19 janeiro 2008

A história de um desastre


Não há memória análoga de povo que tivesse atingido o zénite da grandeza - grandeza nas artes, no poderio militar e diplomático, pujança económica e capacidade para impor o seu modelo de civilização a todo o sudeste-asiático - e depois quase se eclipsasse na voragem odiosa da violência, da pobreza extrema e do retorno a formas primitivas de organização social. É esta a história do Camboja, dos seus reis-deuses, dos seus templos-montanha, dos seus déspotas iluminados ora pelo hinduísmo, ora pelo budismo, e que esperou pelos anos 70 para assistir à mais radical e tenebrosa experiência totalitária do século XX. Quando, por duas vezes visitei Angkhor, com Malraux e George Coedès na bagagem, senti um arrepio ao tentar decifrar o sorriso de Jayavarman VII no templo de Bayon. Ali estava encerrada toda uma tese e o anúncio da escolha de um sendeiro que levaria a Pol Pot. A história dos povos obedece a tendências e escolhas que depois de feitas não mais os largam. De David Chandler, um texto a não perder.

Oh, Phnom Penh

18 janeiro 2008

A morte de África

Nos anos 60 discriminavam-se os diversos modelos de colonização, afirmando-se peremptoriamente que o britânico deixara sólidas bases para a construção de Estados de Direito dirigidos por elites urbanas afeitas à prática do bom governo. A estragar o conjunto, o Gana, outrora florescente e entretanto caído na involução, era a excepção. Acusou-se o "socialismo africano", o copismo do sovietismo e o extremismo de N'Krumah pelo colapso do Estado. Logo de imediato, em finais da década, explodiu a Nigéria. Na Guerra secessionista do Biafra procurava-se a responsabilidade do neo-colonialismo francês e a mão do negregado colonialismo português no incentivo da rebelião dos cristãos Ibo. A culpa africana era escamoteada. Para aquietar a opinião pública europeia, apontavam-se os exemplos bem sucedidos do Uganda, do Malawi e do Quénia, repetindo-se à exaustão que a África do Sul, nas mãos da minoria segregacionista e calvinista, ou a Rodésia do Sul, dominada pela minoria de farmers brancos, entrariam mais tarde ou mais cedo na família dos casos de sucesso da via africana da democracia britânica. Entrementes, o Uganda caíu nas mãos de um facínora chamado Idi Amin, a Zâmbia e a Tanzânia viram chegar "técnicos chineses" e o Malawi do Dr. Banda precipitou-se numa forma de governação que faria inveja às comunidades pratriarcais do neolítico. Uma vez mais procurou-se um culpado exógeno: a culpa pela deriva marxista na Zâmbia e Tanzânia decorria da luta dos "Estados da Frente" contra o apartheid sul-africano, o regime de Ian Smith em Salisbúria e a teimosia portuguesa em manter, "fora do tempo", colónias em África. Depois, com as independências de Angola e Moçambique, a culpa pelos desastres humanitários e guerras civis naqueles dois territórios foi imputada a "agentes a soldo do Apartheid". A Rodésia acabou e o apartheid estatelou-se. A África parecia pronta para o grande salto. Já não havia desculpas, pois que a Guerra Fria tinha terminado e o alinhamento perdera sentido. Foi nesse preciso instante que a calamidade se precipitou sobre outras pérolas exemplares de uma África progressiva e próspera. A Libéria regressou à lei da selva, a Serra Leoa implodiu, os Camarões assistiram à radical supressão das boas práticas britânicas, o Ruanda e o Burundi assistiram a escabroso genocídio e o governo da maioria no Zimbabwe conseguiu a proeza de transformar o celeiro do continente em mendigo da ajuda internacional. Restava o Quénia. Acabou em tragédia. Que desculpas encontrarão agora ?

O problema de África, diga-se sem rebuço, não é de natureza "racial": é um problema de impreparação absoluta. Manter a ilusão da paridade dos agentes da comunidade internacional, fingindo, escamoteando, ludibriando os factos é aceitar que a vida de um negro tem menos valor que a vida de um branco, que um genocídio em África tem mais atenuantes que uma prisão arbitrária na Europa, que um governante africano pode roubar, trucidar e espezinhar a lei e os direitos dos seus concidadãos quando sobre um governante europeu acusado de tráfico de influências deve precipitar a memoria damnata.

16 janeiro 2008

Da invenção da tradição


Recebi quatro interessantes contribuições de leitores a propósito do último texto sobre a invenção da tradição, que tentarei facultar sem comentários. Aqui está o primeiro:


"Achei muito interessante o que escreveste, principalmente no referente ao "nascimento da Tradição"; já o defendia na cadeira de Cultura Portuguesa, concluindo que se tratava de inovação/invenção para conquistar o coração dos leitores, numa época em que surgia, ainda que mitigada, a disseminação da leitura e da escrita nos meios burgueses (não esquecendo a força do Teatro, é claro); acreditava tratar-se de congeminação dos pré-românticos e dos românticos mais puros e autênticos, ingleses e alemães. Lera De L´Allemagne da M. de Stael. Mal sabia as bases em que se sustentava o movimento, mas tinha como certo que uma das suas forças advinha da nostalgia das grandezas e glórias do passado - mesmo que se tratasse de insignificâncias a que o trânsito dos anos engrandecera e dera relevo - e da sedução pela descoberta das relíquias e testemunhos que tinham ficado de outros tempos no espaço nacional, e não apenas em Portugal que sempre viveu condicionado pelos 2 vizinhos: a Espanha e o Atlântico. Uma das demonstrações mais valiosas desse interesse exerceu-se na publicação em revistas de divulgação - recreio e informação - de textos de pesquisadores (Panorama e Revista Universal Lisbonense e Inácio de Vilhena, p. ex.) bem como pelo vultuoso êxito dos romances históricos. Não houve autor, de nomeada ou sem ela, que a tal não recorresse. Datam desse tempo as pesquisas arquitectónicas e pictóricas, tal como o reavivar dos clássicos (entenda-se dos sécs. XV/XVI, a época da "grandeza" dos povos do Sul da Europa Ocidental) e a recuperação das lendas medievais, dos costumes e hábitos, inclusive os alimentares, que definem uma região ou uma série de regiões medievais, amparando-se na língua, nos interesses culturais e económicos, nas vias de comunicação, (...) na religião."


