16 fevereiro 2008

A mansão jubilosa da natureza


Sem o frio, o vento e a geada, longe de tudo o que a distante Europa da 3ª velocidade me inspira, sem ter de ver as carrancas crispadas de homens, mulheres e crianças prenhes de projectos, sem ter de me confrontar com a rabujice, o rosnar entre-dentes, a maledicência e a frustraçãozinha de pessoas mal-amadas, sem ter de me indignar com a imprensa afoita de escândalos pequeninos, sem Menezes, Louçãs e outras assombrações, aqui estou na praia que veêm, de limonada na mão, refastelado e indiferente à passagem das horas, que aqui se escoam com uma majestade de paraíso. Se pudesse, suspendia o relógio, queimava todas as pontes e deixava-me ao abandono dos trópicos, afogado pela natureza. Aqui não falo. Não há com quem possa falar. Aqui não leio. Um livro soa a falso, tamanha é a magreza do estro dos mais inspirados poetas perante a imponência do meio. Aqui, se medito, perco-me. Prefiro fechar os olhos, sentir a brisa e o cantar das ondas suaves que à praia vêm morrer. Aqui, Liberdade, trato-te pelo nome.


Bach: Toccata & Fuga em D menor

Os crimes esquecidos


15 fevereiro 2008

Noite alucinante entre alucinados


Jantar com uns patetas diplomados (e diplomatas) prestando serviço nas embaixadas da Europa das manias gastas e arrogâncias velhas. Um cretino castelhano repetindo minuto-sim, minuto-não, a esfadíssima tese do "se estivessemos juntos, Portugueses e Espanhóis, teríamos outro peso na arena internacional"; uma italiana coberta de pechisbeque discreteando sobre as grandezas de Roma, mas dirigindo-se-me sempre em inglês; um francês tresandando a perfume e bedum lembrando-me la francofie dos portugueses, até aquela que lhe manifesta a sua porteira de Paris, "qui est du Portugal". Ou seja, para os espanhóis Portugal não devia existir, para os italianos somos a Última Flor do Lácio, mas a língua de Catão e Cícero deve ser substituída pela língua franca da CNBC e para os franceses somos - que honra - uns bons criados. Não sei o que querem da Europa, mas naquela gente paga a peso de ouro para as frivolidades da diplomacia de pastel e espumante não vejo outro futuro que o de uma tumba com o epitáfio "aqui repousam os ossos frios de uma civilização que não conseguiu ultrapassar velhos demónios que a estilhaçaram em tiras". Olhando para o pequeno coro de imitadores e aprendizes de Metternicht, não me ocorreu outro nome que o do locatário de Berchtesgaden, que tinha o mesmíssimo conceito da finalidade da diplomacia: anexar, impor e fazer escravos.

Os couraçados a pataco versão Severiano


13 fevereiro 2008

Cilinha

Ilusionismo das primárias


Faltando apurar dezasseis Estados da União para as primárias do Partido Democrático - todos de insignificante peso demográfico, com excepção de Ohio, Texas, Pensilvânia e Carolina do Norte - e dezanove Estados para as primárias dos Republicanos - todos de igual irrelevância no conjunto dos EUA - espantar-se-á o incauto observador pelo chinfrim em torno da tão aclamada luta entre pretendentes à Casa Branca se manifestar em tão pequeno número de participantes. Salvaguardando a importância que quaisquer mudanças políticas nos EUA possam ter sobre a vida internacional, bem como o saudável confronto de ideias que a democracia oferece, não deixa de ser imperioso apontar três ou quatro notas sobre tal vendaval de discursos, comícios e publicidade.


1. As primárias de um e outro partidos iniciaram-se há anos após mobilização dos poderosos lóbis. Não há candidatos pobres; por outras palavras, todos são milionários ou representantes de interesses que condicionam a apresentação pública de putativos locatários da Sala Oval. Esta tendência oligárquica, que se foi acentuando ao longo das últimas três ou quatro décadas, ameaça transformar a democracia americana em mera plutocracia, e a ideia republicana em monarquia electiva. A atestá-lo, o facto de todos os candidatos de relevo serem ou terem sido colaboradores ou funcionários de grandes empresas; a atestá-lo, o facto desta campanha visar eleger um novo presidente que substitua o actual, filho de outro da mesma família, e da candidata Clinton ser mulher de outro ex-presidente da União. Gore Vidal chamara há anos a atenção para a transformação da República em Império. Hoje como na velha Roma, a fórmula sucessória envolve muitos Mecenas e muitos protagonistas das famílias que tomaram o poder e não o querem largar.


2. A soma dos votos recolhidos por Clinton, Obama, McCain, Romney e Huckabee não chega a 10% do total da população da União. As pessoas, para além daquelas que militam pelos lóbis, pura e simplesmente não votam; ficam à margem, indiferentes e passivas perante os televisores. A maioria esmagadora dos norte-americanos não quer saber, não sabe nem pode intervir nesta a que é chamada a grande festa da democracia. Para melhor exprimir esta contundente exibição de apatia e apoliticismo, atentemos no caso da Califónia. O Golden State é o mais populoso da União, com 33 milhões de habitantes, dois terços dos quais com plenos direitos políticos, o que perfaz 21 milhões de cidadãos adultos com direito a voto. Ora, nas primárias da passada semana, o total de votos recolhidos por todos os candidatos de um e outro partido atingiu pouco menos de 6 milhões; ou seja, 24% dos potenciais eleitores. A Califórnia é excepção, pois é dos territórios mais politizados. Outros há em que menos de 10% da população vota.


