02 fevereiro 2008

A tropa está zangada: e se um general Monk ?


O ministro de palmo-e-meio fê-la bonita. Vá lá que, para contrariar a ondulação fétida do reviralho, houvesse nesta tristíssima polémica uma nota de dignidade do Estado - na pessoa do Presidente Cavaco - e uma desautorização pública do ministrozinho pela voz do porta-voz das Forças Armadas. É o que dá distribuir postos ministeriais a miudezas. O regime, qualquer regime, depende in extremis do cano das espingardas. Não estivessemos na Europa integrados e pelas minhas contas já teríamos presenciado meia dúzia de pronunciamentos militares desde 1976, seguindo a velha tradição inaugurada por Saldanha em meados do século XIX. A oficialagem, que aprende nos bancos da Academia a respeitar as hierarquias fundamentais, os símbolos constitutivos e os sentimentos elementares que ditam o ser e o não-ser da Nação, é instintivamente monárquica. A tropa sabe que a etiqueta, o respeito pela herança e a ordem necessária estão mais salvaguardadas e blindadas em monarquia; a tropa sabe que todos os desastres militares e políticos do longo e desastroso século XX tiveram na raíz a ausência de um chefe dinástico, árbitro apaziguador e agente de elevação cívica. A tropa poderia ter evitado tudo isso, logo em 5 de Outubro de 1910, tivesse o pusilânime general Gorjão mandado varejar a tiro de canhão a meia dúzia de energúmenos da Rotunda. Não o fez, para mal da sua reputação e para mal do futuro do país. Talvez germine um dia, no gabinete de um general, a peregrina ideia de emular Monk. Só ganhariam a liberdade, a democracia e o país com tal assunção de coragem. E a Europa importar-se-ia ? Claro que não, pois o assunto seria encerrado em duas horas como mais um incidente na distante aldeia dos doidos lusitanos, para lá das montanhas e dos noticiários. No dia seguinte, o Parlamento reabriria portas, o governo seria o mesmo e o retrato do Rei estaria em todas as repartições públicas. Estou cada vez mais asiático, não ?


Marcha da Vitória (marcha mperial russa)

Do Oriente, com o coração em Portugal

POSTAS DO ORIENTE, um blogue de portugueses expatriados vivendo no Oriente. Promete !

01 fevereiro 2008

O reviralho que não desprega

Esta gente que incute e transmite preconceitos, tiques e semi-verdades misturadas com grandes mentiras que são bisavós de si mesmas; que está há quase cem anos no poder e instituiu canais informais com os quais o mérito, o gabarito e a competência não podem competir; que destruiu o amor-próprio e o orgulho nacional dos Portugueses, dizendo-lhes que todo o passado não mais foi que um doloroso plano inclinado levando à sepultura ou à inexorável perda da independência; que acredita na engenharia política e nas reformas, conquanto estas não ponham em questão o direito que julgam deter sobre o Estado - sua propriedade - e a vida política, extensão das suas cumplicidades seladas por casamentos e espírito de curibeca; que invoca a ética republicana, a liberdade de pensamento e expressão, mas policia, persegue, ridiculariza e abafa toda e qualquer crítica, reparo ou observação; esta gente que transformou a cultura numa afectação alambicada para meia dúzia de diletantes da pena prostituída, desvalorizando e lamentando o "provincianismo" da nossa história literária e artística, mas que exibe o pior dos provincianismos - aquele que vive derrancado na adoração de antiguidades estrangeiras, datadas e há muito caídas no esquecimento - e que esvaziou de conteúdo tudo o que mantém uma sociedade de pé; que vive obcecada pelo libertadorismo, mas não resiste ao usufruto do porrete, da mordaça e das algemas sempre que vozes antagonistas reclamam o direito à expressão; esta gente que se afirmou portadora do estandarte da razão crítica e da liberdade perante o obscurantismo, a crendice e a superstição, mas fez do combate contra a religião uma vergonhosa cruzada contra o direito à espiritualidade individual, a cultura popular e aquela memória de si que dá aos povos a perspectiva do tempo longo e do sentido de comunidade; que odeia o povo sempre que este reage, apondando-o de ralé manipulada, mas que o trata com paternalismo, encharca-o de futebol e vulgaridade e impede-o de atingir a maioridade; esta gente que não consegue debater, não sabe pensar nem afirmar sem o anteparo da ideologia; esta gente que diz venerar a participação, o voto universal e o civismo, mas nunca conseguiu os seus objectivos de forma pacífica, mas só venceu com bombas, revólveres e carabinas - mas também com a calúnia mais reles e com a insidiosa destruição de reputações graças à liberdade de que gozava sob um regime monárquico benevolente, aberto e libérrimo - ; esta gente que se diz herdeira das Luzes e da tradição intelectual do Ocidente, mas retirou o país do convívio da Europa, impondo-lhe o poder da rua, o poder das casernas, ditadores e oligarcas, que o fechou numa bisonha especificidade e numa curiosidade antropológica diga de piedade; que se diz progressiva e ao passado prefere radiosos horizontes de futuro, mas só vive de lembranças e velhos ódios que não desarmam, esta gente é o maior agente de atraso, isolacionismo, pobreza mental e corrupção que impedem o país de se afirmar. Hoje, uma vez mais, mostrou a má-fé, a intolerância, as pulsões totalitárias irrefreáveis e a incapacidade de esquecer que sempre a caracterizou. É o reviralho, pois então !