Victor Wladimiro, Oeiras

14 janeiro 2008

Estamos mortos ?



Convidou-me há tempos o meu velho e querido amigo Pedro João para escrever umas linhas sobre Tradição na única revista on-line portuguesa, a excelente (e grátis) Alameda Digital. Com os afazeres da minha nova vida longe do pequeno rectângulo do século XII - o que ficou depois de tudo - não pude corresponder e faltei à chamada. Acidentalmente, por força da investigação sobre fontes da tradição siamesa que vou fazendo, dei comigo a relacionar matérias e perspectivas cuja aplicação não sofre qualquer diminuição de inteligibilidade, não obstante as circunstâncias geográficas, culturais, de sensibilidade e cronológicas serem absolutamente diversas das nossas.

Afinal, que "Tradição" é essa reclamada pelas direitas ? A Tradição não existe, poderia rematar sem mais delongas, posto os sistemas culturais estarem em perpétua mutação, nunca se fixando e cristalizando numa "identidade". Uma sociedade de Tradição seria, no extremo, uma extravagância, uma curiosidade antropológica ou um museu vivo, como o ornitorrinco-bico-de-pato, os Dayak do Bornéu ou o Chihuahua mantido artificialmente pelo cruzamento consanguíneo. Aquela "Tradição" incensada por algumas direitas não passa, afinal, de uma construção carregada de preservacionismo e votada ao fracasso, pois os bilros vão desaparecer, como vão desaparecer as touradas, os ovos moles, o cavaquinho, os "trajos regionais", a matança do porco, os móveis alentejanos, os pastores, os escorregas da Madeira e as fragatas do Tejo. Tudo isso é, já hoje, matéria para parques temáticos, atestando a morte de uma "tradição" que, no fundo, nunca existiu. Sabemos que a formação das identidades, na acepção que certa direita invoca, foi fabricada entre 1840 e 1920-30 servindo de esteio para a sustentação dos nacionalismos e amparo de um sentimento de pertença à comunidade mais vasta da língua, do complexo Estado moderno, da fronteira económica e da fidelidade ao viver-para-nós que lhe deram expressão. Pois, se essa Tradição existe, por que razão escolhemos o Fado, as marchas populares, o Galo de Barcelos e as "danças e cantares" - tudo coisas recentes, com menos de 100 anos - para tipificar a identidade portuguesa" ? Leia-se o incontornável La création des identités nationales, de Anne-Marie Thiesse, para aferirmos a que culminâncias atingiu a criatividade dos nossos avós e bisavós do século XIX na invenção dessa "Tradição". O kilt escocês foi inventado ex-nihilo, como o foram a "cultura céltica", as "sagas nórdicas", as "línguas nacionais" (romeno, norueguês, croata, etc), os castelos medievais "restaurados", o "românico", a "gastronomia portuguesa", o "artesanato" e, até, casamentos institucionais que jamais se verificaram, como esse suposto consórcio entre o Trono e o Altar tão copiosamente apontado pelos "tradicionalistas", ou, ainda, o "corporativismo" transposto para o mundo moderno para contrariar a inevitável entrada em cena das massas, da opinião pública e dos partidos políticos ideológicos. Se tudo isso foi uma mentira, o que fica ou ficou das pátrias e das identidades ? Diria, por absurdo, que ficou tudo aquilo não maculado pelo "estúpido século XIX". Um português sente-se menos português por lhe retirarem a ginginha, a pescadinha de rabo na boca, a lampreia, o pão de ló de Ovar, as caracoletas assadas e os pézinhos de coentrada ? Se assim for, a identidade nacional vale pouco, tão pouco que deve ser arrumada no catálogo dos produtos raros do Carrefour.

Penso, ao contrário das esquerdas, que essa evidência da Nação não é uma mentira. As nações existem e não se perguntam nem se questionam. É verdade que muito do que são - ou quase tudo - foi alimentado pelo Estado, pelo ensino público obrigatório, pela historiografia cívica e pelo levantamento de barreiras à comunicação com os vizinhos. A dimensão da Nação não se afere, pois, nem pela cultura material, hábitos e costumes - que raro sobrevivem a três gerações - mas a constantes do complexo geo-político a que chamamos de interesse nacional ou "objectivos permanentes do Estado". O desastre contemporâneo é que o Estado já não alimenta a ilusão da perpetuidade dessas "tradições" pequenas e aderiu, de armas e bagagens, à tradição geo-política (ao interesse nacional permanente) doutros Estados. A Europa, como a pintam alguns, é, sem tirar nem acrescentar, o Zollverein alemão com umas pitadas de bonapartismo francês e umas discretas concessões ao imperialismo espanhol. Somos, nesta matéria de capitulação, uns idiotas que concedem ao ladrão as chaves para nos entrar casa-adentro ou como aquelas velhinhas entrevadas que facultam ao simpático vigarista o código da conta bancária. Somos, em suma, um povo sem Estado.