26 janeiro 2008

Da Walkiriomania ao ressurgir dos monarcómacos


A polémica fita de Tom Cruise sobre o protagonismo do Coronel Conde Klaus von Stauffenberg na falhada tentativa de eliminação de Hitler em Julho de 1944 tem permitido a historiadores e filósofos da política e da cultura uma nova abordagem ao tema do tiranicídio. É legítimo a um militar conceber e executar um plano para eliminar o seu comandante-em-chefe em tempo de guerra, invocando argumentos do foro moral, a guerra injusta, o sofrimento vão de todo o povo ante o colapso militar inevitável, a manutenção de uma guerra sem esperança, apenas animada pelo egoísmo, fanatismo e cegueira dos decisores políticos ?


O tema da violência legítima não é novo e dir-se-ia atravessar toda a história do Ocidente, das tentativas de assassinato de Alexandre pelos seus capitães à morte ritual de Júlio César, de Calvino, Lutero e Zwinglio aos pensadores salmantinos da segunda escolástica, de todo o pensamento católico à apologia do magnicídio por Vittorio Alfieri. Comprei a magnífica biografia de Stauffenberg, da autoria de Peter Hoffmann, que leio com prazer e emoção. Oriundo de uma velha família de tradição castrense habituada a servir o Estado sem vacilações, homem valente nos teatros de operações em que serviu com garbo, Stauffenberg parece ser a negação do anti-fascista. Monárquico, místico, nacionalista e conservador, profundamente anti-liberal, anti-democrático e elitista, fazia parte daquela casta saída das fileiras do prussianismo autárcico, xenófobo e militarista que partejou a Alemanha moderna. Contudo, este grupo social foi, desde os primeiros momentos, a mais sólida ameaça ao regime de Hitler, pois detinha as armas, a tradição alemã e o respeito que o povo alemão tinha pela hierarquia e pelas fardas. Ao contrário do que se quis fazer crer no pós-guerra, a resistência monárquica a Hitler foi mais eficiente, persistente, compacta e decidida que as outras, nomeadamente a comunista, que até chegou a baixar armas por ordens do Kremlin, então em franca aproximação ao "comunismo negro" de Hitler num pacto de repartição da Europa Oriental. Stauffenberg quis correr o risco, que sabia quase insuperável, pelo que o seu gesto, mais que um gesto eficiente parece encerrar uma profunda dimensão simbólica: o governo deve ser o da colectividade, esgotando-se a sua legitimidade no momento em que põe em risco a sobrevivência da sociedade. Só nesta perspectiva o podemos compreender.


Lili Marlene/ Bundeswehr

24 janeiro 2008

23 janeiro 2008

Dois anos sem dizer cavaco


Para além do escandalete da Ota, forçado pela fronda dos empresários, dir-se-ia não existir a instituição Presidência da República. Maravilha das maravilhas para um monárquico como eu, uma prova mais para demonstrar a artificialidade do lugar, mas um verdadeiro desastre para o funcionamento de um regime cada vez mais autista, agressivo e emparedado no solilóquio das banalidades e para um país nas vascas da depressão, sem auto-estima e sem perspectivas de futuro. O "mais alto magistrado" não faz, não fala, não aconselha, não exprime reservas. Vai pelo país fora à procura de temas delicodoces - a exclusão e a integração, a terceira-idade, a saúde e as criancinhas - tudo matérias relevantes, mas que jamais terão qualquer expressão, pois o problema do país não é o das políticas sectoriais mas de ausência de grande política. Falta ao país a grande política: falta-lhe uma ideia de continuidade, com ou sem a Europa, entregue a cozinheiros e copeiras, falta-lhe vibração, patriotismo e orgulho nacional; falta-lhe o sonho e o cortar amarras com tudo o que o nos trouxe a esta miserável situação de desamparo, penúria, atraso e baixar de braços. Cabia ao Presidente da República encher o coração dos portugueses, incitá-los à iniciativa, puxar as orelhas a um governo que existe mas não vive. Cavaco não o fará, pois, na lógica da banalidade em que estamos imersos, o que importa é assegurar a reeleição. Os portugueses pelam-se pela morte. O maior desejo dos portugueses é o de estarem mortos, com três palmos de terra em cima e uma jarrinha de malmequeres sobre a tumba.

20 janeiro 2008

Sol e touros


Não terei certamente nem tempo nem paciência para ler o tratado genealógico em que Nuno da Câmara Pereira promete esclarecer a sua pretensão e direitos à chefia da Casa Real. O tema em si é perfeitamente irrelevante, como irrelevante é a figura do autor, como insignificante será o texto, como anedótica será a importância dada a tal fait-divers. Se tudo isto é pequena matéria sem préstimo - a somar à da aventureira italiana fanada de carnes e cabeça que nos anos Oitenta se afirmava filha de D. Carlos, antes de se cansar da monomania e passar a pasta para um homenzinho do bas-fond siciliano - dá que pensar a que ponto chegou a via "sol e toiros" dessa sub-cultura monárquica que teima em fazer crer aos portugueses que a monarquia é questão para discussões de pedaturas, escudetes, pantomimas de capa e espada compradas na loja de quinquilharia da esquina, fados piegas e jogos do pau no fontanário da feira da vilória. Durante os longos anos em que desenvolvi actividade monárquica tive a rara oportunidade de devassar os sotãos assombrados de gente que transformou o tema da Restauração em objecto de irrisão. Concordando ou não com o Professor Ribeiro Telles, vejo hoje quão importante foi a sua luta pela dignificação da ideia monárquica em Portugal, entregue durante décadas a coleccionadores do insólito, a mentecaptos e entusiastas de parafernália de antiquário. Os maiores aliados dos poucos republicanos que ainda de tal credo se reclamam são esses monárquicos de reduzidas meninges e fixações. Graças a tal gente, até Ribeiro Telles demonstrar o contrário, a ideia monárquica reduzia-se a bizantinas esterilidades arminhadas, a pegas de cabrestos e a libações de bebidas espirituosas embaladas pelo maldito faduncho, chaga da nossa decadência como povo esgotado e inerme.

É com pesar que verifico que a ideia monárquica não conseguiu sepultar os fantasmas que cavaram o seu descrédito. Se António Sardinha e os Integralistas - por quem nutro absoluta desconfiança no que à qualidade de doutrinadores respeita, mas que eram, ao menos, homens de livros e desassossego - empurraram a ideia monárquica para o redil do extremismo, inviabilizando qualquer possibilidade de a tornar simpática aos olhos das forças que desde o século XIX determinam a agenda política portuguesa, este monárquicos de sol e toiros são o eco de um certo marialvismo lôbrego e de uma absoluta incapacidade de pensar que tantos e importantes serviços tem prestado à república.