08 fevereiro 2008

A guerra justa que passou ao lado

Alertado pelo Idolátrica, reafirmo o que aqui disse há cerca de um ano: foi verdadeiramente infausta a decisão de atacar o Iraque e não desferir no momento certo o golpe mortal num regime bárbaro, selvagem e destituído de qualquer dignidade.

07 fevereiro 2008

Obama conservador

Obama é conservador e prova disso, é a irresistível atracção que exerce sobre uma franja não negligenciável dos republicanos. Mesmo a sua imagem, parece absolutamente convincente e genuína. A forma de vestir, a sua casa e família, não são consequência de uma varinha de condão dos image makers contratados às agências competentes. Obama atrai os conservadores, pela autenticidade. Tem tudo para afastar a nossa "esquerda" doméstica, sempre à procura de um híbrido de Bonaparte com Afonso Costa.Abandonando a sra. Clinton, aposta no costumeiro parece bem, não dando qualquer importância às tiradas do candidato acerca dos "valores da família, moral e propriedade". No entanto, Obama não é branco e para cúmulo da felicidade, não é um homem que ameaça a ordem estabelecida. Sendo um afro-americano, é refém dos conservadores que decerto não deixarão de escrutiná-lo, de suspeitar e de imaginar o pior cenário possível: o eterno terror da invasão dos subúrbios brancos, pelas hordas de "coloured people". (Nuno Castelo-Branco, no Estado Sentido)

Bonecos heróicos


Descobri há relativamente pouco tempo o pensamento duro do marxismo asiático. Com excepção de Mao, indiscutivelmente uma cabeça prodigiosa metida num carácter aviltante, pouco me interessara pela teratologia do comunismo - os Kim Il Sung, Pol Pot's e quejandos - por neles nada encontrar para satisfazer a compreensão do mistério da auto-colonização ideológica da Ásia pelas mãos da mais radical expressão do materialismo Ocidental. O comunismo fez de alguns destes líderes ícones de uma geração. Lembro a veneração rendida a Ho Chi Mihn, a sua barbicha de velho sábio confucionista, aquele sorriso de velhote bem aparentado e cativante. Só mais tarde vim a saber que aquele distinto ancião era um pulha como homem, um fanático sem escrúpulos, de uma crueldade arrepiante que até a família mais próxima fez sofrer. Sobre o mítico líder poeta, guerrilheiro, agitador estudantil, filólogo tailandês Chit/Jitr Pumisak, de quem lera um banal Chômm Naa Sakdina Thai (Para a compreensão do Feudalismo na Tailândia) pouco sabia. Via-o como uma cabeça cinzenta, cheia de pronto-a-pensar marxista e pouco mais. Contudo, nos últimos dias dei comigo a ler a History of terms: Siam, Thai, Lao, Khom and the social characteristics of these ethonyms, escrito na prisão ao longo de seis anos e meio (1957-1964), cumprindo pena por subversão. O seu tom calmo e reflectido, a grande cultura, a profundidade da análise, a inovadora abordagem fizeram-me esquecer o homem, o líder do Partido Comunista da Tailândia. Jitr era, sem dúvida, um jovem de inteligência superior, havendo hoje uma quase idolatria em torno da sua memória entre alguma juventude académica. Parece que, como pessoa, era adorável. Porém, em 1963, mal foi libertado, entrou na clandestinidade e passou para a floresta onde comandou uma grupo de guerrilha na região mais deprimida do país, no leste, perto das fronteiras do Laos e Camboja. Ali quis aplicar um marxismo aparentado com o maoísmo, sonhando com um levantamento campesino, o cerco da capital pelo campo, o triunfo da colectivização, a expulsão do capital internacional, a deposição da monarquia, o combate ao budismo. Nos seus textos mais retintamente ideológicos, Jitr sofre uma lamentável metamorfose: entre estes textos e os de um vulgar analfabeto endoutrinado poucas diferenças haverá. Ao ler a History of Terms (...), muda, como se ao escrever um trabalho académico conseguisse suspender a presença do fanático e libertar-se de constrangimentos e medos de incorrecção. No repouso do guerreiro há um homem límpido, tão límpido, legível e sedutor como Gramsci.