3. A festa da democracia sequestrada e orquestrada é um reducionismo. As ideias não se discutem, pois os programas são incipientes, quandos os há. O palco televisivo, com a magreza ou inexistência de ideias, foi-se impondo ao longo dos anos, parecendo que a política não passa, afinal, de uma venda de candidatos consumíveis, com muita cosmética e pouca substância. Ouvi Obama, Clinton e McCain dúzias de vezes ao longo das últimas semanas, não me parecendo que com qual deles me gostasse de encontrar à mesa de um restaurante. São absolutamente insubstantivos, de discurso preparado por assessorias mais interessadas no efeito psicológico que na correcção, na coerência ou na afirmação de convicções. Não podem falar, não podem pensar, não podem ousar, pois servem lóbis em perpétua luta.


4. Muita mentira tem sido vertida ao longo dos meses a respeito do voto das "minorias". Nos EUA já não há minorias. As minorias tornaram-se tão centrais e determinantes no jogo político - minorias de género, sexo, religião e etnia - que as únicas coisas sérias que se tem vertido nestas primárias dizem-lhes respeito. Obama parece uma excepção, por não ser amado pelos afro-americanos - que preferem o estilo rapp ou o pregador bíblico - e por afirmar os valores que durante século e meio terão sido a fonte da legitimação da cepa loura e protestante que inventou e animou a ideia americana, do berço em 1776, à final emancipação dos ghetos étnicos em meados da década de 60 do século XX.


A América é um Império e rege-se por leis que estão acima e aquém da capacidade de homens singulares em mudar grande coisa, pelo que só uma profunda necessidade de crença pode explicar o interesse e comoção que estas eleições estão a concitar. Quando um dia, dentro de setenta ou oitenta anos os historiadores estudarem o declínio dos EUA anotarão, entre as explicações possíveis para a queda da grande potência global, o enquistamento da elite dirigente e o lento apagar do civismo e interesse pela vida pública.


Last Rose of Summer

12 fevereiro 2008

Selvajaria, crime e vandalismo


À semelhança do Eurico de Barros também me interroguei se haveria algum registo sonoro da voz do Rei assassinado: "Como seria a sua voz? Como falaria D. Carlos? Perguntei a um amigo que sabe destas coisas de arquivos. Segundo ele, havia na antiga Emissora Nacional gravações da voz de D. Carlos. Foram destruídas depois do 25 de Abril, juntamente com muitas horas de programas.

Não foi apenas em Bamyan que se consumiu património. Aqui também se cometeram atrocidades irreparáveis. Lembro que o facciosismo foi letra activa nos meses em que os desvairados purificadores estiveram prestes a dominar Portugal: a queima da embaixada de Espanha, em 1975, a destruição pelo fogo de grande parte da história editorial do Portugal contemporâneo às mãos de pequenos Pol Pot. Onde estão as colecções do SNI/SPN, empacotadas umas, atiradas às chamas outras ? Onde estão as bibliotecas da Mocidade Portuguesa, da Legião e da sede da União Nacional ? E os acervos biblioteconómicos das Casas do Povo, dos Grémios e das Corporações ? Sei que tais crimes merecem o benevolente crivo de "coisas sem importância", mas quando se queima um livro abre-se a porta para queimar tudo o mais. Não podia deixar passar esta oportunidade para lembrar a terrível depredação executada em 1975 contra a Biblioteca da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, que resultou na destruição de muitas centenas de obras da literatura jurídica portuguesa - completas colecções de leis do século XVI - e da qual foi mandante uma figura do maior relevo da cena política portuguesa. Quem seria ?

11 fevereiro 2008

O grande jogo


O império escondido da grande tundra. Antes dos sovietes, a Rússia foi uma imensa dor de cabeça para as chancelarias ocidentais. A ler para compreender que a geopolítica se manifesta antes das ideologias.


Cossacos do Don

Resistirá Timor aos timorenses ?


A ilha foi sempre caótica: levantamentos contra as autoridades coloniais, a última da qual reprimida com recurso a metralhadoras (1912), um crisól de lutas intestinas inter-tribais e inter-clãs com devastadores efeitos demográficos, completa anarquia durante os brutais anos da ocupação japonesa (1942-45), uma cruenta guerra civil (1975) seguida pelos massacres e subjugação indonésia durante um quarto de século. Quando os timorenses, finalmente, tiveram oportunidade de erigir o seu Estado, o mundo apercebeu-se que não tinham nem habilidade, nem competência nem interesse em sarar as feridas do passado. Aquilo tem sido uma vergonha. As Nações Unidas, Portugal e outros dadores ali têm mantido centos e milhares de assessores, mas os timorenses regrediram de novo ao estádio de caçadores de homens e cabeças. Ali não há nem Estado, nem governo, nem autoridade nem leis e a fixação do presidente no seu palácio, dos deputados no parlamento, dos tribunais e demais instituições postiças foi substituída pelo simples poder repressivo das forças estrangeiras ali estacionadas. Sei que dói dizê-lo, mas Timor precisava de 30, 40 ou 50 anos de boa governação, desenvolvimento humano e obras para poder ter direito a um hino, a uma bandeira e a uma constituição; o mesmo é dizer que Timor devia ter permanecido português !
Temo que a independência - ou a ficção dela - não seja por muito mais tempo tolerada pela Indonésia e pela Austrália, que ali não quiseram em 1975 uma base comunista e que não quererão agora um perigoso vazio de poder.