas. Talvez um dia a Sociedade de Geografia de Lisboa veja entrar pela porta adentro um diplomata do Benine reclamando as belíssimas peças de estatuária de fundição que os "portugueses roubaram" nos séculos XV e XVI.

26 fevereiro 2008

Como é fascinante a maldade humana


Dizem tê-la descoberto - ou quase - feita em pedaços numa mina carregada de preciosidades. Um dos tesouros mais discutidos e cobiçados pelos caçadores de fortunas, a Sala de Âmbar, não será das mais raras nem das tais insubstituíveis peças sem as quais a história de uma civilização apresentaria triste incompletude. A Sala de Âmbar é apenas um dos fragmentos da história infame do roubo, do vandalismo e da criminosa e inimputável responsabilidade de governos e Estados que ficam sempre por receber pena adequada ao mal irreparável que causam, não sobre um indivíduo ou um grupo social específico, mas sobre todo o património da humanidade. Os nazis roubaram com desvairada lubricidade tudo em que puderam aferrar as garras, mas os russos também cometeram roubos e destruições de incalculável magnitude invocando o direito - estranho direito esse - da legitimidade da represália. Por seu turno, os americanos que pela Europa andaram nas suas aventuras bélicas, regressaram de malas carregadas com tesouros pilhados na Itália, na Alemanha e até em países que libertaram da opressão. O recente saque do Museu de Bagdade - onde se perdeu numa tarde a memória de 3000 anos de história do Médio Oriente - demonstra que o monopólio do odioso se reparte em proporções iguais por todos. É o mistério do mal e essa prodigiosa capacidade de destruir que fazem da nossa espécie um monumento ao absurdo.

O seu inegável patriotismo e moderníssima visão do porvir a conquistar, tornaram-no incómodo aos Donos do país. Não pactuou jamais com interesses mesquinhos. Denunciou cumplicidades e malfeitorias várias. Não cedeu à simples ambição, desejo de notoriedade e prebendismo fácil que caracteriza a generalidade de quem nos comanda. É um teimoso nas suas certezas e isto é raro numa época de constante cedência ao interesse do momento. Decerto poderia ter obtido uma audiência muito vasta, mas carregou sempre uma colossal pedra de Sísifo: é monárquico e disso está tão seguro e certo como da inevitabilidade do reconhecimento da sua posição de salvaguarda do nosso ambiente e património monumental. E nunca cedeu, crime tremendo em Portugal. Nunca cedeu, nem cederá.