Jitr acabou por morrer na luta, em plena floresta, abatido por milícias camponesas de auto-defesa fiéis ao Rei. Parece que o corpo não foi queimado, não tendo havido quaisquer cuidados em prestar-lhe ofício fúnebre digno. Há anos, o corpo foi removido, incinerado e as cinzas colocadas num templo budista. Foi esta a sorte do comunismo: quis mudar tudo, destruindo tudo, mas acabou por se submeter à piedade e benevolência daqueles que quisera ofender e matar.
O Oriente é Vermelho (1966)

06 fevereiro 2008

Sabai dee pee mai = Bom Ano Novo


Hoje repeti-o vezes sem conta: na universidade, na piscina, no supermercado, no Metro. É o novo ano chinês e estou longe da China, mas há chineses por todo o lado. Vivem aqui há cem anos, esqueceram-se e deixaram cair a língua, deconhecem os sinogramas, são absolutamente fiéis à cultura, às instituições e às autoridades deste país, mas permanecem chineses no coração. Já os viandantes que chegavam à foz do Chao Phraya no século XIX se espantavam por não haver siameses no Sião. Nas ruas, do humilde carregador ao sapateiro, ao tanoeiro, ao mestre embarcadiço, ao cobrador de impostos, ao letrado e ao comerciante, todos eram chineses. Dei comigo a pensar nos últimos dias na força tremenda desta diáspora absolutamente nacionalizada. Os chineses foram obrigados a renegar os seus nomes e apelidos, a imprensa em chinês foi abolida por decreto, como o foram as escolas e agremiações profissionais e recreativas, as associações políticas, as redes informais - a que chamamos tríades - mas vivem em áreas suas, são ricos, empreendedores, cheios de ambição. Os seus filhos ocupam os lugares cimeiros na banca, nos seguros, na comunicação social, na indústria, no ensino e no mundo do espectáculo. Temia-se aqui, por volta dos anos 10, que a abertura ao regime constitucional e representativo era coisa impossível, pois no dia seguinte os chineses controlariam o parlamento, os partidos e o governo. Houve, até, quem lhes chamasse "os judeus do Oriente", adaptação dos medos que na velha Europa levariam à assunção do anti-semitismo de Estado, que culminou com o que todos sabemos. Mas não, os chineses não só se adaptaram como se transformaram em thais. Hoje, pergunto a um chinês porque comemora o ano novo lunar e responde-me que é a tradição. Se de todo não acredito no multiculturalismo - que acaba, sempre, em matanças e na colectivização do ódio mais irracional, espicaçado pela inveja de quem tem mais e mais riscos sabe correr - acredito na integração. Mas para haver integração é necessário um forte orgulho nacional, essa emoção que as pátrias despertam e infundem. Infelizmente, esse tipo de integração é impossível na Europa, que de tanto ridicularizar, desmontar e enxovalhar a sua memória, transformou os imigrantes em gente sem raízes. Na velha França republicana lembrava-se aos senegaleses os seus antepassados Vercingetorix, Carlos Martel e Joana d'Arc; em Portugal, nos anos 60, os meus colegas negros de carteira na escola primária diziam com a máxima serenidade descenderem de Viriato. A integração é isto: criar o mito da unidade. Sem ela, não vale a pena ter uma bandeira, um hino e uma nação.


Zou Xuan: The Moon over the Street

05 fevereiro 2008

Está quase a cair ?


Aqui há dois dias disse-o com reserva. Agora, outra voz, mais esclarecida, esclarecedora e responsável repete-o: se o regime não arrepia caminho e não promove o aprofundamento da democracia, do Estado de Direito, a selecção dos mais capazes e probos, está destinado ao colapso. Digo-o sem vacilações: prezo a liberdade, os meus direitos individuais e os dos meus concidadãos para não advogar soluções que apenas repetiriam erros tremendos do passado. Não quero o meu país governado por ditadorzinhos, nem a minha casa devassada por polícias broncos, nem os jornais submetidos a censura, nem cargas policiais, nem cadeias cheias, nem tribunais políticos, nem ajustes de contas. Amo a liberdade e penso não haver motivo para a suprimir, mas também não quero que Portugal continue a ser a vergonha da Europa, com as suas bolsas de pobreza, subdesenvolvimento, analfabetismo, corrupção, favoritismo e essa impatente, quase abjecta, classe política sem classe alguma que teima em roubar-nos o futuro e lançar-nos no abismo. Dizem que a ave de Minerva levanta voo ao anoitecer. Neste crepúsculo de regime, que se levante a esperança, companheira da sabedoria, do bom-senso e da liberdade.