A máquina do esquecimento de si


O Republicanismo entristece-me. Quando um republicano fala da História de Portugal anterior a 1910, não pode falar do “nós”. Fala de gente e de um Estado. De uma gente que lhe é aparentada (como quem tem família estrangeira) e de uma construção política com que nada tem a ver. Quem tem ignorância suficiente para achar que só aquilo que provém da sua vontade o pode representar, não pode rever-se numa comunidade que não se ordena dessa forma. Os feitos dos portugueses (e só existe Portugal pela união de um povo numa ordem política) são para si uma coisa estranha. Para evitar esse vazio, tem de se pôr a inventar republicanismos primordiais e medievais, completamente distintos daquilo que defende, ou pôr-se a identificar quais os pontos da história compatíveis com o seu credo.

30 janeiro 2008

A palavra de ordem é "encher salas"

Que ninguém invente uma visita ao dentista, ao supermercado ou a ida à FNAC para não comparecer à conferência de Rui Ramos. As televisões lá estarão para fazer a habitual crónica minimizadora. Sublinho: não se trata de uma prelecção; trata-se de uma convocatória e prova de força.

29 janeiro 2008


Este blogue estará por três dias de luto em memória do Rei Mártir. Se o regime nada faz para o honrar, que o façamos nós por um homem bom e um grande patriota cujo desaparecimento nos atirou para fora da Europa.


Bach: Prelúdio e Fuga em EB Maior (BWV552)

Aquilo que importa lembrar

Sete anos antes da Rússia, Portugal foi o primeiro país da Europa a ser governado pela esquerda radical, firmada num gigantesco e complexo organismo chamado Partido Republicano Português, chefiado pelo sinistro Afonso Costa. Onde o Estado Novo teve presos políticos, a Iª República teve esquadrões de morte para os opositores. Onde o Estado Novo teve censura, a Iª República teve jornais fechados por decreto arbitrário. Onde o Estado Novo lutou para defender a soberania em África, a Iª República mandou lutar para África e no massacre da Flandres e ainda lhes cuspiu em cima quando voltaram. Onde o Estado Novo ilegalizou o comunismo, a Iª República roubou tudo o que pôde à Igreja Católica. A máquina gigantesca, violenta e poderosa do PRP apropriou-se do Estado. Ninguém ia ao Estado senão por ele. Tão brutal foi esta ditadura que as pessoas não a puderam suportar mais que 15 anos. Caiu odiada e sem deixar saudades a ninguém. É a implantação deste regime que vamos celebrar mais um vez dentro de dois dias... Festeje-se a República. Nada a opor. É o regime em que vivemos. Mas porquê o maldito 5 de Outubro?