Se sinto a revolta crescente daqueles que comigo contactam, eu próprio começo a sentir que a minha capacidade de resistência psicológica a tanta desvergonha, mantendo sempre uma posição institucional e de confiança no sistema que a III República instaurou, vai enfraquecendo todos os dias.
Já fui convidado para encabeçar um movimento de indignação contra este estado de coisas e tenho resistido.
Mas a explosão social está a chegar. Vão ocorrer movimentos de cidadãos que já não podem aguentar mais o que se passa.
É óbvio que não será pela acção militar que tal acontecerá, não só porque não resolveria o problema mas também porque o enquadramento da UE não o aceitaria; não haverá mais cardeais e generais para resolver este tipo de questões. Isso é um passado enterrado. Tem de ser o próprio sistema político e social a tomar as medidas correctivas para diminuir os crescentes focos de indignação e revolta.
Os sintomas são iguais aos que aconteceram no final da Monarquia e da I República, sendo bom que os responsáveis não olhem para o lado, já que, quando as grandes explosões sociais acontecem, ninguém sabe como acabam. E as más experiências de Portugal devem ser uma vacina para evitar erros semelhantes na actualidade.
É espantosa a reacção ofendida dos responsáveis políticos quando alguém denuncia a corrupção, sendo evidente que a falta de vergonha deve ser provada; e se olhassem para dentro dos partidos e começassem a fazer a separação entre o trigo e o joio? Seria um bom princípio!

Nada que não tivesse dito ao longo de oitenta e tal anos

O Dr. Soares bate recordes na arte de não dizer, de não pensar, de nada acrescentar ao que disse, redisse e tresdisse ao longo de quase um século: uma torrente de banalidades, lugares-comuns, tropismos, simplismos e outras tautologias fazem-me pensar, não sei porquê, algures na mistura entre um actor gasto pelos anos - reincidente no repertório - e o oficiante daquelas pequenas religiões que se escudam na repetição, na suposição que os fiéis se contentam com tão magra doutrina . Ao lê-lo no Diário de Notícias dou comigo a rever as décadas infindas em que passou por crivo obrigatório do correctês que era, afinal, pouco mais que nada. O Dr. Soares é um portento de coerência na arte de fazer crer que opina, fazer crer que pensa, fazer crer que é ouvido. É igual ao homem com quem nos cruzamos no autocarro, no Metro ou na fila para o cinema; pouco o distingue do concidadão de Bola ou Recorde debaixo do braço, do sr. Manel da mercearia da esquina, da menina Helena do snack onde tomamos a bica. Os portugueses pelam-se pela bula-bula, detestam o estudo, a concentração, o raciocínio elaborado e tudo o que exige procura de certeza. O Dr. Soares, que tem grande biblioteca, talvez seja um bibliófilo, não sei, mas tenho a certeza que jamais se fixou num livro para lá das badanas, das legendas e de uma ou outra passagem onde era citado. Com tão grande experiência nas viagens, parece pouco saber do mundo. É o que dá viver década sobre década envolvido nessa paupérrima, desgastante e narcísica forma de vida que é a politiquice. Confesso jamais ter conhecido político que me concitasse atenção por mais de cinco minutos. Raspada a película, nada há debaixo do magma efervescente. O que me assusta é o facto de tanta e tão boa gente lhes prestar tributo de canina devoção e simular atenção ao que já foi dito e redito na mercearia ou no snack da esquina. Somos, decididamente, animais religiosos.

04 fevereiro 2008

Ainda a evocação do Rei Mártir

De um amigo, o relato veraz da manifestação monárquica da passada semana

"No passado dia 1 de Fevereiro consegui libertar-me de vários compromissos e apanhei, sozinho, um comboio para Lisboa. Chegou in- extremis às 16h38 a Santa Apolónia. Não escondo que estava espectante para ver a dimensão do evento no Terreiro do Paço. Junto à placa evocativa, um pequeno degrau fazia o lugar do palco merecido! Não houve fanfarra. Não houve discursos inflamados, apenas um belo sermão feito por um padre para mim desconhecido. Dois operadores de câmara filmavam dispersamente, quase despropositadamente!. Poucos fotógrafos. O Jornal de Notícias iria dizer que estavam "500 pessoas". Eu quase juro que chegavam às 2000. Três "voluntários" do corpo de bombeiros da CMLisboa entoaram o minuto de silêncio. Depois, uma fortíssima salva de palmas, que durou largos minutos. Gritou-se "Viva o REI". Na Igreja de S. Vicente encontrei vários conhecidos. Do "velhinho PPM" (cujo um dos fundadores foi o meu saudoso primo João Camossa) a outros ligados à causa portuguesa. Gostei de voltar a falar com o Gonçalo Ribeiro Telles. Conheci o muito afável Rui Ramos. A catedral estava super-lotada. Nos jornais nada referiram. A cerimónia foi simples, digna, com cortejo encabeçado pelas Ordens de Malta e do Santo Sepulcro. A homilia do cardeal patriarca foi sincera, apaziguadora, evocativa na sua missão cristã. O dia acabou e a minha viagem de regresso foi ocupada por um sentimento de satisfação e de realização. Na comunicação social do dia seguinte, o evento aconteceu como se não tivesse acontecido. Deram antes destaque à "homenagem" feita em Castro Verde, pela autarquia, ao Costa regicida.Vivi o evento com uma certeza: o censo da maioria não esmaga a minha convicção. A "maioria" – situacionista – está-se a borrifar para os valores monárquicos, mas de igual modo para o "ideal repúblicano". Não querem saber. Não sabem ou estão ocupados a existir. Como eu digo, para o futuro quanto pior melhor. Se calhar, o pior que vier a acontecer a este povo abastardado será o melhor para o devir."

Lá como cá, a solução monárquica


D.João Henrique de Orleans e Bragança

Je Maintiendrai

Perece bruxedo. Ontem, antes de me deitar, pressenti a iminência do encerramento de Je Maintiendrai; ou antes, afogueado pelo inofensivo gossip de um diplomata amigo, alinhavei meia dúzia de linhas. Para meu espanto e consternação, ao abrir o computador esta manhã dei de caras com a nota de despedida e com um belo texto do Jansenista sobre a partida daquele que algures na Arabia Felix representará Portugal. Tudo o que é bom tem um fim, bem sei, aprendi-o há muito. Resta-nos agora lembrá-lo, relendo-o nos melhores trechos. Talvez um dia, quem sabe, encontrarão a forma acabada nas rotativas de uma editora. A blogosfera está, decididamente mais pobre.

03 fevereiro 2008

Quando um escritor se despede



Creio estarmos a assistir aos últimos dias de um grande nome da blogosfera. Tenho seguido, com o coração nas mãos, o desfilar de textos daquele que tem sido ao longo dos últimos dois anos uma das mais lúcidas, inteligentes e cultas presenças deste universo onde a liberdade ainda pode respirar. O nosso Jansenista cita-o hoje a propósito de uma peça-ensaio sobre o crepúsculo de dois gigantes, daqueles que já não medram no mundo de plástico e vibra óptica: Boxer e Maclean. Ontem, por acaso, cruzei-me no aeroporto de Suvarnabhumi com um diplomata em trânsito para o arquipélago nipónico. Ali estivemos hora e meia a curtir lembranças de Lisboa, quando na corrente da conversa caiu como uma bomba a revelação: "o nosso caro "JMPM" está de partida para um novo posto, diz-se que no Médio Oriente". Agora compreendo a alusão ao Lawrence e o tom melancólico das últimas crónicas e o motivo pelo qual, quando aqui o encontrei há meses, tão entusiasmado andava com a aprendizagem da língua do Profeta e com uma edição quase pergaminhada do Kitab al-Aghani comprada num alfarrabista do Cairo.


Ahmad al Arabi