A decência e os animais


É empírico, mas verifico que as pessoas que mais têm para dar são aquelas que amam os animais. O desprezo pela dor alheia, o desinteresse pelos outros, a crueldade, a mesquinhez e o egoísmo mais estreito manifestam-se na forma como tratamos os animais. Digo-o sem rebuço: a dimensão ética de cada um está estampada nos actos mais pequenos, nunca nas altissonantes proclamações, nas abstracções, delírios metafísicos ou grandes racionalizações sem ponto de aplicação. Habitualmente, os hipócritas invocam as crianças famintas e abandonadas para se desculparem pela sorte dos animais que, ditos de estimação ou domésticos, são sujeitos a vergonhoso tratamento às mãos de bípedes implumes. Que eu saiba, nenhum dos grandes proclamadores hipócritas jamais socorreu uma criança. As civilizações trazem uma genealogia de amor ou desprezo pelos animais, pelo que olho com redobrado desprezo para aquelas onde os animais não existem senão para a degola ou objecto da crueldade. Deixei de ter qualquer respeito pelo Islão quando verifiquei a que ponto chegara o ódio aos cães, aos porcos e até às aves, tidas como demónios tentadores. Se os cristãos tiveram um S. Francisco de Assis e a religião de Abraão proibiu a caça como desporto, os budistas, mesmo aceitando a fatalidade de uma justiça cósmica, inelutável herança de actos passados, entendem que o amor pelas criaturas vivas engrandece quem o pratica. Em Portugal, estamos ainda no neolítico: a tara cinegética, a perversidade das touradas, a matança e degola do porco, os jogos com animais fazem do nosso país uma vergonha para a causa da defesa da vida animal.
Advertido pelo Da Literatura, faço minha a subscrição europeia em defesa da Convenção Europeia para a Protecção de Animais de Estimação e Animais Errantes.

28 janeiro 2008

Suharto


Morreu anteontem aquele em que a nossa imprensa, sempre parca em conhecimento e inchada de banalidade, só conseguiu ver o responsável pelo genocídio de Timor-Leste. Sei que estas coisas obrigam a paciente pedagogia, feita de leitura e esforço, mais humildade e capacidade para ficar calado, coisas que os nossos brilhantes jornalistas de todo não cultivam. Uma colunazinha insignificante na blogosfera não me obriga a tamanha como inglória tarefa de esclarecer os senhores jornalistas, mas lembraria, a propósito de Suharto - pondo de lado tudo o que o papagear e bruá foi construindo ao longo de trinta anos - que o genocídio de Timor-Leste teve outros responsáveis, por sinal bem vivos e vivendo bem perto de todos os que agora, sobre a cova do ex-ditador de Jacarta, repentem a lenga-lenga que lhes foi dita e redita para fazer esquecer as tremendas responsabilidades portuguesas naquele drama.

Suharto não terá sido tão mau como pintam: deu à artificial insulíndia uma ilusão de unidade, governou com mão de ferro mas respeitou sempre as minorias étnicas e religiosas do imenso arquipélago, foi um fiel aliado do Ocidente no momento em que o comunismo avassalava o sudeste-asiático e quase colocava em risco a ligação entre o Pacífico e o Índico, consolidou a classe média que tornou possível que no período pós-ditadura o país não descambasse no caos da guerra civil, no fundamentalismo islâmico ou na limpeza étnica generalizada e, por último, soube controlar o Exército - porventura a única instituição perdurável - impedindo-o de qualquer tentação de apossamento do poder. Foi corrupto, enriqueceu a parentela extensa, encheu prisões de contestatários e matou centos de milhares de comunistas. Contudo, um mero exercício comparatista - vide Laos, vide Camboja, vide Vietname, vide Filipinas - permitir-nos-á situá-lo no quadro geopolítico regional e hiatórico em que operou. Se a Indonésia é hoje um país estável e em franca recuperação após a debacle de 1997, deve-o a Suharto. Se Xanana e Ximenes vivem, devem-no a Suharto, mestre na arte de manipular e reciclar contestatários ao seu poder paternalista e autoritário. Sei que estas coisas não agradam aos pudibundos ouvidos de muito antigo admirador de Pol Pot, Ho Chi Mihn e Mao, mas o que fazer quando a ignorância e o simplismo casam para toda a vida ?


Song for Bali (Mas Paul)

Nem mais !